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6.09.2008

O PRIMEIRO ´PREFEITO´


O nome oficial não era este, mas pode-se dizer que o primeiro prefeito do Rio de Janeiro foi o conselheiro Paulo Fernandes Viana. Nomeado o primeiro Intendente Geral da Polícia da Corte e Estado do Brasil (este era o nome oficial) pelo príncipe regente Dom João em 10 de maio de 1808, Viana promoveria uma verdadeira revolução numa cidade onde não havia qualquer tipo de planejamento urbano.

Nos treze anos em que ficou no cargo, Paulo Fernandes Viana mandou destruir casas velhas e mal construídas, que foram substituídas por construções mais bonitas e resistentes; iniciou o calçamento e a pavimentação das ruas; estendeu a iluminação pública para toda a cidade; mandou construírem trapiches e armazéns no já extinto Cais do Valongo e saneou o Campo de Santana, aterrando as áreas alagadiças e mandando ajardinar uma das suas esquinas, a da rua do Conde (atual Frei Caneca), onde ele morava. Além disso, desenvolveu um novo sistema de abastecimento de água para a área ao redor da Quinta da Boa Vista, urbanizada havia pouco tempo, captando água do rio Maracanã, e abriu várias estradas, inclusive a da Floresta da Tijuca, por onde só se chegava através de uma trilha complicada.

Um bom exemplo do trabalho de Viana é o edital, publicado em 1808, no qual alertava “que toda a pessoa que for encontrada a deitar águas sujas, lixo, e qualquer outra imundície nas ruas e travessas será presa, e não sairá da cadeia sem pagar dois mil réis para o Cofre das despesas da Polícia: o que igualmente se praticará com os que constar que o fizeram, ainda que, não sejam achados, ou tiverem as suas testadas sujas, não mostrando logo quem foram, a não ser eles ou vizinhos, ou pessoas que assim o praticaram. E para que se não chamem a ignorância mandei afixar o presente por todos os lugares públicos desta cidade para que assim chegue à notícia de todos". (1)

Viana fundou também as bases das polícias civil e militar do Rio de Janeiro. A primeira, com a criação da Secretaria de Polícia num prédio do Campo de Santana, e a segunda com a criação do Corpo Real da Guarda, comandada pelo temido Major Vidigal, homem que ficaria conhecido pela brutalidade com que tratava os bandidos, especialmente os capoeiras, grupos de negros que percorriam a cidade promovendo roubos, arruaças e espancamentos. Vidigal acabou entrando para as páginas da literatura brasileiras pelas mãos de Manoel Antônio de Almeida, que o colocou como um dos personagens do livro “Memórias de um sargento de milícias”.

Apesar de toda a excelência administrativa, o primeiro “prefeito” da cidade não se furtou de utilizar o malfadado “jeitinho brasileiro” para conseguir um emprego para um amigo, como explica Benedicto Freitas. “Para reforçar a mão-de-obra, o intendente Paulo Fernandes Viana enviara da cidade os vadios encontrados nas ruas. E ainda um importante detalhe, que não poderia faltar: o pescoção mandando admitir o aprendiz de carpinteiro, irmão de Manoel da Paixão ´que serve no quarto de Sua Alteza´". (3) Viana foi demitido do cargo em março de 1821, após a partida de D. João VI para Lisboa, e morreria dois meses depois. Sua filha, Ana Luísa, se casou em 1833 com Luís Alves de Lima e Silva, o futuro Duque de Caxias.

FONTES CONSULTADAS:
- (1) O Rio de Janeiro em seus 400 anos – artigo “O século XIX”, de Cláudio Bardy
- (2) O Rio de Janeiro Imperial – Adolfo Morales de los Rios Filho
- (3) Santa Cruz, fazenda jesuítica, real, imperial – Benedito Freitas

4 comentários:

Anônimo disse...

Marcello disse...

Mais um brilhante post, meu caro amigo.
Acho que sobrava mais tempo para trabalhar, pois não tinha que ficar se dedicando a blogs, ex-blogs e afins.

Eu diria que, com essa rigidez às regras e aos regulamentos, nosso primeiro prefeito era quase um Wilson (de) Souza (de) Mendonça (de) Souza da sua época!

Abraços.
MARCELLO BRUM

André Luis Mansur disse...

Como sempre, o amigo consegue formar paralelos instrutivos com o bom e velho esporte bretão. A diferença é que se alguém o xingasse por essa ´rigidez às regras e aos regulamentos´ ele chamava logo o Vidigal.

Abraços.

Felipe Vasconcelos disse...

Interessante a observação de "blogs e ex-blogs". Mas como o Rio se perdeu... com essa estrutura, em pleno século XIX, a cidade maravilhosa seria excelente candidata para sediar as Olimpíadas de 2016 (rs).
Ótimo texto André, e muito interessante a pesquisa
Abraços.

André Luis Mansur disse...

Valeu, Felipe. Continue comparecendo.

Abraços.