UM LIVRO, MINHA FILHA?
- O que é isso?
- O quê?
- Isso aqui, na mesa.
- É um livro.
- Um livro?
- É, pai. Um livro de poesia que ganhei da Vanessa, aquela minha colega que só tira dez.
- Um livro de poesia?!
- É...
- Deu pra ler livro agora, é?
- Ah, pai...foi presente.
- Norma!
- Norma, vem cá!
- Você viu isso aqui?
- O que é isso?
- Pergunta pra sua filha.
- O que é isso, Amandinha?
- É um livro, mãe. Um livro de poesia que eu ganhei da Vanessa, aquela minha amiga que só...
- Você trouxe um livro pra casa, minha filha?!
- Ah, mãe...
- Eu não sei onde isso vai parar! Eu compro um pacote de TV por assinatura, com quase cem canais, e minha filha me traz um livro pra casa! Olha o seu irmão, está lá no quarto com os amigos há três horas vendo filme. Ele valoriza o meu esforço.
- Ah, pai, eu nem abri o livro ainda. Só vi que é de um tal de Manoel não sei de quê...de Barros, eu acho.
- Manoel, isso é nome de autor? Isso é nome de padeiro, isso sim!
- Seu pai tá certo, minha filha. Ele dá um duro danado e você me traz livro pra casa? O que você tem na cabeça? A programação não tá boa?
- Está, mãe, mas sei lá, fiquei sem jeito de recusar.
- Falando nisso, Norma, liga pra mim e me traz uma cerveja, por favor. Tá na hora da final da segunda divisão. E leva esse negócio daqui antes que eu fique mais nervoso.
- Amandinha, o que você vai fazer com isso?
- Não sei, mãe, eu pretendia...ler.
- Ler? Pra que ler, minha filha? Ainda mais poesia, que não serve pra nada?
- Você tá ficando é doida mesmo. Tanto canal aí e você vai ler. Larga disso, minha filha.
- Mas foi presente, pai.
- Mesmo assim, minha filha. Papai só quer o seu bem. Isso aí pode fazer você pensar, refletir, vai acabar é te fundindo a cabeça. Vem ver um joguinho aqui que é muito mais relaxante. Vem.
Amandinha fica de cabeça baixa, mas o pai, num gesto carinhoso, a leva para o lado dele.
- Senta aqui, minha filha, papai te ama, você sabe disso, e quer o melhor pra você. Ó, o jogo já vai começar. Vamos ver juntos.
- Tá bom, pai...
- Norma, faz um tira-gosto pra gente, faz? (dá uma piscada em direção ao livro)
Amandinha ainda dá uma última olhada no presente, enquanto a mãe o leva para a cozinha e o despeja na lata de lixo, junto com as cascas de batata do almoço e as pilhas do controle remoto.
Aguardo sua visita aos meus outros blogs:
www.criticasmansur.blogspot.com
www.manualdoserrote.blogspot.com
- O quê?
- Isso aqui, na mesa.
- É um livro.
- Um livro?
- É, pai. Um livro de poesia que ganhei da Vanessa, aquela minha colega que só tira dez.
- Um livro de poesia?!
- É...
- Deu pra ler livro agora, é?
- Ah, pai...foi presente.
- Norma!
- Norma, vem cá!
- Você viu isso aqui?
- O que é isso?
- Pergunta pra sua filha.
- O que é isso, Amandinha?
- É um livro, mãe. Um livro de poesia que eu ganhei da Vanessa, aquela minha amiga que só...
- Você trouxe um livro pra casa, minha filha?!
- Ah, mãe...
- Eu não sei onde isso vai parar! Eu compro um pacote de TV por assinatura, com quase cem canais, e minha filha me traz um livro pra casa! Olha o seu irmão, está lá no quarto com os amigos há três horas vendo filme. Ele valoriza o meu esforço.
- Ah, pai, eu nem abri o livro ainda. Só vi que é de um tal de Manoel não sei de quê...de Barros, eu acho.
- Manoel, isso é nome de autor? Isso é nome de padeiro, isso sim!
- Seu pai tá certo, minha filha. Ele dá um duro danado e você me traz livro pra casa? O que você tem na cabeça? A programação não tá boa?
- Está, mãe, mas sei lá, fiquei sem jeito de recusar.
- Falando nisso, Norma, liga pra mim e me traz uma cerveja, por favor. Tá na hora da final da segunda divisão. E leva esse negócio daqui antes que eu fique mais nervoso.
- Amandinha, o que você vai fazer com isso?
- Não sei, mãe, eu pretendia...ler.
- Ler? Pra que ler, minha filha? Ainda mais poesia, que não serve pra nada?
- Você tá ficando é doida mesmo. Tanto canal aí e você vai ler. Larga disso, minha filha.
- Mas foi presente, pai.
- Mesmo assim, minha filha. Papai só quer o seu bem. Isso aí pode fazer você pensar, refletir, vai acabar é te fundindo a cabeça. Vem ver um joguinho aqui que é muito mais relaxante. Vem.
Amandinha fica de cabeça baixa, mas o pai, num gesto carinhoso, a leva para o lado dele.
- Senta aqui, minha filha, papai te ama, você sabe disso, e quer o melhor pra você. Ó, o jogo já vai começar. Vamos ver juntos.
- Tá bom, pai...
- Norma, faz um tira-gosto pra gente, faz? (dá uma piscada em direção ao livro)
Amandinha ainda dá uma última olhada no presente, enquanto a mãe o leva para a cozinha e o despeja na lata de lixo, junto com as cascas de batata do almoço e as pilhas do controle remoto.
Aguardo sua visita aos meus outros blogs:
www.criticasmansur.blogspot.com
www.manualdoserrote.blogspot.com


20 Comments:
Infelizmente o texto reflete a pobreza mental e a ignorância que ainda reina na maioria das nossas famílias. É preciso cada vez mais, salvar e até reinventar o livro.
Um grande abraço!
Imagino como o senhor sofre com isso na vida de professor. Se em casa não há incentivo à leitura, o educador pode fazer muito pouco, não acha? Grande abraço!
Um recadinho para a Vanessa: Não desista da(s) Amandinhas. Ela(s) precisa(m) de pessoas como você...grande menina!! (risos)
Beijos.
Marcello disse...
"Tá na hora da final da segunda divisão".
Você tinha que botar uma referência ao Vasco, né? Ê fanatismo...
Rapaz, quase que vocês foram pra lá este ano, hein. Mas no ano que vem não vai ter jeito.
Abraços.
Muito bom!
Que bom que você gostou, Odirce.
Beijos.
Mais proveniente impossível esse texto!!!
Tem novidades lá no blog, passa lá!!!
Bjuxxx...
E em Janeiro, depois das loucuras natalinas qro meu autográfo... rssrs...
Vou te deixar meu tel e msn por depoimento no Orkut...
Legal, pode deixar sim que a gente combina. Vou dar uma olhada no blog. Beijos.
Muito bom, André. Tenho esperança na sobrevivência e na reinvenção do livro, que o interesse no seu conteúdo se renove, e mude apenas o veículo ou suporte. ;)
Um abraço.
Muito obrigado, Maria. Também acredito, o que falta mesmo é incentivo à leitura para as crianças, a fim de que não vejam o livro como uma obrigação. Por mais que a tecnologia se desenvolva, o livro de papel terá sempre o seu charme, sem dúvida. Afinal, não conseguiram acabar nem com o LP. Beijos.
André, a gente lê e logo vem a imagem, como é o personagem? Queremos dar um molde neste tipo de comportamento e realmente não há. Acontece em todo momento. Está bem do nosso ladinho. Para mim é como se um livro me olhasse e pedisse para eu leva-lo, como se quisesse me falar algo, que fosse só para mim. Essa magia ainda exite para muitos.
Lindo seu blog.
Estarei entre suas palavras e pensamentos.
Beijos
Lindas suas palavras, Simone. Obrigado. Ótimas para um começo de ano! Beijão!
André,um livro aberto é um amigo que fala...Penso que muitas pessoas não estão abertas a ouvir esse amigo e por isso num estágio diferente apenas. Uns ja sabem o que eu não sei, outros não sabem ainda o que eu ja sei...E essa diferença é que permite as diversidades pelos quais o mundo é feito. Onde podemos apreciar o que está escrito, porque, alguém com um dom especial nos proporciona leituras que acrescentam algo as nossas vidas ! Um grande abraço e sucesso!! Seu Blog é lindo e eu adoro ler tudo ! mais uma vez obrigada !
Ótimos textos, Mansur. Este especialmente me tocou. De doer... Vou ler tudo com calma. Abraço!
Muito obrigado, Nydia e Renata, pelas belas palavras. Um beijão!
muto divertido, embora a gente, que lida com educação, acabe se entristecendo com a dura realidade retratada, pois não são poucos os pais que dão o exemplo da cultura inútil aos seus filhos, assistindo a todo tipo de lixo televisivo, em lugar de para eles ler, levá-los ao teatro, comprar-lhes livros. ADOREI, AMIGO!
É, fica difícil querer que as crianças sigam um caminho voltado para os livros se os pais ficam o tempo todo em frente à TV com tantos programas culturais bons por aí - e muitas vezes de graça.
Obrigado e um abraço!
"Isso aí pode fazer você pensar, refletir, vai acabar é te fundindo a cabeça"
Com essa frase você definiu o medo
dos que detem qualquer tipo de poder, rsrs.
Pessoas pensantes são 'incomodos'
e pedra no sapato.
Li, gostei e me diverti, não sei se a sua intenção ao escrever era a do humor, porque humor também é coisa séria, principalmente no seu texto.
Pode ter certeza de que ganhou uma leitora [ou ledora, como costumo me definir por viciada em ler tudo,
até encartes e bulas, rs}
Parabéns pelo texto, sacada genial.
Bitokitas de luz procê.
...
Pensar dá trabalho, Elza. Já notou que quando alguém fica meio meditativo, pensando, chega logo alguém e fala algo do tipo "Pensando morreu um burro"? Pois é, se os burros pensassem, eles é que estariam montados, e não o contrário.
Ah, o humor pra mim é fundamental, até para falar de coisas sérias.
Beijão e obrigado! Vamos nos falando.
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