4.07.2010

DUZENTOS ANOS DE ENCHENTES


Por que uma tragédia precisa se repetir indefinidamente? O temporal que provocou o caos no Rio de Janeiro, com mais de 200 mortes, carrega um elemento ainda mais dramático, pois está perto de se completar 200 anos uma enchente devastadora que assolou a cidade entre os dias 10 e 17 de fevereiro de 1811 e que ficou conhecida como as “águas do monte”, pois a chuva descia dos muitos morros do centro do Rio e alagava tudo, provocando deslizamentos, desmoronamentos e muitas mortes.

De lá para cá, pelo visto nada mudou. Quer dizer, mudou para pior, pois a cidade se alastrou, sem nenhum planejamento urbano, e hoje apresenta uma situação para a qual não vejo solução, da mesma forma que em São Paulo as enchentes do Tietê vão continuar provocando o caos na cidade.

Nas “águas do monte”, parte do extinto morro do Castelo, berço da cidade, desmoronou, levando junto muitas casas. As igrejas da cidade acabaram acolhendo os muitos desabrigados, por ordem do príncipe D. João, e o principal meio de transporte na cidade acabou sendo a canoa, herança dos indígenas (chegou a haver uma batalha de canoas na Baía de Guanabara na época da guerra entre portugueses contra franceses e tamoios pela conquista da cidade) e que encontra sua referência nas balsas dos bombeiros hoje em dia para tirar gente de ônibus, nas pranchas de surfe e até nos pedalinhos da Lagoa Rodrigo de Freitas, que invadiram a rua e serviram de condução para quem queria fugir das enchentes.

Segundo conta o importante historiador Vieira Fazenda, citado por José Antônio Nonato e Núbia Melhem Santos no excelente livro “Era uma vez o morro do Castelo”, começou a chover torrencialmente às 11 da manhã do dia 10 e “a borrasca, longe de amainar, continuou incessante durante sete longos dias de verdadeiro suplício para os habitantes desta heróica e leal cidade”. As ruas, assim como hoje, viraram “caudalosos rios”, o Campo de Santana se transformou em uma grande lagoa e muita gente morreu soterrada nas casas que ruíram com a grande massa de terra que desceu do morro do Castelo, principalmente as casas do antigo Beco do Cotovelo, na parte do morro que ficava defronte à Ilha das Cobras.

Uma canção muito popular no século XIX guardou na memória dos cariocas a tragédia de 1811. Dizia:

- Vem cá Bitu! Vem cá Bitu!
Vem cá, vem cá, vem cá...
- Não vou lá, não vou lá, não vou lá,
Tenho medo de apanhar!

- Cadê o teu camarada?
- Água do Monte o levou...
Não foi água, não foi nada,
Foi cachaça que o matou.


Registrada por Santa Ana Nery, a letra de “Vem cá Bitu!” deve ser acompanhada pela melodia da cantiga de roda “Cai, cai, balão” e Bitu, segundo conta Vieira Fazenda, parece ter existido mesmo. Teria sido um dos mortos entre as casas soterradas pelo morro do Castelo.

Sua triste cantiga, pelo visto, ecoa até hoje entre os escombros desta cidade que não consegue absorver as tais intempéries da natureza.

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3.22.2010

JOÃO ANTÔNIO


Como conhecer um grande escritor sem se dar conta disso.

Foi no final de 1993. Fazia meu estágio de jornalismo na TVE do Rio de Janeiro e de vez em quando mostrava meus textos de ficção para alguém, podia ser algum colega de profissão ou um convidado do programa “Sem Censura”. Numa dessas ocasiões, dei de cara na redação com o escritor João Antônio, que havia acabado de ser entrevistado no citado programa, na época ainda comandado por Lúcia Leme.

Já tinha ouvido falar nele e sabia que era um grande contista, dos nossos melhores, mas que andava muito mal divulgado. O problema, no entanto, é que não tinha lido nada dele. Mesmo assim, ostentando aquela famosa “casa de peroba”, um grau acima da “cara de pau”, e aproveitando que ele estava bem relaxado no ambiente congelado da redação, fui lá, me apresentei e perguntei se ele poderia dar uma olhada nos meus textos, já achando que iria fazer o que todos faziam, uma pequena mesura social e guardar o envelope pardo com as folhas datilografas, prometendo entrar em contato – o que pouquíssimos fizeram.

Qual não foi minha surpresa quando ele me convidou, como se fôssemos amigos de longa data, a bater um papo. Saímos da redação, na avenida Gomes Freire, e fomos até a esquina da rua da Relação, em frente ao Hotel Marialva, onde havia um boteco daqueles bem tradicionais e que nada tem a ver com os espaços estilizados de hoje, caríssimos e que entram na moda sob a alcunha de butiquins sem sequer ostentarem um singelo ovo cor de rosa.

Da longa conversa, entre cervejas (para mim) e doses de ypioca (para ele), ficaram muitas e boas lembranças. O texto? Deu uma rápida olhada e me disse uma frase emblemática: “Leia os russos. Se quiser escrever sobre o povo, leia os russos”. Quando foi embora, de ônibus, fiquei com a certeza de ter encontrado um ser humano especial, que unia simplicidade, muita cultura e um amor incondicional pelos livros e pela gente humilde, não à toa que seu grande mestre na literatura era Lima Barreto.

Mantivemos o contato, seja por telefone ou ao vivo, pois chegamos a trabalhar juntos dois anos depois no jornal “Tribuna da Imprensa”, ele como cronista. Numa das últimas ligações, em 1996, João me pediu para comprar edições antigas de livros dele, que naquele momento eu já conhecia e me apaixonara, me familiarizando com vários personagens ´viradores´ das noites, como Malagueta, Perus e Bacanaço, Paulinho Perna Torta, Meninão do Caixote e Joãozinho da Babilônia. Comprei uns cinco livros em sebos do centro da cidade e marcamos o encontro no apartamento dele, na praça Serzedelo Correia, em Copacabana (bairro sempre presente na sua obra).

Era a minha primeira visita. João morava sozinho e o que me chamou logo a atenção foi a quantidade de móveis antigos e pesadões no amplo apartamento, o que me passou uma sensação de melancolia. Obviamente, conversamos bastante. Mostrei uma crônica, que ele leu e gostou, e depois fomos tomar um café na praça. Antes, ele quis me pagar pelos livros, o que recusei. Em troca, me presenteou com uma edição de “Patuléia – “, coletânea de contos seus lançada há pouco tempo pela editora Ática. Dizia a dedicatória: “Ao André Luis Mansur, que se interessa pelas coisas brasileiras. Um abraço do João Antônio. Copacabana, 1º de agosto de 1996".

Conversamos mais um pouco e fui para casa, mas um pouco preocupado devido a um acesso de espirros que ele teve e que me disse não ser nada demais. Eu trabalhava na rádio Brasil, da LBV, como redator. Dois meses depois, com uma profunda tristeza, redigi a notícia da morte do escritor João Antônio, um dos grandes nomes da literatura brasileira contemporânea, encontrado morto em seu apartamento em Copacabana após passar mal. Nem preciso dizer que guardo o livro com a dedicatória entre os meus bens literários mais valiosos, uma despedida sem dizer adeus.

Pedra de Guaratiba, 11 de março de 2010, um pouco depois do pôr do sol.

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3.01.2010

RIOS ANTIGOS


Um dos principais sintomas da degradação ambiental de uma cidade ocorre quando seus rios passam a ser chamados de valões. Aqui no Rio de Janeiro isso ocorre em todos os bairros e o mais irônico é que a cidade carrega um rio no nome, conseqüência do equívoco dos primeiros navegantes, que, ao chegarem aqui em 1º de janeiro de 1502, confundiram a Baía de Guanabara com a foz de um grande rio. Como estávamos em janeiro, Rio de Janeiro.

Já o rio que deu nome aos nascidos na cidade, o Carioca, é hoje quase totalmente canalizado. Tem apenas um pequeno trecho visível no Largo do Boticário, no Cosme Velho, e desemboca de forma muito mal-cheirosa na Praia do Flamengo. Era às margens dele que o fidalgo português Martim Afonso de Souza morava, em 1531, numa casa de pedra, origem do termo cari-oca, dado pelos indígenas e que significa ´casa de branco´.

Apesar da lastimável situação atual, os rios antigos já foram o principal meio de transporte desta cidade, já que as poucas trilhas que existiam eram perigosas e cheias de obstáculos. Assim, rios como o Maracanã, o Comprido, o Carioca, o Andaraí, o Piraquê, o Meriti, o Piraquara, o Guandu e tantos outros foram responsáveis pela maior parte da movimentação de cargas e passageiros da cidade por muito tempo, sempre atrelados a ancoradouros e portos que já não existem, como os de Irajá e Maria Angu, fundamentais para o escoamento de boa parte da produção agrícola do subúrbio carioca.

Destes tempos de grande importância para o desenvolvimento da cidade só ficaram mesmo os nomes dos rios - boa parte subterrâneos - e os que não passaram por este processo ficam expostos a todo tipo de degradação, não apenas do esgoto jogado in natura nas suas águas, que nascem limpas e cristalinas nas serras, mas também à falta de educação dos moradores próximos que jogam todo tipo de porcaria em suas águas, de sacos plásticos a cadeiras, sofás e até geladeiras velhas. Um projeto que deu certo aqui na cidade é o dos ´guardiões dos rios´, realizado por pessoas que recebem um salário para não apenas manter o leito do rio sempre limpo mas também as margens. O trabalho recebe o apoio de jardineiros, também da prefeitura, que estão transformando alguns rios em verdadeiras alamedas, com plantas e árvores bem diversificadas. Vendo o trabalho bem feito e o cuidado com que o rio é tratado, a quantidade de lixo jogada neles depois que o projeto começou diminuiu consideravelmente.

Mas fica aqui uma sugestão, que já compartilho com alguns amigos: por que não chamar o rio pelo nome? Nos mapas da prefeitura, é fácil identifica-los e alguns têm até plaquinhas. Não que isso vá lá mudar muita coisa, mas só de não chamá-los de valão, nome que simboliza sujeira e podridão, quem sabe eles não passem a ser mais respeitados? Afinal, não dizem que o sujeito só passa a existir quando é batizado?
Eu não sei não, mas depois que passamos a chamar o rio perto da minha casa pelo nome dele, Cabuçu-mirim, afluente do Cabuçu, que desemboca no Piraquê e deságua na Baía de Sepetiba (este poderia ser o seu ´nome completo), já percebi que duas garças aparecem por lá todas as manhãs e ficam se refestelando num banco de areia que surgiu milagrosamente no meio do rio.

* Imagem atual do Rio Carioca, na altura do Largo do Boticário.

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2.19.2010

ENFIM, O RÉVEILLON


Já está mais do que na hora de transferirem a queima de fogos do réveillon para a quarta-feira de cinzas.

Não sei se isso acontece em outros lugares, mas o Brasil deve ser o único país do mundo que tem dois inícios de ano, o oficial, no dia 1º de janeiro, com a mundialmente famosa queima de fogos na praia de Copacabana, e o que realmente funciona na prática, ou seja, depois do Carnaval.

Por mais que você não goste da festa momesca, não adianta. Do "início de ano" até a quarta-feira de cinzas, nem tente desenvolver qualquer projeto profissional, não adianta querer reformar a casa, comprar carro ou bicicleta, publicar livro, lançar disco e, acredito, não adianta nem tentar iniciar um namoro. Casar então, de jeito nenhum. A frase que mais se ouve neste período de pré-tudo é a acomodada e preguiçosa “ah, deixa isso pra depois do Carnaval...” Ou então: “Pô, cara, não esquenta a cabeça com isso agora não, depois do Carnaval tu vai ver, tudo vai se resolver”. Ou, mais ainda. “Meu irmão, faz o seguinte (com a mão no ombro): me procura depois do Carnaval. Até lá, não quero pensar em nada”.

Se isso é bom ou ruim, é difícil responder. Só sei que no Brasil o ano de fato só tem dez meses e é desta forma que devemos nos programar para não pintar a frustração. Até o final de fevereiro, devemos apenas embalar as rotinas de forma cômoda e despreocupante para só após o Rei Momo devolver a chave ao que sobrou da cidade fazermos um planejamento do ano que realmente começa.

Por isso, sugiro aqui a transferência, válida em todo o território nacional, da tradicional queima de fogos do réveillon para a quarta-feira de cinzas, até porque após os fogos só sobram cinzas mesmo e aí teríamos um simbolismo muito mais forte. Dezembro, janeiro e fevereiro são meses em que já estamos mesmo à meia-bomba, quase sempre com a bateria descarregada após um ano inteiro de atividades, e nada se aproxima mais de uma catarse, de uma "Fênix ressurgindo das cinzas" (olhas elas aí de novo), do que o Carnaval, quando mesmo quem não curte a festa tem a nítida impressão de que algo se foi e que agora é a hora - seja lá do que for.

Está dada a sugestão. E depois pensamos na Copa do Mundo e nas eleições, que aí já é outro papo.

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11.30.2009

OS VERDES ANOS


Sempre que volto ao meu bairro de infância, retomo minha crença na máquina do tempo.

Quase não vou ao meu bairro de infância. Além das recordações boas e más que surgem na minha frente (mesmo sem estarem fisicamente na minha frente), o que sempre me chama a atenção é encontrar as mesmas pessoas que faziam parte desta mesma infância fazendo exatamente a mesma coisa. E do mesmo jeito.

Ainda está lá o depósito de doces onde me empanturrava de guloseimas e, não há como negar, causa maior dos diversos problemas odontológicos que tive na vida adulta. O letreiro ainda é o mesmo de 30 anos atrás, a disposição das bancadas também, e o mais incrível: os três funcionários, sempre gentis e atenciosos, também estão lá, apenas com o acréscimo de outro, mais jovem. Só faltou mesmo a bancada que ficava na frente com os pacotinhos de K-Suco, ideais para visitas inesperadas e com os quais fazíamos saborosos picolés nas compotas de cubos de gelo.

Embora hoje não ligue mais para doces (para sorte dos meus dentes), outro dia não resisti: entrei na loja, caminhei um pouco lá dentro, como se estivesse a escolher algo, e comprei alguma bobagem qualquer. Na hora de pagar, dei uma rápida, porém significativa, olhada no perfil dos funcionários. Eles não me reconheceram, e nem poderiam. Afinal, quando moleque, acho que nunca trocamos mais do que algumas palavras. Melhor assim, pois uma conversa banal, do tipo "e aí, quanto tempo, hein?", "está fazendo o quê?", "e seus pais?", "engordou, hein"? tiraria toda a magia do momento, que prosseguiu com um passeio, aqui e ali um reencontro, outros personagens marcantes, como o dono da banca de jornal, onde comprava muitas revistas em quadrinhos, o ponto final do ônibus em frente à minha casa, o barbeiro, com cadeira americana (e onde ainda corto o cabelo) e a mendiga Rubenita, já pela casa dos 60 e tantos, prova viva de que os anticorpos realmente protegem os que vivem nas ruas.

Quando me deparo fisicamente com lugares e personagens vivos de algum lugar do passado, percebo que a máquina do tempo é uma invenção totalmente possível de se realizar apenas na memória. Tudo atinge uma outra dimensão, que pode ser agradável ou frustante. Se somos felizes, se conseguimos concretizar pelo menos parte do que planejamos ou sonhamos, este pequeno regresso não deve nos afetar, pelo menos assim acredito. Mas se levamos uma vida frustrante, a falar coisas do tipo "pô, tive tanto tempo pra escolher o que fazer", aí a melancolia assume o papel de protagonista, forçando a busca por uma conjunção tempo-espaço qualquer - um caminho, uma fresta onde dê para interferir nas escolhas que fizemos nos "verdes anos", como diria José Lins do Rego, um autor que fez das memórias da infância passada no engenho do avô matéria-prima para alguns de seus melhores romances.

A impressão que tenho nestas viagens ao bairro de infância às vezes é tão real que chego a acreditar que, ao virar a esquina, ainda vou encontrar a mim mesmo, andando de biciclieta monark-monareta verde, jogando bola na rua de paralelepípedos ao meio-dia (e arrebentando o dedão, às vezes), ou entrando no jatão, o brinquedo mais popular do parque IV centenário.

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11.10.2009

MANUTENÇÃO DE AMIZADE


Muitos amigos de infância acabam virando, assim como a Itabira de Drummond, um quadro na parede.

Assim como existe para carros e bicicletas, deveria haver uma oficina para manutenção de amizades. Até os 18 anos, acreditamos que os nossos amigos serão eternos. Compartilham da nossa vida de forma tão profunda que não podemos sequer imaginar a possibilidade de que um dia se transformem em ´estranhos e indiferentes´, aquela pessoa que você encontra na rua, fica meio sem jeito por não ter o que falar e termina a conversa com o sempre inócuo ´vamos marcar´.

Mas, infelizmente, é o que muitas vezes acontece. Claro, muitos permanecem ao nosso lado, alguns conseguem inclusive a proeza de estender a amizade entre os filhos, transferindo a afinidade e afeição mútuas para as respectivas famílias. Estes são casos mais raros. Na maioria das vezes, quando chegamos aos 20 e poucos anos, quando terminamos os estudos, começamos a trabalhar, nos mudamos da rua da infância, enfim, seguimos nosso próprio caminho, acabamos deixando muita coisa para trás, inclusive os amigos (até então) inseparáveis. Novos amigos surgem, no entanto, aos 30, aos 40, aos 50, até no fim da vida, quando, muitas vezes, numa situação grave como uma doença terminal a pessoa descobre uma amizade que até então se mantinha discreta, mas que naquele momento derradeiro se revelou com uma entrega e uma generosidade emocionantes.

Hoje, com as ferramentas virtuais de relacionamento social, como o orkut, por exemplo, acabamos encontrando com mais facilidade muitos amigos de infância. Entrando, por exemplo, na comunidade daquela escola pública onde fizemos o antigo primário, vemos aqui e ali alguma fisionomias conhecidas e pronto, um primeiro contato, muitas recordações, um encontro (real) e todo aquele mundo que se julgava perdido reaparece. Aí podem acontecer três coisas: aquela amizade reaparece, com cores e formas novas; um novo tipo de amizade se forma, quase sem nada a ver com o passado, ou, o mais melancólico, descobrimos que os outrora amigos eternos não foram nada mais do que ´amigos de infância´. E aí vamos manter um contato mais frio e distante, como colegas comuns.

Tem gente que prefere sequer pensar na possibilidade de voltar a ver a turma antiga, está tão feliz com a vida que leva que uma volta ao passado traria tintas de melancolias e tristeza incompatíveis com o estado atual. Outros já se animam, organizam almoços, encontros em boates, as tais ´reuniões de confraternização´, que muitas vezes provocam decepção pelo estado físico dos presentes.

Mas assim é a vida, ´é bonita, e é bonita´, como diria Gonzaguinha, um sujeito que deixou muitas amizades, antigas, presentes e futuras.


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10.05.2009

A CARROÇA DO SEU DAMÁZIO


Toda família tem alguém assim, mesmo que escondido

Além dos bondes, o outro meio de transporte importante da zona rural carioca até a maior parte do século XX era o veículo de tração animal, mais conhecido como carroça. E para quem acha rigorosas as normas dos departamentos de trânsito impostas aos motoristas hoje, é interessante estudar o caso de Florêncio Antônio Damázio, examinado e aprovado em 26 de junho de 1927 pela Inspectoria de Vehiculos do Rio de Janeiro, antiga capital federal, a “dirigir carroça de Fiador a dois muares”.

Aos 53 anos, residente à antiga Estrada Real de Santa Cruz, nº 2735, na altura do atual bairro de Augusto Vasconcelos, Florêncio precisava seguir uma rígida cartilha denominada “Obrigações dos conductores de vehiculos”. Eram 14 as obrigações, algumas delas divididas em itens, como a XI, que recomendava, entre outras coisas (respeitada a grafia da época), “tratar com polidez os passageiros”; não fazer correrias na via pública, para angariar passageiros” e “não promover ajuntamento nem fazer assuada e vozeria nas ruas e praças”.

No item XI, também está a ordem de “dirigir os animais sem castigos bárbaros, ou immoderados” e no XIV “não dar fuga a criminosos de qualquer espécie no acto de serem perseguidos pela polícia ou pelo clamor público” - o tradicional “Ladrão, ladrão”, ainda muito ouvido em correrias desabaladas pelo centro da cidade. Como o Rio era a capital da República, não podia faltar a norma que mandava “parar o vehiculo para dar passagem ao carro do Presidente da República, em qualquer occasião”, além de várias sobre a passagem dos bondes, como a que manda “retirar o vehiculo de cima da linha dos bonds ao primeiro signal do motorneiro”.

Outro retrato bem claro da época é a norma que manda o condutor “não cortar os cortejos fúnebres, quer compostos de outros vehiculos, quer de pedestres, nem formaturas ou préstitos”, uma lei que só poderia existir mesmo numa época em que as pessoas ainda velavam os corpos em casa, com bebida, comida e música e depois o levavam de bonde, ou a pé, até o cemitério.

É interessante observar que o regulamento imposto aos condutores de carroça como Florêncio Damázio só era rigoroso porque o trânsito selvagem, apesar de muitos acharem o contrário, parece não ser uma invenção recente, mas apenas se aprimorou com a maior quantidade de carros, cada vez mais velozes. Se a coisa fosse tão tranqüila naquela época, não seria necessário uma regulamentação tão severa, afinal, a lei vem sempre a reboque do que está errado. Aliás, basta ver alguns filmes mudos de comédia dos anos 20 para ver o que era possível fazer com um bom calhambeque em termos de barbeiragem.

Embora todas estas normas aplicadas às "carroças de fiador a dois muares" tenham o seu lado pitoresco, principalmente quando comparadas aos dias de hoje, o que realmente mais me chama a atenção na história de Florêncio Damázio é a sua conduta irreprensível no trabalho, tanto que recebeu um elogio registrado na carteira “por não ter commetido infração alguma durante o anno de 1927”. Quando seu neto, Luiz Damázio, me mostrou os documentos, com um indisfarçável orgulho do avô, tive a certeza de que Florêncio faz parte daquela categoria de pessoas que todos nós temos na família, mesmo que seja uma só, meio esquecida, e morando longe. São figuras de honestidade inabalável e a chamada conduta reta diante da vida. No meu caso, guardo até hoje um recorte do jornal “O Globo” dos anos 50 em que meu pai, então motorista de táxi, virou notícia ao devolver na delegacia uma bolsa cheia de jóias valiosas de uma passageira que descera em Copacabana.

Geralmente pessoas assim acabam se tornando uma referência ética na família e na vizinhança, principalmente para quem passa pela (ufa, graças a Deus já vão longe) infância e adolescência: as questões éticas. “Devolve isso que não é teu”, “vai lá e pede desculpas”, “nunca aceita nada de ninguém na rua”, “pelo menos ninguém vai te acusar de nada” etc etc, frases que, soltas em momentos adequados, podem marcar uma personalidade - claro, se ouvidas e aplicadas, caso contrário, passam a fazer parte das famosas "palavras ao vento".

Afinal, até hoje, mais de 80 anos depois de Florêncio Damázio conduzir impecalvelmente sua carroça pelas ruas do Rio de Janeiro, quem é honesto ainda costuma virar notícia.

9.26.2009

TV ZONA OESTE - CAMPO GRANDE - RIO DE JANEIRO

Quem puder, dê uma olhadinha nesta entrevista que dei sobre o meu livro "O Velho Oeste Carioca" para a TV Zona Oeste. Abraços a todos.

http://www.tvzo.com.br/videos/andremansur/index.htm

9.21.2009

OS ÓRFÃOS DE BIBLIOTECA



Sempre eleito, e com justiça, o melhor do Rio de Janeiro, o Centro Cultural Banco do Brasil, também conhecido como CCBB, completa 20 anos de atividades ininterruptas agora em outubro. Confesso que o frequento desde o primeiro mês e os motivos são estes: conforto, segurança, programação e preço (quando há). O prédio da rua 1º de Março, 66, no centro da cidade, foi construído no início do século XX e abriga salas de exposição, de vídeo, cinema, teatro, livraria, restaurante e uma biblioteca, tema deste texto. A programação, renovada mensalmente, é de ótima qualidade, as exposições e a sala de vídeo são gratuitas, o ingresso do cinema custa seis reais e o do teatro dez. Além disso, há sempre eventos importantes, como o Anima Mundi, e todos os dias são realizadas visitas escolares com auxílio de monitores atenciosos e bem-informados sobre os eventos.

A biblioteca do CCBB é uma jóia rara (jóia com acento mesmo, pois jóia sem acento para mim parece falsificada). Ninguém te perturba quando você entra, não pedem documentos, não tem crachá, você mesmo manuseia os livros, aliás, uma infinidade deles e dos mais variados assuntos, sem contar as dezenas de revistas, semanais, mensais, bimestrais etc. A sala de leitura é ampla e confortável, com vista para a Baía de Guanabara, (que de longe, sem o odor característico, é belíssima) as poltronas são confortáveis e as mesas grandes, tanto que muita gente vai só para tirar um cochilo, às vezes em cima de um livro mais volumoso como travesseiro. O silêncio é total, os banheiros são limpíssimos e os funcionários educados e, assim como os monitores, atenciosos.

Pois não é que há duas semanas, ao adentrar o elevador que é uma verdadeira obra de arte e pedir à ascensorista “quinto andar, por favor”, como faço há 20 anos, ela me diz, de forma calma e pausada: “A biblioteca está fechada para obras”. Alguns segundo depois, digeri, ainda meio atônito, a informação e percebi o que ela me dizia: faltando um mês para o aniversário de 20 anos do CCBB, a biblioteca, um lugar visitado por milhares de pessoas todo mês, fecharia para obras. Depois do baque, tive que arrumar outro lugar para botar a mochila e dei umas voltas pela Praça XV, num sol ameno de inverno, até chegar às barcas. Fiquei olhando a Baía, desta vez mais de perto e, de tão atordoado que estava, nem percebi o odor característico. Foi aí que entendi o que era um órfão de biblioteca.

Para quem é apaixonado por livros, a biblioteca é como se fosse um santuário, um espaço místico onde você vai compartilhar o seu gosto com pessoas afins. Quem é muito religioso precisa ir ao templo, estar com os que comungam da mesma fé, até para a direcionarem melhor e também para resolverem problemas práticos do grupo. Entre os leitores é a mesma coisa. Ler em casa sozinho é muito bom, não resta dúvida, mas ir a uma biblioteca gera uma sensação de irmandade, pois muitas vezes você está em casa mas os vizinhos começam uma discussão, os carros lá fora passam roncando o motor (isso quando não é o da pamonha), alguém liga uma televisão ou o rádio, enfim, os ruídos em volta não comungam do seu prazer, do seu gosto.

Na biblioteca não. Mesmo que alguns cochilem e ronquem um pouco, mesmo que um celular toque de vez em quando, que alguns leiam apenas por prazer e outros por obrigação, todos ali obecedem à mesma fé, digamos assim. E a companhia dos livros, milhares deles, de autores que já se foram desta vida, mas que permanecem ali, como uma vingança da arte contra a morte (queria lembrar de quem é esta frase), nos dão uma sensação de segurança e tranquilidade que outro lugar não oferece.

A biblioteca é o espaço democrático por excelência, ninguém te discrimina ou te impede de entrar por não estar com ´a roupa ou o penteado´ inadequado. Até quem não tem onde morar pode chegar lá, compartilhar do ar-condicionado, beber uma água gelada e se manter informado pelas revistas. Quando estou numa biblioteca e percebo o fascínio que a leitura é capaz de provocar é que tenho a certeza absoluta de que o Brasil só dará um salto na educação quando os estudantes adquirirem o vício da leitura, o único vício saudável que conheço, e cada lugar tiver uma minibiblioteca, que seja de 20 livros, mas disponível a qualquer um, que seja numa loja de ferragens, mas que o sujeito acabe instigado a ler alguma coisa enquanto o mecânico faz o alinhamento do carro.

Já que falei tanto em fé, felizmente acredito que as orações dos órfãos do CCBB foram ouvidas e a direção do Centro Cultural resolveu, quando já havia, inclusive, terminado este texto, adiar o fechamento da biblioteca para 2010. Uma notícia e tanto, principalmente para quem estava com pesquisas em andamento, mas sem dúvida uma decisão das mais corretas para o próprio CCBB, que hoje também existe em São Paulo e em Brasília e não deveria comemorar seu aniversário com um de seus espaços mais privilegiados fechado.

8.24.2009

DOM QUIXOTE E A SÍNDROME DO NÃO LIDO


Terminei de ler o quarto e último volume de “Dom Quixote de la Mancha”, de Miguel de Cervantes, às 17h30 do dia 11 de agosto do ano corrente, oito dias após completar 40 anos de idade. Sem dúvida, as informações contidas neste primeiro parágrafo não interessam a nenhum ser humano da face da terra a não ser àquele que as escreve, mas o que direi a seguir talvez provoque uma identificação e um interesse maiores.

Digo isso porque chega um momento da vida em que percebemos que não conseguiremos ler nem um décimo dos livros que gostaríamos, o mesmo valendo para filmes, shows, discos, exposições, viagens etc. E o que isso quer dizer? Quer dizer que a ´síndrome do não lido´, ou ´não feito´, pode gerar uma grande frustração, principalmente para quem passa dos 40.

O ideal me parece que é ir aceitando o que deu para conseguir e a partir daí planejar, sem nenhuma obrigação de êxito, os próximos passos. Ler “Dom Quixote” para mim era uma necessidade por ser jornalista e escritor, afinal, foi o livro que praticamente inaugurou o romance ocidental como o conhecemos. Agora, quando irei encarar “Guerra e paz” (já tinha lido um terço quando o exemplar da biblioteca sumiu), “Em busca do tempo perdido”, “Os sertões” e “A montanha mágica” só Deus sabe. Hoje isso não me incomoda nem um pouco, mas quando temos 20 anos muitas vezes achamos que dá para fazer tudo e até perdemos um pouco do prazer que a absorção da cultura pode proporcionar, caindo na armadilha da quantificação, de nos preocuparmos apenas em “estar por dentro de tudo”, em conhecer todos os clássicos, nem que seja “de orelhada”, apenas para não passar vergonha diante de uma reuniãozinha social.

Bem, confesso que não tenho o menor pudor em dizer que nunca li José Saramago ou Guimarães Rosa. O primeiro até tentei, mas era um livro sem pontuação e me cansou; o segundo, ainda vou ler um dia. Ou não. Mas “Quincas Borba”, de Machado de Assis, já li três vezes, e isso vale para outra reflexão. Quando o tempo se torna mais precioso (e você só percebe isso quando vai ficando mais velho), passamos a hesitar diante do desconhecido. Entre ver um filme que se não gostar vou perder duas horas da minha vida, acabo optando por rever “Cantando na Chuva” ou “Casablanca”, cujo prazer, pelo menos para mim, é garantido.

A julgar pelo progressivo aumento da expectativa de vida, é bem provável que um dia alcancemos a eternidade e não morramos mais de "susto, bala ou vício", como diria Caetano. E aí tudo o que falei aqui perderá o sentido. Qualquer um vai poder se programar com calma para ler a gigantesca "Comédia da vida humana", de Balzac, ou dar a volta ao mundo de bicicleta.

Mas isso ainda deve demorar um pouquinho, por isso o jeito é tentar recomeçar "Guerra e paz".

7.23.2009

LULA, SARNEY E COLLOR...20 ANOS ATRÁS



Youtube (www.youtube.com) é hoje o site de vídeos mais popular da Internet e o que mais me fascina nele é a possibilidade de ver vídeos antigos, cenas de filmes, séries, novelas, propagandas, gols, shows etc. Um mundo audiovisual surpreendente que possibilita, a qualquer um, o estabelecimento de uma memória afetiva das mais ricas para uma geração que já nasceu ligada na televisão, mesmo que fosse em preto e branco, sem controle remoto e com botões de horizontal e vertical.

Quanta gente já não assistiu a um vídeo no youtube e o relacionou a algo importante, feliz ou triste, da sua vida, desdobrando uma corrente de lembranças que seria praticamente impossível sem esse ponto de partida? Proust já explicava este processo, ainda bem antes da linguagem virtual, na sua grande obra “Em busca do tempo perdido”.

No caso da política, o youtube nos presta um outro serviço, essencial para o processo democrático: mostrar o que os políticos pensavam, diziam e faziam em priscas eras, comparando com o que são hoje. Não é mais uma questão de escavar arquivos empoeirados de jornal, está ali a imagem viva, nua, crua e colorida para quem quiser. E um que me chamou muito a atenção foi a do debate entre Lula e Collor na eleição presidencial de 1989, mediado por Alexandre Garcia (o nome do vídeo é Debate: Collor x Lula (1989) - 2 de 2). Naquele momento, Lula liderava as pesquisas de opinião e era a esperança de milhões de brasileiros que sonhavam com a ética na política, a principal bandeira do candidato e do Partido dos Trabalhadores, o único partido que não precisava pagar militantes, voluntários que acreditavam ser a estrela vermelha do PT um oásis em meio ao deserto de conchavos, corrupção e apadrinhamentos da política brasileira.

José Sarney era o presidente da República. Desgastado com uma inflação de 80% ao mês e responsável maior pelo embuste eleitoral que foi o Plano Cruzado, nenhum dos candidatos queria associar sua imagem ao presidente. Num determinado momento do debate, perto do final, Collor pergunta ao "outro candidato", como ele se referia a Lula: "Eu gostaria de saber como é que ele recebe, e como é que ele se sente, recebendo o apoio para a sua candidatura do senhor José Sarney e do senhor Moreira Franco, governador do Rio de Janeiro".

E Lula, que hoje, de barbas e cabelos grisalhos e bem penteados, bem diferentes da época, e defendendo com unhas de dentes Sarney, atual presidente do Senado e envolvido no escândalo dos atos secretos, respondeu, entre outras coisas: "Pouca gente neste país brigou contra o Sarney como eu briguei" e "Eu espero que (o presidente José Sarney) vote corretamente, depois de tantos males que causou ao Brasil".

Mais não precisa ser dito, basta a imagem da semana passada, em que Lula e Collor aparecem fortemente abraçados, como se fossem amigos de longa data. Na política já disseram que tudo se esquece, mas pelo menos está aí o youtube para nos lembrar.

7.13.2009

REMINISCÊNCIAS (VI): DISQUETE E CONEXÃO DISCADA


Quem diria? O disquete já virou peça de museu.

Pois é, aquele pequeno objeto quadrado, capaz de armazenar uma certa quantidade de informações, já nem pode ser usado nos novos computadores, que não apresentam o compartimento para o seu uso, o chamado ´drive´. Quando alguém introduz o disquete em computadores mais velhos, numa lan-house, por exemplo, o barulhinho característico da operação chama logo a atenção de quem está por perto. São inevitáveis os bochichos, comentários, sussurros e risinhos contidos de uma geração que não tem tempo sequer de se apegar aos pequenos utensílios do dia a dia. O próprio CD-Rom, coitado, que armazena uma quantidade maior de informações, também já é bem pouco usado, e o pen-drive, que ainda está na moda, provavelmente irá pelo mesmo caminho, tal a velocidade das mudanças.

E a conexão discada? Com a expansão da internet e a melhoria da sua qualidade, a ´grande rede´ está chegando aos mais distantes lugares. Gente que nem tem computador em casa consegue acessar a web em lan-houses por um ou dois reais a hora com banda larga, o que permite ao usuário ver fotos, baixar vídeos, ouvir músicas, participar de joguinhos superincrementados etc. Mas há bem poucos anos a maior parte da conexão era discada, com aquele ruído característico e irritante. De segunda a sexta, ainda era possível se conectar rápido, mas nos fins de semana e feriados, com muita gente em casa, a conexão era um suplício e a mensagem “tente novamente mais tarde” era o prenúncio de uma longa espera. Muita gente deixava o discador no automático e ia fazer outras coisas. Alguns até almoçavam, faziam a siesta e quando voltavam...nada. Quando conectava, era uma festa, quase com direito a fogos, mas muitas vezes não demorava e caía de novo. E nada de baixar arquivos pesados, como fotos ou vídeoS, que aí era bem pior.

Dentro desta temática, uma atividade bastante divertida hoje é folhear revistas de informática dos anos 90, que muito se assemelham a papiros manuseados apenas por paleontólogos. Pois que outro nome poderíamos dar a um ´computador´ 286 senão de dinossauro? E as previsões dos ´especialistas´ sobre a capacidade de armazenagem, que não chegavam sequer perto da metade da metade dos computadores atuais e seus ´gigamegas´ de memória paquidérmica?

Mas acredito fielmente que em cinco ou dez anos no máximo é bem provável que alguém leia este artigo de forma bastante irônica, fazendo comentários do tipo: ‘ih, os caras ainda usavam mouse´, ´caramba, o pessoal ainda precisava de teclado pra mandar mensagem´ ou...´pra que eles precisavam de modem pra acessar a internet´? Enfim, o jeito é tentar acompanhar o ritmo das mudanças, ou ´chutar o balde´ e voltar a enviar sinais de fumaça e pombos-correio.

6.15.2009

CAMARÃO!


Sempre achei que o brasileiro só se unia em Copa do Mundo, mas depois do que vi no centro do Rio de Janeiro outro dia mudei de idéia.

Vinha eu flanando numa bela tarde de quarta-feira pela rua do Rosário quando ouvi o burburinho à frente, uma agitação no ar e algumas pessoas gritando. Pensei logo em confusão, assalto ou algo assim, mas havia um carro da polícia e o policial estava tranquilamente encostado nele e rindo um pouco. Todos olhavam em direção à rua Uruguaiana, inclusive os que gritavam bem alto a palavra que eu já podia identificar: “Camarão!” Fui andando mais um pouco e não consegui perceber o motivo da agitação, que se propagava pelas lojas e pelos transeuntes, como se todos já soubessem a senha e também gritassem: “Camarão!”, algumas vezes seguida dos epítetos nada lisonjeiros de “Corno!” e “Chifrudo”!

Foi ao me aproximar da esquina com a Uruguaiana que, enfim, cheguei ao motivo da balbúrdia. Um homem de uns 50 anos, baixo, mais ou menos forte, todo arrumado (com camisa social para dentro da calça), carregando uma pastinha e com cara de invocado. O sujeito esbravejava, jogava os braços para o alto e fazia xingamentos em direção à turba, sendo que o mais leve era “É a mãe!”.

Achei que a coisa iria parar ali, seria mais uma provocação dessas que às vezes encontramos em centros urbanos, dirigidas principalmente a pessoas excêntricas e que respondem aos desaforos. Mas não, a coisa continuou. Entrei na Uruguaiana, bem perto do tal sujeito, e o mais incrível é que no novo espaço outras pessoas continuavam os impropérios, como se fosse realmente combinado. Porteiros, camelôs, transeuntes, vendedores, que iam à frente da loja, botavam a mão em forma de concha ao lado da boca, e gritavam, bem alto: “Camarão!”, “Corno!”, para depois voltarem correndo para o interior da loja, como uma brincadeira de recreio. E o sujeito seguia firme, voltando de vez em quando para xingar também de forma ríspida, vermelho como um...camarão.

Eu já o seguia bem de perto e não conseguia parar de rir com o inusitado da situação. Ao passarmos a Igreja do Rosário, a situação atingiu proporções impressionantes, pois no prédio comercial em frente as pessoas iam à janela para gritar a mesma palavra, o garçom do bar ao lado, as pessoas na mesa, o contínuo que passava de moto, a coisa continuou no mesmo ritmo no Largo de São Francisco. De vez em quando, o tal Camarão encontrava algum interlocutor solitário e esbraveja com ele, recebendo como resposta algo do tipo: “Não liga não, esse pessoal é muito bobo”, no que ele respondia, cuspindo para todos os lados: “São é uns filhos das putas! Não têm o que fazer!”. Alguém perto de mim decifrou o enigma e disse: “Ih, esse cara é corno lá no Bairro de Fátima, o pessoal vai gritando até lá”!.

Entrei na rua da Conceição e deixei o Camarão de lado, achando tudo muito engraçado, mas lamentando apenas que esse fervor solidário em torno de um objetivo, no caso, de se divertir às custas de uma pessoa raivosa, não fosse usado para outros fins, como o de, por exemplo, exercer a cidadania.

5.19.2009

NÃO SEI O QUE NEM QUERO SABER

Não sabe e não quer saber?

Tem gente que sabe
Buscando quem quer saber.

E quem quer saber
Buscando quem sabe.

Quem sabe um encontra o outro?
Outro que sabe

Não quer que ninguém saiba,
Porque se souberem
Não vão mais querer saber.

Se souberem o que ninguém sabe
Saberão porque ninguém sabe.

E os que não sabem
Ficarão sem saber.

O que se sabe
É que o que se sabe
Nem sempre é o que se deveria saber,

E o que se deveria saber
Nem sempre se sabe ao certo.

O que ninguém sabe, no entanto,
É o quanto se sabe,
E quanto se deveria saber.

Pois, realmente, o que se sabe
É o que dizia o sábio:
“Nada sei. Só sei que quanto mais sei mais sei que menos sei”.

Portanto, não sei e nem quero saber!

VOLNER AMARAL

5.04.2009

O PRAIÃO DE SANTA LUZIA


Numa época em que o carioca sequer pensava em tomar banho de mar, o centro do Rio de Janeiro abrigava um verdadeiro praião. Hoje só existe aterro por lá e o mar apenas pode ser visto dos prédios, coisa que também não existia na época. À frente da praia, a igreja de Santa Luzia, que lhe dava o nome, construída em 1592 em terreno doado por João Pereira Lemos e sua esposa, ainda estava em sua localização original, a pouca distância da atual, que é do final do século XIX e já havia recebido duas torres e uma ampla e bem trabalhada porta.

Para se ter uma idéia de como praia era algo totalmente alheio ao estilo de vida carioca, basta dizer que a de Santa Luzia também era conhecida como Praia da Forca, devido à existência de um pelourinho nela, e também abrigava um cemitério de indigentes ao redor. Até meados do século XIX, também era o endereço do matadouro da cidade. Menos convidativo, impossível.

Na liturgia católica, Santa Luzia é a santa que protege os olhos. O príncipe-regente D. João, chegado aqui em 1808 com toda a sua Corte fugida de Napoleão, era católico da cabeça aos pés e com certeza agradeceu muito a Deus por ter chegado são e salvo à sua mais rica colônia. Foi por toda essa fé que, em 1817, o príncipe disse ao Intendente Geral Paulo Fernandes Viana que queria ir à igreja de Santa Luzia para cumprir a promessa de cura de um problema que seu neto, D. Sebastião, tivera nos olhos.

Bem, de simples o pedido de D. João não tinha nada. Qualquer movimentação sua pela cidade exigia uma grande infra-estrutura logística. Carruagens, cocheiros de fardas, cadetes na frente, lacaios atrás (com jarro d´água e goiabada), escolta, padre, jumento com criado e pinicos feitos de pura louça pintada, além de outras parafernálias, tudo tinha de ser devidamente preparado. Ou seja, mesmo que quisesse sair apenas para comprar um galetinho na esquina, D. João daria muito trabalho a muita gente.

Mas isso constituía a rotina do príncipe e precisava sempre ser feita. O pior era que o trajeto até a igreja, também chamado de Caminho da Forca, era muito estreito e não permitia a passagem da comitiva. Além disso, para piorar, a região ficava constantemente alagada.

Foi preciso então fazer uma espécie de “choque de ordem”, para usar uma expressão da moda. O estreito caminho para se chegar à igreja e à praia foi alargado, embora para isso fosse preciso derrubar o muro da chácara de d. Ana Francisca de Jesus, que recebeu uma indenização de 800 mil réis no ano seguinte. Provavelmente estava bem aquém do valor do terreno, mas não adiantava reclamar. Não havia Procon nem colunas de ´Defesa do consumidor´, haja vista a absurda lei que obrigava os donos das melhores casas da Corte a cederem suas residências por um determinado tempo aos nobres ociosos.

Depois que perdeu estas companhias indesejáveis, ainda no século XIX, a praia de Santa Luzia acabou se tornando a predileta dos clubes de regata e das casas do banho de mar, como a Charneca da lua e a Sociedade Alemã de Ginástica. O mais curioso é que as pessoas tomavam banho de mar amarradas a cordas presas em trapiches. Como se vê, ´pegar uma praia´ na época era um programa dos mais exóticos para um povo que usava trajes europeus em pleno calor tropical.

RETRATOS URBANOS


A matéria-prima da fotógrafa Elisa Gaivota é a mesma da Elisa escritora, que eu ainda irei divulgar neste espaço: a sensibilidade em perceber o sentimento e a expressão das pessoas. Como disse Evandro Teixeira: enquanto todo mundo focava o presidente para um monte de fotos iguais, eu focava o povo, na esperança do inusitado.

Algumas de suas fotos lembram os filmes do cinema novo, Gláuber e Nélson Pereira dos Santos principalmente, e não por acaso, afinal esses cineastas dirigiram suas lentes para o povo e sua intensa capacidade de expressão. Duas fotos com sorrisos, uma de uma mulher e outra de um homem, captam uma alegria intensa, que com certeza teriam uma intensidade muito menor se fossem tiradas um milésimo de segundo antes ou depois. O homem que olha para a estátua de Zumbi favorece uma múltipla leitura, de devoção, afinidade ou esperança. Ou as três juntas.

A primeira foto, do malabarismo na praça, não apenas tem o momento preciso do equilíbrio, mas também, e aí, o paradoxo, pois a foto teoricamente é uma imagem ´parada. É a mesma situação de um pintor que consegue criar movimento na tela parada. Ali gostei também da centralização do movimento, a rodinha em volta, tudo muito bem enquadrado.

A foto tirada na pista Cláudio Coutinho também me chamou a atenção pelo enquadramento, o pescador preso numa interseção que permite até uma leitura meio sensual, se formos perceber duas pernas na árvore que se debruça sobre o mar.

Escolhi apenas algumas fotos para falar, pois o principalmente aqui é dar uma opinião geral sobre o que achei da mostra, que, aliás, tem um ótimo título. Resumindo, o fotógrafo artista é aquele que não apenas registra os fatos, mas deixa uma ampla gama de possibilidades de livre interpretação, mas sempre baseadas na beleza, na percepção estética do belo, que muitas vezes surge até em meio à miséria, como nas fotos de Evandro Teixeira sobre o sertão e na foto que você faz dos meninos saindo da água poluída da Baía de Guanabara, na praça XV. Poderíamos imaginar aqueles garotos saindo da piscina de um centro esportivo, tal a alegria deles, o que gera, e aí a sua percepção do lado humano, a possibilidade de mudança da situação deles, do que ´poderia ser feito´, enfim, a foto como elemento transformador social. Engraçado que sempre vejo garotos nadando ali e imaginei que daria uma ótima foto.

A percepção do seu talento me permite dizer que você une a intuição do artista com o olhar rápido e atento do fotojornalista.

- A exposição "Retratos urbanos" estará no Centro Universitário Moacyr Sreder Bastos, no bairro de Campo Grande, entre 26 de maio e 7 de junho. E todo o trabalho da Elisa, inclusive as fotos que menciono neste texto, estão publicadas no blog dela (www.elisagaivota.blogspot.com).

4.13.2009

TIÃO VIANA E AS ORGANIZAÇÕES TABAJARA


A descoberta da astronômica conta de telefone celular da filha do senador Tião Viana (PT-AC) simboliza bem a vergonhosa “parceria-público-privada” da política brasileira. A história, já bem divulgada pela imprensa, é a seguinte: o senador emprestou o telefone celular para a filha, que numa viagem ao México gastou exatos R$ 14.758,07 com ligações, despesa esta que seria paga, como diz o Ancelmo Góis, pelo meu, o seu, o nosso dinheiro. Escândalo revelado pela imprensa, o nobre parlamentar afirmou que iria pagar a despesa do próprio bolso, como sempre acontece após a "casa arrombada".

Diante de tantos episódios absurdos de uso do dinheiro público para fins particulares que vêm sendo divulgados no Congresso, como as diversas comissões cuja única função é a de empregar apadrinhados (tem uma até para cuidar do coral do Senado), a impressão que se tem é que, com raríssimas exceções, aquele que consegue se eleger para a Câmara dos Deputados ou o Senado Federal pode estufar o peito e gritar bem alto o bordão das Organizações Tabajara, do grupo Casseta & Planeta, bastando apenas inverter o pronome: “Os meus problemas acabaram!”

Diante desta autêntica farra do dinheiro público, o sujeito que consegue se eleger para Brasília pode muito bem se assemelhar a um ganhador da loteria. Senão, vejamos: ele vai passar quatro ou seis anos ganhando um excelente salário e se aposentar em bem menos tempo que a maioria dos mortais, receberá diversas benesses, como viagens, casas confortáveis, carrões para ele e a família, direito de nomear um monte de gente e muitas outras vantagens, como o auxílio-paletó e a língua do contribuinte para colar o selo das cartas.

Acredito que o Brasil não teve uma revolução até hoje para mudar este estado de coisas porque a maioria da população vê o cargo eletivo em Brasília realmente como um prêmio da loteria. Ao invés de dizer: “Ladrões, corruptos! Precisamos tirá-los de lá!” e tomar a Bastilha do cerrado, é mais fácil sonhar acordado: “Quem sabe um dia eu não chego lá e não faço o mesmo? Vou recuperar tudo o que eles me roubaram!”

O mais triste é saber que estas denúncias são apenas a ponta do iceberg, que os ralos do dinheiro público são muitos e se espalham também pelo Executivo, Judiciário e toda a máquida do governo, só que de vez em quando a coisa vaza na imprensa, devido, principalmente ao pitoresco de casos como o destas ligações de celular ou dos cartões corporativos, usados até para comprar pamonha.

Dá para acreditar no que escreveu, de forma muito perspicaz, o correspondente do “The New York Times”, Larry Rother: “A corrupção no Brasil é endêmica”. Principalmente quando descobrimos que o gasto de telefone celular da filha de um senador poderia matar a fome de muitas famílias pobres. Mas a Copa do Mundo e as Olimpíadas vêm aí e tudo logo será esquecido.

3.16.2009

A ARTE DE LER JORNAL NA BANCA

Nunca passei por uma banca com jornais expostos que não tivesse alguém olhando. Geralmente há mais de um e por isso é preciso tomar cuidado para não ficar na frente de ninguém, principalmente se você for alto ou gordo. Caso haja muita gente, aguarde a vez para chegar perto, pois a leitura de jornal em banca não costuma levar muito tempo. O ideal é ficar numa posição em diagonal, pois é possível ler todos os jornais sem atrapalhar ninguém. É bom tomar cuidado também com a carteira, pois de vez em quando, infelizmente, aparece um ou outro que não está ali apenas com a intenção de se informar.

A leitura em banca de jornal, na verdade, é bastante limitada, pois só permite que se veja a primeira página, a chamada “página das manchetes”. Como antigamente muita gente abusava e folheava os jornais, os donos das bancas acabaram grampeando os jornais.

O leitor de bancas de jornal, embora não possa se aprofundar nas notícias (a não ser que, claro, compre o jornal) adquire, com este ofício, uma espécie de “apanhado geral” dos principais assuntos do momento. Isto é muito útil, por exemplo, em relações sociais e profissionais.

Uma figura inconveniente, no entanto, nestes ambientes, é o comentarista, que, como o próprio nome diz, se especializa em comentar as notícias com alguém. Geralmente é uma crítica em tom raivoso e que acaba atrapalhando a leitura dos outros, que para ser eficiente precisa ser dinâmica e silenciosa. Embora seja difícil identificar o comentarista, a recomendação, quando ele começar a resmungar, é procurar se manter concentrado na leitura, de preferência firmando um pouco os olhos e aproximando o rosto do jornal. Geralmente ele desiste. Há também outra figura inconveniente, que é a do egoísta, o sujeito que fica na frente dos jornais e não deixa ninguém ler, principalmente se ele for alto e gordo. Fumantes também provocam grande incômodo.

Os dias de maior movimento em torno das bancas de jornal são as segundas-feiras, por causa dos resultados do futebol de domingo, e também os dias seguintes a algum fato marcante. Embora muita gente acredite que este hábito seja prejudicial aos jornaleiros, o resultado é exatamente o contrário. Vá lá que a grande maioria apenas lê o jornal na banca e vai embora, mas muita gente acaba comprando o jornal, interessado no que viu nas manchetes. O que não se deve jamais fazer é pedir ao dono da banca para “dar uma olhadinha” num jornal porque viu algo interessante lá fora. Aí já é abuso.

Hoje, quando muitos jornais estão disponíveis na internet, acontece também de a pessoa olhar na banca algo que a interesse e ler a matéria inteira na versão online, o que é bastante prejudicial ao dono da banca, que precisa encontrar formas de se adaptar às novas tecnologias.

2.09.2009

SARNEY, O ETERNO


Apesar de já ter a imortalidade garantida por fazer parte da Academia Brasileira de Letras, o ex-presidente José Sarney parece cultivar outro tipo de "eterna permanência": o poder.

Sua trajetória política comprova isso. Vindo da Aliança Renovadora Nacional (Arena), o partido oficial do governo na época da ditadura, Sarney conseguiu fazer parte da chapa que levaria Tancredo Neves à presidência do país em 1985, numa eleição indireta. Bem, o que aconteceu todo mundo já sabe, e Sarney foi o presidente da chamada “Nova República” entre 1985 e 1990, tendo entregue a Fernando Collor de Melo um país com uma inflação média de 84% ao mês e tendo sido protagonista de um dos episódios mais folclóricos da recente História política brasileira, que foi a picareta arremessada contra o ônibus dele, no centro do Rio de Janeiro.

Recém-eleito presidente do Senado pela terceira vez, José Sarney é uma espécie de eminência parda do governo Lula, que em outras épocas era seu ferrenho adversário, embora em política a amnésia seja um dos atributos essenciais para o sucesso e a sobrevivência. Lula, como político experiente que é, sabe que uma figura como Sarney é imprescindível para a articulação política no Legislativo.

O ex-presidente, com sua fala mansa, seu jeito conciliador, sua vasta experiência na política e na vida e seu profundo conhecimento dos dispositivos internos e da burocracia do Congresso, fundamentais para o governo que quer aprovar um projeto – principalmente se estiver com pressa - representa a figura do trabalhador que já está há muito tempo na empresa e que precisa ser respeitado por quem entra agora, pois conhece todos os atalhos tanto para ajudar como para derrubar. Citando uma tirada filosófica de Romário, Sarney impõe respeito àquele que entra no ônibus agora e já quer sentar na janela.

Aliás, o PMDB, partido de Sarney (que na “infância”, quando se chamava MDB, era oposição à Arena, partido de Sarney), cumpre com perfeição este tipo de política na esfera federal. Nunca lança candidato à presidência (o ex-governador do Rio Anthony Garotinho entendeu isso de forma clara) mas sem ele ninguém governa. Ainda mais agora, que também elegeu Michel Temer para a presidência da Câmara.

Nunca li um livro de Sarney, por isso não posso julgar sua verve literária, mas se um dia ele vier a escrever suas memórias, com certeza elas serão indispensáveis a qualquer um que se interesse por política, independentemente de partido ou ideologia. Posso até sugerir o título: "Políticos e picaretas".

2.03.2009

OS PINGOS DOS IS


Falaram tanto do trema, mas a reforma que pretende unificar a língua portuguesa custou muito tempo e dinheiro e não eliminou o mais inútil dos sinais – tanto daqui como d´além mar.

Há quem defenda e quem condene a reforma, sendo que o segundo grupo me parece ser bem maior, a julgar pelos comentários que tenho ouvido. Mas acontece que ela está aí, aprovada e aos poucos sendo adotada em veículos de comunicação. O prazo para a completa adaptação é bem longo, até 2012. Depois disso não tem jeito: quem não escrever do novo jeito vai...bem, não vai acontecer nada, pois até hoje são raros os que dominam completamente todas aquelas inúmeras regrinhas de ortografia e acentuação, incluindo aí as terríveis exceções da regra.

Um exemplo é o hífen. Se suas normas de aplicação já eram mais misteriosas do que letra de médico, imagine agora. Vai ser preciso, enfim, estudar as regras antigas apenas para negá-las depois, quase um exercício de masoquismo gramatical. Mas diante de tantas mudanças, foi estranho perceber a permanência daquele que é, a meu ver, o símbolo mais inútil da língua portuguesa: o pingo do i e do j. Afinal, para que ele serve? Ele me lembra aquele sujeito que quando falta ao trabalho ninguém nota e por isso faz questão de chegar cedo, falar com todo mundo e mostrar presença, só para não perceberem sua inutilidade.

Assim é com o pingo. Por algum motivo, ele continua presente com a nova reforma ortográfica. Será que é possível pensarmos em alguma espécie de lobby político-linguístico para a sua permanência, enquanto o pobre do trema foi excluído, com todas as letras, da língua portuguesa? Bem ou mal, ele tinha lá a sua função, nem sempre bem entendida, mas útil. Imagine se daqui a algum tempo as pessoas começarem a falar cinkenta em vez de cinqüenta?

A única vantagem do pingo parece ter sido a de dar origem a uma expressão bastante usada até há algum tempo, “vamos colocar os pingos nos is”, quando alguém queria explicar algo de forma convincente. A julgar pelas dúvidas que a reforma está provocando, principalmente em relação aos já citados hífens, esta expressão continua me parecendo ser bem atual.

2.02.2009

(Publicado no caderno "Prosa & Verso", do jornal "O Globo", em dois de fevereiro de 2009, versão online (www.oglobo.com.br/blogs/prosa)

Por Miguel Conde

André Mansur e as histórias da Zona Oeste carioca

O título do novo livro do jornalista André Luis Mansur, "O Velho Oeste carioca" (Ibis Libris), sugere à primeira vista mais um relato sobre o bangue-bangue diário em que a vida no Rio de Janeiro às vezes parece transformada. Não é nada disso, explica o autor. O livro conta uma história menos sangrenta, mas à qual não falta dramaticidade: o desenvolvimento da Zona Oeste do Rio de Janeiro. A partir de relatos da época e trabalhos de historiadores, Mansur conta uma história que a maioria dos cariocas desconhece, e que ajuda a entender um tanto da cidade atual.

Nos comentários sobre a última eleição municipal, houve quem apontasse um antagonismo entre Zona Sul e Zona Oeste. O que você acha disso?

Acho que existe um antagonismo principalmente cultural. Na zona sul, você esbarra em teatros, cinemas, museus e centros culturais, enquanto na parte da zona oeste que estudo no livro (de Deodoro a Sepetiba) não há sequer uma livraria de peso. Em relação à memória da região, tema do meu livro, destaco uma instituição que faz um trabalho muito importante, que é o Núcleo de Orientação e Pesquisa Histórica (Noph), de Santa Cruz.


Na verdade, quando pensei no título, pensei principalmente na sonoridade dele e na curiosidade que poderia despertar, características que me foram confirmadas por muita gente que se sentiu atraída pelo título. No caso da “terra sem lei”, há alguns trechos que falo disso em relação aos problemas de limites e demarcação de algumas das antigas fazendas, que muitas vezes deram origem a conflitos.

O desenvolvimento urbano do Centro e da Zona Sul é razoavelmente conhecido, mas o da Zona Oeste não. Como ele se deu?

Com exceção da Fábrica de Tecidos Bangu, foi basicamente um desenvolvimento agropastoril, com destaque para a Fazenda de Santa Cruz - uma das maiores do Brasil na época em que foi dos jesuítas e chamada de “jóia da Coroa” -, muitos engenhos e o ciclo da laranja, que fez de Campo Grande o maior produtor da fruta nos anos 30 e 40 do século passado. A exceção deste contexto foi a área entre Realengo e a Vila Militar, que, por opção estratégica, foi ocupada principalmente por quartéis do Exército.

Como estudar a história da Zona Oeste nos ajuda a entender o atual estado da região, e em particular seus problemas?

Um dos grandes problemas da Zona Oeste é que ela passou de uma área rural para uma área urbana muito rapidamente nas últimas décadas. Não houve uma fase intermediária, uma fase sub-urbana. Com isso, surgiram diversos problemas, como crescimento populacional desordenado, trânsito caótico e diversas questões de “ordem pública”, para usar uma expressão que está na moda, como poluição sonora, por exemplo. Isso sem contar a degradação ambiental verificada nos parques florestais e no litoral, principalmente em Sepetiba e na Pedra de Guaratiba.

Quais foram os principais autores que registraram algo sobre a vida na Zona Oeste nos séculos anteriores?

Além de autores importantes da região, como o historiador Benedicto Freitas, que escreveu uma coleção de três volumes sobre Santa Cruz, cito autores que dedicaram um bom espaço à região em livros sobre o Rio de Janeiro, como Brasil Gerson, Noronha Santos e Monsenhor Pizarro, sem contar os muitos visitantes europeus que estiveram na região, como a inglesa Maria Graham e o pintor francês Jean Baptiste Debret.

Durante sua pesquisa, o que te surpreendeu sobre a região?

Sem dúvida, foi a história da Fazenda de Santa Cruz, principalmente do período a partir da chegada do príncipe-regente D. João, em 1808, que se apaixonou pela região e transformou o prédio principal da fazenda em palácio de veraneio. Saber que um bairro da zona oeste se tornava sede de um poderoso império durante vários meses do ano realmente me surpreendeu. E a excelente condição da sede da fazenda (hoje é a sede do Batalhão de Engenharia Militar Villagran Cabrita), sempre recebendo visitas de pesquisadores e alunos de escolas públicas, é uma referência perfeita de como pode e deve ser preservado o imenso patrimônio histórico da região.

1.26.2009

LULA E O DIA DO FICO


Não sei não, mas cada vez me parece mais que Lula quer repetir D. Pedro I.

Faltando dois anos para o fim do mandato, o presidente Lula vive um dilema aparentemente inconciliável: como transferir parte dos 80% de sua aprovação pessoal pelo povo (pelo menos é o que dizem os institutos de pesquisa) para um candidato. Pois a não ser que haja uma mudança radical no quadro político, já deu para perceber que a ministra Dilma não terá força e, principalmente, carisma (mesmo com a plástica) para receber o bastão da permanência do Partido dos Trabalhadores no governo.

Como não há prováveis sucessores dentro do partido, já que os amigos mais próximos foram atropelados pelo rolo compressor do mensalão e outros escândalos, Lula vê como única alternativa para a permanência do PT no governo o terceiro mandato, que, a julgar pelas pesquisas, é barbada certa para ele.

Mas o presidente da República não pode defender abertamente um terceiro mandato, pois pode cheirar a golpismo. No Congresso, a possibilidade de que tal idéia vingue é, além de remotíssima, extremamente desgastante politicamente. Por isso, Lula optou por um caminho menos espinhoso, menos exposto, o caminho da sutileza, do tipo “comendo pela beirada”.

Embora Lula negasse essa possibilidade, um ou outro aliado sempre dava uma declaração aqui e ali, deixando a possibilidade em aberto, situação parecida com a do sujeito que gosta de uma garota, mas por excessiva timidez pede a um amigo para interceder por ele.

O presidente, no entanto, parece estar perdendo a timidez no assunto reeleição e a possibilidade do terceiro mandato já parece clara e tentadora. A maior prova disso foi a recente declaração dele defendendo a possibilidade do presidente venezuelano Hugo Chávez se candidatar indefinidamente à reeleição naquele país e afirmando, textualmente, que no Brasil “isso não impede que, daqui a um tempo, apareça um partido, uma maioria de deputados, que proponha mudar a lei que proíbe ter apenas uma reeleição (para) poder três ou quatro. Isso pode acontecer”.

Se a tônica será esta daqui para frente, é bem provável que Lula prepare um novo “Dia do Fico”, quem sabe em nove de janeiro de 2010, 188 anos depois de D. Pedro I ter dito, no Campo de Santana, sua famosa frase “Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto! Digam ao povo que eu fico”!, recusando a partida para Portugal e preparando o terreno para a independência do Brasil e sua posse como primeiro imperador do país.

Mas se Lula repetir a frase de D. Pedro I, uma coisa é certa. Pelo menos desta vez ele não poderá iniciar o discurso com o seu já famoso bordão: “Nunca antes na História deste país...”

1.25.2009

AS HISTÓRIAS E AS LENDAS DO VELHO OESTE CARIOCA


(Publicado no jornal "Extra", de 11 de janeiro de 2009)

Jornalista reúne em livro episódios da Zona Oeste da cidade: fatos e lendas sobre a ocupação da região

ISABELLA GUERREIRO


No Velho Oeste carioca não tinha cowboy, como no faroeste americano. Mas, nas histórias sobre a ocupação da região – que vai de Deodoro a Sepetiba – tem pirata, ou melhor, corsários franceses, e até um sacerdote que evangelizava com a ajuda de um projetor de cinema, sem falar das curiosidades sobre a Família Real, que se hospedava na Fazenda Santa Cruz.

Esses e outros casos dos séculos 16 ao 21 foram reunidos pelo jornalista André Luis Mansur, de 39 anos, no livro “O Velho Oeste Carioca” (Editora Ibis Libris, R$ 30). Mansur, que foi criado em Marechal Hermes e mora em Campo Grande há 18 anos, decidiu resgatar o patrimônio histórico da região quando pesquisava para um trabalho sobre os 500 anos do Descobrimento do Brasil.

- Em 2000, saíram muitos livros sobre a história do Rio. Vi algumas coisas sobre a Zona Oeste, mas nenhuma obra específica sobre a região. Então, resolvi pesquisar sobre a área – conta.

Invasão de corsários

Durante cinco anos, Mansur levantou dados sobre a história da Zona Oeste em livros de pesquisadores da região, jornais e relatos de cronistas do Rio Antigo e de viajantes europeus. Um dos fatos que mais o surpreendeu foi a invasão de piratas franceses a partir de Barra de Guaratiba, em 1710.

- Eles foram guiados por escravos e atravessaram as montanhas e florestas da região até o centro da cidade, onde foram derrotados – explica Mansur. Conta-se ainda que o líder do grupo, Du Clerc, após ser preso foi morto misteriosamente. A causa seriam “aventuras amorosas” – diverte-se.

O historiador Mílton Teixeira ressalta, porém, que os invasores eram corsários. Ele explica a diferença.

- Pirata rouba para si. Corsário rouba para o rei, no caso Luís XIV, da França – diz Teixeira, que se diverte ao comentar o episódio: - Deve ter sido uma cena espetacular. Mil soldados com penachos vermelhos na cabeça atravessando a cidade. Uma cena que nem Joãosinho Trinta poderia imaginar.

Outra história curiosa do livro é sobre Padre Miguel, sacerdote espanhol que chegou ao Rio em 1908, com 29 anos. Apaixonado por cinema, produziu diversos filmes mudos de caráter religioso na região de Realengo.

* DOM PEDRO I:
o príncipe gostava de tomar uma pinga famosa numa barraca em Realengo durante as idas até a Fazenda Santa Cruz. Ele gostava muito de fazenda e cavalo. Lá, Dom Pedro I aproveitava para se encontrar com sua amante, Domitila de Castro e Canto Melo, a Marquesa de Santos. Bem afastado do burburinho da Corte.

* FAZENDA SANTA CRUZ: Conta-se que Dom João foi mordido por um carrapato na fazenda, antiga propriedade dos jesuítas, hoje batalhão do Exército. A ferida se transformou numa úlcera e o príncipe-regente passou a usar uma cadeirinha para se locomover. Era na fazenda que ficava o boi Patrício, animal de estimação de Dom João. Ninguém podia bater no animal, que veio de Portugal junto com a Corte, em 1808.

* FUTEBOL NASCEU EM BANGU?: Há uma suspeita de que o futebol possa ter dado seus primeiros chutes em Bangu, antes que o paulista e filho de ingleses Charles Miller trouxesse bolas da Inglaterra e iniciasse a prática do esporte em São Paulo, em 1894. Consta que a primeira bola entrou em Bangu escondida por Thomas Donohue, um dos técnicos britânicos contratados pela Fábrica Bangu. No campo que existia nos jardins da fábrica, Donohue jogava futebol com outros funcionários britânicos.

* DIRIGÍVEIS: Santa Cruz possui o único hangar de dirigíveis do mundo. Construído entre 1934 e 1936, o hangar do Zeppelin, como é conhecido, servia de abrigo aos dirigíveis construídos na Alemanha pelo conde Ferdinand von Zeppelin, e que faziam a rota entre Berlim e o Rio. A região foi escolhida para sediar o hangar principalmente devido às condições climáticas e à direção favorável dos ventos. Lá, os dirigíveis eram recolhidos para manutenção, reabastecimento e embarque de passageiros.

Foto: Fábrica Bangu, com um campo de futebol ao lado.

1.16.2009

RELATO HISTÓRICO

(Publicado no caderno “Zona Oeste”, do jornal “O Globo”, em 13 de setembro de 2008)

Em “O Velho Oeste carioca”, jornalista André Luis Mansur divulga sua pesquisa sobre a região

Por Thaís Britto

Reza a lenda que a região da Ilha de Guaratiba recebeu este nome por causa de um marinheiro inglês chamado William, que chegou ao Brasil junto com a comitiva de D. João. Outra sugere que a origem do futebol no Brasil não é nada daquilo que se pensa: o esporte teria nascido aqui, com os funcionários ingleses da Fábrica Bangu, antes da chegada de Charles Müller. Entre causos e fatos, o jornalista André Luis Mansur, de Campo Grande, lançará em outubro (o livro foi lançado no dia nove de dezembro, no Paço Imperial) o livro “O Velho Oeste Carioca”, onde reúne cinco anos de pesquisa sobre a Zona Oeste e sua importância na formação do Rio.

A idéia de lançar o livro surgiu no ano 2000, quando Mansur trabalhou como freelancer no projeto de pesquisa dos 500 anos do Descobrimento do Brasil.

- Sempre via informações sobre a Zona Oeste nessas buscas, mas sentia falta de publicações especíificas sobre a região. Acabei me interessando por trabalhar com pesquisa e passei a procurar histórias – comenta o autor.

Ele conta ter passado muito tempo em bibliotecas, entre as quais a do Centro Cultural Banco do Brasil, a Biblioteca Nacional e a do Centro Universitário Moacyr Sreder Bastos, onde trabalha.

Diarios de viajantes europeus e obras históricas, como “As freguesias do Rio Antigo”, de Noronha Santos; Histórias das ruas do Rio”, de Brasil Gerson; e “Donos do Rio em nome do rei”, de Fania Fridman, foram algumas das principais fontes de informação jornalista. Morador de Campo Grande, ele fará o lançamento oficial da obra na livraria Arlequim, no Paço Imperial, no Centro. Mas a première será no Chopp da Villa, no bairro onde mora. Comandado por Seu Ernesto, o bar é uma ode aos velhos tempos da região.

- O Chopp da Villa é um lugar que resgata as origens da Zona Oeste. As paredes são cheias de fotos históricas e raras da região. Além, é claro, de ser um ponto de encontro cultural em Campo Grande – acentua Mansur.

De piratas a encontros amorosos

Quando finalizou a pesquisa, em 2005, o jornalista tentou lançar o livro, sem muito sucesso. Para dar vazão às histórias, surgiu o blog Emendas e Sonetos, (emendasesonetos.blogspot.com), que serviu tanto para testar o alcance da pesquisa com os leitores para, finalmente, despertar o interesse de uma editora, a Ibis Libris.

- Não queria algo que se restringisse aos moradores da Zona Oeste. O blog acabou sendo o termômetro de aceitação do livro. Recebi e-mails de muita gente, de estudantes de outros estados que pesquisavam sobre a região – conta Mansur.

Além da ilha do Seu William e do nascimento do futebol em Bangu, o autor narra fatos inusitados como a concorrência entre uma famosa marca de refrigerantes e o suco de laranja em Campo Grande (o bairro era um dos maiores produtores da fruta) e a invasão de piratas franceses, no século XVIII, em Barra de Guaratiba.

- Em 1710, uma esquadra de piratas franceses tentou invadir o Rio de Janeiro pela Baía de Guanabara. Como encontrou resistência, chegou à Barra de Guaratiba, rumou para a Barra da Tijuca e alcançou o Centro, onde acabou derrotada – explica o autor.

O bairro de Santa Cruz, de importância vital para a História da cidade, ganha espaço no livro com diversos monumentos, como a Ponte dos Jesuítas, a Fonte Wallace, o Hangar do Zeppelin (único hangar de dirigíveis ainda existente) e a Fazenda de Santa Cruz, onde hoje está instalado o Batalhão Villagran Cabrita.

- Quando D. João chegou aqui, encantou-se com a beleza da fazenda e ali construiu sua residência de veraneio. Muitas decisões importantes do Império foram tomadas aqui. E muitas histórias secretas aconteceram também, como os encontros de D. Pedro I com a Marquesa de Santos – acrescenta.

A História mais próxima da população

O historiador Sinvaldo Souza, morador de Santa Cruz, é referência na região quando se fala em passado da Zona Oeste. Segundo Mansur, ele foi um colaborador próximo, passando informações e bibliografia.

- O que o Mansur fez nesse livro é bem similar ao que Eduardo Bueno faz com a História do Brasil. Ele pegou livros importantíssimos, com uma quantidade valiosa de informação, mas que são muito chatos. E deu a eles uma linguagem jornalística, muito mais acessível às pessoas – comenta o historiador, que acredita na oportunidade do lançamento do livro.

- Acho que é muito legal para a Zona Oeste conhecer e se interessar mais por suas raízes. Os marcos históricos, por exemplo, estão abandonados, pois as pessoas não sabem do que se trata.

1.02.2009

A GRANDE ILUSÃO DO ANO-NOVO


Talvez maior do que a do Papai Noel, a grande ilusão da infância nesta época do ano seja acreditar que tudo vai mudar no Ano-Novo.

Eu, pelo menos, quando criança, acreditava que o dia 1º de janeiro simbolizava a entrada numa espécie de “admirável mundo novo”. Tudo levava a isso. A esperança dos adultos (“que tudo se realize...no ano que vai nascer...”), o clima de euforia nas ruas, as propagandas e os especiais de fim de ano da televisão e, por fim, todo aquele ambiente efusivo de cumprimentos, choros, abraços emocionados (e muitas vezes suados), foguetórios, champanhe estourando e mesa farta, quase como se tivessem esvaziado tudo da despensa, já que no “novo mundo” não precisaríamos mais nos preocupar em armazenar provisões.

Ou seja, tudo em excesso, tudo no limite, quase um expurgo do passado para adentrar o ano-novo limpo de tudo o que ficou para trás.

E lá vinha o 1º de janeiro. No início, talvez movido ainda por toda aquela energia eufórica do réveillon, acrescida da barulheira de fogos e música alta, ainda me sentia numa espécie de torpor. Acordava cedo para ir às ruas, ansioso por ver, sentir, provar as mudanças anunciadas com tanto alarido. E realmente percebia algo novo no ar, os sorrisos pareciam mais amistosos, as ruas menos barulhentas, o céu mais azul. Com o passar do tempo, no entanto, a ilusão caía por terra. Quando me lembrava do início das aulas, quando meu time levava uma sova no Maracanã, quando tinha o primeiro tombo de bicicleta do ano, eu percebia que nada mudava.

Mas a infância é teimosa e sempre busca encontrar atalhos para suas justificativas. Pensava...ah!, neste ano não deu certo por algum motivo, mas no ano que vem realmente tudo vai mudar, até porque os mais velhos continuam esperançosos. E aí levava o ano inteiro alimentando essa expectativa da melhor forma possível, a passagem do tempo na folhinha do calendário se aproximando, a ansiedade crescendo. E no réveillon a mesma coisa, a mesma euforia, as mesmas falas e os mesmos pratos.

Acho que foi na quarta decepção que, enfim, parei de acreditar no Ano-Novo – Papai Noel eu já sabia que passeava de trenó numa loja de crediário há muito tempo. Mas até hoje acho legal o ritual dos encontros, mesmo achando que a passagem do dia 31 para o dia 1º é igual à dos outros dias do ano e que a esperança por dias melhores que eu, otimista incorrigível, ainda mantenho, continua em alta, mesmo que ela venha lá pelo meio do ano. Acredito na mudança contínua e perseverante, dentro mesmo de uma rotina, e que mudanças explosivas como fogos de artifício só funcionam para quem ganha na mega-sena. Não à toa, ela quase sempre fica acumulada nesta época.

Mas...voltando ao tema do "nada mudou" após a "torturante contagem regressiva" (obrigado, Bruna), querem algo mais déjà vu do que uma guerra entre israelenses e palestinos?

11.17.2008

O VELHO OESTE CARIOCA/LANÇAMENTO


LANÇAMENTO DO LIVRO
“O VELHO OESTE CARIOCA”,
DE ANDRÉ LUIS MANSUR (editora Ibis Libris)

A HISTÓRIA DA ZONA OESTE CARIOCA, DE DEODORO A SEPETIBA, CONTADA DESDE O SÉCULO XVI

DIA 9 DE DEZEMBRO (terça-feira), ENTRE 17h E 20h30, NA LIVRARIA ARLEQUIM, PAÇO IMPERIAL, PRAÇA QUINZE, CENTRO

DIA 13 DE DEZEMBRO (sábado), A PARTIR DAS 17h , NO CHOPP DA VILLA, ESTRADA DO PRÉ, 91, LARGO DA VILLA SANTA RITA, EM CAMPO GRANDE

A Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro é sempre citada nos livros de História do Brasil por dois motivos: a invasão de piratas franceses em Guaratiba, em 1710, e as longas temporadas de D. João na antiga fazenda dos jesuítas, em Santa Cruz, no início do século XIX.

O resgate do patrimônio histórico da região, desconhecido da maioria de seus moradores, tem sido feito por pesquisadores da Zona Oeste, com seus próprios recursos e a ajuda de amigos para divulgação desses trabalhos.

É preciso também fazer justiça a importantes cronistas do Rio Antigo, que mencionam, em seus livros, o então chamado “sertão carioca”, como Monsenhor Pizarro, Vieira Fazenda, Brasil Gerson e Noronha Santos.

Indispensável, também, citar ilustres viajantes europeus, que conheceram de perto a região, como Debret, Maria Graham e os naturalistas Spix e Martius, que, com relatos e imagens, nos legaram um rico acervo, de seus aspectos mais prosaicos que, na maioria das vezes, passam despercebidos nas “publicações oficiais”.

Este livro reúne o material de pesquisadores locais, bem como de autores reconhecidos, e apresenta uma visão global da região, que se estende desde o Campo dos Afonsos a Sepetiba, percorrida pela antiga Estrada Real de Santa Cruz. O objetivo deste livro é chamar a atenção para a riqueza histórica e natural da região. A melhor forma de valorizar um lugar é conhecer seu passado, identificando os que o ajudaram a se tornar o que é hoje.

GUARDIÃO DE UMA UTOPIA PARTICULAR


Literatura da urgência - Lima Barreto no domínio da loucura - Luciana Hidalgo - editora Annablume - 252 páginas - R$ 30,00

Afonso Henriques de Lima Barreto pagou um preço alto por viver deslocado numa sociedade de convenções, formalismos e fingimentos. Pagou com a própria vida, pode-se dizer assim, uma vida marcada por percalços de todo tipo e que culminaram com a pobreza, o alcoolismo, a internação como louco e, por fim, a morte prematura, em 1922, aos 41 anos de idade. O que a jornalista Luciana Hidalgo faz neste livro, conseqüência de uma tese de doutorado defendida na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é mergulhar no deslocamento vivido por um escritor incompreendido no seu tempo e cuja obra permanece atualíssima exatamente porque as mazelas políticas e sociais denunciadas por ele, com coragem e sinceridade radicais, infelizmente continuam todas aí.

O ponto de partida do livro é o “Diário do hospício”, escrito por Lima Barreto quando ele esteve internado no Hospital Nacional dos Alienados, o primeiro hospício do país, inaugurado em 1852 por D. Pedro II e que hoje é a sede do campus da Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na Zona Sul do Rio de Janeiro. Lima esteve internado lá duas vezes. A primeira, em 1914, e a segunda em 1919/20, quando escreveu o diário. O motivo: delírios provocados pelo alcoolismo e que cessavam imediatamente assim que o escritor recuperava a sobriedade.

Era uma época em que os diagnósticos de insanidade primavam por argumentos para lá de bizarros, como comprova um estudo feito por Francisco Carlos da Fonseca Elia citado por Luciana: “(...) tanto a menstruação na mulher e as hemorróidas no homem seriam causas que muito teriam contribuído para a perda da razão na cidade do Rio de Janeiro”. O pesquisador também cita as causas morais, como emoções vivas, o terror ou o amor levado ao excesso ou contrariado.

No diário, que gerou o livro “Cemitério dos vivos”, Lima Barreto faz observações sobre a rotina do hospício, para ele muito mais um espaço onde o Estado abrigava parte do refugo social excluído da sociedade elegante da Belle Epoque carioca do que um local de tratamento. Ele expõe a sua revolta contra o Estado, a sociedade e contra si mesmo, frustrado, revoltado por não ter tido o reconhecimento literário que julgava (e merecia) ter recebido. “Ah! A Literatura ou me mata ou me dá o que peço dela”.

A partir daí, Luciana desenvolve um profundo estudo teórico baseado em dois conceitos fundamentais, a escrita de si e a literatura de si, fundamentais para se entender não apenas a obra de Lima Barreto, este “guardião de uma utopia particular”, mas também a de autores de estilos bem diferentes, como Antonin Artaud, Fernando Pessoa e dos personagens já estudados por ela em livros anteriores, como o poeta curitibano Loriel (“A arte da urgência”, com Mônica Drummond. Cultural Office, Curitiba, 2006), e o artista plástico (mesmo sem o saber) Arthur Bispo do Rosário (“Arthur Bispo do Rosário – O senhor do labirinto”. Rocco, Rio de Janeiro, 1996), que lhe valeu o prêmio Jabuti.

Dona de um excelente texto, fugindo como pode dos habituais jargões acadêmicos, Luciana Hidalgo passeia por teorias literárias, artigos sobre a loucura, considerações sobre a política brasileira e a evolução urbana do Rio de Janeiro do início do século XX, além de outros temas, fazendo de seu livro (e aí sim, um jargão acadêmico) uma obra multidisciplinar. Lima Barreto, o personagem principal, é definido aqui como um a-intelectual/a-social, ou seja, um sujeito que não se enquadrou nos rígidos padrões vigentes no meio intelectual e social da época. Também por isso, ele sempre esteve em busca do a-lugar, o espaço onde poderia conseguir, talvez, a alforria do eu, para usar uma expressão da autora.

Infelizmente, como explica Luciana, este espaço Lima Barreto nunca encontrou. E o deslocamento que o acompanhou desde a infância, quando ele, um menino negro, pobre e morador do subúrbio, se interessava por literatura, se radicalizou a partir do primeiro livro, “Recordações do escrivão Isaías Caminha”, quando desancou toda a grande imprensa e passou a ser evitado nas rodinhas intelectuais.

Desta forma, a grande frustração de Lima Barreto, frustração esta intransponível e que o levaria ao alcoolismo e à decadência física, foi mesmo a falta de reconhecimento ao seu imenso talento literário, tanto da sociedade que ele tanto criticava (o que seria mais ou menos óbvio) quanto dos seus pares, negros ou mulatos, pobres e suburbanos como ele, que não liam (ou não sabiam ler) e permaneciam numa apatia e submissão revoltantes para o escritor diante da corrupção, dos problemas sociais e das arbitrariedades que ele tanto denunciava.

Ao usar conceitos como a escrita de si e a literatura de si, Luciana Hidalgo abriu um outro olhar sobre Lima Barreto, o “escritor do povo”, assim como a literatura da urgência, termo que dá título ao livro, foi a defesa e o ataque do escritor no seu momento mais crítico, o da internação, quando seu corpo passou a ser propiedade do Estado e ele só pôde contar com a pena e o papel para se manter “en garde”, como ela diz, contra tudo o que sofria.

Luciana demonstra, de forma clara, como a loucura, que também acometeu o pai de Lima Barreto, esteve sempre presente em sua obras, e em como o escritor misturou vida e ficção em personagens como Policarpo Quaresma, Leonardo Flores, Gonzaga de Sá e Vicente Mascarenhas, de “O cemitério dos vivos”. Na época, este tipo de literatura não foi absorvida, ou entendida, ainda mais exposta até as vísceras por um sujeito radical nas opiniões e que vivia bêbado e maltrapilho. Mas agora, com esta obra singular, Lima Barreto pode, ainda que tardiamente, ter encontrado um espaço singular, talvez o seu tão desejado a-lugar na literatura brasileira.

Luciana Hidalgo nasceu em 1965, no Rio de Janeiro . É doutora em Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), atualmente com Bolsa de Pós-Doutorado da Faperj, dando aula no curso de Letras da mesma universidade . É autora do livro Arthur Bispo do Rosario – O senhor do labirinto (Rocco, 1996/ Prêmio Jabuti , 1997), que foi recentemente adaptado para o cinema ( com roteiro de Luciana Hidalgo, Geraldo Motta e José Joffily) e será lançado em 2009. Formada em Comunicação Social , trabalhou como jornalista no suplemento literário Prosa & Verso , do jornal O Globo , e no Jornal do Brasil ( revista Programa e Caderno B), entre outros veículos . Dirigiu e editou a revista Gesto , publicação de ensaios sobre o tema corpo nas áreas de literatura , filosofia etc.

11.03.2008

AS PEGADAS DE MACHADO


Machado de Assis jamais poderia imaginar que seus textos escritos a bico de pena e sob a luz de lampião iriam se transformar em relíquias disputadas por ávidos pesquisadores. Quanto vale um texto ou uma foto inédita do maior escritor brasileiro?

Diante de tantos livros, debates, adaptações para outros meios e homenagens em geral a Machado de Assis no ano de centenário de sua morte, não deixa de ser intrigante, para os muitos admiradores de sua obra, viajar ao seu tempo e espaço, naquele Rio de Janeiro pacato e ainda bem distante de qualquer tipo de indústria cultural. No silêncio da casa do Cosme Velho, silêncio quebrado apenas pelo ruído de uma ou outra charrete, ou pelo canto dos vendedores ambulantes, Machado redigia seus textos a bico de pena, acompanhado apenas pela sua amada Carolina. Embora chamado (excessivamente, a meu ver) de bruxo, Machado não tinha bola de cristal para prever o futuro. Sendo assim, mesmo recebendo as glórias em vida, não poderia imaginar o alcance que sua obra teria hoje e de como seria esmiuçada com precisão cirúrgica por incansáveis historiadores que procuram relacionar textos escritos em jornais, cartas, ofícios de serviço público, romances, poemas, críticas, crônicas, contos e peças, tudo para dar uma dimensão maior e mais completa de um homem discretíssimo por natureza, que não deixou uma biografia e cujas pegadas, principalmente as da juventude, despertam fascínio e curiosidade exatamente por estarem envolvidas pelo mistério.

UMA GRANDE CHARADA

Um dos trabalhos mais penosos neste esforço coletivo é o de se aventurar pelos textos escritos por ele em jornais, publicados de forma sistemática logo após sair da adolescência, quando ainda era o Machadinho. A dificuldade tornou-se muito maior devido à grande quantidade de pseudônimos que o escritor adotou ao longo da vida de jornalista, muitos deles já devidamente descobertos, mas muitos outros a descobrir, como se ele tivesse deixado de propósito uma grande charada aos seus estudiosos.

Escrevendo muitas vezes tarde da noite em jornais, aquele jovem cheio de ambições literárias publicava artigos apócrifos que permanecem esquecidos em jornais já extintos e que hoje são objetos do desejo de pesquisadores ávidos por encontrar qualquer coisa inédita do mestre, mesmo um tema irrelevante, escrito apenas para fechar uma página no calor do fechamento de uma redação da época em que tudo era mais trabalhoso no jornalismo.

Neste grande esforço feito em torno do centenário de sua morte, muito material inédito foi descoberto: cartas, contos, artigos, pseudônimos, inscrição na Biblioteca Nacional, dedicatórias, fotos de Carolina ainda bem jovem (e bonita) etc. É curioso especular sobre quando vale um texto inédito de Machado, pois ele teve de escrever muito em jornais para poder sobreviver, já que ganhava-se muito pouco nas redações, pois afinal, escrevia-se para quem? Num país escravocrata e atrasado, uma minoria da minoria apreciava a leitura diária dos jornais. Da mesma forma, ou pior ainda, quem comprava livros no Brasil? Os de Machado, editados por Baptiste Louis Garnier, (também conhecido por Bom Ladrão Garnier, devido às relações quase nunca vantajosas para os autores) lhe garantiam alguns mil-réis por mês).

O "ESTILO" DA REPARTIÇÃO


Ou seja, Machado teve de escrever muito. Não apenas por amor à literatura, mas também para sobreviver. E mesmo se levarmos em conta a estabilidade financeira conseguida no serviço público, não nos esqueçamos da imensa quantidade de documentos oficiais que ele precisou redigir nas quase quatro décadas que atuou como funcionário público. Alguns foram, inclusive, descobertos e expostos recentemente como relíquias, pois o “estilo” machadiano das repartições públicas é praticamente desconhecido.

Relíquia também seria alguma carta descoberta trocada entre ele e Carolina. Só existem duas, pois as outras (e deviam ser muitas) ele mandou que as queimasse, o que foi feito após a sua morte. A discrição, realmente, foi um dos maiores tesouros que Machado de Assis deixou como legado de sua existência.