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12.26.2006

RESOLUÇÕES DE ANO NOVO


“Ah, nesse ano eu vou...” É o início da frase mais usada no réveillon. Geralmente abre caminho para promessas que nunca serão cumpridas, feitas no calor da euforia das confraternizações, às vezes embaladas pela embriaguez. Quase sempre duram até a primeira segunda-feira chuvosa e entediante, quando a rotina mostra que mudar ainda é um dos verbos mais difíceis de se conjugar.

Geralmente, lá pelo meio do ano é comum ouvirmos diálogos do tipo:

- Ué, mas você não tinha dito que ia parar de fumar?
- Pô, mas como? Não viu a situação que passei?
- É, mas você foi tão enfático lá na praia, depois da queima de fogos.
- Pois é, mas...ah, mas veja bem, não tô fumando até o final, ó. Antes eu chegava até o filtro.
Ah...


- Aquele meu chefe é um #!:*##!!
- Mas você não disse que ia sair de lá até o carnaval?
- Sim, mas ele me deu um aumentozinho, né? E é difícil sair de um lugar onde a gente está acostumado.
- Mas você tem tanto potencial.
- É, eu vou ver como é que fica. Se ele continuar me tratando assim, eu tomo uma decisão!


- Não acredita o que o Oscar está fazendo agora?
- O que foi?
- Deu pra pendurar a cueca na maçaneta quando vai tomar banho. E esquece lá.
- Que absurdo. Mas péra aí.
- O que foi?
- Você não me disse que ia dar um basta? Que ia voltar pra casa da sua mãe e tudo?
- Eu disse isso?
- Disse. Lá em casa. Na hora do champanhe do ano novo.
- Champanhe? Mas eu não bebi champanhe na sua casa.
- Está bem, da cidra, mas é quase a mesma coisa. Você disse que ia fazer e acontecer.
- Ah, mas sei lá, é difícil mudar assim. A gente tá junto há 12 anos. Mas cueca na maçaneta eu não agüento. Até o final do ano tomo uma decisão!

Geralmente as decisões mais importantes são tomadas sem nenhum alarde, aparecem do nada, em um dia comum, que pode até ser uma segunda-feira chuvosa e entediante. Mas antes que este texto pareça de auto-ajuda, termino aqui e desejo a todos que me têm lido neste pequeno espaço virtual um excelente e completo 2007, em todos os sentidos, inclusive no das promessas.

* Veja também (se tiver paciência) meu romance Vera Lúcia (romanceveralucia.blogspot.com) e meu livro de contos Superávit, o herói brasileiro (superavitoheroibrasileiro.blogspot.com

12.04.2006

SERROTE ROBIN HOOD


Como o próprio nome diz, é o serrote que tira dos ricos e dá aos pobres. Como ele faz isso? É simples. Digamos que o serrote tenha boa presença entre as vítimas ricas, exercendo sua função onde sempre tem alguém que faz questão de pagar a conta. Este tipo de serrote não é tão comum, pois ele precisa ter uma certa dose de cultura, alguns inclusive são viajados, já estiveram em grandes centros de arte e cultura do mundo, como Londres, Milão, Viena e Nova York. Um serrote deste tipo costuma ter na ponta da língua citações de grandes escritores, sabe diferenciar um Manet de um Monet, um Mozart de um Brahms e conhece todas as regras de etiqueta possíveis.

Mas o serrote, como já foi dito no primeiro livro, é solidário, ele se preocupa com a dor do próximo, e não é por estar bem que ele se esquece dos amigos de outrora. Ora, digamos que o serrote cresceu num lugar pobre, mas que graças ao seu talento e estudo conseguiu chegar onde chegou. Se fosse um serrote esnobe, ele jamais colocaria os pés de novo no local onde foi criado. Mas o autêntico serrote não tem vergonha do seu passado, nem da sua família nem dos seus amigos. E é nesse terreno que trabalha o serrote Robin Hood.

Bem, o serrote que vive nas altas rodas é abonado, tem sempre dinheiro, costuma andar em carro zero e usa roupas e sapatos caros. Mas tem vezes que o serrote quer simplesmente sentar num boteco legítimo, comer um ovo cor-de-rosa e tomar uma cerveja preta. O problema é que ele não quer ficar sozinho. Como fazer então? Um serrote deste nível não vai serrotar num boteco, pega até mal para a sua imagem. Mas sua imagem também ficaria chamuscada se ele pagasse a conta.

O procedimento correto é o seguinte: ele sabe que o amigo que está com ele tem poucos recursos e se pagar a conta pode estar tirando algum do leite das crianças. Então o serrote utiliza uma técnica conhecida como "escondidinho" ou "dobradinho", dependendo da região do país. Ele pega, por exemplo, uma nota de 20, dobra bem e passa por baixo da mesa para seu amigo, que vai logo entender a atitude do serrote. O serrote Robin Hood assim não prejudica a sua imagem, continua sendo conhecido como serrote, mas agora ganhou um crédito no terreno da solidariedade, pois distribuiu a renda. O amigo paga a conta com o dinheiro do serrote, que ainda vai fazer um jogo de cena para quem estiver por perto, do tipo "pô, cara, vai pagar tudo?".

E volta para casa com a consciência tranqüila e disposto a voltar a serrotar nas altas rodas para recuperar seus 20 reais, com juros e correção monetária.

Leia também: um triângulo amoroso em meio aos bares e prostitutas da Praça Tiradentes. Este é o tema do meu primeiro romance ´Vera Lúcia´, que está no endereço romanceveralucia.blogspot.com