9.30.2016

DE MATADOURO A CENTRO CULTURAL

No antigo jornal "O Grito da Zona Oeste", de maio de 1992, o título "Espaço Cultural de Santa Cruz não sai" se refere ao Palacete Princesa Isabel, antiga Escola Princesa Isabel e que foi sede do matadouro inaugurado em 1881, com a presença do imperador D. Pedro II. A matéria interna tem como título "O engodo permanece" e cobra dos políticos e autoridades a prometida transformação do prédio, bem degradado após um incêndio, em centro cultural em um bairro carente de espaços desse tipo. Hoje, totalmente restaurado, o prédio abriga o Centro Cultural Dr. Antônio Nicolau Jorge e o Noph-Ecomuseu de Santa Cruz, com vasto acervo de pesquisas, exposições permanentes e diversas atividades culturais, tudo o que o jornal reivindicava há mais de 20 anos.
 

Muita gente pode indagar o porquê da presença do imperador D. Pedro II na inauguração de um matadouro, e ainda assim numa região tão distante do centro da cidade. Durante muito tempo a cidade só teve um matadouro, inaugurado em 1774, na praia de Santa Luzia, no centro do Rio, praia que seria depois aterrada. Este matadouro seria transferido em 1853 para o Aterrado de São Cristóvão, na atual Praça da Bandeira. Claro, havia também os clandestinos. Como as normas de higiene eram péssimas, ainda mais perto do centro de poder, foi pensado um novo lugar para o matadouro, mais limpo, higiênico e organizado. E como já existia o transporte ferroviário na cidade, foi escolhido o Campo de São José, que fazia parte da Fazenda de Santa Cruz. E assim foi feito.
 

A pedra fundamental foi lançada em 1876 e a inauguração no dia 30 de dezembro de 1881. A presença do imperador se justificava por ser o matadouro de Santa Cruz a solução para o abastecimento regular de carne para a cidade. Para a população local, o matadouro trouxe vários benefícios. O gerador utilizado, por exemplo, fez com que Santa Cruz fosse o primeiro bairro da região a ter luz elétrica. Foram construídas também duas vilas operárias, cujas construções ainda estão lá, assim como a pequena estação de trem do matadouro, esta bastante degradada.
 

O atual Centro Cultural de Santa Cruz foi construído após a inauguração do matadouro, em estilo neoclássico, tendo ao redor um jardim projetado pelo francês François Marie Glaziou, responsável pelos jardins da Quinta da Boa Vista e do Campo de Santana, entre outros. O palacete funcionou como sede administrativa do matadouro e residência do diretor e dos médicos que trabalhavam lá. E, como sempre ressaltam os diretores do Centro Cultural, Walter e Odalice Priosti, ele nunca foi residência da princesa Isabel, embora ela e seu pai, D. Pedro II, fossem muito a Santa Cruz.


9.26.2016

OS PORTUGUESES E O "MAR OCEANO"

Muita gente já comparou as grandes navegações do passado com as viagens espaciais. Considero uma analogia bem interessante, tal o nível de desenvolvimento de inteligência e tecnologia para se atingir os dois objetivos, sem contar, é claro, uma dose excessiva de coragem, tanto para se atingir o espaço quanto para desbravar o "mar oceano", ou "mar tenebroso", como os portugueses chamavam o Oceano Atlântico e o que se escondia atrás de seu indevassável horizonte.

Falei dos portugueses porque foi este povo que, sufocado entre o restante do continente europeu e o mar, seria o pioneiro das grandes navegações a partir do século XV, o século que veria o nascimento da imprensa, com Gutemberg, em 1454, e o nascimento de gênios como Leonardo da Vinci (1452), Maquiavel (1469), Nicolau Copérnico (1473) e Michelangelo (1475). Como em todos os grandes desenvolvimentos tecnológicos da humanidade, foi muito mais necessidade do que opção.

O estratégico Mar Mediterrâneo era dominado pelos reinos de Gênova, Florença e Veneza, que comercializavam produtos com as caravanas que vinham do oriente, entre eles as cobiçadas especiarias, como canela, noz moscada, erva-doce, pimenta e gengibre. Sua importância? Como na época ainda não havia geladeiras nem freezers, eram essas substâncias que conservavam os alimentos, não por muito tempo, é verdade, mas era o que se tinha. Naquele século, a situação ainda iria piorar após a conquista de Constantinopla pelos turcos, em 1453, que tornaria mais fechado ainda o comércio pelo Mar Mediterrâneo e marcaria o fim da Idade Média e o início da Idade Moderna e o Renascimento.

Portanto, para o pequeno reino de Portugal, só havia mesmo uma saída: o mar. Mas como se aventurar por aquela imensa massa de água, já que as embarcações eram pequenas e frágeis, e como se orientar em alto mar, sem acidentes geográficos por perto? E ainda circulavam, por todo o continente, histórias de monstros fantásticos que habitavam o oceano desconhecido. Foi aí que a busca pelo conhecimento falou mais alto: na Vila de Sagres, no Algarve, teria sido fundada pelo infante D. Henrique, um dos filhos do rei D. João I, em 1417, a Escola de Sagres, um centro de conhecimento que reuniria cérebros privilegiados, geógrafos, astrônomos, matemáticos, e outras especialidades, para desenvolver técnicas de navegação e orientação em alto mar. Também viriam judeus e muçulmanos, que ali estariam protegidos da temida Inquisição, em troca de seus estudos e conhecimentos. O lema da Escola de Sagres seria uma frase do general romano Pompeu: "Navegar é preciso, viver não é preciso".

 Os verbos das frases anteriores estão todos na forma condicional porque a existência da Escola de Sagres é um ponto bastante polêmico entre os historiadores, muitos dizem que isso é um mito, que não teria existido uma escola formal de desenvolvimento de técnicas de navegação, um tema que já rendeu muitas teses contra e a favor. Mas há, sim, o consenso de que foi em Portugal que os conhecimentos sobre a navegação marítima mais se desenvolveram naquela época, seja em Sagres ou em qualquer outro ponto do reino, e abriram caminho para as grandes navegações, primeiro pela costa da África, e depois pelo "mar oceano".

9.19.2016

FAZENDA DE SANTA CRUZ: A JOIA DA COROA


A região de Santa Cruz abrigou, do final do século XVI em diante, uma das maiores fazendas do l. No seu auge, ela chegou a atingir a cidade de Vassouras, sendo chamada, durante muito tempo, de "a joia da Coroa". Foi a principal fornecedora de gêneros alimentícios da cidade do Rio de Janeiro, cuja produção era embarcada na Baía de Sepetiba até chegar ao centro do Rio de Janeiro. Os caminhos por terra eram muito precários e até a chegada do trem, na segunda metade do século XIX, o melhor transporte pela cidade era através dos rios (naquela época, bem navegáveis, diferentes do valões de hoje em dia).

A região onde seria instalada a fazenda fazia parte da sesmaria doada a Cristóvão Monteiro, em 1567, em agradecimento por ele ter lutado contra franceses e seus aliados, os índios tupinambás (também chamados de tamoios, ´os avós, os mais antigos´), na conquista da cidade do Rio de Janeiro, dois anos antes. Sesmaria é uma palavra de origem latina que significa ´seximus´, o sexto, já que, em sua origem, era uma terra dividida entre seis pessoas. Assim, o reino português doava uma grande porção de terra a quem achasse merecedor dela, com a condição de que fosse ocupada e explorada economicamente, caso contrário, teria que ser devolvida. A de Cristóvão Monteiro abrangia boa parte da região de Guaratiba.

Após a morte de Cristóvão Monteiro, sua viúva, Marquesa Ferreira, já bastante doente, doaria, em 1589, metade das terras do casal aos jesuítas, como foi desejo de seu marido. A outra metade seria doada no ano seguinte, após a morte de Marquesa, pela filha do casal, Catarina Monteiro, e o marido, José Adorno, em troca de terras em Bertioga, São Paulo. E assim começava a história da poderosa Fazenda de Santa Cruz, que iria ampliando seus limites através da compra, ou doação, de mais terras, como em 1616, quando os jesuítas compraram terras dos herdeiros de Manuel Veloso Espinha.
Como era uma região constantemente alagada, os jesuítas teriam muito trabalho de drenagem e irrigação pela frente (alguns padres chegaram a estudar técnicas modernas na Holanda), trabalho feito pelos escravos africanos, que já começavam a ser trazidos a força em grande quantidade no final daquele século. Entre as obras realizadas, estão os canais do São Francisco, do Guandu e do Itá, e as pontes que funcionavam como represas também, entre elas a Ponte dos Jesuítas, tombada pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, construída em 1752 e um dos mais representativos símbolos da arquitetura jesuítica no Rio de Janeiro.

* Ilustração: pintura de Debret sobre a sede da fazenda (1817).

9.13.2016

O FRANCÊS QUE SAQUEOU O RIO

Por André Luis Mansur

Se o francês Jean François Du Clerc, com cerca de mil corsários, não conseguiu conquistar o Rio de Janeiro, em setembro de 1710, e ainda acabaria assassinado na prisão, um ano depois a situação seria bem diferente.Outro corsário francês, René Duguay-Trouin, chegava à cidade com 17 navios (na verdade foram 18, pois no caminho os franceses obrigaram a tripulação de um navio inglês a seguir com eles) e cerca de 4 mil corsários. Duguay-Trouin rompeu as defesas da Baía de Guanabara e invadiu o Rio, apoiado por uma forte neblina, no dia 12 de setembro de 1711, há 305 anos.

Apesar do bombardeio das fortalezas e navios de guerra portugueses, os franceses foram avançando até se estabelecerem na Ilha das Cobras (exatamente em frente ao atual Boulevard Olímpico), de onde partiriam para conquistar a cidade. "No dia 14 de setembro já estavam em terra todas as nossas tropas, num total de dois mil e duzentos soldados, e entre setecentos e oitocentos marinheiros, armados e experimentados, o que perfazia, incluídos os oficiais, guardas-marinha e voluntários, uma tropa de cerca de três mil e trezentos homens. Além disso, tínhamos ainda quase quinhentos homens atacados por escorbuto, os quais desembarcaram junto com os outros, e ao cabo de quatro ou cinco dias já estavam em condições de ser incorporados ao resto das tropas". ("Memórias do Senhor Duguay-Trouin", São Paulo, Imprensa Oficial-Editora UnB, 2003).

Após alguns dias de intensa batalha, a tropa portuguesa e os moradores da cidade a abandonaram após um grande bombardeio francês na noite do dia 20, acompanhado de intensa tempestade com muitos raios e trovoadas. O povo ficou em pânico, achando que os franceses realizavam um ataque geral, e fugiu da cidade levando o que podia em meio aos caminhos alagados.
O governador Francisco de Castro Morais, e toda a administração da cidade, se refugiaram na Fazenda do Engenho Novo, dos jesuítas. Todos aguardavam, ansiosos, a chegada de uma imensa tropa que vinha de Minas Gerais, sob o comando de Dom Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho.

Duguay-Trouin já sabia da iminente chegada dessa tropa e, por isso, acelerou a negociação do pagamento do resgate, ameaçando destruir toda a área central do Rio de Janeiro, já que, além das centenas de canhões dos navios de guerra, os franceses dominavam todas as fortalezas.Dom Antônio chegou no dia 11 de outubro, com cerca de 6 mil homens de tropas regulares. Mas nada mais podia ser feito.

O resgate da cidade já havia sido assinado, os franceses receberam 610 mil cruzados, 100 caixas de açúcar e 200 vacas, fora o que os corsários saquearam pela cidade. Duguay-Trouin devolveu o Rio de Janeiro e embarcou de volta com seus corsários no dia 13 de novembro, incluindo aí centenas de franceses da expedição de Du Clerc que estavam presos na cidade. Considerado culpado pela perda da cidade, o governador Francisco de Castro Morais foi degredado para a Índia, só conseguindo o perdão quase 30 anos depois. O Rio de Janeiro passou a ser governado por Dom Antônio de Albuquerque.

Já a volta dos corsários para a França foi cheia de contratempos, com imensas tempestades pelo caminho. O navio Aigle naufragou na ilha de Caiena, quando estava ancorado, mas a tripulação conseguiu escapar. Já os navios Magnanime e Fidèle naufragaram em alto mar, com a morte de quase 1200 franceses, incluindo Monsieur de Courserac, o primeiro a forçar a barra na Baía de Guanabara. Junto com o Magnanime, foram parar no fundo do mar boa parte das mercadorias trazidas do resgate e 600 mil libras em ouro e prata.

9.12.2016

O NOSSO 11 DE SETEMBRO


     A data de 11 de setembro costuma ser lembrada por dois acontecimentos dramáticos de alcance mundial: o ataque às torres gêmeas, em Nova York, em 2001, e o golpe militar no Chile, em 1973, quando o Palácio La Moneda foi bombardeado e o presidente Salvador Allende morto (até hoje não há certeza se Allende foi assassinado ou se cometeu suicídio). Já aqui, no Rio de Janeiro, também tivemos o nosso 11 de setembro, bem mais antigo, mas também com altas doses de violência e dramaticidade.

Foi nesta data, em 1710, há exatos 306 anos, que o francês Jean François Du Clerc, acompanhado de cerca de mil corsários, invadiu a cidade do Rio de Janeiro pela praia da Barra de Guaratiba, no lado oeste da cidade. O objetivo? Conquistar e saquear a cidade e depois dividir o butim, o valor do resgate, entre os corsários e os que apoiaram a invasão.

 O corsário, ao contrário do pirata, tinha autorização do rei para suas investidas (no caso de Du Clerc, do rei Luis XIV, o Rei Sol, ícone do modelo político conhecido como Absolutismo ("L'État c'est moi" - O Estado sou eu) e apoio financeiro de companhias e nobres abastados. Du Clerc tentou invadir o Rio de Janeiro pela Baía de Guanabara, mas foi rechaçado, com seus seis navios, pela Fortaleza de Santa Cruz. Foi, então, navegando pelo litoral da cidade até chegar a Angra dos Reis, que foi duramente bombardeada e teve algumas fazendas saqueadas.Quatro escravos fugidos de uma dessas fazendas informaram aos franceses que a praia da Barra de Guaratiba seria um bom ponto de desembarque para se atingir o centro do Rio de Janeiro.

Os franceses seguiram o conselho e desceram na praia no dia 11 de setembro. Após oito dias de dura caminhada pelas montanhas (e com direito a alguns saques, como na Fazenda do Camorim), chegaram ao centro do Rio, onde já eram esperados sem o menor pingo de hospitalidade.
Numa violenta batalha que durou um dia inteiro, com muitos mortos e feridos de ambos os lados, os invasores se renderam.

 Os franceses sobreviventes foram distribuídos pelas prisões e Du Clerc ficou preso no Convento dos Jesuítas, no já extinto Morro do Castelo, sendo depois transferido para uma casa, na esquina da rua da Quitanda com (também já extinta) rua General Câmara, onde, apesar de estar guardado por várias sentinelas, foi assassinado no dia 18 de março de 1711, um crime que nunca foi solucionado.
Ainda em 1711, um outro corsário, René Duguay-Trouin, chegava ao Rio com a mesma intenção de Du Clerc, mas desta vez com 18 navios e cerca de seis mil corsários franceses. Mas essa história deixo para contar amanhã, na própria data da invasão.

* Ilustração: Capa do livro "A invasão francesa do Brasil - o corsário Du Clerc ataca o Rio de Janeiro por Guaratiba" (Edital), de André Luis Mansur e Ronaldo Morais, e atores do grupo "O Corsário Carioca", passeio que acontece sempre na Baía de Guanabara.



7.20.2016

Guiadas urbanas

Com Karolynne Duarte, que está à frente do Guiadas Urbanas, excelente trabalho de roteiro histórico e cultural pelos subúrbios cariocas. Neste dia, em evento no Ipharj (Instituto de Pesquisa Histórica e Arqueológica do Rio de Janeiro), pude, finalmente, autografar meus livros para ela.

7.13.2016

Livraria Leonardo da Vinci

Amigos, meus livros já estão à venda na livraria Leonardo da Vinci, uma das mais tradicionais do Rio de Janeiro. (Av. Rio Branco, 185, subsolo, centro do Rio)

7.12.2016

MULHERES DE PEDRA

Link com a matéria sobre o coletivo Mulheres de Pedra na página projeto#colabora

http://projetocolabora.com.br/cultura/colcha-de-retalhos/

7.11.2016

O VELHO OESTE CARIOCA VOLUME III

Amigos, o terceiro volume de O Velho Oeste Carioca vai para o prelo (para usar uma expressão antiga, de acordo com o livro) em setembro, em mais uma edição feita por Thereza Rocque da Motta, da Ibis Libris Editora. Neste livro continuo contando a história da zona oeste carioca, de Deodoro a Sepetiba, em capítulos como "Anna Gonzaga e a Fazenda Inhoaíba", "Aliança para o progresso faz nascer Vila Kennedy", "A defesa de Sepetiba", "Os escravos da Fazenda de Santa Cruz", "Ordem e Progresso na Fábrica Bangu" e "A tradição agrícola da Ilha de Guaratiba", entre outros.

5.18.2015

SUBÚRBIO RESTAURADO

                                                                  Cine Guaraci

           Um importante projeto de recuperação do patrimônio histórico dos subúrbios cariocas vem sendo trabalhado pelo senhor Rubens Quintella desde 2002. Trata-se da restauração dos antigos cinema Cachambi, Olari, Rosário (em Ramos), Vaz Lobo e Guaraci (em Rocha Miranda), com a intenção de transformá-los em Centros Culturais Populares, administrados pela prefeitura. A população teria acesso, a preços populares, a diversas manifestações culturais, com incentivo especial aos alunos de escolas públicas. Quintella esteve reunido com o secretário municipal de Cultura, Marcelo Calero, e com a presidente da Rio Filme, Mariana Ribas, que se mostraram favoráveis ao projeto. 

                                                    Cine Vaz Lobo na década de 70

          Outro importante projeto de Quintella, este iniciado em 2005, com o envio de um ofício à Secretaria Municipal de Cultura, pedindo que a Casa da Fazenda do Capão do Bispo, importante monumento histórico da cidade do Rio de Janeiro, localizado no bairro do Cachambi, seja utilizado para projetos sociais, educacionais e culturais. Segundo ele me informou, a prefeitura já apresentou o projeto arquitetônico e as obras de restauração da casa, que é do final do século XVIII, estão perto de começar. 

                                                  Casa da Fazenda do Capão do Bispo

          Quem quiser mais informações sobre o projeto, o e-mail dele é rubensquintellatucker@yahoo.com.br




4.14.2015

CRIME E INCÊNDIO NA IGREJA MATRIZ DE CAMPO GRANDE


          Duas histórias trágicas marcam a matriz de Igreja de Nossa Senhora do Desterro de Campo Grande, na zona oeste do Rio de Janeiro. A primeira ocorreu em 1716, quando ela ainda ficava nas terras que hoje fazem parte de Bangu, erguida por Barcelos Domingues, em 1673. João Manuel de Mello, um dos principais fazendeiros da paróquia, estava dentro da igreja no Domingo de Ramos, quando uma turma de 20 a 30 capangas e escravos, acompanhados de dois outros fazendeiros, José Pacheco e José Gurgel, invadiram a igreja e mataram João Manuel. O mais trágico foi o desfecho. Quando o padre se aproximou do corpo para lhe dar a extrema unção, também foi assassinado. O crime foi relatado pelo Ouvidor-Geral Fernando Pereira de Vasconcelos ao Conselho Ultramarino, instituição portuguesa responsável por várias questões relativas às colônias. "A viúva de Mello veio à cidade trazendo o cadáver da vítima, a fim de clamar justiça. O governador declarou réus de morte a Amaral e a Pacheco, e publicou um bando prometendo grandes recompensas a quem os trouxesse vivos ou mortos". (Antiqualhas e memórias históricas do Rio de Janeiro, de José Vieira Fazenda)
         Bando era uma espécie de proclamação feita em espaço público. Os assassinos de João Manuel de Mello, pelo menos pelo que se sabe, não foram presos. Esta história serviu para esvaziar ainda mais o pequeno templo, que já sofria com as intempéries do tempo, e acabaria sendo destruído ainda naquele século, para ser construída uma nova matriz, já nos limites do atual bairro de Campo Grande (embora ainda não fosse no local atual).
        Outra terrível situação ocorrida na igreja foi em 1882, quando ela já ficava no centro de Campo Grande: um incêndio a destruiu por completo. A ironia é que a igreja hoje fica bem próxima do Corpo de Bombeiros, mas na época eles tiveram de vir do centro da cidade, a cerca de 50 quilômetros, num trem especial da Estrada de Ferro D. Pedro II, atual Central do Brasil. Embora o trem tenha levado cerca de 40 minutos, um padrão rápido até para os dias de hoje, os carros de bois transportando o material dos bombeiros ficou atolado num areal da Rua da Matriz, que depois seria renomeada para Rua da Estação e, por fim, Rua Augusto Vasconcelos. Uma junta de bois foi emprestada pelo capitão Antônio de Oliveira Santos, mas quando os bombeiros, enfim, conseguiram chegar à igreja, não restava quase nada a apagar.
       Com apoio da população local e do governo imperial, que doou 20 contos de réis, a igreja foi reconstruída e reinaugurada seis anos depois, graças ao grande esforço do seu vigário, o padre Belisário Cardoso dos Santos, vigário na região durante 44 anos, de 1847 a 1891, e que morava na casa ao lado da igreja, que mais tarde abrigaria o colégio Belisário dos Santos, demolido em 2014.

2.19.2015

LEITE COM MANGA

Uma das atitudes mais corajosas que já tomei na vida foi quando pedi um copo de leite com manga numa agradável tarde de sábado em um bar do subúrbio carioca de Cascadura. Não que as condições do estabelecimento fossem inadequadas, era até simpático o bar, mas o ato de coragem se justifica por eu ter ouvido desde pequeno que a mistura de leite com manga poderia levar à morte em poucos minutos.
Não sei de onde veio a argumentação de que estas duas substâncias unidas poderiam provocar uma explosão fatal ao entrar no organismo, mas sei que ela existia e era constantemente lembrada, acabando por se constituir numa das lendas urbanas de maior durabilidade, tal qual a da mulher loura no banheiro, embora esta eu nunca tenha tentado desafiar e muitas vezes, quando criança, cheguei em casa com a bexiga no limite por medo de entrar no banheiro do colégio.
 Também não sei por quais cargas d´água tomei a coragem de fazer o insólito pedido naquela tarde, enquanto aguardava meu ônibus chegar ao ponto. Tinha 18 anos, estava feliz, ia a uma festa e não havia qualquer sombra de comportamento autodestrutivo em minha vida. Talvez fosse uma espécie de rito de passagem, aquela situação que todo adolescente precisa enfrentar antes de ingressar na fase adulta de peito aberto, deixando para trás o medo e a insegurança.
Pois bem, devia ser isso mesmo. E lá fui eu, cheio de coragem, pedir a estranha mistura num bar cheio de gente bebendo cerveja e outras misturas mais fortes. O ridículo da cena talvez lembre o personagem Shane, interpretado por Alan Ladd, pedindo uma gasosa no bar cheio de “homens brabos” do filme “Os brutos também amam”.
O mais incrível foi que, ao fazer o pedido, o atendente rapidamente se prontificou a fazer a, digamos, vitamina, ainda perguntando se eu queria com gelo. Enquanto ele preparava, fiquei pensando: será que esse perigo só existia na minha família? Mas não podia ser. Vários amigos e conhecidos me asseguravam que a mistura leite com manga era tão fatal quando picada de lacraia (outra história terrivelmente ameaçadora). Ou então será que aquele bar era o único bastião contra estas lendas disseminadas de geração a geração? Ou o dono era um sádico especializado em matar fregueses incautos e enterrá-los nos fundos do estabelecimento, como um bom filme americano de terror classe B?
Não sei, nada ali parecia tão ameaçador. E quando a mistura ficou pronta e o atendente falou, num tom razoavelmente alto, “sai um leite com manga”, não vi ninguém espantando. Achei até que alguma velhinha pudesse pegar o copo e despejá-lo subitamente na calçada e ainda me dar um belo de um esporro por ser tão inconsequente. Não, nada aconteceu. E então, de frente para o Viaduto de Cascadura, bebi tranquilamente meu primeiro copo de leite com manga. Paguei, agradeci e o atendente me deu o troco como se nada tivesse acontecido.
Peguei meu ônibus e achava, inconscientemente, que algo ainda aconteceria. De qualquer forma, tinha meu endereço e um número de telefone na carteira, como meu pai sempre recomendava, e por isso alguém (uma enfermeira, o mais provável), poderia dar a trágica notícia à família. Mas, também desta vez, nada aconteceu. Fui à festa, me diverti bastante, voltei para casa no dia seguinte e nas 48 horas seguintes, que seriam de observação e monitoramente, não tive nem uma diarreiazinha sequer.

Confesso: me decepcionei. Uma verdade tão inquestionável como aquela precisaria ter um fundo de...verdade, pelo menos. Um mito não cai por terra assim, sem esboçar um mínimo de reação. Mas aquele caiu, de forma irrefutável. Contei a façanha para amigos e familiares e alguns ainda me chamaram de louco e inconsequente. Seja como for, depois disso passei a adotar a vitamina de leite com manga no meu cardápio e me enchi de coragem para tomar outras atitudes impetuosas, como tomar banho depois do almoço ou andar de ônibus pela avenida Brasil de madrugada. Mas a mulher loura no banheiro, esta ficou sempre no meu imaginário como um símbolo de medo e covardia. 

2.09.2015

O CHORINHO DA PEDRA



    Um ótimo programa para as tardes de domingo é o chorinho do grupo "Choro na Calçada", na Praça São Pedro, em Pedra de Guaratiba, zona oeste do Rio de Janeiro. A praça fica em frente à praia, numa das extremidades do píer, com o belo visual da Restinga da Marambaia ao fundo. Em volta temos o Mercado do Peixe e vários bares, entre eles o tradicional Bar Budo, comandado pelo barbudo Wilson Paim e que já figurou no Guia Rio Botequim. Algumas amendoeiras garantem a sombra.



    A apresentação começa ao meio-dia e vai até as 18h, com pequenos intervalos, inclusive para o almoço. Não há couvert, apenas um dos integrantes passa o chapéu para quem quiser contribuir com o grupo, que não se limita ao chorinho e apresenta um repertório dos mais abrangentes, realçado por um naipe de sopros que dá um sonoro reforço aos tradicionais instrumentos de cordas e percussão do gênero.
    As especialidades dos restaurantes, como não poderia deixar de ser, são os pratos de frutos do mar, que na maior parte vem de outros lugares, já que a Praia da Pedra, assim como toda a Baía de Sepetiba, é poluída. Os muitos barcos próximos ao píer costumam partir para a pescaria no fundo da baía, perto da restinga, onde a água é mais limpa.



    À medida que a tarde vai caindo, um outro atrativo é o por do sol da  Pedra de Guaratiba, tendo ao fundo a Ilha da Marambaia, no final da restinga, e, bem mais distante, a Ilha Grande. O passeio no píer dá o contorno perfeito para este belo passeio de domingo, que muitas vezes vem acompanhado da Feira de Artesanato da Pedra, mas este já é assunto para outro artigo.
   













1.05.2015

RIO NOIR


Rio Noir - (coletânea de contos editada por Tony Belloto) - Casa da Palavra - 304 páginas.

         "Rio Noir" é a versão carioca de uma série de livros de sucesso nos Estados Unidos, publicada pela editora Akashic Books e que reúne contos noir de escritores do gênero (ou não) ambientados em alguma cidade escolhida para aquela edição. Como a ideia deu muito certo, a editora ampliou a coleção para cidades de outros países, como esta que traz a cidade do Rio de Janeiro como cenário - a primeira publicada no Brasil, feita em parceria com a Casa da Palavra e organizada por Tony Belloto, músico do grupo Titãs e já bastante experiente no tema com seus livros protagonizados pelo detetive Remo Bellini.
         A literatura noir teve seu auge nos Estados Unidos em meados do século passado, graças a autores como Raymond Chandler, Dashiell Hammett (do clássico "O falcão maltês") e James Ellroy e se caracterizou principalmente por fugir ao padrão da trama policial comum, onde os personagens são muito bem demarcados. No ambiente noir, o clima é outro, há humor, há crítica política e comportamental, os detetives são durões, mas sensíveis, gostam de jazz, boa literatura e bons restaurantes, seus auxiliares costumam ser pitorescos e muitas vezes "roubam a cena". As mulheres são sensuais e determinadas (geralmente louras) e os diálogos ágeis e muito bem escritos. Sem contar, obviamente, o clima sombrio, com muito nevoeiro e becos escuros (noir significa preto, em francês). Um fã do gênero é o cineasta Quentin Tarantino, que no filme Pulp Fiction fez uma homenagem ao livro e filme noir, inclusive no título, já que pulp fiction era o tipo de publicação inicial da literaturanoir, feita em formato de bolso, com papel barato e que poderia ser vendida em tudo que era lugar.
         Para transportar a literatura noir ao Rio de Janeiro, foram convidados 15 autores, alguns já dominando o gênero da literatura policial, como Luiz Alfredo Garcia-Roza, o próprio Tony Belloto e o jovem Raphael Montes, sucesso de vendas com seus romances "Dias perfeitos" e "Suicidas", além de nomes conhecidos na imprensa carioca, como Arnaldo Bloch, Arthur Dapieve e Guilherme Fiúza (que afirmou nunca ter escrito um conto antes deste livro), e autores importantes da literatura contemporânea, como Adriana Lisboa e Flávio Carneiro. Não poderia faltar, é claro, Luis Fernando Verissimo, criador do impagável detetive Ed Mort e que ambienta seu conto no bairro de Bangu, onde um duplo assassinato ocorre ao lado de um manuscrito de poesias intitulado "A hora das sombras compridas": "Uma das poucas coisas no apartamento que não estavam respingadas de sangue".
         O resultado é muito bom, com os autores criando suas histórias exatamente em cima do contraste entre as belezas naturais da cidade e a tão decantada hospitalidade dos cariocas e seu espírito festivo com o que se esconde (ou nem tanto) neste "purgatório da beleza e do caos", como já cantou Fernanda Abreu.
         Assim, cartões-postais consagrados da cidade surgem como cenários de situações que nenhuma agência de turismo iria publicar em "folders" promocionais, como o dedo que a personagem criada por Victoria Saramago encontra numa caminhada na Floresta da Tijuca ("Ponto Cego"), o corpo caído no Morro do Corcovado, com direito a um típico nevoeiro noir("Táxi argentino", de Arthur Dapieve), o famoso litoral da zona sul esquadrinhado por um gigolô disposto a observar "as burguesinhas do Leblon, as bichas da Farme, as gringas de Copacabana e as coroas cachorras do Leme" ("Coroas saradas", de Tony Belloto), e mesmo o canibal da Rua Canning, um coronel reformado do Exército que acreditava estar curado de certos hábitos ("Canibal de Ipanema", de Alexandre Fraga, que além de escritor é policial federal).
         Embora o tráfico de drogas esteja ligado a boa parte dos crimes no Rio, poucos autores o utilizam em suas histórias. O que sobressai mesmo é o clima noir das histórias e suas referências, seja no caso de Adriana Lisboa, que em "O enforcado", história passada no Largo do Machado, nos lembra "A cartomante", um dos grandes contos do mestre Machado de Assis, ou Flávio Carneiro, que em "A espera", narra uma história sem nenhuma cena de violência, mas cheia de deduções criativas e interessantes do Gordo, dono de um sebo na Rua do Lavradio e que ajuda um detetive amigo seu a investigar o homem que segue todo dia uma funcionária do setor de Obras Raras da Biblioteca Nacional e fica parado encostado num poste, jornal embaixo do braço, em frente ao prédio dela. Mais noir, impossível.

12.26.2014

VOU TE CONTAR - 20 HISTÓRIAS AO SOM DE TOM JOBIM

          


          Lançado para marcar os 20 anos da morte de Tom Jobim, ocorrida em 8 de dezembro de 1994, "Vou te contar - 20 histórias ao som de Tom Jobim" (Rocco) reúne contos de autores contemporâneos baseados em músicas do grande compositor. É uma homenagem bem apropriada, pois, como diz Ruy Castro na contracapa, Tom respeitava a palavra tanto quanto as notas musicais, e o que vemos aqui é uma reverência feita, com muito talento, a um dos grandes nomes da cultura brasileira.
        Organizado por Celina Portocarrero, o livro segue a ordem alfabética dos autores, de Adelice Souza a Vinicius Jatobá, que faz uma leitura original de "Águas de março", repleta de imagens poéticas espalhadas em um ritmo dinâmico. Já Adelice pontua seu conto com o primeiro verso de "Wave", Vou te contar, que inicia os parágrafos de uma história que mistura romantismo, praia e um amor estrangeiro que recebe o aval da rainha do mar. "Deixei os pés se molharem e a água nada ondulada lambia os joelhos e uma parte das coxas. E fiquei ali, ainda enxutos o sexo e o ventre, o olhar a pasmar-se no meio da secura fria. Agradecia, agradecia, agradecia".
     Entre Adelice e Vinicius circulam nomes como Claudia Nina,  Susana Fuentes, Lúcia Bettencourt, Marilia Arnaud, Angela Dutra de Menezes, Silviano Santiago, Henrique Rodrigues, Branca de Paula, Danielle Schlossarek e Mirna Brasil Portela, que faz de seu conto "Ligia" uma história de desespero dentro de um avião em turbulência, o clímax onde nada mais resta a não ser um surpreendente beijo na boca.
     O livro não traz as letras completas das músicas que inspiraram os autores, é uma opção editorial, o que de certa forma dá uma liberdade até maior para que os contos sejam, de fato, a recriação de cada canção de Tom Jobim. Assim, em alguns casos, não há, dentro do texto, nenhuma referência explícita à letra da canção que inspirou o conto, mas podemos observar, aqui e ali, um clima, um ambiente que nos remete à fonte daquela história.
        Homenagear um grande artista fora da sua área específica é sempre um risco de se "errar a mão", de se produzir algo completamente fora de contexto, mas não é o que se vê aqui. Os autores entraram no universo do compositor, acompanhados de uma edição caprichada e as belas fotos de Isabel De Nonno, que ilustram a capa e o início de cada conto.
       Como Vinicius de Morais, o principal parceiro musical de Tom, já disse numa canção, "a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida", e é exatamente o que vemos aqui nestas pequenas narrativas, que também podem ser encontros repletos de acidez, como entre pai e filho que nunca se entenderam ("Fotografia", de Carlos Henrique Schroeder), um ex-casal com muitas arestas por aparar ("Você vai ver", de Antonio Carlos Viana), a mulher que aguarda, na melancolia de uma praia onde tudo mudou, o encontro acordado trinta anos atrás ("As praias desertas", de Marcelo Moutinho), ou a filha que resolve encarar o passado e rever o pai que abandonou a família ("Espelho das águas", de Monique Revillion).
         Menalton Braff, o autor mais experiente da coletânea, com seus 20 livros publicados e um prêmio Jabuti na bagagem, escreve um conto sobre a descoberta do amor, aquele amor que deixa "minha testa úmida, minhas mãos encharcadas, meus olhos mergulhados numa nuvem densa" e que pode, ou não, se materializar em um encontro (novamente ele). E é o amor que sustenta, de fato, boa parte das histórias, o amor de Tom Jobim pelas pessoas, pela natureza, pela arte, enfim, pelo seu querido Rio de Janeiro. "Dizem que a maior solidão é a de quem está no meio de uma multidão. Naquele momento, ele tinha certeza de que a maior solidão era aquela de quem tem dúvidas acerca do amor, estando ao lado da pessoa supostamente amada" ("Vivo sonhando", de Danielle Schlossarek).












11.24.2014

LADEIRA DA MISERICÓRDIA, O ÚLTIMO VESTÍGIO DO MORRO DO CASTELO


         São poucos os que reparam nela. Quase sempre guias turísticos levando grupos a conhecerem a História da cidade do Rio de Janeiro. Afinal, qual o interesse numa pequena ladeira que não leva a lugar nenhum? Mas a Ladeira da Misericórdia, perto da Santa Casa e da Igreja de Nossa Senhora de Bonsucesso, leva, sim, aos primeiros anos de ocupação da cidade, quando os portugueses transferiram o pequeno núcleo fundado, em  de março de 1565, no espaço entre os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar, para o Morro do Castelo, em janeiro de 1567, após intensas batalhas contra os índios tamoios e os franceses.
  A ladeira é o que sobrou do morro, demolido na década de 1920, um projeto que surgira já no final do século XVIII, e atravessou o século XIX, movido por várias razões, entre elas a de que ele impedia a passagem dos ventos e a circulação do ar, o que agravava o quadro de doenças dos moradores da cidade. Além disso, sempre houve uma grande curiosidade sobre os possíveis tesouros escondidos nos subterrâneos do Morro do Castelo, tesouros que teriam sido guardados pelos jesuítas após a expulsão deles de Portugal e suas colônias pelo Marquês de Pombal, em 1759. O Colégio dos Jesuítas e a Igreja de São Sebastião, a primeira da cidade, ficavam no alto do morro.


  Os subterrâneos foram realmente encontrados, em 1905, durante as obras da Avenida Central, futura Avenida Rio Branco, mas, apesar de todo o rebuliço causado na cidade, nada de valor foi encontrado: apenas correntes de ferro, alguns documentos sem importância, ossadas e algumas cisternas. As passagens dos túneis foram, então, emparedadas algum tempo depois. O que sobrou do morro foi usado, principalmente, para a construção do Aeroporto Santos Dumont, ligando a Ilha de Villegagnon, usada pelos franceses que ocuparam a Baía de Guanabara a partir de 1555, ao continente.
  A destruição do morro começou na administração do prefeito Carlos Sampaio, usando, como principal argumento, a necessidade de se preparar a cidade para a Exposição Internacional de 1922, que traria delegações do mundo inteiro e iria comemorar os cem anos da independência do país. Com o apoio do governo federal, o trabalho começou, apesar dos protestos de muita gente, como o escritor Lima Barreto, que afirmou ser o projeto um desrespeito às tradições da cidade, um imenso gasto desnecessário de recursos, e ainda havia a questão dos moradores do morro, cerca de 4 mil pessoas que viviam lá, além dos monumentos históricos.
  Mesmo assim, a demolição foi feita e, em dois anos, quase todo o morro havia sido destruído, graças principalmente aos potentes jatos d´água instalados. Mas só no final daquela década toda a área onde ficava o histórico morro foi limpa, surgindo a Esplanada do Castelo, que ficaria deserta durante muitos anos, até construírem a Avenida Presidente Antônio Carlos e prédios importantes, como os ministérios do governo Getúlio Vargas, nos anos 40. O local até hoje é conhecido como Castelo, devido à fortaleza que ficava no alto do morro, que no início da ocupação da cidade era chamado de Morro do Descanso. Todo o trabalho de destruição foi exaustivamente registrado pelas lentes de Augusto Malta, o principal fotógrafo da cidade nas primeiras décadas do século XX.


  Os restos mortais de Estácio de Sá, fundador da cidade, foram retirados da Igreja de São Sebastião, demolida junto com o morro, para a Igreja dos Capuchinhos, na Tijuca, assim como alguns objetos religiosos. Já os 4 mil moradores ficaram alojados em barracões de madeira na Praça da Bandeira e depois alojados em vários lugares. A vidinha tranquila no morro, com suas muitas árvores, passarinhos, galinhas ciscando, um pouco do que era a vida no Rio de Janeiro antes das grandes transformações urbanas do prefeito Pereira Passos (1902-1906), ficaria mesmo no passado para aquela gente.
  A Ladeira da Misericórdia era um dos três caminhos do morro. Os outros dois eram a Ladeira do Carmo, no prolongamento da Rua do Carmo, e a Ladeira do Seminário (ou Ladeira da Ajuda), na Rua da Ajuda, perto da Cinelândia. A Rua da Ajuda ainda existe e é uma referência ao antigo Convento da Ajuda, destruído no início do século XX.


* (Fotos tiradas por Ronaldo Morais, que colaborou neste artigo, entre 1978 e 1986 - apenas a última, colorida, foi tirada por mim em 2014)

MEUS LIVROS:

- O Velho Oeste Carioca, volumes I e II (Ibis Libris)
- Fragmentos do Rio Antigo (Edital)
- A invasão francesa do Brasil -o corsário Du Clerc ataca o Rio de Janeiro por Guaratiba (Edital)
- A rebelião dos sinais (Edital)
- Manual do Serrote (Edital)
- O Peão Poeta (Edital)

9.12.2014

CAMPO GRANDE, SÍMBOLO DA VIDA RURAL CARIOCA

Artigo publicado por mim no site Rio 450 anos, do jornal O Globo, em 11 de setembro de 2014. Segue o link:



CAMPO GRANDE, SÍMBOLO DA VIDA RURAL CARIOCA

Cercado pelos parques florestais do Mendanha e da Pedra Branca, o bairro de Campo Grande tem suas origens no início da ocupação da cidade do Rio de Janeiro, quando os primeiros aventureiros partiram para a região que alguns séculos depois seria nomeada zona oeste da cidade. Já na passagem do século XVI para o XVII, eram doadas sesmarias, grandes porções de terras cujos donos tinham a obrigação de tornar produtivas, como a que o então governador do Rio de Janeiro, Martim de Sá, doou a Lázaro Fernandes e Pero da Silva, “moradores nesta cidade e suas mulheres e filhos, que lhes é necessário terras para suas lavouras e para fazerem eles e seus filhos fazenda e não tem nenhumas no Campo Grande”.

Na Serra do Mendanha, onde existe um vulcão extinto, é que foram plantadas em larga escala pela primeira vez mudas de café, levadas da Fazenda do Capão do Bispo, cuja sede ainda existe, no subúrbio. Só depois é que o café iria se espalhar pelo Vale do Paraíba. Também na mesma serra, nasceu, em 1797, aquele que seria um dos maiores botânicos brasileiros, Freire Alemão, descobridor de centenas de espécies de plantas. Do outro lado do bairro, a Serra do Rio da Prata ainda abriga um pouco da vida rural que dominou a paisagem da região durante séculos, com agricultores levando suas produções no lombo dos burros, a pracinha ajardinada e a igreja na frente, além do coreto e a bica tombados, símbolos de uma época em que os lavradores só iam ao centro do bairro para vender suas safras e receber o dinheiro no Café e Bar do Lavrador, que não existe mais e era uma espécie de “banco” que movimentava a vida rural na região.

Também era do centro do bairro que saíam os bondes, inaugurados no final do século XIX e que fizeram parte da paisagem campograndense até 1967, deixando saudades e muitas memórias nos moradores mais antigos. Além da linha Campo Grande-Rio da Prata, havia também as que iam para Santa Clara, Ilha de Guaratiba e Pedra de Guaratiba. Hoje, desta época de um transporte mais romântico e ecologicamente correto, só restou como lembrança a antiga Oficina de Manutenção dos Bondes, na Estrada do Monteiro, que é utilizada pela Comlurb (Companhia de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro.

Também outro símbolo forte do bairro, presente inclusive em algumas esculturas na área central, foi a laranja, principal produção agrícola da região entre as décadas de 1930 a 1950, embalada em imensos barracões e origem da riqueza de muitos fazendeiros que, após a decadência da produção, começaram a lotear as fazendas, incrementando o crescimento populacional do bairro, que hoje já atinge níveis de saturação.

Apesar disso, e do trânsito cada vez pior, o bairro ainda mantém traços da vida rural e tem como uma de suas principais características a hospitalidade de seus moradores, muitos deles “emprestados” de outros bairros, como eu, ou de famílias quatrocentonas, já que a Freguesia de Nossa Senhora do Desterro, nome da Igreja-Matriz que fica numa pequena elevação no centro do bairro, é de 1673, quando o Campo Grande era realmente uma imensa área que se estendia da Fazenda de Santa Cruz às Terras Realengas.

8.25.2013

CARTA PARA A MÃE

(texto publicado em agosto de 2011)

Qual a sensação de se chegar à idade em que a mãe morreu?

Cheguei, enfim, à idade em que minha mãe Lucy morreu, aos 42 anos, no hoje bem distante 1º de fevereiro de 1981. Aos 11 anos, recebia a notícia, de forma fria e seca, de uma tia-avó, sintetizada numa frase: "Morreu". Para mim, aquilo soou como o fim de uma era, algo estranho e misterioso que se iniciava e que estava preso a uma aura de sofrimento, vide o choro compulsivo de minha avó no sofá da sala.

Nunca parei para pensar em como seria quando chegasse à idade em que ela partiu. Achava que uma emoção inesperada tomaria conta de mim quando passasse a ver o mundo da idade dela, principalmente porque 42 anos, para um garoto de 11 anos, e numa época em que a expectativa de vida era menor, parecia muito tempo.

Ao me colocar na idade dela desde o último dia 3 de agosto, um dia frio e chuvoso, passei a sentir sua presença de forma viva, quase reconfortante. Como se aquele domingo ensolarado de verão voltasse de forma mais iluminada, sem a sombra amarga da morte, sem frases frias e sofridas, sem o olhar piedoso dos vizinhos, sem a chegada triste e contida de meu pai, e sem, principalmente, a sensação de que o tempo não me daria chance a um recomeço. Mas ele sempre dá.

7.18.2013

ATENTADOS LITERÁRIOS

         Costumo deixar livros no trem, mais precisamente quando a composição chega à Central do Brasil, estação final, no centro do Rio de Janeiro. Assim que a "minhoca de lata" chega, espero todo mundo sair, tiro o livro da mochila, coloco no canto de um banco e saio, sem olhar para trás. Prefiro esta atitude discreta, pois seria muito desagradável se alguém me cutucasse no ombro lá na frente e dissesse, com a melhor das intenções: "Amigo, esqueceu isso aqui". "Ah, sim obrigado".
         Os temas dos livros variam, pode ser de ficção, História, variedades, o que pintar, contando que esteja em bom estado. Fico imaginando a reação das pessoas, se vão gostar, levar pra casa, dar pro filho, ou mesmo deixar de lado. Não sei. O mais fascinante nesta atividade, que já desenvolvo há muitos anos, é exatamente deixar a imaginação livre para saber o destino do livro. Um amigo também já fez a mesma coisa, mas ele acrescentava um pequeno texto no início do livro, quase uma dedicatória, do tipo "Este livro não chegou a você por acaso, portanto trate dele com carinho".
         Certa feita vi uma reportagem sobre um grupo que fazia isso, mas em vários lugares, banco de praça, jardim, ônibus, balcões, metrô e trem, entre outros. Chamavam de atentado literário, já que tinha sido algum tempo depois dos atentados de 11 de setembro de 2001. Embora eu já fizesse o mesmo no trem havia algum tempo, gostei do nome e passei a adotá-lo.
         Apenas uma vez meu atentado literário quase não deu certo. Quando o trem chegou à Central, entraram várias pessoas para a viagem de volta, já que era de tardinha, hora da volta do trabalho. Ia deixar um exemplar da "Revista de História", da Biblioteca Nacional (deixo revistas também, às vezes), devidamente lida. Estava com um grupo de amigos, sem saber o que fazer, pois os outros trens já estavam cheios. Por sorte um dos amigos, bastante extrovertido, pegou a revista da minha mão e, já na saída da estação, quando entrou um rapaz com cara de estudante, entregou a revista para ele e disse, em um tom que não admitiria contestação: "Toma!" O rapaz sorriu e ainda balbuciou um agradecimento, mas já estávamos em um passo rápido e decidido, passo de quem acabou de cumprir uma importante missão.


Obs: este texto foi escrito dentro do trem, chegando à estação da Central, onde mais um atentado literário seria feito com sucesso.

3.31.2013

FRAGMENTOS DO RIO ANTIGO



FRAGMENTOS DE UMA CIDADE
QUE SEMPRE SE TRANSFORMA
         Foi há muito tempo, mas já houve uma tentativa de se defender o Rio de Janeiro com um muro, como aconteceu em muitas cidades medievais da Europa. O projeto, que durou três séculos, nunca foi muito à frente, principalmente por discordâncias e falta de continuidade de um governo para outro, um problema que, aliás, até hoje atrapalha as obras longas no país. A história das idas e vindas da construção do muro, cujos limites iam até a altura da atual rua Uruguaiana, é um dos capítulos deste livro, escrito pelo jornalista André Luis Mansur e pelo médico Ronaldo Morais e repleto de fotos de importantes monumentos históricos do Rio tiradas por Ronaldo principalmente nos anos 80.
         Uma delas é a Fazenda de Nossa Senhora da Conceição, na Pavuna, demolida na década de 80 e que abrigava uma picota, a única descoberta até hoje na cidade. A picota era um instrumento de tortura dos escravos e que substituía o pelourinho nas áreas mais afastadas do centro da cidade.
         Outra fazenda importante era a de Colubandê, em São Gonçalo, e que abrigou muitos judeus perseguidos pela Inquisição. Nas fotos ela aparece bastante degradada, mas hoje está muito bem preservada e oferecendo bárias atividades de lazer para os moradores da região. Outro monumento que aparece bastante degradado no livro e hoje está restaurado é a Casa de Banhos de D. João VI, no Caju, que hoje é o Museu da Limpeza Urbana da Comlurb. A Casa de Banhos era o local oferecido ao príncipe-regente para ele tomar banho na praia do Caju por recomendação médica, já que havia sido picado por um carrapato na Fazenda de Santa Cruz, na antiga zona rural da cidade. Com a medida, D. João inaugurou um hábito hoje totalmente associado ao lazer do carioca: o banho de mar.
         O livro traz também, entre outros monumentos importantes, a estação de trem de Marechal Hermes, de 1912, a Fundição Cavina, em Lins de Vasconcelos, de onde saiu, por exemplo, a estátua de Tiradentes, que fica em frente à Assembleia Legislativa. A fundição Cavina hoje está abandonada, assim como o Reservatório do Morro da Viúva, entre Flamengo e Botafogo,
         Além dos monumentos, o livro traz histórias curiosas e divertidas, como o primeiro acidente de automóvel da cidade, provocado pelo poeta Olavo Bilac, que bateu numa árvore com o carro do abolicionista José do Patrocínio. Outro caso que mereceu destaque no livro é o de Bárbara dos Prazeres, que morava perto do Arco do Teles, na atual Praça XV, e que, segundo reza a lenda, utilizava métodos bem sinistros em seus rituais. A história também, esta bem real, do assassinato da esposa de Fernando Carneiro Leão, amante de Carlota Joaquina, a mandante do crime, mostra como as relações de poder muitas vezes atropelaram os trâmites judiciais.
         Já a lenda da Pedra da Gávea, de que o suposto rosto que aparece na formação rochosa, seria de um monarca fenício, gera até hoje argumentos bem curiosos, até porque as inscrições que aparecem numa parte da rocha até hoje não foram bem explicadas.
“Sabe-se que nem todo brasileiro é apaixonado por carro, mas José do Patrocínio o era, até porque o seu era o único da cidade. E sua desolação foi imensa, pois seu carro foi a primeira “perda total” do trânsito no Rio. Quem não ficou triste, com certeza, foi o povo carioca, ao pensar que ao invés de um tronco de árvore poderia existir um pedestre no meio do caminho”.
Trecho de “No meio do caminho tinha uma árvore”.
Fragmentos do Rio Antigo (Edital)
         André Luis Mansur e Ronaldo Morais         
         Edital
         80 páginas
         R$ 29,99
        

2.17.2013

A ARTE DE LER JORNAL NA BANCA


Nunca passei por uma banca com jornais expostos que não tivesse alguém olhando. Geralmente há mais de um e por isso é preciso tomar cuidado para não ficar na frente de ninguém, principalmente se você for alto ou gordo. Caso haja muita gente, aguarde a vez para chegar perto, pois a leitura de jornal em banca não costuma levar muito tempo. O ideal é ficar numa posição em diagonal, pois é possível ler todos os jornais sem atrapalhar ninguém. É bom tomar cuidado também com a carteira, pois de vez em quando, infelizmente, aparece um ou outro que não está ali apenas com a intenção de se informar.

A leitura em banca de jornal, na verdade, é bastante limitada, pois só permite que se veja a primeira página, a chamada “página das manchetes”. Como antigamente muita gente abusava e folheava os jornais, os donos das bancas acabaram grampeando os jornais.

O leitor de bancas de jornal, embora não possa se aprofundar nas notícias (a não ser que, claro, compre o jornal) adquire, com este ofício, uma espécie de “apanhado geral” dos principais assuntos do momento. Isto é muito útil, por exemplo, em relações sociais e profissionais.

Uma figura inconveniente, no entanto, nestes ambientes, é o comentarista, que, como o próprio nome diz, se especializa em comentar as notícias com alguém. Geralmente é uma crítica em tom raivoso e que acaba atrapalhando a leitura dos outros, que para ser eficiente precisa ser dinâmica e silenciosa. Embora seja difícil identificar o comentarista, a recomendação, quando ele começar a resmungar, é procurar se manter concentrado na leitura, de preferência firmando um pouco os olhos e aproximando o rosto do jornal. Geralmente ele desiste. Há também outra figura inconveniente, que é a do egoísta, o sujeito que fica na frente dos jornais e não deixa ninguém ler, principalmente se ele for alto e gordo. Fumantes também provocam grande incômodo.

Os dias de maior movimento em torno das bancas de jornal são as segundas-feiras, por causa dos resultados do futebol de domingo, e também os dias seguintes a algum fato marcante. Embora muita gente acredite que este hábito seja prejudicial aos jornaleiros, o resultado é exatamente o contrário. Vá lá que a grande maioria apenas lê o jornal na banca e vai embora, mas muita gente acaba comprando o jornal, interessado no que viu nas manchetes. O que não se deve jamais fazer é pedir ao dono da banca para “dar uma olhadinha” num jornal porque viu algo interessante lá fora. Aí já é abuso.

Hoje, quando muitos jornais estão disponíveis na internet, acontece também de a pessoa olhar na banca algo que a interesse e ler a matéria inteira na versão online, o que é bastante prejudicial ao dono da banca, que precisa encontrar formas de se adaptar às novas tecnologias.

12.19.2012

LIVRO SOBRE O MÉIER

Muito importantes para a vida da região eram os bondes, inicialmente puxados a burro (os “caixinhas de fósforos“) e depois eletrificados. O bonde era dirigido pelo motorneiro e o condutor era quem cobrava as passagens. Entre os vários bondes que circulavam no Méier, um se destacava, o Boca do Mato, de nº 87, carinhosamente chamado de “Boquinha“. Ele conduzia passageiros para a Boca do Mato, bairro muito tranquilo e com um excelente clima, muito favorável aos portadores de doenças pulmonares – daí os apelidos “Europa dos Pobres“ e “Suíça Suburbana“.

Trecho deste livro aí embaixo que, acredito, vá agradar muito aos que se interessam pela História dos subúrbios cariocas.


12.04.2012

MATÉRIA NO EXTRA - 4/12/2012


Bruno Cunha



O seu amigo não divide a conta do bar com todos os presentes? Nem a do almoço ou a do lanche? Pois ele pode ser um expert na prática da “serrotagem” e você nem desconfia. Mas já poderá desmascará-lo (numa boa, é claro), a partir deste sábado, dia 8 de dezembro, quando André Luiz Mansur, Francisco Rosa Lemos e Sandro Nunes lançam o “Manual do Serrote”, um livro que esclarece o que é essa tal prática.

- O Serrote é uma figura muito comum nos botecos. É uma figura muito querida por todos, mas ele sempre consegue que alguém pague a conta para ele - explica Mansur, um dos autores do livro, com trecho do prefácio do jornalista Arnaldo Bloch.

As 96 páginas do livro também diferenciam a “serrotagem” da malandragem, apresentando ao leitor inúmeras técnicas adotas pelo praticante do serrote, que, de acordo com Mansur, só não serra a conta.

O lançamento está marcado para às 17h, na Livraria Edital, na Travessa Ferreira Borges 20, em Campo Grande. O livro custa R$ 19,90.



Leia mais: http://extra.globo.com/noticias/rio/zona-oeste/autores-lancam-livro-em-campo-grande-que-mostra-como-age-quem-nao-gosta-de-pagar-contas-como-do-bar-6921743.html#ixzz2E6RBak1W

1.23.2012

RESENHA EM O GLOBO


Resenha de 'O velho oeste carioca - volume II', de André Luis Mansur - Jornal O Globo, caderno Prosa & Verso (versão online) - 23/01/2012

O velho oeste carioca, volume II — Mais histórias da ocupação da Zona Oeste do Rio de Janeiro, de André Luis Mansur. Editora Ibis Libris, 106 páginas. R$ 30


Por Elias Fajardo *


O Centro, a Zona Sul e mesmo a Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro têm sido cantados em prosa e verso, mas a Zona Oeste não tem merecido a mesma atenção. Daí o interesse em torno do segundo volume desta obra do jornalista André Luis Mansur, que resgata parte do passado da região que vai de Deodoro a Sepetiba através de uma pesquisa bem realizada.

O autor recupera fatos e textos prosaicos em torno do cotidiano da época, como a cartilha que relaciona as obrigações dos condutores de veículos e que recomendava não só tratar com polidez os passageiros, mas também obrigava as carroças puxadas por cavalos a não dar fuga a criminosos, a não maltratar os animais e, principalmente, a “parar o veículo para dar passagem ao carro do Presidente da República, em qualquer ocasião”. Neste cenário vão surgindo personagens como o chefe da estação de trem de Campo Grande, que costumava dizer aos netos: “Hoje vamos brincar de liberdade!”. Eles paravam diante dos táxis estacionados e perguntavam aos motoristas: “Está livre?”. Se a resposta era positiva, o velho e seus netos gritavam: “Então, viva a liberdade!”

Numa obra como esta não poderia faltar o futebol, presente através de histórias do Bangu e do Campo Grande Atlético Clube. Entre os personagens podemos citar Dario, o Dadá Maravilha, jogador do Campo Grande que se notabilizou não só pelas suas jogadas, mas pelas frases de efeito, entre elas a seguinte: “Não me venham com a problemática, porque tenho a solucionática”.

Nos capítulos que tratam da chamada história oficial, destacam-se as peripécias da família real, que transformou a antiga sede da fazenda dos jesuítas em Santa Cruz num palácio de verão frequentado pelos imperadores e pela nobreza. O imperador D. Pedro I, por exemplo, quando criança organizava ali exércitos de meninos escravos armados com espadas de madeira para se divertir. Já adulto, indignado com uma carta que ofendia sua amante, a Marquesa dos Santos (e que havia sido escrita pelo próprio marido da Marquesa!), D. Pedro montou seu cavalo, atravessou a galope, numa madrugada de tempestade, a Estrada Real até a fazenda de Santa Cruz, onde, num gesto teatral, deu uma chicotada no rosto do marido da Marquesa.

Já a Princesa Isabel, filha de D. Pedro II, acompanhada de seu marido, o Conde D’Eu, também costumava frequentar Santa Cruz, onde organizava bailes e saraus. Aliás, o ensino de música na fazenda começou por volta do século XVII, ainda no tempo dos jesuítas, que criaram uma orquestra e um coro dedicados à música sacra. Os escravos mais talentosos praticavam até oito horas por dia, o que, de algum modo, os liberava dos trabalhos mais pesados. Os rapazes tocavam instrumentos e as moças cantavam. Neste cenário destacou-se o mulato padre José Maurício Nunes Garcia, que tocava cravo, compôs mais de 400 peças musicais sacras e profanas e teria sido um dos fundadores do conservatório de Santa Cruz. O compositor austríaco Sigismund Neukomm, discípulo de Haydn, que veio ao Brasil com a Missão Artística Francesa de 1816, chegou a afirmar que não havia no mundo um improvisador como José Maurício.

Em toda a obra, há um tom nostálgico em torno de um passado que não volta mais, em que a água do mar e dos rios era limpa, a Mata Atlântica ainda não tinha sido dizimada, havia animais silvestres em abundância e o trem era um meio de transporte que deixou saudades. O antigo ramal de Mangaratiba, por exemplo, chegou até a ser homenageado por um xote pouco conhecido dos mestres Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, cuja letra dizia: “Adeus Alegre, Paquetá, adeus Guaíba/ Este fim de semana vai ser em Mangaratiba/ Lá tem banana, tem palmito e tem caqui./ E quando faz lua, tem violão e parati”.

O volume termina com um capítulo dedicado à artista visual inglesa Maria Graham, que foi preceptora da princesa brasileira Maria da Glória e, desejosa de ver de perto a natureza e a vida brasileiras, empreendeu em 1823 uma viagem à Zona Oeste, acompanhada por um pajem negro e um amigo inglês devidamente armado. Além de belos desenhos e aquarelas sobre a região, a inglesa deixou também minuciosas descrições em seu diário sobre a Fazenda dos Afonsos, onde se hospedou, que então empregava 180 escravos como lavradores e produzia açúcar e aguardente em abundância. Estas anotações deixam entrever a crueldade da escravatura: os fazendeiros preferiam contratar negros livres, pois no caso da morte de um deles na labuta da floresta, eram obrigados a pagar apenas uma pequena indenização. Já se morresse um escravo de propriedade de um dos próprios fazendeiros, o prejuízo era grande, pois um escravo valia muito naquela época. À noite, foi-lhe enviada uma escrava para lavar-lhe os pés, mas Maria Graham protestou dizendo “que nunca permitiria que ninguém me fizesse isso, ou me ajudasse a despir em qualquer tempo.”

* Elias Fajardo é jornalista e escritor, autor do romance “Ser tão menino” (7Letras)