9.23.2006

Não lê jornal não? Aqui, ó. (Serrote Desatualizado)


No Manual do Serrote foi ensinado que o verdadeiro serrote, o serrote "de raiz", como dizem os antigos, deve estar sempre atualizado. Toda manhã, antes de sair para sua prática diária, ele deve ouvir uma hora de noticiário no rádio e já na rua não custa nada serrotar o jornal de alguma vítima. Ouvir a "Voz do Brasil" também é uma boa idéia. Mas infelizmente, como acontece em qualquer atividade, há aqueles que julgam saber tudo. Tem muito serrote por aí que acha que consegue se manter bem informado apenas lendo o jornal que fica exposto na banca, aliás uma das atividades preferidas dos serrotes.

Teve o caso clássico do serrote que foi dormir cedo na noite em que começou a guerra do Iraque, anunciada durante uma transmissão de futebol. No dia seguinte, sem nada na despensa, o serrote foi para o bar serrotar uma média. Ao abordar a vítima, foi logo comentando:

- E aí? Será que vai ter guerra?

A vítima olha para ele de forma tão estranha que o serrote até se intimida. E responde:

- Pô, tá por fora, hein, companheiro. Não lê jornal não? Aqui, ó.

E mostra o jornal com a foto de Bagdá sendo bombardeada. O serrote se sentiu tão humilhado que voltou para casa com o estômago roncando, acompanhou todo o noticiário e só saiu de casa ao meio-dia, para serrotar o almoço com outra vítima, aí já completamente a par de tudo o que acontecia na guerra. Alguns serrotes mais sofisticados costumam acessar a internet antes para olhar os plantões dos jornais, com informações quentinhas que podem chamar a atenção das vítimas mais resistentes.

Os serrotes devem estar por dentro de tudo, mas devem principalmente direcionar a informação, dependendo da preferência da vítima. Digamos que a vítima seja escrevente do Tribunal de Justiça e o serrote tenha ouvido, em primeira mão, a seguinte notícia logo de manhã no rádio:

- Parece que vai sair o aumento de vocês, né?
- Ah, é? Como é que tu sabe?
- Ouvi agora no rádio. Mas parece também...

E a conversa tem tudo para se prolongar, pois notícia de aumento sempre melhora o humor da vítima.

Notícias sobre futebol também são importantes. O anúncio de uma contratação para o time da vítima costuma render boas serrotagens. Ou então curiosidades em geral. O importante é adequar a informação ao perfil da vítima e isso só é possível com muito estudo e sensibilidade, duas características fundamentais de um autêntico serrote.

8.28.2006

A SINA DE PLUTÃO


Vivendo no silêncio e na escuridão, Plutão sempre revelou uma tendência à reclusão e à melancolia. Distante de planetas vibrantes e de cores fortes, como Mercúrio e Marte, ou mesmo espalhafatosos, como Saturno, famoso por exibir seus anéis (quase um Ringo Starr celestial), Plutão costumava ser lembrado apenas nos livros escolares e em alguns papéis menores em filmes de ficção científica. Mas, enfim, deu-se a tragédia...Plutão não é mais planeta. E sua auto-estima foi, literalmente, para o espaço.

Desde que sondas espaciais começaram a circular por sua órbita, como insetos impertinentes, o simpático planetinha, que na sua singela preguiça chega a levar 248 anos para dar uma volta completa no sol, passou a ter sua identidade questionada. Por ser pequeno, frio e distante, alguns astrônomos começaram a duvidar de que Plutão poderia ser “dominante em sua zona orbital” (Freud explica?), questionando as vantagens oriundas desta condição, como descontos em competiçõs intergalácticas e participação especial nas histórias de Carl Sagan e Isaac Asimov.

Tantas reviravoltas surgiram nesta questão (uma hora era, na outra não era planeta) que Plutão viu sua auto-estima ser atingida de forma profunda. Passou a sentir inveja, por exemplo, de Marte, um inquestionável planeta, sempre presente em grandes produções de Hollywood. E o que era inevitável aconteceu: a reunião da União Internacional de Astrônomos, em Praga, na última quinta-feira, bateu o martelo: ou Plutão aceita a companhia de mais três planetas (e quantos mais viriam depois?) ou continua sozinho, mas sem a condição de planeta. Ou pior, com a condição de planeta-anão.

Agora, nada mais resta a Plutão a não ser aceitar a sua condição de rebaixado à segunda divisão (ou série B) da galáxia. Sua única esperança é que os nascidos sob o signo de escorpião continuem a aceitá-lo como seu regente. Ousadia, virilidade e intensidade emocional são características deste signo. É tudo o que um agora planeta-anão e de órbita pouco convencional (ainda tem essa) mais precisa agora.

7.17.2006

CACHORRADA


Talvez os cachorros
se cansem de nós um dia
e nos coloquem coleiras e focinheiras
para calarmos a boca

Alegria no canil
Seríamos vacinados contra a raiva
do trânsito e do vizinho

As guerras seriam restritas a pequenos conflitos,
facilmente contornados com a distribuição
dos ossos do ofício

Um fêmur para um,
o antebraço para outro

Falangetas para as crianças

No final, eles abanariam os rabos
e dariam latidos de satisfação
quando nos tornássemos mais fiéis
e menos humanos

ANDRÉ LUIS MANSUR

7.11.2006

FILÉ DE NASDAQ (aprecie com moderação)


A insistência em se divulgar certos termos no jornalismo, acreditando que eles tenham interesse para alguém, pode gerar situações bastante curiosas. Na economia, por exemplo, qualquer pessoa que conheça um pouquinho de Bolsa de Valores sabe que aquilo lá funciona no fundo como um grande cassino, onde os grandes especuladores sempre se dão bem e o pequeno investidor, se não tiver uma orientação muito boa, pode perder o pouco que investiu. Por isso, a variação brusca dos índices nem sempre quer dizer que a economia está volúvel. Mas nas épocas de turbulência econômica internacional, como na crise dos tigres asiáticos, em 1998, a situação sempre beira o caos, pelo menos na cabeça de muitos editores, que resolvem colocar o economês com a língua mais importante do país no momento.

Pois bem, a equipe de um importante telejornal resolveu ir às ruas para testar a eficiência desse tipo de informação. E escolheram como pauta o Nasdaq. Para quem não sabe, Nasdaq é o nome da Bolsa de Valores americana utilizada apenas por empresas de alta tecnologia em informática, telecomunicações e outros setores. Quer dizer: se o interesse pela Bolsa de Valores, tanto brasileira quando americana, já é restrito, o que dizer do índice Nasdaq. Mas o que importa é que todo dia, em horário nobre, para milhões de telespectadores no Brasil inteiro, o índice era divulgado, muitas vezes num tom dramático se ele caísse muito.

A equipe de jornalistas resolveu ir a um restaurante especializado em carnes onde costumavam almoçar. Quando o garçom chegou para fazer os pedidos a, digamos, porta-voz não pensou duas vezes:

- Nós queremos Filé à Nasdaq. O senhor tem?

O garçom franziu a testa, pensou muito e, com vergonha de reconhecer que desconhecia o próprio cardápio, pediu licença para perguntar ao cozinheiro, diante do olhar tranqüilo dos comensais, que sequer esboçaram um sorriso.

Logo em seguida, vem ele, com uma expressão de desânimo e já pensando num prato alternativo.

- Senhora, desculpe, mas o cozinheiro disse que não temos o File à Nasdaq, mas vocês não gostariam de...

- Como?! Aqui é especializado em carnes e o senhor não tem o File à Nasdaq? Aparece todo dia na televisão.

Com medo de que sua aparente ignorância pudesse ser percebida por outras pessoas, o garçom ficou nervoso, começou a suar frio e a gaguejar.

- É...in-infelizmente não temos. Os senhores na-não querem outro prato...?

Vendo o constrangimento do garçom, os jornalistas disseram que não tinha problema e optaram por outro prato, até porque a idéia não era humilhar ninguém. E naquele dia, os que acreditavam que o índice Nasdaq era importantíssimo para o povo brasileiro tiveram de rever seus conceitos. Coincidência ou não, algum tempo depois ele foi retirado do ar, mas o ´cardápio´ ainda pode ser mais enxugado. Basta que alguém peça em algum restaurante um picadinho de superávit primário, um caldo de mercado (bem agitado) ou um ensopado de bovespa. A indigestão é certa.

7.04.2006

O ESTÔMAGO DOS POLÍTICOS


Gastroenterologistas, regozijai-vos! Acabou a Copa,
começam as eleições. E o caminho de um político para
ser eleito passa necessariamente pelos caminhos do
intestino – nem sempre tão delgados.

Buchada de bode, churrasquinho de gato,
rabada...político que quer ser eleito não dispensa um
prato, por mais assustador e estranho que lhe pareça.
O mais interessante, no entanto, é que após certo
tempo de campanha essa turma começa a adquirir aquilo
que é conhecido como “Imunidade anti-provadinha (I.A.P.)”, que
nada mais é do que a resistência criada pelo organismo para que o heróico candidato não sucumba ante os inevitáveis convites de possíveis eleitores do tipo: “Dá uma provadinha, foi minha mãe que fez”.

Uma provadinha aqui, outra ali, e muito candidato não consegue chegar sequer ao primeiro turno. Mas isso é só no início. Com o tempo e a inevitável experiência que ele traz, problemas como diarréia, azia e vômito passam a ser coisa do passado. Geralmente na terceira eleição (alguns mais resistentes já conseguem na segunda) o candidato adquire a I.A.P. E de tão resistente que ela é, o candidato pode se aventurar até numa comida mal cozida ou fora de validade, como é comum acontecer nas campanhas.

O grande problema é quando o candidato ganha uma eleição, pois ele passa a comer “do bom e do melhor” e pode fazer aquilo que seria impensável na campanha: recursar uma provadinha. Se ele conseguir ser eleito mais de uma vez, tudo bem. Caso contrário, ocorre aquilo que os especialistas chamam de Síndrome da Abstinência das Provadinhas. Após quatro anos de mandato comendo bem, a imunidade perde a força e se o político não for reeleito e tiver de iniciar uma nova campanha nas ruas, os efeitos serão devastadores.

O ideal é o candidato, quando eleito, não se esquecer dos eleitores e de vez em quando dar um pulinho nas ruas para provar uma deliciosa dobradinha, uma suculenta moela ou então aquela feijoada repleta de torresminhos. “Receita da vovó, doutor, pode provar sem medo!”