Follow by Email

7.17.2021

O NOSSO 11 DE SETEMBRO

 A data de 11 de setembro costuma ser lembrada por dois acontecimentos dramáticos de alcance mundial: o ataque às torres gêmeas, em Nova York, em 2001, e o golpe militar no Chile, em 1973.

Já aqui, no Rio de Janeiro, também tivemos o nosso 11 de setembro, bem mais antigo, mas também com altas doses de violência e dramaticidade. Foi nesta data, em 1710, que o francês Jean François Du Clerc, acompanhado de cerca de mil corsários, invadiu a cidade do Rio de Janeiro pela praia da Barra de Guaratiba, no lado oeste da cidade. O objetivo? Conquistar e saquear a cidade e depois dividir o butim, o valor do resgate, entre os corsários e os que apoiaram a invasão. O corsário, ao contrário do pirata, tinha autorização do rei para suas investidas (no caso de Du Clerc, do rei Luis XIV, o Rei Sol, ícone do modelo político conhecido como Absolutismo) e apoio financeiro de companhias e nobres abastados.
Du Clerc tentou invadir o Rio de Janeiro pela Baía de Guanabara, mas foi rechaçado, com seus seis navios, pela Fortaleza de Santa Cruz. Foi, então, navegando pelo litoral da cidade até chegar a Angra dos Reis, que foi duramente bombardeada e teve algumas fazendas saqueadas. Quatro escravos fugidos de uma dessas fazendas informaram aos franceses que a praia da Barra de Guaratiba seria um bom ponto de desembarque para se atingir o centro do Rio de Janeiro. Os franceses seguiram o conselho e desceram na praia no dia 11 de setembro.
Após oito dias de dura caminhada pelas montanhas (e com direito a alguns saques, como na Fazenda do Camorim), chegaram ao centro do Rio, onde já eram esperados sem o menor pingo de hospitalidade. Numa violenta batalha que durou um dia inteiro, com muitos mortos e feridos de ambos os lados, os invasores se renderam. Os franceses sobreviventes foram distribuídos pelas prisões e Du Clerc ficou preso no Convento dos Jesuítas, no já extinto Morro do Castelo, sendo depois transferido para uma casa, na esquina da rua da Quitanda com (também já extinta) rua General Câmara, onde, apesar de estar guardado por várias sentinelas, foi assassinado no dia 18 de março de 1711, um crime que nunca foi solucionado.
Ainda em 1711, um outro corsário, René Duguay-Trouin, chegava ao Rio com a mesma intenção de Du Clerc, mas desta vez com 18 navios e cerca de seis mil corsários franceses. Mas essa história deixo para contar outro dia.
* Esta história é contra no livro A invasão francesa do Brasil, meu e de Ronaldo Morais.


6.23.2021

CURSO DE HISTÓRIA DA ZONA OESTE CARIOCA

 O Curso Livre de História da Zona Oeste Carioca será ministrado pelo jornalista e escritor André Luis Mansur de forma on-line e ao vivo, em quatro aulas, terças, das 19h às 21h, abrangendo a região entre Deodoro e Sepetiba. Os alunos vão lidar com temas importantes do passado da região, como a Fazenda de Santa Cruz, a Fábrica Bangu, a invasão de corsários franceses em Guaratiba, além de personagens importantes, como Freire Alemão e Padre Miguel, entre muitos outros assuntos.

O curso será baseado nos livros da trilogia O Velho Oeste Carioca, publicados por André Luis Mansur.
Início: 13 de julho - terça
Encontros: 13/ 20/ 27 de julho e 10 de agosto
Terça - 19 às 21h
Investimento: 80,00
Informações: 981772039
Ideias Espaço Criativo



6.22.2021

A CASA DA INFÂNCIA


Portão do número 84 da rua Sirici, em Marechal Hermes, onde morei, e fui muito feliz, de 1969, quando nasci, até 1990, quando me mudei para Campo Grande. É uma vila de 6 casas e morávamos no número 6.- em cima tem mais 2 apartamentos. Fica bem pertinho do Largo de Marechal e da Estação de Trem.

Quando entreguei as chaves para o senhorio, "seu" Hélio, em um dia cheio de saudades, o último objeto retirado da casa foi a minha boa e velha Monark Monareta, com a qual vim pedalando para Campo Grande. Escrevi uma crônica sobre isso para o jornal O Dia. O link é este:

https://odia.ig.com.br/opiniao/2018/10/5579738-andre-luis-mansur-baptista-de-marechal-a-campo-grande.html?fbclid=IwAR0EuGP_qtCeDmCmFMGx9-LDPLxG1UIzOtap4T1NPLWUHOat5d8qxAtrgNs

5.20.2021

NOMES DE BAIRROS CARIOCAS E SUAS LENDAS

 NOMES DE BAIRROS CARIOCAS E SUAS LENDAS, ALGUMAS ATÉ BEM CONVINCENTES

Por André Luis Mansur

 

        Nomes de bairros sempre despertam curiosidades. E o mais interessante é que, ao lado da versão, digamos, oficial, há sempre a lenda, a explicação mais folclórica, que ficou na tradição oral durante décadas, às vezes séculos, e muitas vezes são as mais interessantes. É o que acontece com o nome da Ilha de Guaratiba e de outros bairros aqui da Zona Oeste do Rio de Janeiro.

        Quando comecei a conhecer a região, lá pelos anos 80, estava em Campo Grande e vi um ônibus com o destino "Ilha". Meu primeiro pensamento foi que seguia para a Ilha do Governador. Mas depois vim a descobrir que não havia, e não há até hoje, um ônibus direto entre Campo Grande e Ilha do Governador. Que ilha era essa então? Aí me explicaram que era a Ilha de Guaratiba. Ah, tudo bem, Guaratiba tem um amplo litoral, deve ser alguma das ilhas que estão ali por perto. Mas que nada. A Ilha de Guaratiba fica é em terra mesmo, foi o que me disseram, e seu nome tinha a ver com um tal inglês que morou lá fazia muito tempo. Um tal de William.

       Reza a lenda, e aí vem a versão folclórica, que um inglês chamado William, que teria vindo com a Corte portuguesa, em 1808, foi morar em Guaratiba e aí, quando as pessoas iam para lá, diziam: "Vai aonde? - Para a fazenda do seu William. - Que William? - O William de Guaratiba". E aí o tal William de Guaratiba, com o tempo, e bota tempo nisso, foi mudando até chegar ao nome atual de Ilha de Guaratiba.

        Bem, como eu disse, esta é a versão folclórica. A outra explicação diz que o nome Engenho da Ilha já existia bem antes da chegada da Família Real e não tem nada a ver com inglês nenhum, e sim com a grande quantidade de rios e canais da região, que, quando enchiam (e lembremos que os rios tinham muito mais água do que hoje), deixavam uma grande porção de terra, mais elevada, cercada de água por todos os lados, a tal Ilha de Guaratiba. Como não sou dono da verdade, nem pretendo ser, deixo para cada um escolher a sua versão - eu escolho esta última.


                         Fachada da sede do Ilha Futebol Clube


         O mesmo acontece com Realengo, que para muitos é a abreviatura de um engenho, o Real Eng., que com o tempo passaria a ter o nome atual. A outra versão, na qual eu acredito, é que toda aquela região fazia parte das Terras Realengas, ou seja, terras que eram do Reino de Portugal na época da colônia e onde não se podia construir nada particular. Houve algumas invasões de fazendeiros, é verdade, mas no século XIX, quando o governo imperial resolveu transformar aquela região em área militar, ela estava praticamente vazia de construções particulares, justificando a origem do nome (embora alguns conflitos tenham ocorrido nas Terras Realengas no passado exatamente por disputas de áreas de fazendas).

                                                                    

                                                                 Brasão de Realengo

         O bairro de Inhoaíba, entre Campo Grande e Cosmos, também tem duas explicações para a origem de seu nome. Tem a de origem indígena, Nhu (campo) Ahyba (ruim), e a que fala dos escravos de uma fazenda que chamavam o seu dono de "Sinhô Aníbal", ou "Inhô Aníbal". Confesso que neste caso ainda não sei em qual acredito, mas tenho uma tendência a dar mais crédito à versão da origem indígena.

    


                             Inhoaíba - Instituto Ana Gonzaga


     Também o bairro de Vila Valqueire, já ali entre as Zonas Norte e Oeste, possui uma explicação bem curiosa sobre o seu nome, a de que teria existido uma fazenda em um tal "V Alqueire" ("V" é "cinco" em algarismo romano, seria um "quinto alqueire"), mas neste caso não há dúvida, o nome vem mesmo do fazendeiro Antônio Fernandes Valqueire, dono de um engenho na região no século XVIII. Mesmo assim há quem acredite no tal "quinto alqueire".    



                   Rua das Verbenas, na Vila Valqueire, década de 30


        Dúvidas à parte, esta e outras versões sobre os nomes de vários bairros da cidade sobreviveram até hoje, mostrando a força da tradição oral, que se muitas vezes está distante da verdade registrada em documentos oficiais, ela não deixa de ter o seu valor ao despertar a curiosidade dos moradores pela origem dos nomes dos seus bairros. Como já falei aqui neste espaço, conhecer a História do seu bairro é fundamental para se criar afinidade com ele e saber o que reivindicar em melhorias e investimentos. E saber a origem do nome do bairro, da rua ou do logradouro, é o primeiro passo para isso. Afinal, quem não fica curioso ao ouvir falar em nomes como Curral Falso, Manguariba, Marapicu, Paciência, Viaduto dos Cabritos, Buraco do Faim, Esquina do Pecado, Marco 7, Caminho do Vai e Vem e tantos outros que enriquecem a História, "oficial" ou não, da Zona Oeste do Rio de Janeiro.

* Este texto faz parte do meu livro "Crônicas Históricas da Zona Oeste Carioca"







5.02.2021

CENTRO DO RIO

 


Por André Luis Mansur 

Apesar de ter sido criado em Marechal Hermes, nasci no Centro do Rio, na Avenida Henrique Valadares, lá no distante ano de 1969. Vim ao mundo no Hospital do Iaserj, na época Iaseg, hospital que muito mais tarde Sérgio Cabral mandaria demolir.

Passaria a frequentar o Centro do Rio só a partir dos 15 anos, levado por meu saudoso pai, Wilson Baptista, e lembro que o primeiro lugar por onde andamos foi a Avenida Marechal Floriano, que se tornaria um dos meus espaços preferidos por lá. A avenida de prédios históricos, como o Colégio Pedro II, o Palácio do Itamaraty, a Igreja de Santa Rita e a sede da Light, que hoje é um Centro Cultural.

Mas a Marechal Floriano também é a Avenida da Livraria Elizart, que está resistindo bravamente à pandemia e ao esvaziamento do Centro, assim como a Folha Seca, do Rodrigo Ferrari  (funcionando em horário reduzido, de segunda a sexta, das 11h às 16h); da Leonardo da Vinci, do Daniel Louzada; da Blooks, da Elisa Ventura; da Travessa; da Casa da Árvore e dos muitos sebos, lugares que eu passaria a frequentar com assiduidade, incluindo aí o mais recente deles, o Sebo X, na Praça Tiradentes, do Jocemar Barros e do Paulo-Roberto Andel.

Todos resistindo e acreditando no renascimento do Centro, que teve boa parte das lojas falidas com a pandemia e também  boa parte dos escritórios trabalhando em home-office - muitos escritórios, aliás, vão continuar assim, pois seus gestores perceberam que fica bem mais barato do que pagar os caros aluguéis e condomínios da região. 

                        Rua Primeiro de Março


Mas a recuperação do Centro do Rio (após a pandemia, é claro) vai precisar passar por uma volta às origens, à época em que a região abrigava não só trabalhadores, como hoje, mas também moradores, que se espalharam por suas ruas abertas em meio a pântanos e gangues desde seus primórdios, após ocuparem o Morro do Castelo, em 1567. A Reforma Passos, no início do século XX, afastou os moradores da região central da cidade, mas agora eles precisam voltar, é a única saída para revitalizar de novo a região.

Vai ser difícil, sem dúvida. Mas acredito que aquela região, que derrotou o corsário Du Clerc, em 1710, mas seria derrotada e saqueada pelo corsário Rene Duguay-Trouin, no ano seguinte, entre tantos conflitos e perrengues ao longo de sua História, vai dar a volta por cima. A força do Centro do Rio está na sua mistura, lá se encontram moradores dos subúrbios, da Zona Sul, da Baixada, de outras cidades e estados, uma dinâmica que não se encontra em nenhuma outra parte da cidade e que, acredito, é o que vai fazer a região se reinventar. Mas, como eu disse, vai ser difícil. O cenário atual é  triste, mas que possamos ter (talvez no ano que vem, quem sabe?), uma cena parecida como esta da foto que abre o texto, quando lancei meu romance "A Praça" na Folha Seca, um pouco antes do Carnaval de 2019, um domingo de muito sol, samba e aglomeração.