DIÁLOGO PRÉ-GOOGLE

Dois jornalistas conversavam altas horas numa redação quando a internet era apenas um sonho distante...
Fico imaginando um diálogo entre dois jornalistas numa redação pelo menos 20 e poucos anos atrás. Eles estão prestes a fechar a matéria principal do caderno cultural de domingo, mas de repente pintou a dúvida sobre a cidade em que o personagem principal nasceu. Os dois, já na madrugada de sexta para sábado, no chamado pescoção, com a vista cansada, as articulações doídas, o saco cheio de ficarem o dia inteiro na redação e saberem que naquele momento os bares estavam repletos de gente relaxada e feliz, começam a sonhar com o futuro até aquele momento improvável enquanto se dirigem ao arquivo do jornal para remexerem papéis empoeirados.
- Rapaz, estava pensando aqui...
- O quê? - pergunta o outro, comendo um sanduíche de mortadela já meio passado que comprou na padaria da esquina algumas horas antes.
- Bem que a gente podia ter uma máquina que era só apertar um botão e aparecia a informação que a gente queria.
- Como é que é? - o outro quase engasga com o miolo do pão.
- É, uma máquina em que a gente apertasse o botão e ela dissesse o que a gente perguntasse. Aqui, por exemplo - eles chegam ao arquivo e abrem a pesada porta. Poderíamos saber a cidade onde esse cara nasceu, não só a cidade, como a aldeia, a vila, sei lá o quê, até o lugar onde ele comprava o pão com mortadela dele. Aproveita e me dá um pedaço aí.
- Cara, você não está bem não, né? Deve ser o pescoção, que deixa todo mundo meio doido. Você está cheio de olheiras. Máquina que tira qualquer dúvida apertando um botão...era só o que faltava. Toma o seu pedaço, acho que você está é com fome. E vamos terminar logo isso que eu ainda quero tomar uma cerveja lá no Galeto.
Começam a remexer os papéis, acham matérias antigas e depois de uns 20 minutos e muitos espirros, descobrem a cidade natal do protagonista da matéria.
- Viu? 20 minutos que levamos. Com essa máquina, a gente iria resolver tudo rapidinho, em um minuto.
- Você ainda tá nessa, é? Olha, sonhar não custa nada, já dizia o Paulinho Mocidade, mas sabe o que iria acontecer se essa máquina aparecesse um dia?
- O quê?
- Nossos patrões iriam arrumar muito mais trabalho pra gente. Como tudo seria mais rápido, em vez de uma matéria dominical, a gente teria que fazer duas, ou até três, por isso, sabe o que eu acho?
- O quê?
- É melhor deixar quieto. Toma, mata aí.
O colega pega o último pedaço de pão e, meio desalentado, confirma.
- É, acho que você tem razão. Não iam deixar a gente sair mais cedo mesmo.
- Claro que não. Provavelmente o pessoal que escrevia a bico de pena sonhava a mesma coisa, veio a máquina de escrever e não mudou nada. E o pessoal que escrevia na máquina sonhava com o computador, e olha ele aí. Estamos no meio da madrugada de sexta pra sábado fazendo exatamente o que eles faziam. Sem contar que essa máquina é um negócio que nunca vai acontecer. Vamos fechar esse troço logo.
Os dois sobem rapidamente, ansiosos para saírem daquele ambiente onde passaram todo o dia e tomarem a tradicional cerveja da madrugada de sexta para sábado.
- Depois do primeiro brinde (com o copo americano) já no bar, o colega sonhador comenta:
- Cara, estou com a maior saudade da Ana Luísa. Bem que podia ter um aparelhinho aqui que desse pra mandar uma mensagem pra ela, né?
- Cara, toma mais uma, para de sonhar. Seu problema é cansaço. Vira o copo aí.
# Aguardo sua visita ao meu blog www.criticasmansur.blogspot.com


14 Comments:
Massa mesmo, nos dias atuais, seria o teletransporte, hehehe...
Bjs, Mansur! Ótima reflexão sobre as mídias.
Obrigado, Aline. É bem provável que daqui a algum tempo a galera fale da gente assim: caramba, o pessoal ainda usava teclado, que perda de tempo!
Beijos!
Possível mensagem para a Ana Luísa (torpedo ou carta social a R$ 0,01 nos Correios): "Mande notícias do mundo de lá... Diz quem fica...Melhor ainda é poder voltar... Tô chegando!" :)
Beijos
Aline Canejo
Mesmo com todas essas mudanças, continuamos a ser escravos da tecnologia pré e pós-google. Esse é o grande dilema. Valeu, Mansur!
E a relação patrão-empregado continua a mesma, professor. Acho até que quanto mais rápido, mais trabalho teremos. Abraços.
Carta social...bem lembrado, Aline. Aliás, alguém ainda manda cartões de Natal de papel? Beijos.
Adorei! rsrs Visualizei tudinho... rs o passado que vivi, inclusive. Pois é... a máquina vem para auxiliar ou explorar o homem? Marx responderia assim: depende de em que mãos elas estão... rs beijo André.
O velho Marx sabia das coisas, Elisa. E está mais atual do que nunca nestes novos ´tempos modernos´, para citar também o genial Chaplin, que percebeu toda a exploração por trás das maravilhosas engenhocas da época. Beijos.
Caro amido xadrezista,
Li as duas últimas crônicas e gostei muito delas.
Gosto de crônicas; pois, de certa forma, transformam em épicos fatos corriqueiros e únicos.
O raconto da perseguição de bicicleta por cachorros, por exemplo - o fato é tão comum na nossa realidade suburbana; contudo, creio que o evento seja ainda mais pontual, mais próprio do nosso subúrbio, já que depende de uma confluência de fatores próprios daqui: os cães que são criados meio (ou mais) que na rua e meio que dentro de casa - é quase que impossível encontrar um cão suburbano, principalmente se for um vira-lata, que seja criado em total regime de clausura (eu tinha um vira-lata que sumia, enquanto este estava no cio; dias depois, aparecia mais magro e com um futum de carniça); conta-se ainda a fleugma dos ciclistas do subúrbio daqui em relação a esses animais- qualquer outra pessoa alheia ao nosso cotidiano, ou se assustaria em demasia ou executaria esses bichos.
Enfim, para dar algum sentido ou expor o verdadeiro sentido que fatos como esse ocupam na nossa psiquê suburbana, temos, então, a crônica. Ela remonta com humor e simpatia coisas que jamais pareceram válidas de serem narradas; mas, quando são, nos fazem pensar em quanto são especiais.
Estes dois jornalistas processaram o Google? (rsrs) Abs, Marcio Arruda
Disse tudo agora, Juan! Grande abraço.
Boa sugestão, Márcio! - rs. Abraços.
É primo... aqui na loja tenho um colega que jura que nós somos seres atrazados, ele sempre muda o papel de parade, de quinze em quinze minutos, mostrando naves e interprises intergaláticas, tiradas dos sites que existem na internet. e ele diz que ja vive na 4ª dimensão.
é sério ele acredita mesmo... o pior é que ele senta na fileira ao lado da minha mesa.
será que ele está certo???!!!
abraços.
Talvez esteja, mas se você for abduzido para alguma dessas naves, tente fazer contato. Abraços.
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