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1.21.2015

SEPETIBA, O PARAÍSO PERDIDO



        Para quem não conhece, Sepetiba  é um bairro da zona oeste da cidade do Rio de Janeiro. Sua história conhecida remonta aos primórdios da fundação da cidade, quando a Fazenda de Santa Cruz foi implantada pelos jesuítas e Sepetiba, com sua bela baía, contornada pela não menos bela Restinga da Marambaia, escoava a imensa produção agropecuária da fazenda, que seria considerada uma das mais prósperas do Brasil colônia. Sepetiba também recebeu uma aldeia de índios catequizados pelos padres jesuítas e, mais tarde, seria a sede do importante Engenho do Pihai, do qual não ficou nenhum vestígio, apenas a vaga lembrança registrada no nome da Estrada do Piaí, que liga Sepetiba a Pedra de Guaratiba.



        No século XIX, quando a sede da fazenda passou a ser o Palácio de Veraneio do príncipe-regente D. João, após a transferência da Corte portuguesa para o Brasil, em 1808, a Baía de Sepetiba passou a ser defendida por navios portugueses fortemente armados, afinal, o primeiro monarca europeu a botar os pés no continente americano estava a poucos quilômetros dali, naquele que seria, um dia, o bairro de Santa Cruz.



        Mais tarde, no conturbado período da proclamação da independência, a futura imperatriz Leopoldina receberia, no cais de Sepetiba, o poderoso ministro José Bonifácio, o "patriarca da independência", que chegava de Santos e seguiria, com Leopoldina, para a Fazenda de Santa Cruz, discutir os próximos passos para que o marido dela  proclamasse a independência e se tornasse D. Pedro I, o primeiro imperador do Brasil.
        Também nesse período, Sepetiba ganharia três fortes: São Pedro, São Paulo e São Leopoldo, além da bateria de Pihai. Poucos vestígios destas construções foram preservadas.



        Da  segunda metade do século XIX em diante, Sepetiba teria linhas de navegação para a Ilha Grande, Paraty, Mangaratiba e outras localidades, além de uma linha de bondes para Santa Cruz. E ao longo do século XX, Sepetiba iria se transformar no balneário preferido dos cariocas, com suas águas calmas e limpas atraindo milhares de pessoas, principalmente no verão, quando várias casas eram alugadas por temporada, movimentando a economia da região, que vivia basicamente do turismo e da pesca. Na década de 70, o bairro ficaria mais conhecido ainda com a gravação da novela "O bem-amado", de Dias Gomes, exibida pela TV Globo, com o famoso prefeito Odorico Paraguaçu, interpretado por Paulo Gracindo, proferindo seus discursos repletos de "emborasmentes" no coreto da Praça Washington Luís, que ainda existe e é tombado pelo governo do Estado desde 1985.
        Tudo isso, no entanto, faz parte do passado. A partir desta mesma década de 70, obras de dragagem mal feitas para a construção do Porto de Sepetiba e a instalação de indústrias de material pesado iniciaram o processo de poluição da baía, agravada com o despejo in natura do esgoto, seja através de canos e manilhas, ou por rios como o Piraquê, que recebe o esgoto de outros rios, outrora limpos e navegáveis, e os despeja na outrora cristalina Baía de Sepetiba.



        Poluída a baía, os turistas foram embora, a pesca sofreu um duro baque e as casas de  veraneio se esvaziaram - o início de um longo processo de decadência que foi se intensificando até os dias de hoje. O transporte público é péssimo, não há um hospital, a violência aumentou, as estradas são perigosas, não há ciclovias, teatros, cinemas, livrarias, sequer um shopping. Suas três praias (do Cardo, Dona Luísa e Sepetiba) são dominadas pela lama (não mais a lama que os banhistas lambuzavam o corpo antigamente e diziam ter propriedades terapêuticas) e alguns barcos de intrépidos pescadores, que conseguem pegar alguma coisa mais para o fundo da baía.
        A única tentativa do poder público de fazer algo para revitalizar o bairro foi a renovação da faixa de areia da Praia de Sepetiba, a maior das três, um trabalho que durou anos e que, de  certa forma, revitalizou o espaço, embora a lama e o esgoto já estejam ocupando novamente o seu espaço.



        A população, no entanto, começa a reagir, principalmente através das redes sociais. A professora Bianca Wild, por exemplo, e um grupo de moradores do Ecomuseu de Sepetiba, vem promovendo eventos no bairro, como o passeio, sempre no primeiro domingo do mês, reunindo pessoas no histórico coreto e seguindo até a Ilha dos Marinheiros (onde marinheiros rebeldes foram fuzilados durante a Revolta da Armada, no final do século XIX), com palestras sobre a importância histórica da região, ações de conscientização ambiental e uma visita ao antigo Cais Imperial da ilha.
        Na língua tupi, Sepetiba significa "área com grande quantidade de sapê", que é uma espécie de vegetação rasteira que existia por todo o seu belo litoral.       

* Fotos tiradas por mim, em agosto de 2014. Legendas, de cima para baixo:

- Coreto
- Praia do Cardo
- Ilha do Tatu
- Praia de Dona Luísa
- Antigo Iate Clube
- Praia de Sepetiba

2 comentários:

Elson Neto disse...

Parabéns por resgatar está rica história André. Sepetiba n merece o estado atual q se encontra. Sou morador do bairro e até hj me encanto algumas vezes com sua beleza q no cotidiano e em meio ao descaso passam despercebido.

André Luis Mansur disse...

Obrigado, Elson. Sepetiba merece ter o seu passado resgatado e, quem sabe, voltar aos seus tempos de glória um dia. Abraços!