NÃO QUER CASAR? ENTÃO VAI PRO QUARTEL!

Não havia muita escolha para os homens cariocas na época do Conde da Cunha.
D. Antônio Álvares da Cunha foi o primeiro Vice-Rei do Brasil Colônia, tomando posse em 19 de outubro de 1763, no mesmo ano em que a capital foi transferida da Bahia para o Rio de Janeiro. Logo ao chegar, ficou impressionado com as péssimas condições de higiene da cidade, ordenando logo à Câmara que aterrasse, com lajes grossas, a rua da Vala (atual Uruguaiana), onde o povo gostava de jogar todo tipo de imundícies, mais ou menos o que acontece com os valões de hoje, já chamados de rios em tempos passados. Ali perto abriu a rua do Piolho, hoje a famosa rua Carioca, entre o Largo de mesmo nome e a Lagoa da Sentinela, já aterrada como tantas outras no centro do Rio.
Outra preocupação grande do Vice-Rei foi em relação à defesa da cidade, invadida por franceses em 1710 e 1711. Realizou obras importantes em fortalezas, construiu dois armazéns para depósito de pólvora, oficinas de armas no morro da Conceição e uma instalação para o parque de artilharia na antiga ponta da Misericórdia, dando início ao Arsenal de Guerra da cidade. Também mandou construir o Arsenal de Marinha, em terreno doado pelo Mosteiro de São Bento, às margens da extinta praia de São Bento. A primeira construção do arsenal foi a nau São Sebastião.
O conde aumentou também os efetivos militares da colônia, criando o Regimento da Cavalaria da Guarda do Vice-Rei, que ficou alojado num quartal atrás da Casa do Trem (atual sede do Museu Histórico Nacional), e mandou trazer de Portugal três regimentos completos, que chegaram à cidade em 1767: o Regimento de Bragança, aquartelado na rua dos Quartéis da Armada, que passou a se chamar rua do Bragança e é a atual Conselheiro Saraiva; o Regimento de Estremoz, com quartel numa casa cedida pelos frases do Mosteiro de São Bento, na rua dos Arcos de São Bento e atual rua de São Bento e, por fim, o Regimento de Elvos ou do Moura, perto do antigo porto dos Padres da Companhia, ao lado da Casa do Trem. Este porto servia aos padres jesuítas do extinto morro do Castelo. O Largo em frente ao regimento passou a se chamar Largo do Moura e hoje é a rua Marechal Âncora.
Mas foi essa preocupação em aumentar os efetivos militares que gerou uma das leis mais curiosas do Brasil Colônia. “Para moralizar o povo, aumentar a população e diminuir o número de vadios” (1), o Conde da Cunha obrigou os jovens a se casarem e os que não quisessem teriam de ir para um regimento militar. Parece que a maioria preferiu casar, pois a população carioca teve um crescimento razoável nas décadas seguintes.
O que contribuiu para isso foi a fama de rígido e disciplinador do Conde da Cunha, que mantinha a chamada “prisão da potência”, uma cela infecta junto à escada da Guarda do Palácio dos Vice-Reis (atual Paço Imperial), para onde iam os presos recomendados por ele. “De gênio muito forte, reprimia energicamente os perturbadores da ordem. No seu governo, os moradores podiam deixar as portas abertas até dormindo, pois assaltantes e agressores o temiam, sabedores do rigoroso castigo que sofreriam” (2). Também não era de muita pompa e cerimônia, pois ficaram no registro dos que o conheceram “os hábitos simples, considerado exageradamente econômico pelo Marquês de Lavradio, que não o perdoava por nunca haver dado um jantar” (3).
O Conde da Cunha também proibiu o ofício de ourives em toda a colônia, para evitar o furto do ouro das Minhas Gerais, e fundou o Hospital dos Lázaros, primeira instituição a tratar da lepra no Brasil e que hoje é o hospital Frei Antônio, em São Cristóvão. Seu governo terminou em 17 de novembro de 1767 e ele voltou a Portugal em 22 de dezembro, com poucos recursos, tanto que teve de pedir dinheiro emprestado ao ouvidor Alexandre Nunes Leal para a viagem. Morreu em Lisboa com pouco mais de 90 anos.
FONTES CONSULTADAS:
(1) O Rio de Janeiro - Sua história, monumentos, homens notáveis, usos e curiosidades - Moreira de Azevedo (vol.I)
(2) Memórias históricas do Rio de Janeiro - Monsenhor Pizarro (vol.V)
(3) Santa Cruz - Fazenda Jesuítica, Real, Imperial - Benedicto Freitas (vol.II)
(4) O Rio de Janeiro em seus 400 anos - Vários Autores
(5) A Praça XV de novembro


7 Comments:
Genial, Mansur! A cada dia se superando. Parabéns! Precisava publicar estes artigos em algum jornal. Já pensou nisso?
Abraços.
Muito bom o texto, André Mansur!
Faço minhas as palavras aí do Arnaldo. Os seus textos e as suas pesquisas só aumentam cada vez mais o conhecimento daqueles que buscam a bela história do cotidiano da nossa cidade. Parabéns e continue sempre assim!
Estou enviando um verdadeiro achado sobre a pergunta que me fizeste. Espero que lhe seja útil.
"O que era possível comprar com um ou dois contos de réis na época do império brasileiro?
Consulte o texto de autoria de Neuza Guerreiro de Carvalho publicado em:
http://www.saopaulominhacidade.com.br/list.asp?ID=261
Achei o site e o trabalho dela excelentes. Inclusive irão servir também para minhas futuras pesquisas.
Espero ter ajudado. Quando precisar é só escrever, enviando uma mensagem pelo blog.
Um grande abraço,
Adinalzir Pereira
Professor de História
http://saibahistoria.blogspot.com
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www.historiaecia.com
Não deixe de visitá-los!
Mansur, sinto-me na obrigação de falar que este texto está simplesmente sensacional! Há vasta riqueza de informações! Parabéns! E outra coisa: sobre a afirmação (título de seu texto), vejo uma situação que não há saída. É aquela velha história de "se correr o bicho pega..." Ou vc é mandado em casa ou no quartel (ahahah). É isso?
BQ
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Arnaldo, obrigado pela sugestão. Tenho muito interesse em publicar estes artigos em algum jornal, o problema é convencer algum editor a bancar a idéia.
Professor, obrigado pelo elogio e pela sugestão do site. Encaminhei o endereço do seu blog para a revista ´Aventuras na História" para futuros contatos.
Poxa, Márcio, assim vou acabar tendo que te pagar um almoço, ou alguns chopes. Mas fico realimente feliz por ver que os textos de História estão dentro de uma linguagem leve a atraente, pois esta sempre foi a minha preocupação. Obrigado. E realmente você tem razão na última frase, talvez por isso eu não tenha casado e ´sobrado´ no exército.
Abraços em todos!
SG
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Abraços.
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