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7.17.2006

CACHORRADA


Talvez os cachorros
se cansem de nós um dia
e nos coloquem coleiras e focinheiras
para calarmos a boca

Alegria no canil
Seríamos vacinados contra a raiva
do trânsito e do vizinho

As guerras seriam restritas a pequenos conflitos,
facilmente contornados com a distribuição
dos ossos do ofício

Um fêmur para um,
o antebraço para outro

Falangetas para as crianças

No final, eles abanariam os rabos
e dariam latidos de satisfação
quando nos tornássemos mais fiéis
e menos humanos

ANDRÉ LUIS MANSUR

7.11.2006

FILÉ DE NASDAQ (aprecie com moderação)


A insistência em se divulgar certos termos no jornalismo, acreditando que eles tenham interesse para alguém, pode gerar situações bastante curiosas. Na economia, por exemplo, qualquer pessoa que conheça um pouquinho de Bolsa de Valores sabe que aquilo lá funciona no fundo como um grande cassino, onde os grandes especuladores sempre se dão bem e o pequeno investidor, se não tiver uma orientação muito boa, pode perder o pouco que investiu. Por isso, a variação brusca dos índices nem sempre quer dizer que a economia está volúvel. Mas nas épocas de turbulência econômica internacional, como na crise dos tigres asiáticos, em 1998, a situação sempre beira o caos, pelo menos na cabeça de muitos editores, que resolvem colocar o economês com a língua mais importante do país no momento.

Pois bem, a equipe de um importante telejornal resolveu ir às ruas para testar a eficiência desse tipo de informação. E escolheram como pauta o Nasdaq. Para quem não sabe, Nasdaq é o nome da Bolsa de Valores americana utilizada apenas por empresas de alta tecnologia em informática, telecomunicações e outros setores. Quer dizer: se o interesse pela Bolsa de Valores, tanto brasileira quando americana, já é restrito, o que dizer do índice Nasdaq. Mas o que importa é que todo dia, em horário nobre, para milhões de telespectadores no Brasil inteiro, o índice era divulgado, muitas vezes num tom dramático se ele caísse muito.

A equipe de jornalistas resolveu ir a um restaurante especializado em carnes onde costumavam almoçar. Quando o garçom chegou para fazer os pedidos a, digamos, porta-voz não pensou duas vezes:

- Nós queremos Filé à Nasdaq. O senhor tem?

O garçom franziu a testa, pensou muito e, com vergonha de reconhecer que desconhecia o próprio cardápio, pediu licença para perguntar ao cozinheiro, diante do olhar tranqüilo dos comensais, que sequer esboçaram um sorriso.

Logo em seguida, vem ele, com uma expressão de desânimo e já pensando num prato alternativo.

- Senhora, desculpe, mas o cozinheiro disse que não temos o File à Nasdaq, mas vocês não gostariam de...

- Como?! Aqui é especializado em carnes e o senhor não tem o File à Nasdaq? Aparece todo dia na televisão.

Com medo de que sua aparente ignorância pudesse ser percebida por outras pessoas, o garçom ficou nervoso, começou a suar frio e a gaguejar.

- É...in-infelizmente não temos. Os senhores na-não querem outro prato...?

Vendo o constrangimento do garçom, os jornalistas disseram que não tinha problema e optaram por outro prato, até porque a idéia não era humilhar ninguém. E naquele dia, os que acreditavam que o índice Nasdaq era importantíssimo para o povo brasileiro tiveram de rever seus conceitos. Coincidência ou não, algum tempo depois ele foi retirado do ar, mas o ´cardápio´ ainda pode ser mais enxugado. Basta que alguém peça em algum restaurante um picadinho de superávit primário, um caldo de mercado (bem agitado) ou um ensopado de bovespa. A indigestão é certa.

7.04.2006

O ESTÔMAGO DOS POLÍTICOS


Gastroenterologistas, regozijai-vos! Acabou a Copa,
começam as eleições. E o caminho de um político para
ser eleito passa necessariamente pelos caminhos do
intestino – nem sempre tão delgados.

Buchada de bode, churrasquinho de gato,
rabada...político que quer ser eleito não dispensa um
prato, por mais assustador e estranho que lhe pareça.
O mais interessante, no entanto, é que após certo
tempo de campanha essa turma começa a adquirir aquilo
que é conhecido como “Imunidade anti-provadinha (I.A.P.)”, que
nada mais é do que a resistência criada pelo organismo para que o heróico candidato não sucumba ante os inevitáveis convites de possíveis eleitores do tipo: “Dá uma provadinha, foi minha mãe que fez”.

Uma provadinha aqui, outra ali, e muito candidato não consegue chegar sequer ao primeiro turno. Mas isso é só no início. Com o tempo e a inevitável experiência que ele traz, problemas como diarréia, azia e vômito passam a ser coisa do passado. Geralmente na terceira eleição (alguns mais resistentes já conseguem na segunda) o candidato adquire a I.A.P. E de tão resistente que ela é, o candidato pode se aventurar até numa comida mal cozida ou fora de validade, como é comum acontecer nas campanhas.

O grande problema é quando o candidato ganha uma eleição, pois ele passa a comer “do bom e do melhor” e pode fazer aquilo que seria impensável na campanha: recursar uma provadinha. Se ele conseguir ser eleito mais de uma vez, tudo bem. Caso contrário, ocorre aquilo que os especialistas chamam de Síndrome da Abstinência das Provadinhas. Após quatro anos de mandato comendo bem, a imunidade perde a força e se o político não for reeleito e tiver de iniciar uma nova campanha nas ruas, os efeitos serão devastadores.

O ideal é o candidato, quando eleito, não se esquecer dos eleitores e de vez em quando dar um pulinho nas ruas para provar uma deliciosa dobradinha, uma suculenta moela ou então aquela feijoada repleta de torresminhos. “Receita da vovó, doutor, pode provar sem medo!”