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11.24.2014

LADEIRA DA MISERICÓRDIA, O ÚLTIMO VESTÍGIO DO MORRO DO CASTELO


         São poucos os que reparam nela. Quase sempre guias turísticos levando grupos a conhecerem a História da cidade do Rio de Janeiro. Afinal, qual o interesse numa pequena ladeira que não leva a lugar nenhum? Mas a Ladeira da Misericórdia, perto da Santa Casa e da Igreja de Nossa Senhora de Bonsucesso, leva, sim, aos primeiros anos de ocupação da cidade, quando os portugueses transferiram o pequeno núcleo fundado, em  de março de 1565, no espaço entre os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar, para o Morro do Castelo, em janeiro de 1567, após intensas batalhas contra os índios tamoios e os franceses.
  A ladeira é o que sobrou do morro, demolido na década de 1920, um projeto que surgira já no final do século XVIII, e atravessou o século XIX, movido por várias razões, entre elas a de que ele impedia a passagem dos ventos e a circulação do ar, o que agravava o quadro de doenças dos moradores da cidade. Além disso, sempre houve uma grande curiosidade sobre os possíveis tesouros escondidos nos subterrâneos do Morro do Castelo, tesouros que teriam sido guardados pelos jesuítas após a expulsão deles de Portugal e suas colônias pelo Marquês de Pombal, em 1759. O Colégio dos Jesuítas e a Igreja de São Sebastião, a primeira da cidade, ficavam no alto do morro.


  Os subterrâneos foram realmente encontrados, em 1905, durante as obras da Avenida Central, futura Avenida Rio Branco, mas, apesar de todo o rebuliço causado na cidade, nada de valor foi encontrado: apenas correntes de ferro, alguns documentos sem importância, ossadas e algumas cisternas. As passagens dos túneis foram, então, emparedadas algum tempo depois. O que sobrou do morro foi usado, principalmente, para a construção do Aeroporto Santos Dumont, ligando a Ilha de Villegagnon, usada pelos franceses que ocuparam a Baía de Guanabara a partir de 1555, ao continente.
  A destruição do morro começou na administração do prefeito Carlos Sampaio, usando, como principal argumento, a necessidade de se preparar a cidade para a Exposição Internacional de 1922, que traria delegações do mundo inteiro e iria comemorar os cem anos da independência do país. Com o apoio do governo federal, o trabalho começou, apesar dos protestos de muita gente, como o escritor Lima Barreto, que afirmou ser o projeto um desrespeito às tradições da cidade, um imenso gasto desnecessário de recursos, e ainda havia a questão dos moradores do morro, cerca de 4 mil pessoas que viviam lá, além dos monumentos históricos.
  Mesmo assim, a demolição foi feita e, em dois anos, quase todo o morro havia sido destruído, graças principalmente aos potentes jatos d´água instalados. Mas só no final daquela década toda a área onde ficava o histórico morro foi limpa, surgindo a Esplanada do Castelo, que ficaria deserta durante muitos anos, até construírem a Avenida Presidente Antônio Carlos e prédios importantes, como os ministérios do governo Getúlio Vargas, nos anos 40. O local até hoje é conhecido como Castelo, devido à fortaleza que ficava no alto do morro, que no início da ocupação da cidade era chamado de Morro do Descanso. Todo o trabalho de destruição foi exaustivamente registrado pelas lentes de Augusto Malta, o principal fotógrafo da cidade nas primeiras décadas do século XX.


  Os restos mortais de Estácio de Sá, fundador da cidade, foram retirados da Igreja de São Sebastião, demolida junto com o morro, para a Igreja dos Capuchinhos, na Tijuca, assim como alguns objetos religiosos. Já os 4 mil moradores ficaram alojados em barracões de madeira na Praça da Bandeira e depois alojados em vários lugares. A vidinha tranquila no morro, com suas muitas árvores, passarinhos, galinhas ciscando, um pouco do que era a vida no Rio de Janeiro antes das grandes transformações urbanas do prefeito Pereira Passos (1902-1906), ficaria mesmo no passado para aquela gente.
  A Ladeira da Misericórdia era um dos três caminhos do morro. Os outros dois eram a Ladeira do Carmo, no prolongamento da Rua do Carmo, e a Ladeira do Seminário (ou Ladeira da Ajuda), na Rua da Ajuda, perto da Cinelândia. A Rua da Ajuda ainda existe e é uma referência ao antigo Convento da Ajuda, destruído no início do século XX.


* (Fotos tiradas por Ronaldo Morais, que colaborou neste artigo, entre 1978 e 1986 - apenas a última, colorida, foi tirada por mim em 2014)

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