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Based on a work at www.emendasesonetos.blogspot.com. Emendas e Sonetos: <strong>MEMÓRIA DA TORTURA</strong>
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Local: Rio de Janeiro, RJ, Brazil

Sou jornalista e escritor. Publiquei o livro ´Manual do Serrote - nos botequins da vida, sem contas nem despesas´, pela editora Bruxedo,(www.manualdoserrote.blogspot.com), ´O Velho Oeste Carioca´, volumes I e II, sobre a História da zona oeste do Rio de Janeiro, pela editora Ibis Libris, e "A rebelião dos sinais", de ficção, pela editora Multifoco. Colaborei em jornais como crítico literário e reuni todos os textos feitos desde 1995 no blog www.criticasmansur.blogspot.com

2.03.2011

MEMÓRIA DA TORTURA



O único resquício de um patrimônio destruído é um símbolo do sofrimento

Uma preciosidade guardada nos arquivos do pesquisador Ronaldo Morais (1) é o conjunto de fotos da Fazenda de Nossa Senhora da Conceição, na Pavuna, subúrbio do Rio de Janeiro. As fotos foram tiradas em 1983, dois anos antes da demolição da sede da fazenda pelo governo do Estado, que, como se vê, ainda permanecia em bom estado de conservação (clique nas fotos para vê-las ampliadas). Além das imagens da sede da fazenda e da capela, o que chamou bastante a atenção foi a existência de uma picota, um instrumento de tortura dos escravos, que substituía o pelourinho dentro do chamado “sistema oficial de repressão”, e que permanece também em bom estado, fazendo parte hoje da Reserva Arqueológica da prefeitura do Rio, que infelizmente não foi criada antes da destruição da fazenda.

Os pelourinhos ficavam na área central das vilas e cidades, exatamente para que o castigo fosse visto por todos. O principal pelourinho do Rio ficou instalado a maior parte do tempo onde hoje é a Praça XV de Novembro, em frente ao Paço Imperial, sede do poder durante muito tempo, embora com outros nomes (Palácio dos Governadores, Palácio dos Vice-Reis...). Como não dava para instalar pelourinhos em todos os lugares, era permitida a existência de troncos do tipo picotas em fazendas e áreas afastadas do centro do poder, principalmente nas freguesias rurais.

A picota da fazenda de Nossa Senhora da Conceição foi a única encontrada por arqueólogos até hoje na cidade do Rio de Janeiro. Construída no século XVIII, a fazenda foi grande produtora de cana de açúcar e, mais tarde, de café, além de diversos outros gêneros. No século XIX, pertenceu ao comendador Tavares Guerra, amigo de D. Pedro II e que hospedava a família imperial em suas passagens pela região. O núcleo urbano do atual bairro da Pavuna foi formado a partir do desmembramento das terras da fazenda, nas décadas de 40 e 50 do século XX. A região abrigou grande quantidade de engenhos e fazendas durante muito tempo.

A picota foi descoberta em 1999, junto com pedaços de cerâmica e outros apetrechos da época da fazenda, por arqueólogos da subprefeitura da região e do Patrimônio Cultural do município, e provavelmente ficava numa entrada da fazenda destinada aos escravos, para que a ameaça de punição estivesse sempre presente à vista de todos. Em julho de 2002, a área onde ela foi encontrada, na esquina das ruas Sargento Wilson Ramos com Herculano Pinheiro, foi transformada no Sítio Arqueológico Nossa Senhora da Conceição, e a ideia é transformar o local em um sítio-museu, aberto à visitação pública. Fica a pergunta: para que destruir um prédio que ainda estava em bom estado de conservação e hoje poderia abrigar, por exemplo, uma repartição pública, mantendo o patrimônio histórico? Mas, pensando bem, se a casa de Machado de Assis, o Palácio Monroe, a Escola de Belas Artes (onde hoje é um estacionamento na esquina com a avenida Passos, no centro do Rio) e tantos outros monumentos foram destruídos (e continuam a ser, vide a Transcarioca), não dá para se espantar. Pelo menos a Fazenda do Capão do Bispo, outro patrimônio importante, ainda existe, no bairro de Del Castilho, mas já está merecendo uma reforma e uma atenção das autoridades há muito tempo, embora seja raríssimo que o subúrbio entre em listas de prioridades.

(1) Ronaldo Morais é médico aposentado e pesquisa a História do Rio de Janeiro há pelo menos 30 anos. Durante um bom tempo, principalmente nos anos 80, ele e alguns amigos sacaram de suas máquinas fotográficas e percorreram toda a cidade e alguns municípios da região metropolitana para registrar (a maior parte em preto e branco) tudo o que considerassem relevante do ponto de vista da memória e do patrimônio histórico, não apenas monumentos de bela arquitetura e valor histórico já definidos, mas também casas humildes, estabelecimentos comerciais, vilas operárias, estações ferroviárias e outras construções. O resultado recebeu o nome de "Fragmentos do Rio Antigo" e o mais importante é que muito do que foi registrado já foi demolido ou sofreu profundas alterações.
- As fotos da fazenda foram tiradas por Ronaldo Morais e a da picota por Luiz Alexandre Franco Gonçales, esta no ano 2000

19 Comments:

Anonymous Adriana Saraiva said...

Mansur,

Suas últimas crônicas estão ótimas! As de conteúdo histórico, DEZ, a do sexo virtual é hilária e o livro de poesias...tb.

bjs

2/03/2011 06:23:00 AM  
Blogger André Luis Mansur said...

Que bom que você está gostando, sua opinião é sempre importante pra mim.

Beijos.

2/03/2011 06:25:00 AM  
Anonymous Naná Martins said...

Re: Olá
Olá, André! Gostei muitíssimo das publicações voltadas para história. Gosto muito da matéria. Nas férias aproveitei alguns dias e fiz passeios fantásticos no Rio com minha família. Tem um passeio marítimo saindo do Espaço Cultural da Marinha que custa 5 reais para estudantes e 10 no geral, que leva 1:20h pela Baía de Guanabara com uma guia formada em história em um barco tb histórico. Vale a pena por tudo. Beleza e conhecimento. Que nos remete a muita coisa boa da nossa própria história e evolução. Parabéns pelo seu Blog! Sucesso e vamos teclando. Bjs

2/03/2011 09:36:00 AM  
Blogger André Luis Mansur said...

Muito obrigado, Naná. Conheço este passeio, embora não o tenha feito, mas meu amigo Ronaldo, que pesquisa muito a História do Rio, já o fez e também o da Fortaleza de Santa Cruz, que vale muito a pena. Tem muita coisa boa para ser vista nesta cidade. Um beijo e obrigado pelo apoio!

2/04/2011 03:51:00 AM  
Blogger Juli Mariano said...

Oi André, adorei seu blog, quanta informação interessante! Quero ler tudo. Poxa a descoberta dessa fazenda me impacta em vários sentido: primeiro pensar que preciosidades foram encontradas ali, na Pavuna né? pertinho...mas dói tanto pensar nessa memória tão triste de nosso pais que foi a escravidão. Quanto sofrimento, quanta ignorancia....
Obrigada pela indicação do blog.
Beijo

2/05/2011 04:44:00 AM  
Blogger André Luis Mansur said...

Muito obrigado, Juli! É, ao mesmo tempo que é um patrimônio histórico importante, traz também a memória do sofrimento e da injustiça da escravidão em um dos últimos países do mundo que a aboliu, não tem jeito.

Beijão!

2/06/2011 05:23:00 AM  
Anonymous Claudia Ferreira said...

Oi André.
Tive um professor que dizia:um bom jornalista é o que sabe contar boas histórias.Os leitores do seu blog têm aqui sempre boas histórias num texto muito leve e inteligente. Parabéns pelo Emendas e Sonetos.

2/07/2011 04:37:00 AM  
Blogger André Luis Mansur said...

Muito obrigado, Cláudia! :) Beijos.

2/07/2011 07:27:00 AM  
OpenID tuliovillaca said...

Caramba, quando comecei a leitura lembrei imediatamente da fazenda do Capão, bem em frente à padaria onde vou todo dia de manhã, e que nunca visitei nem sei como fazê-lo.
Por sinal que lembrei de você lendo o Policarpo Quaresma, escrito pela minha área. Abração.

2/07/2011 11:30:00 AM  
Blogger André Luis Mansur said...

Fala, Túlio, beleza? Pelo que sei, a Fazendo do Capão só não corre o risco de ser derrubada, pois é tombada, mas também não fazem nada para restaurá-la. A região onde você mora foi importantíssima para a economia da cidade e nada é feito para pelo menos preservar o que sobrou. Nós temos material fotográfico sobre a Fazenda do Capão do Bispo também e devemos, em breve, fazer um artigo.

Grande Policarpo! Eu o li na época da faculdade, aproveitando as loooongas viagens de trem - rs.

Abração!

2/07/2011 11:41:00 AM  
Blogger Laura Bergallo said...

Legal seu blog, André. Quando a correria estiver menor (será que isso é possível? Vamos torcer...), vou ler os seus textos com mais calma. Abs!

2/11/2011 08:04:00 AM  
Blogger André Luis Mansur said...

Muito obrigado, Laura! Beijos e bom fim de semana!

2/11/2011 02:30:00 PM  
Blogger Prof. Adinalzir said...

Prezado Mansur
Está aí mais uma grande contribuição para a história da Pavuna. E quem ganha com isso, somos todos nós. Parabéns a você e ao Ronaldo Morais!
Um grande abraço! :)

2/12/2011 04:53:00 PM  
Blogger André Luis Mansur said...

Muito obrigado, professor. Como o senhor sabe bem, aquela é uma região muito importante para a História do subúrbio e precisamos preservar o pouco que sobrou.

Grande abraço!

2/14/2011 04:14:00 AM  
Blogger Marcos André Lessa said...

André, aonde encontro material sobre a destruição do patrimônio histórico pela Transcarioca? Um abraço!

2/16/2011 02:37:00 AM  
Blogger André Luis Mansur said...

Fala, Marcos, tudo bem? Seu blog realmente é muito legal, estou lendo aos poucos. Olha, conforme você me perguntou no meu blog, você pode se informar sobre a destruição do patrimônio histórico pela Transcarioca com o grupo "Amigos do Patrimônio Carioca", que vem lutando, inclusive na justiça, pela preservação dos monumentos do subúrbio. O e-mail é amigosdopatrimonio@gmail.com e o site http://www.amigosdopatrimoniocultural.blogspot.com Grande abraço!

2/16/2011 03:52:00 AM  
Blogger Marcos André Lessa said...

Obrigado, André, pelas informações e pela leitura do blog. Sê bem-vindo!

2/16/2011 04:18:00 AM  
Blogger André Luis Mansur said...

Eu que agradeço, Marcos. Grande abraço!

2/16/2011 10:13:00 AM  
Anonymous Bruno de Almeida Gambert said...

"André eu li o livro, Velho Oeste Carioca
Uma delícia, leitura rápida e super interessante.
Pena que ele acaba rápido.
Eu tinha muito receio em estudar a história de campo grande(zona oeste), eu pensava que a história da população (que habita o Bairro) deveria ser buscada no êxodo rural da decada de 60 e 70, no entanto descobri que estava equivocado, ...o lugar preserva características dos seus antigos habitantes, guarda e oferece aos novos habitantes o seu passado.
Então ler o livro foi importante neste sentido, me permitiu me apropriar mais do bairro onde moro.
Um abraço"

2/21/2011 05:01:00 AM  

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