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5.29.2008

A ESTÁTUA POR TRÁS DOS ÓCULOS


O quarto roubo dos óculos da estátua de Carlos Drummond de Andrade, na praia de Copacabana, no último dia 22, mostra que há uma deliberada intenção de evitar que o “poeta por trás dos óculos” “veja” o que acontece à sua volta.

O Rio que Drummond adotou como sua cidade já não existe faz tempo. E a impressão que passa é que o Rio de Janeiro em que o poeta cumprimentava as pessoas nos seus passeios pela orla de Copacabana, sem medo de balas perdidas, caminha placidamente da civilização à barbárie.

É claro, não sejamos ingênuos de achar que a cidade era um paraíso. Havia violência, corrupção, drogas, crescimento desordenado das favelas, injustiça social etc, basta olhar as colunas do tipo ´Há quarenta anos´, mas talvez a maior diferença entre estas épocas, pelo menos é o que falam os mais velhos, é que hoje há muito mais falta de educação nas ruas do que antes.

Na orla que Drummond costumava freqüentar, por exemplo, além de ninguém precisar se desviar de balas perdidas ou de algum carro que fosse parar na areia, havia uma cordialidade que hoje parece patética se alguém tentar reproduzi-la. Experimente dar ´bom dia´ para um desconhecido na rua e veja o que acontece.

O poeta, que era um profundo observador do cotidiano, seja do seu banco, na orla de Copacabana, ou nas andanças pelo centro da cidade, onde trabalhava como funcionário público, não gostaria de ver a selvageria do trânsito, a ação dos flanelinhas, a barulheira dos carros de som que saem de todos os lugares, os assaltos constantes a turistas em plena luz do dia, a ostentação artificial daqueles que viram ´celebridades da noite para o dia´...e por aí vai.

Talvez Drummond, que também era contista e cronista, conseguisse extrair humor de algumas destas situações, como muitas vezes ele fazia, mesmo ao falar de pequenas tragédias. Assim como ele perguntou em “Rio em flor de janeiro”, “que mudou nesta cidade da noite para o dia?”, referindo-se às flores da cidade, talvez fosse preciso refazer a pergunta e se esquecer de tentar encontrar a resposta, tão difícil e complexa que parece ser.

O Rio, que corre “pela nossa vida, como sangue, como seiva” (“Canto do Rio em sol”), agora é incapaz de lhe emprestar uns óculos para que ele conseguisse tentar decifrar o que se passa. Sem os óculos, a estátua de Drummond está em harmonia com a realidade que a cerca, uma realidade míope e tosca de uma cidade em que a civilidade já foi um hábito. Mas de repente, quem sabe, os ladrões que roubaram os óculos da estátua podem estar fazendo um favor involuntário ao poeta, que assim pode continuar no seu posto preferido de observador mas sem poder observar as tantas "pedras no meio do caminho" da cidade que tanto amava.

Só espero que aquele Rio de Janeiro onde Drummond viveu não tenha se transformado apenas em quadro na parede, como a Itabira do poeta mineiro.

5.05.2008

CAPITU NÃO TEVE CHANCE


Passa um tempo e a pergunta volta: Capitu traiu ou não traiu Bentinho? Neste ano então, em que se completam os cem anos da morte de Machado de Assis, ela vai se fazer muito presente. Mas a questão central desta polêmica que já dura mais de 100 anos (“Dom Casmurro” foi lançado em 1900) raramente é mencionada.

Quando alguém é acusado de alguma coisa, o máximo que se espera é que tenha chance de se defender. Mas Capitu não teve esta chance, pois “Dom Casmurro” nada mais é do que a versão de Bentinho pura e simples. Lembremos que o livro começa com Bentinho dentro do trem, dirigindo-se ao bairro do Engenho Novo, no subúrbio do Rio, e que na época era um local ideal para quem queria se isolar do burburinho do centro da cidade.

A meta de Bentinho é escrever a “História dos subúrbios”, mas o que ele faz mesmo é contar a grande amargura da sua vida, a traição da mulher que ele amou desde a infância passada junto com ela na rua de Matacavalos (atual rua do Riachuelo). Bentinho está velho, isolado, amargurado e provavelmente com lapsos de memória. Mas assim mesmo escreve a sua versão sobre o que ocorreu, a mesma versão que até hoje causa polêmica através da pergunta: Capitu traiu ou não traiu?

Portanto, para começarmos a tentar descobrir a “verdade sobre os fatos”, teríamos de pelo menos ouvir a versão de Capitu e de Escobar, seu suposto amante, o que Machado torna impossível, pois quando Bentinho começa a contar sua história os dois já estão mortos.

O escritor Fernando Sabino chegou a fazer uma recriação de “Dom Casmurro” sem o narrador original, em terceira pessoa, no livro “Amor de Capitu”. Há quem goste deste tipo de especulação e eu respeito, mas acho que a continuação de uma obra de arte só pode ser feita pelo autor da obra de arte, e isto vale também para a música e o cinema (não tiveram a coragem de fazer uma continuação de “Casablanca”?).

As suposições de Bentinho são mostradas principalmente em alguns trechos do livro, como neste, em que Bentinho recebe a visita de seu suposto filho Ezequiel, mas que para Bentinho...“Era o próprio, o exato, o verdadeiro Escobar” (Cap. 145). Ou esta, ainda envolvendo Ezequiel: “Capitu e eu, involuntariamente, olhamos para a fotografia de Escobar, e depois um para o outro. Desta vez a confusão dela fez-se confissão pura. Este era aquele; havia por força alguma fotografia de Escobar pequeno que seria o nosso pequeno Ezequiel” (Cap. 139).

Depois de um tempo de casamento feliz com Capitu, de uma vida “mais ou menos plácida” (Cap. 105), começam as desconfianças de Bentinho em relação a Capitu e Escobar, que terminam de forma trágica e melancólica, com Bentinho dizendo que “a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me...A terra lhes seja leve! Vamos à História dos Subúrbios” (Cap. 148).

Mas, como foi dito, este é o desfecho de um relato repleto de rancor e melancolia feito por um homem desprezado pelos vizinhos e que logo no início do livro irrita um passageiro no trem. Num estado como esse, até que ponto é possível acreditar na sua versão sobre uma frustrada história de amor? Esta sim é que me parece a questão central de "Dom Casmurro" e não a velha pergunta citada no início.