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11.29.2007

SE...


Se...
eu voltasse a fazer parte
do seu mundo inacabado

Se...
eu iludisse a
saudade com
palavrãs vãs de
esperança

Se...
fizéssemos do
perdão o
desfecho de
nossas mágoas

Minha única alegria
residiria em um céu
infinito de saudades

Onde em cada estrela
brilhariam memórias de
luz própria

Separadas de mim
pela distância de
um sonho

Que não termina
quando acordo

11.28.2007

CHAPLIN NA CORDA BAMBA


É sempre bom rever Chaplin. Este artigo é sobre um dos seus melhores filmes, que revi há pouco tempo.

“O Circo” já valeria pelas cenas do espelho e da corda bamba, mas este clássico de Charles Chaplin é muito mais do que isso. Está aqui, como nos seus grandes filmes, o sutil equilíbrio entre a comédia e a tragédia, representada pela opressão sofrida pelos trabalhadores do circo, chefiados por um patrão frio e ganancioso. A cena da corda bamba é a metáfora perfeita das relações de trabalho, pois quantos não andam na corda bamba para manter os seus empregos?

O dono do circo tem um capataz, homem forte e violento, que trata os outros funcionários da mesma forma que o patrão, sem se dar conta de que ele próprio é explorado como os outros. Enredos como este e de “Tempos modernos”, por exemplo, valeriam a Chaplin a acusação de comunista, figurando na lista das bruxas do senador Joseph McCarthy nos anos 50. Chaplin nunca escondeu sua defesa da igualdade social, chame a isso comunismo, socialismo ou o quer que seja. No meio de todo o pastelão, há sempre momentos de profunda reflexão em seus filmes.

O enredo é simples, como em todos os seus filmes. Chapin, ainda como o vagabundo Carlitos, é confundido com um bandido e entra num circo, perseguido pela polícia. Acaba se tornando a principal atração, sem saber. Vai se apaixonar pela filha do dono (Merna Kennedy) e aos poucos percebe sua real condição dentro do espetáculo.

O filme traz cenas inesquecíveis, como aquela em que ele anda na corda bamba com micos pendurados pelo corpo, a da jaula do leão, e a dos espelhos, logo no início do filme. Como era comum entre os atores meio loucos daquela época, Chaplin não usou dublês nem na cena da corda bamba nem dentro da jaula dos leões.

O filme passou por diversos percalços. O estúdio foi destruído duas vezes, primeiro numa tempestade e depois num incêndio. Chaplin ficou hospitalizado seis semanas por causa de mordidas dos micos e unhadas dos leões e, para piorar, as carroças usadas no desfecho da história foram roubadas por estudantes embriagados. A trilha sonora é do próprio Chaplin, que canta a música de abertura, uma gravação feita no final dos anos 60, quando o ator já tinha 81 anos. Detalhe: no ótimo DVD que traz o filme completamente restaurado, com ótimos extras, os editores poderiam substituir a horrível palavra funâmbulo por equilibrista. Evitaria muita cara de espanto durante a exibição.

11.14.2007

EM BUSCA DO MAGIA DO LEITOR


“Não sou masoquista. Se não adorasse escrever, já teria parado há muito tempo”. Essa foi a tônica da entrevista dada pela premiadíssima escritora Ana Maria Machado às jornalistas Cristiane Costa e Valéria Lamego, ontem na biblioteca do Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. A entrevista foi a última do ano do projeto “Laboratório do escritor”, que levou ao mesmo espaço em 2007 autores como Luis Fernando Veríssimo e Carlos Heitor Cony.

Bem à vontade diante de uma platéia cheia de admiradores (e algumas tietes), a autora, que já vendeu mais de oito milhões de exemplares de seus mais de cem livros no Brasil e em outros 17 países, começou descrevendo o seu processo de criação - o tema da entrevista -, mas foi se soltando e acabou falando com naturalidade de momentos mais intimistas da sua vida, como a luta bem-sucedida contra um câncer de mama e o início da carreira, quando exilada pelo regime militar e com dois filhos para criar descobriu que poderia se sustentar com a literatura, “ainda que levando uma vida espartana”. O sustento, no caso, vinha de uma revista chamada “Recreio”, da editora Abril, que queria publicar autores que escrevessem para os jovens numa linguagem “que não fosse tatibitate nem nhemnhemnhem”. Para se ter uma idéia do nível da publicação, a revista também contava com colaborações de Ruth Rocha e Joel Rufino.

Embora seja mais lembrada como autora de livros infantis e infanto-juvenis, Ana Maria falou dos seus contos e romances, dizendo que nunca sabe exatamente para qual público vai escrever quando começa a pensar numa nova história, ou se aquele livro vai interessar apenas a um tipo de público. “Tem sempre mais de uma leitura”, afirma ela, que escreve no computador desde o início da década de 80, quando foi apresentada a um MacIntosh por uma amiga que vivia nos Estados Unidos.

Uma das discussões mais interessantes, que gerou inclusive perguntas do público, foi a relação entre jornalismo e literatura. Ana Maria, que já havia citado Hemingway, recorreu mais uma vez ao escritor americano para dizer que “o jornalismo nunca fez mal a um escritor, desde que largado há tempo”. Para ela, que abandonou a redação do “Jornal do Brasil” nos anos 70 a fim de se dedicar exclusivamente à literatura, o jornal tem que cobrir tudo, “mas no dia seguinte vai embrulhar peixe”, enquanto o escritor tem que cobrir o mínimo, mas com profundidade. Vale ressaltar que o jornalista aqui citado é o da redação, aquele que faz plantão e fechamento, e não o cronista. “Esse, os próprios repórteres da redação não consideram jornalista”.

A relação com a Academia Brasileira de Letras, onde ela ocupa a cadeira número 1, também foi lembrada por ela, que por coincidência tinha acabado de sair de um evento na ABL. "São 40 vaidosos. Quem não for vaidoso, não se candidata", diz a autora com bom-humor, ressaltando o respeito que tem pela permanência da instituição e pela renovação que a internet provocou na ABL através do portal (www.academia.org.br). "A academia é muito querida pelo povo. Ali, eu tenho muito o que aprender".

O bom de se assistir a uma entrevista com um autor consagrado é exatamente perceber o amor que aquela pessoa que está ali na frente tem pelos livros e pelos leitores. Como a frase do início, Ana Maria não se limitou a falar da “necessidade de expressão do artista”, diferencial que ela usa ao citar os escritores de literatura infantil e infanto-juvenil da geração dela, que não têm preocupação pedagógica e escrevem de forma independente. Ao se referir ao leitor, que afinal é o objetivo final do seu trabalho, ela o compara a um “mágico, porque ele consegue estabelecer uma ponte para alguém que ele não conhece”. E quando esse alguém está ali pertinho, dá para entender fascínio que eventos desse tipo exercem sobre o público.

11.05.2007

A VACA NO QUINTAL


A adulteração do leite com soda cáustica e outras substâncias venenosas (um crime mais do que hediondo) apenas reforça a tese de que no Brasil, país onde as leis só existem no papel e as punições são brandas, deveríamos voltar a viver de forma primitiva. Para começar, uma vaca no quintal. Teríamos leite fresco, sem porcarias industrializadas para consumir e, portanto, a garantia de um produto saudável, principalmente para as crianças, as maiores vítimas do crime do leite.

A evolução tecnológica só faz sentido se vier acompanhada de uma estrutura jurídica e ética que impeça, ou pelo menos puna, os excessos e distorções oriundos desta mesma evolução. Isso evitaria, por exemplo, que o automóvel, elemento fundamental em qualquer parte do mundo, aqui seja mais lembrado como um dos principais responsáveis pela alto índice de mortes violentas, principalmente entre os jovens.

Da mesma forma, é inconcebível imaginar um mundo hoje sem aviões "cruzando mares e oceanos". Mas aqui no Brasil, nos últimos tempos, pelo menos, a invenção do brasileiro Santos Dumont tem sido sinônimo de longas filas de espera, overbooking e, o que é mais grave, falta de manutenção das aeronaves e sobrecarga de trabalho para pilotos e controladores de vôo.

A televisão, além de toda a carga de violência que despeja todos os dias em milhões de telespectadores, é uma das principais responsáveis pelo aumento dos casos de obesidade. Aquela clássica cena estilo "Homer Simpson" do sujeito horas em frente à TV com a latinha de cerveja apoiada na barriga e comendo batatinhas industrializadas é cada vez mais comum. E haja calo nos dedos para mexer no controle remoto.

Falando em batatinhas industrializadas, voltemos aos alimentos, e aí não falo nem dos industrializados, que precisam de substâncias químicas para continuarem na validade. Mas e os agrotóxicos nas frutas e legumes? E os casos de carne fora de validade, que comerciantes inescrupulosos adulteram para permanecerem "frescas"? E o famoso pão com bromato? Não é à toa que muita gente vem optando pela agricultura orgânica, que nada mais é do que a comida como deveria ser feita.

Poderia citar inúmeros outros exemplos, como o telefone celular, usado hoje como instrumento de extorsão, a internet, repleta de vírus e de quadrilhas que roubam senhas de bancos etc, mas já que as coisas não devem mudar tão cedo, o jeito é voltarmos mesmo ao estado natural das coisas. Agricultura orgânica, carroças, pombo-correio, conversa na sala de jantar (uma raridade hoje em dia) e, é claro, a vaca e também as galinhas (não nos esqueçamos dos hormônios) no quintal.