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10.27.2016

CRÔNICA DO TREM

A vendedora entra no trem contando, meio revoltada, bem alto, que o sujeito pegou a sua pá emprestada e devolveu com outro cabo. "E ainda queria me cobrar dez reais, o desgraçado! Troca o cabo novinho da minha pá! Meu marido foi se meter e eu disse: não se mete não que o trato foi comigo!" Diante dos risos gerais, ela também começou a botar mais humor na história e ainda disse, apesar do forte sotaque nordestino, que era carioca. O vendedor que vinha atrás completou: "Ela é carioca da clara, da clara!" Depois, quando ela já estava mais na frente, ele ainda falou: "Ó, cuidado que eu chamo ela. Ela é braba. O marido dela que sabe!" Apesar da descontração que tomou conta do recinto, ficamos sem saber se o tal sujeito levou uma pazada na cabeça, com cabo trocado ou não.

10.25.2016

ESPECIARIAS: O TEMPERO DAS GRANDES NAVEGAÇÕES


  Na origem das grandes navegações portuguesas, estava a busca pelas especiarias, temperos e condimentos como pimenta-do-reino, açafrão, cravo-da-índia, canela, gengibre, noz-moscada e muitos outros. Seu comércio era controlado no Mar Mediterrâneo por reinos como Gênova e Veneza, que os compravam de comerciantes árabes. A partir de 1453, com a conquista de Constantinopla pelos turco-otomanos, esse comércio ficou ainda mais restrito.

Qual a importância das especiarias? Numa época em que não havia eletricidade, ou seja, não dava para armazenar comida em geladeiras ou freezers, as especiarias conservavam os alimentos, não com tanta eficiência, é verdade, mas pelo menos disfarçava a rápida degradação da carne, por exemplo. Também eram muito usadas na medicina, em perfumes etc. Boa parte delas vinha da Índia, mas como o caminho até lá estava bloqueado, a saída para Portugal seria contornar a África, como venho contando aqui em outras colunas. No caso da Espanha, o caminho foi seguir para o ocidente, como o fez Cristóvão Colombo, que era genovês.

A pimenta-do-reino existia em abundância na Índia, seus grãos são secos e moídos e o sabor picante característico tem como origem a substância piperina. O cravo-da-Índia, apesar do nome, é originário das Ilhas Molucas, na Indonésia (também conhecidas como ilhas da especiarias). Muito usado como aroma nos alimentos e também para fins medicinais, na China ele era aplicado também como antisséptico bucal. É extraído dos botões de uma flor muito perfumada e estava, junto com a noz-moscada, entre as mais caras especiarias. A canela é nativa do Sri Lanka, na Ásia, antigo Ceilão, é uma árvore que tem as cascas processadas por um método de ressecamento. A noz-moscada também era encontrada nas Molucas, mais precisamente na ilha Banda, onde o português Afonso de Albuquerque chegou, em 1512, um ano após ter conquistado Malaca, então o centro do comércio asiático. O gengibre, que também tem um sabor picante, é originário da ilha de Java, da China e da Índia, e já era usado havia muitos séculos para problemas de garganta. O açafrão é uma pequena flor lilás, que serve para colorir tecidos de um amarelo vivo e também proporcionar um belo aroma aos alimentos. É preciso colher 50 mil flores para se conseguir um quilo de açafrão. "Por isso, desde que é conhecido, há mais de 5 mil anos, o açafrão tem sido a especiaria mais cara do mundo. Hoje é cultivado na Índia, no Irã e na Espanha". ("A magia das especiarias", de Janaína Amado e Luiz Carlos Figueiredo).

Estas são apenas algumas das especiarias. Por elas, os portugueses enfrentaram batalhas, principalmente na Índia, e abarrotaram seus navios com os famosos temperos e condimentos, estabelecendo uma linha de navegação comercial que iria prosperar muito, embora houvesse contratempos, como a criação da Companhia das Índias Orientais pelos holandeses, que disputou com os portugueses o rendoso comércio, além dos constantes ataques de piratas e corsários.
Muitas destas especiarias foram descobertas pelos europeus alguns séculos antes, durante as cruzadas, as guerras contra os muçulmanos pela reconquista da chamada terra santa, entre os séculos XI e XIII. Portanto, quando você estiver usando alguns desses temperos e condimentos, hoje acessíveis em qualquer lugar, saiba que eles foram motivos de guerras e conflitos, mas também acabaram impulsionando o contato entre povos muito distintos e também o desenvolvimento da navegação em alto-mar.

10.24.2016

O NOME DA RUA

A pequena história que vou contar é ficcional, mas acho que representa bem o que acontece quando alguém vai dar uma informação sobre a localização de uma rua no subúrbio carioca, região que conheço bem. 
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É aniversário da mãe do amigo de Carlinhos, em um bairro do subúrbio carioca. Eles moravam perto da casa de Carlinhos, também no subúrbio, mas se mudaram. É a primeira vez que Carlinhos vai lá, por isso, pelo telefone, Marli, mãe do seu amigo, tenta explicar a Carlinhos como chegar. Ele a chama, carinhosamente, de tia.

- Quando o ônibus entrar na rua do supermercado, você vai descer dois pontos depois, onde tem uma vidraçaria, a vidraçaria do Alcides. Ela vai tá fechada porque é domingo, mas tem uma placa grande, não tem erro.

- Tá, tia, mas...

- Aí você entra na rua do lado, de paralelepípedo. Vai passar o depósito de gás, a padaria do seu Alberto e vai entrar na segunda rua à esquerda, onde tem um sacolão que vai tá aberto.

- Mas, tia, eu...

- Entra nessa rua, tem uma pracinha, no final dela...

- Não, tia, desculpe interromper, é só me dar o endereço que eu vejo no google maps.

- Ver aonde?

- No google. Na internet. É fácil.

- Ah, meu filho, olha, vai por mim, anota isso aí que eu te falei que é mais fácil. Tá anotando?

     Carlinhos, resignado, diz que tá anotando tudo. Depois de mais algumas referências, que incluem a oficina do seu Germano e o brechó da Solange, Marli conclui:

- Virou a esquina, é a terceira casa, do lado direito da calçada. Portão verde. Tá meio descascado, mas a gente vai pintar, não repara não.

- Que isso, tia, claro que não. Tá tudo anotado, me dá só o nome da rua, tia, vai que eu me perca, eu sou meio atolado, eu sempre gosto de saber o nome da rua. (Carlinhos faz mais uma tentativa)

- Rua? Ah, tá. É a rua B.

- Rua B? Mas não tem nome não, tia?

- Ih, meu filho, peraí, a gente tá morando há pouco tempo e só chamam de rua B. Peraí.

     Passam-se alguns segundos...

- Pronto, meu filho, anota aí: é Carlos Delgado de Carvalho. Nome bonito, não?

- Sim, tia, muito bonito.

     Eles se despedem e Carlinhos já joga o nome no google maps, usa street view e já planeja todo o caminho que vai fazer. No domingo, ao chegar, sem problemas, à casa dos amigos, Marli pergunta:

- Não foi fácil, meu filho?

- Muito fácil, tia, muito fácil, com a explicação da senhora, foi bem tranquilo.

     E Marli dá um sorriso de satisfação. Carlinhos,instintivamente, passa a mão no bolso, onde está o celular.
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Bem, não sei se acontece assim com todo mundo, mas posso garantir: em qualquer explicação de localização de rua no subúrbio carioca, sempre vai ter um depósito de gás como referência, é de lei!







10.18.2016

CRÔNICA DA PROVÍNCIA

          O homem que vende bolos e doces passa religiosamente às quatro da tarde e logo os cachorros das redondezas começam a soltar um sonoro lamento estimulado pela estridente buzina que o sujeito toca sem parar. Duas horas depois é a vez do pipoqueiro, com um sinal sonoro que não atrapalha nem animais nem seres humanos. E, pelo que parece, faz mais sucesso com a criançada do que o outro vendedor.
          De hora em hora toca o sino da igreja e eu, como não gosto de relógios, já me acostumei a me orientar por ele, que não é tocado mais por sineiros pendurados em suas cordas, mas sim por um programa de computador, bem mais fiel, pois não cochila na hora H. Quem também segue a hora certa é o vassoureeeeeiro, que não tem dia certo, mas sempre que passa, é sempre ao meio-dia, estando ou não aquele calorão de 50 graus.
          Passam também vendedores de tapetes e cadeiras, verdureiros e vendedores de aipim, entregadores de panfletos do mercadinho ou do sacolão, carros de som (alguns altíssimos), religiosas querendo conversar sobre "a palavra de Deus", ciclistas e charretes. Circulam, ainda, expressões vetustas "do tempo do ronca", como a que ouvi outro dia, por incrível que pareça, entre meninas de no máximo 12 anos, que falaram, em meio a uma ruidosa brincadeira de rua: "quem foi à roça perdeu a carroça"!.
          Perto de onde as meninas brincam fica o Moisés, um vira-lata esperto adotado por uma família e que adorar correr atrás de ciclistas e transeuntes (outra palavra vetusta). Correu atrás de mim, quando eu pedalava, por duas vezes, até que na terceira parei a bicicleta, ele veio, meio ressabiado, comecei a coçar seu pescoço e o peito e agora, toda vez que passo, vem pulando pra cima de mim - às vezes com um certo exagero. Até uma das meninas brincalhonas comentou: "ih, alá, o Moisés gostou do moço"! Pelo visto, deve ser raro isso.
          Sobre os vira-latas, já fui algumas vezes, chegando em casa de madrugada, conduzido por eles, que olhavam para os lados, vendo se não havia inimigos, anjos da guarda caninos, que se mandavam ao me verem abrir o portão, provavelmente em busca de outro andarilho da noite. Já nas andanças da manhã era constantemente surpreendido por cumprimentos, bons dias de pessoas que nunca vi na vida, e que, nesses tempos de falta de gentileza (que geram mais falta de gentileza, o oposto do que falava o profeta), causam logo espanto. Passei a adotar o mesmo expediente e, mesmo para aqueles que não respondem ou soltam  apenas um muxoxo (mais uma palavra vetusta, juro que é a última), continuo dando bom dia. Afinal, não custa nada ser gentil.

10.13.2016

PATRÍCIO, O BURRO PENSIONISTA

Há diversas histórias curiosas sobre a passagem de D.João por Santa Cruz. Uma delas se refere ao carrapato, ou melhor, ao “desalmado carrapato”, que, segundo Noronha Santos (“Meios de transporte no Rio de Janeiro” – vol. 1) “se agarrava a uma das reais pernas. Retirou-o d. João, precipitadamente e, com tal imprudência o fez, que a escoriação se transformou em ferida ulcerosa, dando cuidados aos médicos e cirurgiões da Corte”. Sem poder andar, o príncipe-regente passou a usar a cadeirinha para se locomover na fazenda, levada por 12 escravos, que costumavam cantar à chegada de D. João na antiga propriedade dos jesuítas: “Nosso Sinhõ chegô, cativeiro já acabô”. Ainda segundo o autor, “d. João, sem o querer, e o carrapato dos pastos de Santa Cruz intensificaram o uso das cadeirinhas na cidade, que, no limiar do século, eram utilizadas só por particulares”.
Uma outra história envolvendo as temporadas em Santa Cruz refere-se a um burro de estimação do príncipe-regente, trazido de Lisboa na comitiva real. Este burro, de nome Patrício, foi levado por D.João para Santa Cruz, onde passaria a residir, recebendo uma pensão para suas “despesas diárias”. D. João não deixava que perturbassem Patrício e chegou a repreender severamente um funcionário da fazenda que chicoteou Patrício, que assim podia invadir terrenos alheios sem ser incomodado.
Já Benedito Freitas, autor de uma coleção de três volumes sobre a história da fazenda (“Santa Cruz – Fazenda Jesuítica, Real, Imperial”) reúne tanto detalhes sobre o trabalho administrativo da fazenda como aspectos bastante curiosos. Um deles diz respeito ao espírito zombeteiro do carioca, que já se manifestava mesmo num local tão distante do centro. Como já foi bastante divulgado, à chegada dos 15 mil portugueses da comitiva de D.João, boa parte deles fidalgos, as melhores casas do Rio de Janeiro recebiam na porta a inscrição P.R., significando Príncipe Real e indicando um prazo para os moradores saírem daquela casa e cederem seu lugar ao nobre português, que não poderia ficar sem uma habitação digna de sua posição. Logo, o povo começou a divulgar outro significado para aquela inscrição, bem mais objetiva e sarcástica: “Ponha-se na rua”!
Foto de 1984, tirada por Ronaldo Morais, do Batalhão de Engenharia Militar Villagran Cabrita, antiga sede da Fazenda de Santa Cruz.


A CONQUISTA DA ÁFRICA

Foi pelo litoral da África que Portugal colocou em prática todo o desenvolvimento tecnológico da navegação marítima que acontecia em seu pequeno reino. A cada nova conquista, observações e correções eram feitas, tudo contribuindo para o grande objetivo, a navegação em alto mar, colocar as caravelas além do horizonte, sem nenhum litoral por perto, nenhum acidente geográfico de referência aos marinheiros, que iriam contar apenas com bússolas, astrolábios, quadrantes e outros equipamentos que já existiam, mas foram aprimorados pelos cientistas que chegaram ao reino e fizeram parte do círculo de especialistas reunidos em torno de Henrique de Sagres.
Era também a busca pelo tão sonhado caminho para as Índias sem precisar passar pelo Mar Mediterrâneo, em busca das tão sonhadas especiarias, contornando o sul da África e atravessando o Cabo das Tormentas, onde tantos naufragaram. A cada nova descoberta, Portugal também já experimentava o modelo econômico que iria usar nas suas colônias, a monocultura voltada para a exportação e a triste página da escravidão dos negros africanos, vendidos aos portugueses (ou trocados) pelos chefes das tribos das quais eram prisioneiros, embora houvesse também o aprisionamento de homens livres, missão realizada pelos próprios portugueses, como aconteceu em 1441 na navegação comandada por Antão Gonçalves, que aprisionou homens livres ao norte do Senegal, que mais tarde seria uma colônia francesa.
O primeiro objetivo seria atravessar o Cabo Bojador, a parte mais ao sul que os portugueses conheciam, embora faça parte do norte da África.
E assim os marinheiros portugueses foram descendo o Oceano Atlântico, na seguinte ordem: Ceuta (1415), Ilha da Madeira (1418), Arquipélago dos Açores (1427), Cabo Bojador (1434, com o comandante Gil Eanes), Ilha de Arguim (1444, onde seria iniciado o sistema de feitorias, fortificações onde era realizado o tráfico de escravos e as negociações em torno de diversas mercadorias), Cabo Verde (1444), Senegal (1450), Ilhas de Cabo Verde (1456), Serra Leoa (1460), Benin (1472), Cabo Santa Catarina (1474), Congo (1483). Assim, todo o litoral africano foi esquadrinhado e explorado por Portugal, amparado pelas bulas papais de Alexandre VI, e que teria seu maior símbolo no Castelo da Mina, em São Jorge da Mina, na Guiné, uma poderosa feitoria que seria o principal núcleo comercial da empreitada portuguesa na África.
Faltava agora apenas o Cabo das Tormentas, o grande desafio. Ultrapassado ele, o caminho para o Oceano Índico e o litoral oriental da África, totalmente desconhecido para os portugueses, estaria aberto. Para realizar esta dificílima missão, seria convocado um comandante para lá de experiente: Bartolomeu Dias.


10.05.2016

A PONTE DOS JESUÍTAS



Construída em 1752, a Ponte dos Jesuítas é um dos mais importantes e bem preservados símbolos da arquitetura colonial do Rio de Janeiro. Também conhecida como Ponte do Guandu, ela não é uma ponte comum, e sim um ponte-comporta, já que através dos seus arcos era usada para regular a passagem das águas do Rio Guandu, que hoje não passam mais por ali, e também desviá-las para o Rio Itaguaí através de um canal artificial. Com 50 metros de extensão e seis de largura, ela também servia como passagem dos tropeiros que circulavam pelo "sertão carioca", levando mantimentos e outros produtos pelas muitas fazendas da região.



Seu piso é formado por sólidas lajes, no calçamento conhecido como pé de moleque, muito usado em Paraty e o terror dos saltos altos das mulheres. Os quatro arcos, revestidos internamente com pedra, eram chamados de "óculos", e os padres, por meio de comportas de madeira, controlavam a água para evitar enchentes que destruíam as plantações, matavam o rebanho e inundavam as casas. Feita de cantaria e construída na administração do padre Pedro Fernandes, grande empreendedor da fazenda, a ponte é ornamentada por oito colunas de granito com capitéis (parte superior de uma coluna ou pilastra) em forma de pinhas portuguesas. Na parte central, entre belas esculturas barrocas, há um bloco em mármore lioz, onde se vê um brasão com o símbolo da Companhia de Jesus (IHS) e a data de 1752, além da seguinte inscrição em latim:

Flecte genu, tanto sub nomine, flecte viator
Hic etiam reflua flectitur amnis agua

Que, traduzida para o português, diz o seguinte:

Dobra o joelho sob tão grande nome, viajante
Aqui também se dobra o rio oem água refluente



A ponte fez parte do amplo trabalho dos jesuítas de controle das águas, drenagem e irrigação da ampla área da Fazenda de Santa Cruz, repleta de pântanos e terrenos alagadiços em geral, sempre sujeitos a inundações. Dois padres foram mandados para estudar na Holanda, que enfrentava os mesmos problemas, para aprender os procedimentos corretos. Foram feitos mapas hidrográficos por toda a região, e os vales, morros e elevações em geral, foram estudados. Os jesuítas concluíram que os leitos dos rios deveriam ser contidos nos pontos de inundação, com as pontes-comportas, aberturas de valas e canais para o escoamento das águas, solucionando o problema de enchentes e secas e tornando a Fazenda de Santa Cruz uma das mais produtivas do Brasil.



Com a canalização do Guandu, cujas águas abastecem a população da cidade, a ponte perdeu sua função original, mantendo, no entanto, a importância histórica e arquitetônica, tanto que seu tombamento foi um dos primeiros do país, em 1938, quando o governo de Getúlio Vargas criou a Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, hoje o mais instituto de preservação do patrimônio, o Iphan (só mudando o "diretoria" para "instituto"). Infelizmente a ponte sofreu degradação de pessoas que retiraram partes de sua estrutura para algum tipo de obra, inclusive com a derrubada de duas colunas, mas os constantes trabalhos de recuperação (principalmente os de 2007, feitos pela prefeitura do Rio de Janeiro) e a conscientização da população local estão dando a este importante monumento da cidade o seu real valor. A Ponte dos Jesuítas fica na Estrada do Curtume.

- Fotos tiradas por Ronaldo Morais em 1984. Hoje a ponte está bem conservada.

AS CARAVELAS E O INÍCIO DA EXPANSÃO MARÍTIMA

Como foi dito na coluna anterior, Portugal desenvolveu de forma impressionante as técnicas de navegação do século XV em diante, existindo ou não a Escola de Sagres, que é um ponto polêmico até hoje entre os historiadores.

De qualquer forma, uma grande quantidade de cientistas aportou no pequeno reino ibérico naquela época, muitos deles judeus perseguidos pela Inquisição espanhola. Assim, instrumentos antigos, como o astrolábio, a bússola e o quadrante foram aperfeiçoados, entre outros desenvolvimentos, mas foi a invenção da caravela o ápice de toda essa "tempestade de ideias", uma embarcação ideal para a conquista do "mar oceano".

As caravelas eram velozes, tinham de 20 a 30 metros de comprimento e de seis a oito metros de largura. Usava as velas latinas, triangulares, que permitiam, em ziguezague, navegar até com ventos contrários. Por serem mais versáteis, podiam entrar em rios e canais, contornar bancos de areia etc. O casco era bem esguio e comprido, o que permitia manobras rápidas, mas as caravelas não podiam armazenar muitas cargas. À beira do rio Tejo, Portugal acabou se transformando em um grande estaleiro, com milhares de homens trabalhando na construção das novas embarcações. Era a preparação para as grandes navegações.

Para o casco das caravelas, eram empregadas madeiras como pinho e carvalho. Já para calafetar o casco, ou seja, impedir que a água entrasse por alguma fresta, eram usados breu, estopa, resina, alcatrão, cânhamo, entre outros materiais. Para os mastros, era usado, de preferência, pinho do norte da Europa, e as velas eram feitas de lona ou linho, sem contar a grande quantidade de metais, fundidos em vários lugares. Sem dúvida, um grande e caro empreendimento, resultado da vontade política e interesses econômicos do reino e de companhias que se formaram com grande capital.
O principal objetivo era conseguir o caminho marítimo para as Índias contornando a África e, aí sim, obter as tão sonhadas especiarias. Para isso, no entanto, foi preciso avançar, passo a passo, por todo o litoral africano, um trabalho que durou o século inteiro e será tema da próxima coluna.

OLHOS NOS OLHOS

Seria interessante se houvesse um máquina que transportasse as pessoas que discutem política no facebook para uma discussão frente a frente, "olhos nos olhos", como na música do Chico. Poderia ser numa mesa de bar, por exemplo. E aí talvez rolasse um papo assim:
- E aí? Beleza?
- Tudo bem? E você?
- Tudo ótimo. Mas que negócio é esse de me chamar de burro?!
- Eu?! Te chamar de burro?!
- Sim! Já esqueceu?! Lá no face! E ainda disse que sou neonazista e tinha que voltar pro útero da minha mãe!
- Que isso? Não pode ter sido!
- Foi você sim! Era o seu nome! Pensei que fôssemos amigos!
- Claro que somos amigos! Alguém deve ter pego a minha senha.
- Sei...
- Claro, cara. Tu acha que eu ia falar assim contigo? Eu nem gosto de discutir política. Prefiro falar amenidades.
- Então, beleza. Vamos conversar sobre o quê?
- Ah, acho que vai chover hoje.
- Não, hoje deu tempo bom.
- Não, cara, vai chover! Eu vi!
- Eu também vi! Vai ser tempo bom!
- Pô, mas você é...um grande amigo, isso sim! Arnaldo, sai uma gelada aí! O seu é copo pequeno, né?
- Sim, sempre.
- Pô, tu é muito parceiro, cara. Amigão mesmo!
- Você também!
E os dois brindam quando a cerveja chega, celebrando uma sólida amizade. Pelo menos até a próxima postagem.