9.27.2021

CONSTRUÇÃO CARTOGRÁFICA EM SANTA CRUZ

 


Apresentação do projeto de Construção Cartográfica em Santa Cruz, um belo trabalho para o qual fui convidado a participar, organizado pela jornalista Juliana Braga e com jovens do bairro, que fizeram um mapeamento histórico e afetivo de Santa Cruz. Em breve o vídeo do projeto vai ser disponibilizado e haverá também uma exposição com as fotografias tiradas pelo jovens. O lançamento ocorreu hoje de manhã no Noph, Núcleo de Orientação e Pesquisa Histórica de Santa Cruz, no Palacete Princesa Isabel. O Noph é coordenado pelo historiador Bruno Cruz.



SINOS, INCÊNDIOS E BALEIAS

 Numa cidade cheia de sirenes e motores, é preciso fazer um grande esforço para se pensar na tranquilidade que devia ser quando estes e outros ruídos ainda não existiam. No centro do Rio de Janeiro, como havia, e ainda há, muitas igrejas, o auxílio dos sinos era fundamental. Eram eles que indicavam aos bombeiros o lugar exato do fogo, além de casamentos, enterros e outros eventos importantes. E indicavam também, como no caso do temido "toque do Aragão", a hora de se recolher.

O desembargador Francisco Alberto Teixeira de Aragão era o Intendente Geral (uma espécie de prefeito) em 1825, quando através de um edital foi determinado que os sinos das igrejas de São Francisco de Paula e do Mosteiro de São Bento tocariam durante meia hora, às 10 da noite, no verão, e às nove, no inverno, para alertar as pessoas de que ninguém deveria sair de casa até o amanhecer. Quem saísse seria revistado e poderia ser preso. Tudo para diminuir os casos de roubos e arruaças, bem menores do que hoje, porém já significativos para a época. Entre os principais arruaceiros, estavam os capoeiras, geralmente escravos fugidos que saíam em bandos para atacar as pessoas, ou mesmo a polícia, com seus "rabos de arraia" e outros golpes.

Os sinos já anunciavam os incêndios desde o início do século XVII. Se ocorresse à noite, no centro comercial da cidade, por exemplo, ele era avisado pela Igreja de São Francisco de Paula. Os sineiros também ganhavam dinheiro para anunciar o nascimento dos filhos de pessoas importantes. Se fosse do sexo masculino, eram nove badaladas, se fosse menina, davam sete toques. "Cidade de frequentes festas religiosas e procissões quase diárias, com foguetes e espocos e sinos a repicar, o velho Rio de Janeiro exteriorizava na música alegre dos sinos a alma simples e boa do seu povo" (Crônicas da cidade do Rio de Janeiro, Noronha Santos).

Outro aspecto dos incêndios que merece ser citado é o que ocorria quando os bombeiros partiam para apagar o fogo - sem sirenes, é claro. Se fosse à noite, os donos das casas que ficavam no caminho tinham de colocar lampiões na entrada para iluminar o trajeto, mesmo que precariamente. Quem não fizesse isso, corria o risco de ser punido. Os lampiões eram acesos, em sua maior parte, com o óleo extraído das baleias que infestavam a Baía de Guanabara. Antes de 1854, quando a iluminação a gás fez com que o Rio de Janeiro deixasse de ser uma cidade de sombras, o óleo de baleia era de fato o principal combustível dos lampiões e dos oratórios que ficavam nas esquinas.
As baleias foram embora há muito tempo e deixaram em seu lugar, nas escuras águas da Baía de Guanabara, personagens mais exóticos, como pneus de carro e garrafas de refrigerante.


9.20.2021

LEITE COM MANGA

 Uma das atitudes mais corajosas que já tomei na vida foi quando pedi um copo de leite com manga numa agradável tarde de sábado em um bar do subúrbio carioca de Cascadura. Não que as condições do estabelecimento fossem inadequadas, era até simpático o bar, mas o ato de coragem se justifica por eu ter ouvido desde pequeno que a mistura de leite com manga poderia levar à morte em poucos minutos.

Não sei de onde veio a argumentação de que estas duas substâncias unidas poderiam provocar uma explosão fatal ao entrar no organismo, mas sei que ela existia e era constantemente lembrada, acabando por se constituir numa das lendas urbanas de maior durabilidade, tal qual a da mulher loura no banheiro, embora esta eu nunca tenha tentado desafiar e muitas vezes, quando criança, cheguei em casa com a bexiga no limite por medo de entrar no banheiro do colégio.
 Também não sei por quais cargas d´água tomei a coragem de fazer o insólito pedido naquela tarde, enquanto aguardava meu ônibus chegar ao ponto. Tinha 18 anos, estava feliz, ia a uma festa e não havia qualquer sombra de comportamento autodestrutivo em minha vida. Talvez fosse uma espécie de rito de passagem, aquela situação que todo adolescente precisa enfrentar antes de ingressar na fase adulta de peito aberto, deixando para trás o medo e a insegurança.
Pois bem, devia ser isso mesmo. E lá fui eu, cheio de coragem, pedir a estranha mistura num bar cheio de gente bebendo cerveja e outras misturas mais fortes. O ridículo da cena talvez lembre o personagem Shane, interpretado por Alan Ladd, pedindo uma gasosa no bar cheio de “homens brabos” do filme “Os brutos também amam”.
O mais incrível foi que, ao fazer o pedido, o atendente rapidamente se prontificou a fazer a, digamos, vitamina, ainda perguntando se eu queria com gelo. Enquanto ele preparava, fiquei pensando: será que esse perigo só existia na minha família? Mas não podia ser. Vários amigos e conhecidos me asseguravam que a mistura leite com manga era tão fatal quando picada de lacraia (outra história terrivelmente ameaçadora). Ou então será que aquele bar era o único bastião contra estas lendas disseminadas de geração a geração? Ou o dono era um sádico especializado em matar fregueses incautos e enterrá-los nos fundos do estabelecimento, como um bom filme americano de terror classe B?
Não sei, nada ali parecia tão ameaçador. E quando a mistura ficou pronta e o atendente falou, num tom razoavelmente alto, “sai um leite com manga”, não vi ninguém espantando. Achei até que alguma velhinha pudesse pegar o copo e despejá-lo subitamente na calçada e ainda me dar um belo de um esporro por ser tão inconsequente. Não, nada aconteceu. E então, de frente para o Viaduto de Cascadura, bebi tranquilamente meu primeiro copo de leite com manga. Paguei, agradeci e o atendente me deu o troco como se nada tivesse acontecido.
Peguei meu ônibus e achava, inconscientemente, que algo ainda aconteceria. De qualquer forma, tinha meu endereço e um número de telefone na carteira, como meu pai sempre recomendava, e por isso alguém (uma enfermeira, o mais provável), poderia dar a trágica notícia à família. Mas, também desta vez, nada aconteceu. Fui à festa, me diverti bastante, voltei para casa no dia seguinte e nas 48 horas seguintes, que seriam de observação e monitoramente, não tive nem uma diarreiazinha sequer.

Confesso: me decepcionei. Uma verdade tão inquestionável como aquela precisaria ter um fundo de...verdade, pelo menos. Um mito não cai por terra assim, sem esboçar um mínimo de reação. Mas aquele caiu, de forma irrefutável. Contei a façanha para amigos e familiares e alguns ainda me chamaram de louco e inconsequente. Seja como for, depois disso passei a adotar a vitamina de leite com manga no meu cardápio e me enchi de coragem para tomar outras atitudes impetuosas, como tomar banho depois do almoço ou andar de ônibus pela avenida Brasil de madrugada. Mas a mulher loura no banheiro, esta ficou sempre no meu imaginário como um símbolo de medo e covardia. 

* Este texto faz parte do meu livro de crônicas O Peão Poeta.



9.08.2021

O FRANCÊS QUE SAQUEOU O RIO

 Se o francês Jean François Du Clerc, com cerca de mil corsários, não conseguiu conquistar o Rio de Janeiro, em 11 de setembro de 1710, e ainda acabaria assassinado na prisão, um ano depois a situação seria bem diferente. Outro corsário francês, René Duguay-Trouin, chegava à cidade com 17 navios (na verdade foram 18, pois no caminho os franceses obrigaram a tripulação de um navio inglês a seguir com eles) e cerca de 4 mil corsários. Duguay-Trouin rompeu as defesas da Baía de Guanabara e invadiu o Rio, apoiado por uma forte neblina, no dia 12 de setembro de 1711, há 310 anos.

Apesar do bombardeio das fortalezas e navios de guerra portugueses, os franceses foram avançando até se estabelecerem na Ilha das Cobras (exatamente em frente ao atual Boulevard Olímpico), de onde partiriam para conquistar a cidade. "No dia 14 de setembro já estavam em terra todas as nossas tropas, num total de dois mil e duzentos soldados, e entre setecentos e oitocentos marinheiros, armados e experimentados, o que perfazia, incluídos os oficiais, guardas-marinha e voluntários, uma tropa de cerca de três mil e trezentos homens. Além disso, tínhamos ainda quase quinhentos homens atacados por escorbuto, os quais desembarcaram junto com os outros, e ao cabo de quatro ou cinco dias já estavam em condições de ser incorporados ao resto das tropas". ("Memórias do Senhor Duguay-Trouin", São Paulo, Imprensa Oficial-Editora UnB, 2003).
Após alguns dias de intensa batalha, a tropa portuguesa e os moradores da cidade a abandonaram após um grande bombardeio francês na noite do dia 20, acompanhado de intensa tempestade com muitos raios e trovoadas. O povo ficou em pânico, achando que os franceses realizavam um ataque geral, e fugiu da cidade levando o que podia em meio aos caminhos alagados. O governador Francisco de Castro Morais, e toda a administração da cidade, se refugiaram na Fazenda do Engenho Novo, dos jesuítas. Todos aguardavam, ansiosos, a chegada de uma imensa tropa que vinha de Minas Gerais, sob o comando de Dom Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho.
Duguay-Trouin já sabia da iminente chegada dessa tropa e, por isso, acelerou a negociação do pagamento do resgate, ameaçando destruir toda a área central do Rio de Janeiro, já que, além das centenas de canhões dos navios de guerra, os franceses dominavam todas as fortalezas. Dom Antônio chegou no dia 11 de outubro, com cerca de 6 mil homens de tropas regulares. Mas nada mais podia ser feito. O resgate da cidade já havia sido assinado, os franceses receberam 610 mil cruzados, 100 caixas de açúcar e 200 vacas, fora o que os corsários saquearam pela cidade. Duguay-Trouin devolveu o Rio de Janeiro e embarcou de volta com seus corsários no dia 13 de novembro, incluindo aí centenas de franceses da expedição de Du Clerc que estavam presos na cidade.
Considerado culpado pela perda da cidade, o governador Francisco de Castro Morais foi degredado para a Índia, só conseguindo o perdão quase 30 anos depois. O Rio de Janeiro passou a ser governado por Dom Antônio de Albuquerque. Já a volta dos corsários para a França foi cheia de contratempos, com imensas tempestades pelo caminho. O navio Aigle naufragou na ilha de Caiena, quando estava ancorado, mas a tripulação conseguiu escapar. Já os navios Magnanime e Fidèle naufragaram em alto mar, com a morte de quase 1200 franceses, incluindo Monsieur de Courserac, o primeiro a forçar a barra na Baía de Guanabara. Junto com o Magnanime, foram parar no fundo do mar boa parte das mercadorias trazidas do resgate e 600 mil libras em ouro e prata.

8.24.2021

O ADVOGADO DOS INCONFIDENTES

 Um importante personagem da Inconfidência Mineira nasceu no Rio de Janeiro, em 1752. José de Oliveira Fagundes era filho do comandante José Ferreira Lisboa e de Firmina Inácia de Oliveira. Aos 20 anos, foi estudar Direito em Coimbra, tendo concluído o curso em 1778. Trabalhou em Lisboa e depois voltou ao Rio de Janeiro, exercendo a profissão em varas cíveis e criminais. No dia 31 de outubro de 1791 foi nomeado, pela Alçada, advogado da Santa Casa de Misericórdia para defender os réus da Inconfidência Mineira, prestando juramento nessa data. As duas devassas já estavam reunidas numa só. Sua admissão na Santa Casa ocorreu em 1790 e ele ganharia 200 mil réis pelo serviço.

Tanto tempo depois das prisões, só agora era concedido o direto de defesa aos réus. O advogado não perdeu tempo: começou a dar vistas ao sete imensos volumes, com todos os interrogatórios, e apresentou os primeiros embargos de defesa no dia 23 de novembro, com 121 parágrafos referentes a 29 réus vivos e três falecidos. Fagundes foi ajudado por outros advogados na leitura dos autos, mas seus nomes não foram registrados.
Sobre Tiradentes, Fagundes estabelece sua defesa afirmando que o alferes era conhecido "por loquaz, sem bens, sem reputação, sem crédito para poder sublevar tão grande número de vassalos quanto lhe seriam indispensáveis para o imaginário levante contra o Estado", e ainda cita "o caso que se fazia em toda aquela capitania da lubricidade da sua língua, basta notar a indiscrição, e nenhum acordo com que, sem escolha de tempo e de pessoas, e de lugar proferia as quiméricas ideias que a sua libertinagem lhe subministrava". (Tiradentes - a defesa, Paulo Duque (org.) O advogado ainda retirava o crédito da própria confissão de Tiradentes, provocado, segundo ele, por ser o alferes um homem "desesperado por ter sido preterido quatro vezes, parecendo-lhe que tinha sido muito exato no serviço (...)". (Tiradentes - a defesa, Paulo Duque (org.)
A defesa seria difícil. Os interrogatórios se sucediam e os réus, presos em calabouços terríveis, iam descrevendo todos os detalhes do movimento, fornecendo todo o material necessário para os juízes indicarem as culpas de cada um. Mesmo assim, Fagundes apresentou seus embargos, escritos de forma bem detalhada, inclusive de Domingos Fernandes da Cruz, que apenas emprestou a casa a Tiradentes, sem ter a menor ideia do que se tratava, e também estava preso. "(...) o réu Domingos Fernandes da Cruz, em cuja casa foi preso o réu Xavier ignorava qual era o seu delito, e o recolheu em sua casa a instâncias de Inácia Gertrudes de Almeida, a quem também o dito réu enganou (...)". (Tiradentes - a defesa, Paulo Duque (org.)
A defesa estava lançada, agora era esperar o resultado do imenso trabalho de Fagundes. Em homenagem a este grande conhecedor das leis, desde 1989, uma das salas da Procuradoria Geral da República, em Brasília, tem o nome de José de Oliveira Fagundes. E no prédio da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) há uma placa com o nome do advogado.

* Este texto faz parte do livro "Tiradentes Carioca", meu e de Ronaldo Morais.



7.17.2021

O NOSSO 11 DE SETEMBRO

 A data de 11 de setembro costuma ser lembrada por dois acontecimentos dramáticos de alcance mundial: o ataque às torres gêmeas, em Nova York, em 2001, e o golpe militar no Chile, em 1973.

Já aqui, no Rio de Janeiro, também tivemos o nosso 11 de setembro, bem mais antigo, mas também com altas doses de violência e dramaticidade. Foi nesta data, em 1710, que o francês Jean François Du Clerc, acompanhado de cerca de mil corsários, invadiu a cidade do Rio de Janeiro pela praia da Barra de Guaratiba, no lado oeste da cidade. O objetivo? Conquistar e saquear a cidade e depois dividir o butim, o valor do resgate, entre os corsários e os que apoiaram a invasão. O corsário, ao contrário do pirata, tinha autorização do rei para suas investidas (no caso de Du Clerc, do rei Luis XIV, o Rei Sol, ícone do modelo político conhecido como Absolutismo) e apoio financeiro de companhias e nobres abastados.
Du Clerc tentou invadir o Rio de Janeiro pela Baía de Guanabara, mas foi rechaçado, com seus seis navios, pela Fortaleza de Santa Cruz. Foi, então, navegando pelo litoral da cidade até chegar a Angra dos Reis, que foi duramente bombardeada e teve algumas fazendas saqueadas. Quatro escravos fugidos de uma dessas fazendas informaram aos franceses que a praia da Barra de Guaratiba seria um bom ponto de desembarque para se atingir o centro do Rio de Janeiro. Os franceses seguiram o conselho e desceram na praia no dia 11 de setembro.
Após oito dias de dura caminhada pelas montanhas (e com direito a alguns saques, como na Fazenda do Camorim), chegaram ao centro do Rio, onde já eram esperados sem o menor pingo de hospitalidade. Numa violenta batalha que durou um dia inteiro, com muitos mortos e feridos de ambos os lados, os invasores se renderam. Os franceses sobreviventes foram distribuídos pelas prisões e Du Clerc ficou preso no Convento dos Jesuítas, no já extinto Morro do Castelo, sendo depois transferido para uma casa, na esquina da rua da Quitanda com (também já extinta) rua General Câmara, onde, apesar de estar guardado por várias sentinelas, foi assassinado no dia 18 de março de 1711, um crime que nunca foi solucionado.
Ainda em 1711, um outro corsário, René Duguay-Trouin, chegava ao Rio com a mesma intenção de Du Clerc, mas desta vez com 18 navios e cerca de seis mil corsários franceses. Mas essa história deixo para contar outro dia.
* Esta história é contra no livro A invasão francesa do Brasil, meu e de Ronaldo Morais.


6.23.2021

CURSO DE HISTÓRIA DA ZONA OESTE CARIOCA

 O Curso Livre de História da Zona Oeste Carioca será ministrado pelo jornalista e escritor André Luis Mansur de forma on-line e ao vivo, em quatro aulas, terças, das 19h às 21h, abrangendo a região entre Deodoro e Sepetiba. Os alunos vão lidar com temas importantes do passado da região, como a Fazenda de Santa Cruz, a Fábrica Bangu, a invasão de corsários franceses em Guaratiba, além de personagens importantes, como Freire Alemão e Padre Miguel, entre muitos outros assuntos.

O curso será baseado nos livros da trilogia O Velho Oeste Carioca, publicados por André Luis Mansur.
Início: 13 de julho - terça
Encontros: 13/ 20/ 27 de julho e 10 de agosto
Terça - 19 às 21h
Investimento: 80,00
Informações: 981772039
Ideias Espaço Criativo



6.22.2021

A CASA DA INFÂNCIA


Portão do número 84 da rua Sirici, em Marechal Hermes, onde morei, e fui muito feliz, de 1969, quando nasci, até 1990, quando me mudei para Campo Grande. É uma vila de 6 casas e morávamos no número 6.- em cima tem mais 2 apartamentos. Fica bem pertinho do Largo de Marechal e da Estação de Trem.

Quando entreguei as chaves para o senhorio, "seu" Hélio, em um dia cheio de saudades, o último objeto retirado da casa foi a minha boa e velha Monark Monareta, com a qual vim pedalando para Campo Grande. Escrevi uma crônica sobre isso para o jornal O Dia. O link é este:

https://odia.ig.com.br/opiniao/2018/10/5579738-andre-luis-mansur-baptista-de-marechal-a-campo-grande.html?fbclid=IwAR0EuGP_qtCeDmCmFMGx9-LDPLxG1UIzOtap4T1NPLWUHOat5d8qxAtrgNs

5.20.2021

NOMES DE BAIRROS CARIOCAS E SUAS LENDAS

 NOMES DE BAIRROS CARIOCAS E SUAS LENDAS, ALGUMAS ATÉ BEM CONVINCENTES

Por André Luis Mansur

 

        Nomes de bairros sempre despertam curiosidades. E o mais interessante é que, ao lado da versão, digamos, oficial, há sempre a lenda, a explicação mais folclórica, que ficou na tradição oral durante décadas, às vezes séculos, e muitas vezes são as mais interessantes. É o que acontece com o nome da Ilha de Guaratiba e de outros bairros aqui da Zona Oeste do Rio de Janeiro.

        Quando comecei a conhecer a região, lá pelos anos 80, estava em Campo Grande e vi um ônibus com o destino "Ilha". Meu primeiro pensamento foi que seguia para a Ilha do Governador. Mas depois vim a descobrir que não havia, e não há até hoje, um ônibus direto entre Campo Grande e Ilha do Governador. Que ilha era essa então? Aí me explicaram que era a Ilha de Guaratiba. Ah, tudo bem, Guaratiba tem um amplo litoral, deve ser alguma das ilhas que estão ali por perto. Mas que nada. A Ilha de Guaratiba fica é em terra mesmo, foi o que me disseram, e seu nome tinha a ver com um tal inglês que morou lá fazia muito tempo. Um tal de William.

       Reza a lenda, e aí vem a versão folclórica, que um inglês chamado William, que teria vindo com a Corte portuguesa, em 1808, foi morar em Guaratiba e aí, quando as pessoas iam para lá, diziam: "Vai aonde? - Para a fazenda do seu William. - Que William? - O William de Guaratiba". E aí o tal William de Guaratiba, com o tempo, e bota tempo nisso, foi mudando até chegar ao nome atual de Ilha de Guaratiba.

        Bem, como eu disse, esta é a versão folclórica. A outra explicação diz que o nome Engenho da Ilha já existia bem antes da chegada da Família Real e não tem nada a ver com inglês nenhum, e sim com a grande quantidade de rios e canais da região, que, quando enchiam (e lembremos que os rios tinham muito mais água do que hoje), deixavam uma grande porção de terra, mais elevada, cercada de água por todos os lados, a tal Ilha de Guaratiba. Como não sou dono da verdade, nem pretendo ser, deixo para cada um escolher a sua versão - eu escolho esta última.


                         Fachada da sede do Ilha Futebol Clube


         O mesmo acontece com Realengo, que para muitos é a abreviatura de um engenho, o Real Eng., que com o tempo passaria a ter o nome atual. A outra versão, na qual eu acredito, é que toda aquela região fazia parte das Terras Realengas, ou seja, terras que eram do Reino de Portugal na época da colônia e onde não se podia construir nada particular. Houve algumas invasões de fazendeiros, é verdade, mas no século XIX, quando o governo imperial resolveu transformar aquela região em área militar, ela estava praticamente vazia de construções particulares, justificando a origem do nome (embora alguns conflitos tenham ocorrido nas Terras Realengas no passado exatamente por disputas de áreas de fazendas).

                                                                    

                                                                 Brasão de Realengo

         O bairro de Inhoaíba, entre Campo Grande e Cosmos, também tem duas explicações para a origem de seu nome. Tem a de origem indígena, Nhu (campo) Ahyba (ruim), e a que fala dos escravos de uma fazenda que chamavam o seu dono de "Sinhô Aníbal", ou "Inhô Aníbal". Confesso que neste caso ainda não sei em qual acredito, mas tenho uma tendência a dar mais crédito à versão da origem indígena.

    


                             Inhoaíba - Instituto Ana Gonzaga


     Também o bairro de Vila Valqueire, já ali entre as Zonas Norte e Oeste, possui uma explicação bem curiosa sobre o seu nome, a de que teria existido uma fazenda em um tal "V Alqueire" ("V" é "cinco" em algarismo romano, seria um "quinto alqueire"), mas neste caso não há dúvida, o nome vem mesmo do fazendeiro Antônio Fernandes Valqueire, dono de um engenho na região no século XVIII. Mesmo assim há quem acredite no tal "quinto alqueire".    



                   Rua das Verbenas, na Vila Valqueire, década de 30


        Dúvidas à parte, esta e outras versões sobre os nomes de vários bairros da cidade sobreviveram até hoje, mostrando a força da tradição oral, que se muitas vezes está distante da verdade registrada em documentos oficiais, ela não deixa de ter o seu valor ao despertar a curiosidade dos moradores pela origem dos nomes dos seus bairros. Como já falei aqui neste espaço, conhecer a História do seu bairro é fundamental para se criar afinidade com ele e saber o que reivindicar em melhorias e investimentos. E saber a origem do nome do bairro, da rua ou do logradouro, é o primeiro passo para isso. Afinal, quem não fica curioso ao ouvir falar em nomes como Curral Falso, Manguariba, Marapicu, Paciência, Viaduto dos Cabritos, Buraco do Faim, Esquina do Pecado, Marco 7, Caminho do Vai e Vem e tantos outros que enriquecem a História, "oficial" ou não, da Zona Oeste do Rio de Janeiro.

* Este texto faz parte do meu livro "Crônicas Históricas da Zona Oeste Carioca"







5.02.2021

CENTRO DO RIO

 


Por André Luis Mansur 

Apesar de ter sido criado em Marechal Hermes, nasci no Centro do Rio, na Avenida Henrique Valadares, lá no distante ano de 1969. Vim ao mundo no Hospital do Iaserj, na época Iaseg, hospital que muito mais tarde Sérgio Cabral mandaria demolir.

Passaria a frequentar o Centro do Rio só a partir dos 15 anos, levado por meu saudoso pai, Wilson Baptista, e lembro que o primeiro lugar por onde andamos foi a Avenida Marechal Floriano, que se tornaria um dos meus espaços preferidos por lá. A avenida de prédios históricos, como o Colégio Pedro II, o Palácio do Itamaraty, a Igreja de Santa Rita e a sede da Light, que hoje é um Centro Cultural.

Mas a Marechal Floriano também é a Avenida da Livraria Elizart, que está resistindo bravamente à pandemia e ao esvaziamento do Centro, assim como a Folha Seca, do Rodrigo Ferrari  (funcionando em horário reduzido, de segunda a sexta, das 11h às 16h); da Leonardo da Vinci, do Daniel Louzada; da Blooks, da Elisa Ventura; da Travessa; da Casa da Árvore e dos muitos sebos, lugares que eu passaria a frequentar com assiduidade, incluindo aí o mais recente deles, o Sebo X, na Praça Tiradentes, do Jocemar Barros e do Paulo-Roberto Andel.

Todos resistindo e acreditando no renascimento do Centro, que teve boa parte das lojas falidas com a pandemia e também  boa parte dos escritórios trabalhando em home-office - muitos escritórios, aliás, vão continuar assim, pois seus gestores perceberam que fica bem mais barato do que pagar os caros aluguéis e condomínios da região. 

                        Rua Primeiro de Março


Mas a recuperação do Centro do Rio (após a pandemia, é claro) vai precisar passar por uma volta às origens, à época em que a região abrigava não só trabalhadores, como hoje, mas também moradores, que se espalharam por suas ruas abertas em meio a pântanos e gangues desde seus primórdios, após ocuparem o Morro do Castelo, em 1567. A Reforma Passos, no início do século XX, afastou os moradores da região central da cidade, mas agora eles precisam voltar, é a única saída para revitalizar de novo a região.

Vai ser difícil, sem dúvida. Mas acredito que aquela região, que derrotou o corsário Du Clerc, em 1710, mas seria derrotada e saqueada pelo corsário Rene Duguay-Trouin, no ano seguinte, entre tantos conflitos e perrengues ao longo de sua História, vai dar a volta por cima. A força do Centro do Rio está na sua mistura, lá se encontram moradores dos subúrbios, da Zona Sul, da Baixada, de outras cidades e estados, uma dinâmica que não se encontra em nenhuma outra parte da cidade e que, acredito, é o que vai fazer a região se reinventar. Mas, como eu disse, vai ser difícil. O cenário atual é  triste, mas que possamos ter (talvez no ano que vem, quem sabe?), uma cena parecida como esta da foto que abre o texto, quando lancei meu romance "A Praça" na Folha Seca, um pouco antes do Carnaval de 2019, um domingo de muito sol, samba e aglomeração.


12.02.2019

VIAJANTES ESTRANGEIROS NA ZONA OESTE CARIOCA NO SÉCULO XIX

Viajantes estrangeiros na zona oeste carioca no século XIX - Adinalzir Pereira Lamego - Letra Capital.



Mais um livro sobre a História da Zona Oeste Carioca é lançado, desta vez sobre a grande quantidade de viajantes de outras nações (principalmente da Europa) que estiveram na região durante o século XIX. Desde que a Fazenda dos Jesuítas, em Santa Cruz, uma das maiores do Brasil, passou a ser Palácio de Veraneio do príncipe-regente, D. João, após a chegada da Família Real, em 1808, um grande número de pintores, cientistas e comerciantes, entre outros, passaram a conhecer a região e a registrar, tanto em quadros quanto em textos, o que viram. Todo esse material era publicado na Europa em livros que eram autênticos best-sellers para a época, estimulando mais ainda a curiosidade em torno de toda essa área que muito mais tarde seria conhecida como a Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro.

Após contar um pouco da História dos bairros da zona oeste no início do livro, o professor Adinalzir Pereira Lamego descreve, em detalhes, a rotina das viagens de pessoas como Jean Baptiste Debret, Thomas Ender, Maria Graham, John Mawe, Spix e Von Martius, entre outros, que visitaram essas terras seja através dos rios, o principal meio de transporte na época, ou pela Estrada Real de Santa Cruz. É um material extremamente rico sobre a História do Brasil, que precisa ser conhecido não só por pesquisadores, como pelos moradores da zona oeste, o retrato de um passado histórico rico e que atraía o interesse de gente conseguiu traduzir a beleza, riqueza e variedade de uma região que, segundo John Emmanuel Pohl, oferecia "uma vista magnífica, com prazer o meu olhar percorria o imenso espelho do mar, de onde assomavam, em pitoresca beleza, as ilhas da Restinga, Madeira, Itacuruçá, Mangaratiba e, muito ao fundo, a Ilha Grande".
       
      Adinalzir Pereira Lamego participa de duas instituições de pesquisa importantes da Zona Oeste, uma mais antiga, o Noph (Núcleo de Orientação e Pesquisa Histórica de Santa Cruz), fundado em 1983, e a Camempa (Casa da Memória Paciente), de 2015. Além disso, mantém já há bastante tempo o blog saibahistoria.blogspot.com



11.11.2019

CINE LUX, O CINEMA DE MARECHAL HERMES



Marechal Hermes, assim como todos os bairros dos subúrbios, tinha o seu cinema, o Cine Lux, que infelizmente só peguei nos últimos anos, na década de 80, bem depois da época em que a tampinha de uma caixa de sabão em pó podia ser trocada por um ingresso e de quando os cinemas ainda tinham os lanterninhas, no caso do Lux conhecidos ironicamente como Montanha e Tarzan, pois eram dois senhores bem magrinhos. Muita gente frequentava as matinês do cinema, que além dos filmes passava jornais e seriados.
O jornal "Correio da Manhã" assim noticiava (com a grafia da época), em 11 de dezembro de 1934, a inauguração do cinema:
UMA TARDE DE FESTAS EM MARECHAL HERMES
Inaugura-se hoje, ali, um cinema, que rivalisa com os mais modernos
"Hoje, ás 4 horas da tarde, Marechal Hermes será enriquecido com a inauguração de um cinema que rivaliza com os melhores da cidade. Trata-se do Cine Lux, moderníssima concepção de architectura, que, além da belleza das linhas exteriores, tem uma sala de projecção, um verdadeiro estudo de acustica. Tem o novo cinema, para commodidade dos seus frequentadores, ventilação natural dada por uma cupola; os apparelhos de som, das mais recentes fabricações, são da Western Electric o que assegurará, sem duvida, a primeira posição entre os cinemas dos nossos suburbios.
Para a inauguração do novo cinema foi escolhido o film da Metro Goldwin Mayer "Viva Villa", uma das grandes creações daquela companhia americana. Á "premiére" comparecerão os ministros do Trabalho e da Educação, interventor Pedro Ernesto, director da Central do Brasil, presidente do Instituto Nacional de Previdencia - a quem se deve a iniciativa do melhoramento - e outras autoridades.
Estão, pois, de parabens, os moradores do suburbio pela bellissima acquisição que acabam de realizar".
Mas se Marechal não tem mais o seu cinema, transformado em templo religioso há mais de 20 anos, o bairro, com suas ruas largas, tranquilas e arborizadas e os sobrados centenários, Marechal Hermes é um cenário muito utilizado em filmes, novelas e seriados. É o segundo bairro do Rio de Janeiro que mais serve de cenário para produções audiovisuais, só perdendo para Copacabana. Na década de 70, por exemplo, foi rodado no bairro o filme “Chuvas de verão”, com Miriam Pires e Jofre Soares, dirigido por Cacá Diegues na Rua Engenheiro Assis Ribeiro. Mais tarde, outros filmes foram rodados no bairro, como "Parahyba mulher macho", de Tizuka Yamazaki, "A suprema felicidade", de Arnaldo Jabor e "Billi Pig", dirigido por José Eduardo Belmonte.
Em 1998, a segunda versão de "Pecado Capital", da Rede Globo, foi rodada nas ruas do bairro, onde moravam o taxista Carlão (Eduardo Du Moscovis) e sua namorada, Lucinha (Carolina Ferraz). Outras produções que se utilizaram do bairro foram as novelas "Pecado mortal" (Record), "Boogie Woogie (Globo), "Avenida Brasil" (Globo) e "Além do horizonte" (Globo).
Parte dos sobrados originais do bairro precisa de uma reforma. Em 2013, o bairro foi o primeiro da zona norte a ganhar uma Área de Proteção do Ambiente Cultural (Apac), reunindo seis ruas e uma praça, incluindo a estação ferroviária e os prédios dos cursos de Mecânica e Eletrotécnica da Escola Visconde de Mauá. O decreto impede a construção de imóveis com gabarito superior a três andares, ou 11 metros de altura, e abre possibilidades para que as obras de restauração dos sobrados sejam custeadas pela prefeitura.
* Imagem aérea do bairro na década de 1930, com o Cine Lux em destaque

10.11.2019

PATRÍCIO, O BURRO PENSIONISTA

Há diversas histórias curiosas sobre a passagem de D.João por Santa Cruz. Uma delas se refere ao carrapato, ou melhor, ao “desalmado carrapato”, que, segundo Noronha Santos (“Meios de transporte no Rio de Janeiro” – vol. 1) “se agarrava a uma das reais pernas. Retirou-o d. João, precipitadamente e, com tal imprudência o fez, que a escoriação se transformou em ferida ulcerosa, dando cuidados aos médicos e cirurgiões da Corte”. Sem poder andar, o príncipe-regente passou a usar a cadeirinha para se locomover na fazenda, levada por 12 escravos, que costumavam cantar à chegada de D. João na antiga propriedade dos jesuítas: “Nosso Sinhõ chegô, cativeiro já acabô”. Ainda segundo o autor, “d. João, sem o querer, e o carrapato dos pastos de Santa Cruz intensificaram o uso das cadeirinhas na cidade, que, no limiar do século, eram utilizadas só por particulares”.
Uma outra história envolvendo as temporadas em Santa Cruz refere-se a um burro de estimação do príncipe-regente, trazido de Lisboa na comitiva real. Este burro, de nome Patrício, foi levado por D.João para Santa Cruz, onde passaria a residir, recebendo uma pensão para suas “despesas diárias”. D. João não deixava que perturbassem Patrício e chegou a repreender severamente um funcionário da fazenda que chicoteou Patrício, que assim podia invadir terrenos alheios sem ser incomodado.
Já Benedito Freitas, autor de uma coleção de três volumes sobre a história da fazenda (“Santa Cruz – Fazenda Jesuítica, Real, Imperial”) reúne tanto detalhes sobre o trabalho administrativo da fazenda como aspectos bastante curiosos. Um deles diz respeito ao espírito zombeteiro do carioca, que já se manifestava mesmo num local tão distante do centro. Como já foi bastante divulgado, à chegada dos 15 mil portugueses da comitiva de D.João, boa parte deles fidalgos, as melhores casas do Rio de Janeiro recebiam na porta a inscrição P.R., significando Príncipe Real e indicando um prazo para os moradores saírem daquela casa e cederem seu lugar ao nobre português, que não poderia ficar sem uma habitação digna de sua posição. Logo, o povo começou a divulgar outro significado para aquela inscrição, bem mais objetiva e sarcástica: “Ponha-se na rua”!
* Foto de 1984, tirada por Ronaldo Morais, do Batalhão de Engenharia Militar Vilagrán Cabrita.
n Cabrita, antiga sede da Fazenda de Santa Cruz.

9.30.2019

VINÍCIUS E AS CUTIAS


No excelente documentário "Vinicius", de Miguel Faria Jr., Toquinho conta que certa vez Vinicius de Moraes o chamou para ver algo que o deixou impressionado: no quintal de uma casa, animais de diferentes espécies conviviam harmoniosamente, uma situação que o poeta nunca presenciara em seus anos de diplomacia. A mesma observação atenta, e impecavelmente irônica, pode ser aplicada a um outro local bem no centro do Rio de Janeiro.
Ao lado da avenida Presidente Vargas, uma das mais movimentadas da cidade, o Campo de Santana chama a atenção não apenas pelas muitas árvores que abriga, além de dois lagos e uma gruta, mas principalmente por um roedor de tamanho médio que está por todas as partes do campo: a cutia. Sempre de bom aspecto, afinal são bem alimentadas pelos funcionários, elas dividem espaço com gatos, gansos, patos e até pavões, numa demonstração clara de que a convivência entre as diferenças é uma etapa já superada pelos animais ditos irracionais há muito tempo.
Mas quem passa por ali todos os dias (e é muita gente) e se admira do que vê em volta, vai ficar muito mais impressionado se conhecer a rica história daquele espaço que se originou de um outro campo, este muito maior, o de São Domingos, onde ficava a igreja de São Domingos, já destruída e que pertencia a uma irmandade de negros escravos. Já havia uma igreja de outra irmandade de escravos, a de São Rosário e São Benedito, que até hoje está na rua Uruguaiana. Uma terceira surgiria, a de Santana, mas sem igreja ainda os fiéis pediram e conseguiram que a imagem da santa fosse cultuada na igreja de São Domingos, uma prática comum entre irmandades no Brasil colonial. Divergências, no entanto, provocaram a expulsão dos fiéis e da imagem de Santana e a irmandade então solicitou um terreno próprio, no que foi atendida. A igreja foi construída próximo ao morro da Conceição, em 1735, na altura onde é hoje o prédio da Central do Brasil.
À medida em que a cidade se expandia, toda aquela região começou a ser urbanizada, com a formação de ruas e praças, já que a área era constantemente alagada. No início do século XIX, o Conde de Resende, último vice-rei do Brasil, mandou aterrar o Campo de Santana, que na época se estendia por toda a área da atual avenida Presidente Vargas em frente à atual Central do Brasil. Com a melhoria do terreno, surgiram as festas do Divino de Santana, ou Folias do Divino, que antes do carnaval eram as festas preferidas do carioca.
Em 1811, foi iniciada a construção de um quartel no campo, ao lado da igreja. Considerado muito feio, o edifício abrigou o 2º Regimento de Linha em 1814, mesmo sem estar concluído. Depois foi reformado e ocupado pela Secretaria de Guerra durante todo o Segundo Reinado. A partir da República seria a sede do Ministério da Guerra até meados do século XX, quando enfim foi destruído, dando lugar ao Palácio da Guerra, atual sede do Comando Militar do Leste, ao lado da Central do Brasil.
Foi no Campo de Santana que D. Pedro I protagonizou o Dia do Fico e recebeu, em 12 de outubro de 1822, já após a independência, o título de Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil, no amplo balcão do pavilhão construído em 1818 e que explodiu em 1841 quando estava repleto de barris de pólvora e fogos de artifício armazenados para a festa de coroação de D. Pedro II, matando o organizador da festa. O reflexo do sol no vidro de um lampião teria sido o estopim da explosão. Foi durante esse período que o campo passou a se chamar Campo da Aclamação.
O Campo também abrigou o Museu Real, fundado por D. João VI em 1818, na casa do Barão de Ubá, que depois seria a sede do Arquivo Nacional e que ainda existe, na esquina com a rua Visconde do Rio Branco. O Museu abrigou uma grande quantidade de espécies da flora e da fauna, além de um rico acervo mineral, sendo depois transferido para o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista.
O gradeamento é de 1873, obra de François Marie Glaziou, um botânico francês que trabalhou em vários jardins públicos da Corte. O que ele não poderia imaginar é que quase 140 anos depois sua obra serviria de passagem para que várias pessoas, na maioria idosas, levassem quilos e mais quilos de ração para os muitos gatos do campo à noite. É nessa hora que surge a única iminência de conflito entre os animais do local, pois os fornecedores da ração acabam tendo de afastar os patos que, sorrateiramente, vão se aproximando, de olho na ração dos gatos. Já as cutias aproveitam a redução do barulho dos carros e dormem a sono solto no campo onde elas representam o papel principal durante o dia.

ALGUM LUGAR PARA CAIR E FECHAR OS OLHOS DE VEZ



Algum lugar para cair e fechar os olhos de vez - Raphael Vidal - Pallas Editora.

Certa vez conversei com Raphael Vidal sobre o escritor João Antônio, referência literária para nós dois e que eu conhecera nos anos 90, enquanto Vidal já o homenageara em um evento. Agora Vidal consagra seu livro "Algum lugar para cair e fechar os olhos de vez" a João Antônio e a Lima Barreto. A referência ao escritor não está só na dedicatória e também na temática e no estilo do livro, intenso e dinâmico, feito de frases curtas, gírias de rua, a língua viva dos entorpecidos, dos atropelados pela realidade.

Quando conheci João Antônio, no início de 1994, ele me convidou para tomar umas em um boteco que não existe mais, na esquina da Rua da Relação com Avenida Gomes Freire. Lá ele me falou do incômodo que sentia com a forma como os pobres eram retratados por boa parte de nossos escritores, jornalistas e autores de novelas, seja com preconceitos ou com um olhar excessivamente piedoso. Entre as exceções do passado, Lima Barreto, sua grande inspiração, que sempre teve um olhar sensível e digno para essas pessoas, principalmente os encardidos que frequentavam os muquinfos nas madrugadas, para usar o linguajar de João.

                                                                       João Antônio

Pois foi exatamente dessa conversa com João e da leitura de Lima Barreto que me lembrei ao ler o livro de Raphael Vidal, cria do subúrbio carioca como eu, e que não passa indiferente a essa gente que "tenta escapar do destino, da carne, do corpo, do sangue nas veias". Muito pelo contrário, se mistura com ela, vivencia suas dores e alegrias e percebe a imensa riqueza que há na vida dos que nem sempre são percebidos pelos olhares rápidos de quem só quer cumprim suas obrigações dentro do sistema.

Aqui os pobres são protagonistas, os remediados das ruas estão no palco principal, não há espaço para firulas, não dá tempo sequer de esperar a ressaca passar. "Morrer de verdade é insistir em viver". Como Malagueta, Perus e Bacanaço, os personagens mais famosos de João Antônio, os brasileiros que Vidal nos apresenta são criados nas biroscas e nas quitandas, sem eira nem beira, se arrastando para ganhar um qualquer, como o velho que sobe a ladeira com as flores da igreja, aguardado ansiosamente pelo padre e pelas senhoras, sobe como se fosse um Cristo levando a cruz, em um dos momentos mais emblemáticos do livro: "Caído, lambendo pedra, as flores fizeram um espetáculo, voando para a finitude. Um tapete desenrolava-se bem a sua frente, guiando pelo caminho do fracasso. Ele, o homem, sorria. Se precisasse de uma razão só em toda sua vida, lá estava: o fim".

Vidal já tem uma vivência cultural de muitos anos pelas ruas da cidade, principalmente na área portuária, onde mora, no Morro da Conceição, e onde está à frente da Casa Porto, misto de restaurante, boteco, Centro Cultural, fuzuê e casa de amigos, pois ele recebe a todos do mesmo jeito, informal, sempre de bermuda e sandália, onde não há como não ficar à vontade. João Antônio e Lima Barreto com certeza iriam adorar tomar umas lá, olhando pela moldura da janela o casario do morro e a Baía de Guanabara ao fundo, sonhando com uma cidade mais justa e menos cruel.



                                                        Raphael Vidal na Casa Porto


9.26.2019

NATUREZA MORTA

Natureza morta, de José Fontenele. Editora Moinhos.



        O romance "Natureza morta" é construído por José Fontenele em torno de um tema sensível e doloroso: a morte de um bebê durante a gravidez, o chamado parto interrompido. O luto da personagem Laura, que perde primeiro Henrique e, pouco mais de um ano depois, Rafael, não é um luto muito reconhecido pela sociedade, seria uma espécie de dor menor, mas que para a mãe "é como se a natureza dentro de mim não me quisesse como raiz de nada".

A narrativa, com suas muitas doses de dramaticidade e personagens singulares, é bem conduzida pelo autor, que alterna as vozes de Laura e seu marido Damião, que, ao não entender esse tipo de luto, se refugia em um silêncio constrangedor. Em volta dele, todos são vistos e caracterizados como animais, uma forma de representação da sociedade que vai se encaixar muito bem com o destino do personagem, no final do livro. "Todo dia era forçado a ultrapassar bicos, penas, patas, narizes que ninguém sabe o nome, cascos, asas, falsos pés, e toda a sorte de animália possível".

Incompreendida pelo marido e pela família, Laura usa a pintura para enfrentar a sua dor solitária. Mas de repente, do nada, ela se vê cercada, em seu apartamento, por pessoas interessadas em ajudá-la, o aspirante a escritor Hipólito e Tereza, que consegue uma exposição para as obras de Laura. A forma como esses novos personagens são vistos pelo casal é completamente diferente entre Laura e Damião, que os vê como dois intrusos em sua vida com a esposa, enquanto Laura os percebe como eles realmente são: a sua tábua de salvação, o único pedacinho de esperança que ela tinha para se agarrar à vida. "Já ouvi que para ser feliz a dois, nunca devemos nos revelar completamente ao parceiro. Algo como se fôssemos um capítulo de novela que se renova dia a dia, indefinidamente, até a hora desconhecida da morte".

Damião representa a vida adaptada ao sistema, um emprego chato em um hotel, mas suportável apenas pelo desejo de crescer na empresa, e a indiferença, ou a falta de compreensão, em relação ao problema da esposa, facilmente substituível por um jogo de futebol na noite de quarta-feira na TV, aliada à falta de bom senso ao tocar em assuntos traumáticos com a esposa no dia da vernissage dela. Enquanto isso, Laura vive no fio da navalha, uma vida frágil, que pode ser rompida a qualquer momento, e que acaba sendo a o principal combustível para a qualidade da sua pintura: "Mas não tem jeito, Arte é um ofício irregular porque áspera é a vida".

Como foi dito no início, o livro trata de um tema sensível e complexo e José Fontenele, por ser homem, obviamente jamais poderia sentir, em toda a sua dimensão, a dor de Laura ao perder dois filhos durante a gravidez. Mas uma das grandes qualidade deste livro é exatamente o uso da empatia pelo autor, essa capacidade de se sentir no lugar do outro, mergulhando fundo na tristeza e frustração de Laura. Acredito que após a leitura de "Natureza morta" muitos terão um olhar diferenciado para esse tipo de luto tão comum, mas ao mesmo tempo tão oculto pela sociedade.

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                                                                   Eu com o autor


SOBRE O AUTOR
José Fontenele nasceu no Piauí. É jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), escritor e organizador cultural. Autopublicou seu primeiro romance, O ralo da consciência, em 2014. Está entre os coordenadores do Clube da Leitura RJ e o Clube de Leitura ZO (RJ). Participou da coletânea Clube da Leitura Vol. IV (Rubra), como escritor e organizador; e tem um conto na coletânea 80 anos, devagarinho — Conta forte, conta alto, publicada pela Festa Literária das Periferias (FLUP), em homenagem à obra de Martinho da Vila. Escreve sobre Cultura e Literatura para a revista literária Revéstres. Colabora com resenhas para sites de literatura e trabalha na agência literária Oasys Cultural. Mora na cidade do Rio de Janeiro.                             



9.23.2019

ROTEIRO SOBRE O LIVRO FRAGMENTOS DO RIO ANTIGO

Apesar do tempo chuvoso no sábado, dia 24, de manhã, tivemos o roteiro sobre o meu livro Fragmentos do Rio Antigo no centro do Rio, com a guia de turismo Deca Serejo, do Rio de Coração Tour.