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5.02.2021

CENTRO DO RIO

 


Por André Luis Mansur 

Apesar de ter sido criado em Marechal Hermes, nasci no Centro do Rio, na Avenida Henrique Valadares, lá no distante ano de 1969. Vim ao mundo no Hospital do Iaserj, na época Iaseg, hospital que muito mais tarde Sérgio Cabral mandaria demolir.

Passaria a frequentar o Centro do Rio só a partir dos 15 anos, levado por meu saudoso pai, Wilson Baptista, e lembro que o primeiro lugar por onde andamos foi a Avenida Marechal Floriano, que se tornaria um dos meus espaços preferidos por lá. A avenida de prédios históricos, como o Colégio Pedro II, o Palácio do Itamaraty, a Igreja de Santa Rita e a sede da Light, que hoje é um Centro Cultural.

Mas a Marechal Floriano também é a Avenida da Livraria Elizart, que está resistindo bravamente à pandemia e ao esvaziamento do Centro, assim como a Folha Seca, do Rodrigo Ferrari  (funcionando em horário reduzido, de segunda a sexta, das 11h às 16h); da Leonardo da Vinci, do Daniel Louzada; da Blooks, da Elisa Ventura; da Travessa; da Casa da Árvore e dos muitos sebos, lugares que eu passaria a frequentar com assiduidade, incluindo aí o mais recente deles, o Sebo X, na Praça Tiradentes, do Jocemar Barros e do Paulo-Roberto Andel.

Todos resistindo e acreditando no renascimento do Centro, que teve boa parte das lojas falidas com a pandemia e também  boa parte dos escritórios trabalhando em home-office - muitos escritórios, aliás, vão continuar assim, pois seus gestores perceberam que fica bem mais barato do que pagar os caros aluguéis e condomínios da região. 

                        Rua Primeiro de Março


Mas a recuperação do Centro do Rio (após a pandemia, é claro) vai precisar passar por uma volta às origens, à época em que a região abrigava não só trabalhadores, como hoje, mas também moradores, que se espalharam por suas ruas abertas em meio a pântanos e gangues desde seus primórdios, após ocuparem o Morro do Castelo, em 1567. A Reforma Passos, no início do século XX, afastou os moradores da região central da cidade, mas agora eles precisam voltar, é a única saída para revitalizar de novo a região.

Vai ser difícil, sem dúvida. Mas acredito que aquela região, que derrotou o corsário Du Clerc, em 1710, mas seria derrotada e saqueada pelo corsário Rene Duguay-Trouin, no ano seguinte, entre tantos conflitos e perrengues ao longo de sua História, vai dar a volta por cima. A força do Centro do Rio está na sua mistura, lá se encontram moradores dos subúrbios, da Zona Sul, da Baixada, de outras cidades e estados, uma dinâmica que não se encontra em nenhuma outra parte da cidade e que, acredito, é o que vai fazer a região se reinventar. Mas, como eu disse, vai ser difícil. O cenário atual é  triste, mas que possamos ter (talvez no ano que vem, quem sabe?), uma cena parecida como esta da foto que abre o texto, quando lancei meu romance "A Praça" na Folha Seca, um pouco antes do Carnaval de 2019, um domingo de muito sol, samba e aglomeração.


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