A PRINCESA, O AMANTE E A ESPOSA DO AMANTE

Uma história de ciúme, crime e traição “no tempo do Rei”
O título deste artigo parece saído de um filme do diretor galês Peter Greenaway, mas se refere a uma sórdida história bem brasileira, ou melhor, luso-brasileira. Apesar de um tom meio caricatural, o filme Carlota Joaquina, de Carla Camurati, tem como um dos pontos fortes o grande desempenho da atriz Marieta Severo no papel-título. Carlota, esposa do príncipe D. João, era arrogante, participava de armações políticas (inclusive contra o marido), detestava o Brasil e tinha um apetite sexual insaciável, apesar do buço proeminente e da feiúra fartamente demonstrada nas pinturas da época. Mesmo assim, ela tinha o poder, e não pensava duas vezes em usá-lo nas suas muitas aventuras amorosas, seja com homens distintos ou da plebe, seja com homens solteiros ou casados. Este último caso é o tema deste artigo.
A família portuguesa Carneiro Leão era uma das mais distintas da época, presença certa nos eventos mais importantes da recém-instalada monarquia no Rio de Janeiro e dona de uma importante casa comercial na Rua Direita (atual 1º de março), que dispunha até de navios. O jovem e elegante comendador Fernando Carneiro Leão, diretor do Banco do Brasil, logo despertou o interesse da princesa e em pouco tempo já eram amantes, mantendo encontros na chácara real, em Laranjeiras. O fato chegou ao conhecimento da esposa de Fernando, Gertrudes, que o fez prometer acabar com o adultério real.
Quando Fernando comunicou sua decisão a Carlota, a princesa, que jamais admitia qualquer tipo de contestação aos seus atos, mesmo os mais infames, deu a ele a resposta que julgava mais à altura da relação entre a princesa de um importante reino e uma mera plebéia: mandou matar Dona Gertrudes, o que foi feito no dia 28 de outubro de 1820. A esposa traída foi morta de tocaia, com um tiro de bacamarte, quando voltava da procissão com as filhas, no bairro do Catete.
A apuração do crime levou ao nome da princesa, supostamente mencionada pelo assassino, um escravo conhecido pelo nome de "Corta Orelha". Quando o processo chegou ao conhecimento de D. João VI, o monarca mandou queimar os autos e nunca mais se falou no episódio. O viúvo receberia, seis anos depois, o título de Barão de Vila Nova de São José, e depois seria nomeado conde.


17 Comments:
André, o texto está irretocável, e a ilustração também foi muito bem escolhida.
Um abraço.
Obrigado, Ronaldo. Sua opinião é sempre um parâmetro importante para mim. Abraços.
Mansur, que história, hein?!
D. Carlotinha era bem danadinha... rsrs
O texto está esplêndido! Parabéns!
P.S.: Acabei de ler o "Rebelião", está uma belezura só.
Sucesso!
Bjs
Muito bom o texto. Adoro seus textos de história.beijos,
Oi, Vivian. Vindo de uma historiadodra, seu comentário realmente me deixou muito feliz. Beijos!
Obrigado, Aline. Carlota não era mole, se for enumerar as maldades dela, dá um livro estilo "Código Penal", tanto no sentido do tamanho como no do conteúdo.
Belezura, é? - rs. Adorei!
Beijão!
Oi André.
Essa aproximação que você faz com a História é genial.Belo texto.Parabéns pelo novo livro e sucesso com ele! Abraços.
A História é uma paixão bem antiga. Muito obrigado, Cláudia! Beijão!
Mto bom, André! O que o poder faz com a cabeça das pessoas, não é? Parabéns por mais um artigo!!! Bjs, Cris.
Muito obrigado, Cris. A Carlota realmente usou e abusou do poder no pior sentido da palavra.
Beijos.
Essa 'Dona Carlota' inspira muitos até hoje...(risos).
Gostei do filme citado. Uma sugestão para o Cineclube. O que acha da idéia?
Beijos
Inspira mesmo...e muito! Gostei da sugestão. Se você arrumar o DVD, me emprestar para eu passar? Beijos.
Não sabia dessa faceta de Carlota. Pensei que fosse apenas o furor sexual a sua fama.
Abração!!
Acho que o tão propalado furor sexual é que era a causa de tudo, no fim das contas. Abraços, Samuel.
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Muito obrigado!
Andre, vc conseguiu fazer uma coisa que eu gostaria muito que tivesse sido feita a muito tempo: simplificar a história. Já ouvi falar desses acontecimentos, mas vc trouxe com simplicidade o que os livros de História complicam, rsrs.
Parabéns!!
Adna Silvana.
Muito obrigado, Adna. Acho então que consegui o meu objetivo, gosto sempre não só dos textos, mas das coisas simples, que, ao contrário do que muita gente pensa, podem ser extremamente ricas em profundidade. Beijos!
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