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Based on a work at www.emendasesonetos.blogspot.com. Emendas e Sonetos: <strong>NÃO DERAM OUVIDOS AO BARATA</strong>
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Local: Rio de Janeiro, RJ, Brazil

Sou jornalista e escritor. Publiquei o livro ´Manual do Serrote - nos botequins da vida, sem contas nem despesas´, pela editora Bruxedo,(www.manualdoserrote.blogspot.com), ´O Velho Oeste Carioca´, volumes I e II, sobre a História da zona oeste do Rio de Janeiro, pela editora Ibis Libris, e "A rebelião dos sinais", de ficção, pela editora Multifoco. Colaborei em jornais como crítico literário e reuni todos os textos feitos desde 1995 no blog www.criticasmansur.blogspot.com

10.18.2010

NÃO DERAM OUVIDOS AO BARATA


Se tivessem dado atenção a Barata Ribeiro, primeiro prefeito do Rio de Janeiro e nome de uma rua que atravessa o bairro de Copacabana, é bem provável que a cidade fosse bem diferente do que é hoje, sem o verdadeiro caos que é a ocupação do seu solo.

O Brasil tinha acabado de virar república e o Rio de Janeiro, que era capital do extinto império, assumia a mesma posição no novo regime. Nomeado pelo presidente Floriano Peixoto, logo após o surgimento da Lei Orgânica do agora Distrito Federal, o médico baiano Cândido Barata Ribeiro inaugura o título de prefeito da cidade, com atribuições e responsabilidades maiores do que a do antigo Intendente Municipal.

Logo ao assumir, em 19 de dezembro de 1892, Barata Ribeiro começou a combater aquele que, para ele, era um dos principais problemas da cidade: a ocupação desordenada gerada pelas moradias ilegais, que se acumulavam nos cortiços. O principal argumento do prefeito era a proliferação de doenças nestas montanhas de casas sem nenhuma infraestrutura decente e com péssimas condições de higiene. Lembremos que o primeiro prefeito do Rio era médico.

Como solução emergencial, Barata Ribeiro assinou decretos que proibiam a construção de imóveis sem autorização e iniciava uma espécie de regulamentação dos cortiços que já existiam. Para resolver o problema a médio e longo prazos, ele esboçou alguns planos de urbanização para a cidade.

A demolição do cortiço mais famoso da cidade, o “Cabeça de Porco”, em 26 de janeiro de 1893, foi o principal acontecimento da gestão de Barata Ribeiro. O cortiço levava esse nome por ter ornamentada uma figura de cabeça de porco na entrada, ficava na rua Barão de São Félix e abrigava também galinheiros, chiqueiros e cocheiras. Já fazia um ano que uma ala inteira do cortiço tinha sido interditada pela Inspetoria Geral de Higiene. O jornal “Gazeta de Notícias” anunciava que em torno de 400 pessoas moravam no “Cabeça de Porco”, enquanto outros jornais indicavam dois mil. Como acontece hoje em moradias interditadas pela Defesa Civil prestes a ser demolidas, muita gente se recusou a sair do cortiço, só indo embora mesmo quando a demolição começou e o pessoal teve que sair correndo, sob risco de ser soterrado junto com muitos móveis que não foram retirados a tempo. Como prêmio de consolação, o prefeito permitiu que os moradores tirassem a madeira de suas casas para que fosse aproveitada em novas construções.

E onde seriam estas novas construções? Sem ter para onde ir, sem qualquer tipo de indenização, e com a vida girando em torno do centro da cidade, muitos dos moradores expulsos do “Cabeça de Porco” acabaram construindo seus casebres ali pertinho, no morro que seria mais tarde conhecido como morro da Favela e, depois, da Providência.

O famoso jornalista e ilustrador Ângelo Agostini, que trabalhava na Revista Ilustrada, de muito sucesso no Rio de Janeiro da época, assim resumiu a demolição do “Cabeça de Porco”, fazendo uma irônica alusão ao nome do prefeito da cidade: “Quem suporia que uma barata fosse capaz de devorar uma cabeça de porco em menos de 48 horas? Pois devorou-a alegremente, com ossos, pele e carne, sem deixar vestígios”.

Já Machado de Assis, de forma bem mais sarcástica, assim se referiu à demolição numa crônica: “Gosto deste homem pequeno e magro chamado Barata Ribeiro, prefeito municipal, todo vontade, todo ação, que não perde tempo a ver correr as águas do Eufrates. Como Josué, acaba de pôr abaixo as muralhas de Jericó, vulto Cabeça de Porco”.

Dois outros escritores, no entanto, muito mais ligados às camadas mais pobres da população, fizeram um estudo mais aprofundado sobre a gente que vivia nos cortiços. Segundo Lima Barreto, os homens dos cortiços quase sempre trabalham fora, em profissões bastante humildes, e de dia o cortiço é povoado pelas crianças, que brincam no pátio comum, e pelas mulheres, “sempre às voltas com tinas de roupa”. Já Aluísio de Azevdo fez destas instalações tema de seu livro mais famoso, “O Cortiço”, narrado com profundas doses de realismo.

Para usar uma expressão atual, o autêntico “choque de ordem” imposto por Barata Ribeiro acabou não sendo bem visto pelos senadores da recém-criada república, que consideravam as medidas do prefeito muito duras para a população. O enérgico administrador, no entanto, não abriu mão de suas medidas. Resultado: após 17 meses de governo o Senado rejeitou o seu nome para continuar como prefeito, uma prerrogativa da Lei Orgânica. Barata Ribeiro entregou o cargo em 25 de maio de 1893.

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20 Comments:

Blogger Sergio Mello said...

Brilhante Mansur!
Como sempre colocando o dedo na ferida. A história é linda e deve sempre ser reescrita para que as novas gerações não cometam os mesmos erros, mas nesse caso em especial deveria ser reescrita para que as novas gerações de Prefeitos cometessem o suposto erro de Barata Ribeiro, preservando os direitos individuais, naturalmente, e, dosando a tragédia de uma desocupação forçada para que seja ao menos mais humana, se é que uma desocupação possa ser suave quando toda a história de uma vida se assenta entre as quatro tábuas do barraco.

10/26/2010 08:53:00 AM  
Anonymous André Luis Mansur said...

Obrigado, Sérgio. A verdade é que as transformações urbanísticas das grandes cidades brasileiras nunca levaram em conta a situação da população mais pobre, que vivia e trabalhava ali. Está aí a consequência hoje. Infelizmente, será preciso muito tempo para se corrigir um erro de cem anos atrás.

Grande abraço!

10/27/2010 06:20:00 AM  
Blogger Fórmula Zuuum said...

No mais, achei excelente! Pura história. Imagino que deve ter um enorme trabalho de pesquisa por trás destes seus textos, mas vale a pena ler. O mais legal é que fica na internet e à disposição de pessoas interessadas em pesquisas. Muito bom! Abs, Marcio

10/29/2010 04:24:00 PM  
Blogger Marlos - latinoamericano said...

Muito bom esse tema André! Realmente tem que ser discutido e re discutido... Mas principalmente atuado, pq sinte que desde essa época se discute e não se faz tanta coisa diferente de bairros de casas populares a no mínimo 2h longe de tudo e todos...
Mas a ferida ainda está aberta mesmo e acho ótimo apontar pra isso.
Valeu!

10/30/2010 08:47:00 AM  
Blogger Prof. Adinalzir said...

Está aí um dos primeiros choques de ordem da cidade do Rio de Janeiro!
Pena que os nossos prefeitos de hoje criam, mas eles próprios não dão o exemplo. Veja o caso do Rodrigo Bethlem, o xerife da ordem nas ruas, durante a campanha eleitoral foi um dos que mais sujou e engarrafou o trânsito na cidade.

Um grande abraço!

10/30/2010 03:28:00 PM  
Blogger André Luis Mansur said...

Obrigado, Márcio. Tem bastante pesquisa mesmo, no caso deste texto quem me ajudou muito foi o pesquisador Ronaldo Morais, com quem tenho alguns projetos literários bem legais.

Grande abraço!

10/31/2010 05:10:00 AM  
Blogger André Luis Mansur said...

É por aí mesmo, Marlos. É impressionante como até hoje ainda se faz a mesma coisa, as práticas políticas neste país, no fundo, mudaram muito pouco ainda.

Grande abraço!

10/31/2010 05:15:00 AM  
Blogger André Luis Mansur said...

Olá, professor, tudo bem? O exemplo do Bethlem é perfeito, toda hora via placa dela nas calçadas, impedindo a passagem, e em outros lugares proibidos. Como disse ao Marlos, infelizmente as práticas políticas continuam as mesmas. Será que conseguiremos mudar isso um dia?

Abraços.

10/31/2010 05:18:00 AM  
Anonymous Cristiane Busato said...

É meu querido André... nada mudou nessa terra... Parece que andamos em círculos e não vamos direto ao ponto. Meus elogios à escrita são indispensáveis, não é? Novamente mandou mto bem!

11/01/2010 05:13:00 AM  
Blogger André Luis Mansur said...

Obrigado, Cris. Realmente parece que andamos em círculos na política, muito bem colocado. Ainda tenho um pouco de otimismo, mas às vezes dá um desânimo danado.

Beijos.

11/01/2010 05:14:00 AM  
Anonymous Ótica Pessoal - Lu said...

Li alguns posts de seus blogs e me identifiquei de pronto.
Até me envergonhei de só agora entrar para o mundo dos blogs, tão tardiamente diga-se de passagem. Logo blogs serão tb obsoleta como os disquetes e afins. rsrsrs...
Gostei tanto q vou virar leitora assidua, já até adicionei nos meus favoritos para acompanhar de perto as novas postagens.
Att.

11/02/2010 03:12:00 PM  
Blogger André Luis Mansur said...

Muito obrigado, Lu. É verdade o que você disse, de repente daqui a alguns anos farei uma Seção Reminiscências, das que publico no meu blog, exatamente sobre os blogs.

Bem-vinda então!

Beijos.

11/03/2010 05:38:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

Parabéns pelo ótimo texto

11/03/2010 09:09:00 AM  
Blogger André Luis Mansur said...

Muito obrigado!

11/04/2010 06:01:00 AM  
Anonymous Matusa Freitas said...

Muito bom, Mansur texto enxuto e escorregadio como Chalaça e seu inseparável companheiro de aventuras, D. Pedro. Até Sexta. Abraço, Matusa.

11/04/2010 06:05:00 AM  
Blogger André Luis Mansur said...

Agradeço muito, Matusa. Boa comparação com a ´dupla dinânica´ do império. Abraços.

11/04/2010 06:06:00 AM  
Blogger Leila Míccolis said...

André Luis, desde que escrevi Kananga do Japão (e põe anos nisso) não tinha mais sentido esta "emoção familiar" que este seu post me proporcionou. Explico: é que, por parte materna, tenho parentesco com os Barata Ribeiro, e cresci ouvindo muitas histórias interessantes... Então, muito obrigada pelo prazer de ler seu excelente texto e, simultaneamente, de fazer este gostoso flash-back emotivo... rs.
Bj,
Leila

11/11/2010 01:11:00 PM  
Blogger André Luis Mansur said...

Poxa, Leila, que interessante esta história. Na verdade, são duas descobertas: a do parentesco com o Barata Ribeiro e a do roteiro de Kananga do Japão, novela da qual ostei muito e que agora me veio à lembrança de um tempo muito legal para mim. Agradeço também o flash-back emotivo. Beijão!

11/11/2010 03:37:00 PM  
Blogger Soum' said...

Muito interessante, obrigada André.
Ficou sempre triste quando eu li as críticas simplistas de pessoas sobre as favelas do Rio de Janeiro que nem conheçem a historia urbana da cidade.

Soumia, estudante francesa

8/21/2011 08:09:00 AM  
Blogger André Luis Mansur said...

Olá, Soumia, tudo bem? Obrigado. A verdade é que logo depois do Barata Ribeiro, Pereira Passos, que realmente merece elogios pela revolução que fez no centro da cidade, não se preocupou nem um pouco com os pobres mordores dos cortiços de onde seria construída a Avenida Central, atual Rio Branco. Ali realmente começou todo o problema de ocupação irregular das encostas do centro do Rio, que acabou virando uma bola de neve de problemas sociais.

Beijos.

8/22/2011 06:14:00 AM  

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