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7.20.2016

Guiadas urbanas

Com Karolynne Duarte, que está à frente do Guiadas Urbanas, excelente trabalho de roteiro histórico e cultural pelos subúrbios cariocas. Neste dia, em evento no Ipharj (Instituto de Pesquisa Histórica e Arqueológica do Rio de Janeiro), pude, finalmente, autografar meus livros para ela.

7.13.2016

Livraria Leonardo da Vinci

Amigos, meus livros já estão à venda na livraria Leonardo da Vinci, uma das mais tradicionais do Rio de Janeiro. (Av. Rio Branco, 185, subsolo, centro do Rio)

7.12.2016

MULHERES DE PEDRA

Link com a matéria sobre o coletivo Mulheres de Pedra na página projeto#colabora

http://projetocolabora.com.br/cultura/colcha-de-retalhos/

7.11.2016

O VELHO OESTE CARIOCA VOLUME III

Amigos, o terceiro volume de O Velho Oeste Carioca vai para o prelo (para usar uma expressão antiga, de acordo com o livro) em setembro, em mais uma edição feita por Thereza Rocque da Motta, da Ibis Libris Editora. Neste livro continuo contando a história da zona oeste carioca, de Deodoro a Sepetiba, em capítulos como "Anna Gonzaga e a Fazenda Inhoaíba", "Aliança para o progresso faz nascer Vila Kennedy", "A defesa de Sepetiba", "Os escravos da Fazenda de Santa Cruz", "Ordem e Progresso na Fábrica Bangu" e "A tradição agrícola da Ilha de Guaratiba", entre outros.

5.18.2015

SUBÚRBIO RESTAURADO

                                                                  Cine Guaraci

           Um importante projeto de recuperação do patrimônio histórico dos subúrbios cariocas vem sendo trabalhado pelo senhor Rubens Quintella desde 2002. Trata-se da restauração dos antigos cinema Cachambi, Olari, Rosário (em Ramos), Vaz Lobo e Guaraci (em Rocha Miranda), com a intenção de transformá-los em Centros Culturais Populares, administrados pela prefeitura. A população teria acesso, a preços populares, a diversas manifestações culturais, com incentivo especial aos alunos de escolas públicas. Quintella esteve reunido com o secretário municipal de Cultura, Marcelo Calero, e com a presidente da Rio Filme, Mariana Ribas, que se mostraram favoráveis ao projeto. 

                                                    Cine Vaz Lobo na década de 70

          Outro importante projeto de Quintella, este iniciado em 2005, com o envio de um ofício à Secretaria Municipal de Cultura, pedindo que a Casa da Fazenda do Capão do Bispo, importante monumento histórico da cidade do Rio de Janeiro, localizado no bairro do Cachambi, seja utilizado para projetos sociais, educacionais e culturais. Segundo ele me informou, a prefeitura já apresentou o projeto arquitetônico e as obras de restauração da casa, que é do final do século XVIII, estão perto de começar. 

                                                  Casa da Fazenda do Capão do Bispo

          Quem quiser mais informações sobre o projeto, o e-mail dele é rubensquintellatucker@yahoo.com.br




4.14.2015

CRIME E INCÊNDIO NA IGREJA MATRIZ DE CAMPO GRANDE


          Duas histórias trágicas marcam a matriz de Igreja de Nossa Senhora do Desterro de Campo Grande, na zona oeste do Rio de Janeiro. A primeira ocorreu em 1716, quando ela ainda ficava nas terras que hoje fazem parte de Bangu, erguida por Barcelos Domingues, em 1673. João Manuel de Mello, um dos principais fazendeiros da paróquia, estava dentro da igreja no Domingo de Ramos, quando uma turma de 20 a 30 capangas e escravos, acompanhados de dois outros fazendeiros, José Pacheco e José Gurgel, invadiram a igreja e mataram João Manuel. O mais trágico foi o desfecho. Quando o padre se aproximou do corpo para lhe dar a extrema unção, também foi assassinado. O crime foi relatado pelo Ouvidor-Geral Fernando Pereira de Vasconcelos ao Conselho Ultramarino, instituição portuguesa responsável por várias questões relativas às colônias. "A viúva de Mello veio à cidade trazendo o cadáver da vítima, a fim de clamar justiça. O governador declarou réus de morte a Amaral e a Pacheco, e publicou um bando prometendo grandes recompensas a quem os trouxesse vivos ou mortos". (Antiqualhas e memórias históricas do Rio de Janeiro, de José Vieira Fazenda)
         Bando era uma espécie de proclamação feita em espaço público. Os assassinos de João Manuel de Mello, pelo menos pelo que se sabe, não foram presos. Esta história serviu para esvaziar ainda mais o pequeno templo, que já sofria com as intempéries do tempo, e acabaria sendo destruído ainda naquele século, para ser construída uma nova matriz, já nos limites do atual bairro de Campo Grande (embora ainda não fosse no local atual).
        Outra terrível situação ocorrida na igreja foi em 1882, quando ela já ficava no centro de Campo Grande: um incêndio a destruiu por completo. A ironia é que a igreja hoje fica bem próxima do Corpo de Bombeiros, mas na época eles tiveram de vir do centro da cidade, a cerca de 50 quilômetros, num trem especial da Estrada de Ferro D. Pedro II, atual Central do Brasil. Embora o trem tenha levado cerca de 40 minutos, um padrão rápido até para os dias de hoje, os carros de bois transportando o material dos bombeiros ficou atolado num areal da Rua da Matriz, que depois seria renomeada para Rua da Estação e, por fim, Rua Augusto Vasconcelos. Uma junta de bois foi emprestada pelo capitão Antônio de Oliveira Santos, mas quando os bombeiros, enfim, conseguiram chegar à igreja, não restava quase nada a apagar.
       Com apoio da população local e do governo imperial, que doou 20 contos de réis, a igreja foi reconstruída e reinaugurada seis anos depois, graças ao grande esforço do seu vigário, o padre Belisário Cardoso dos Santos, vigário na região durante 44 anos, de 1847 a 1891, e que morava na casa ao lado da igreja, que mais tarde abrigaria o colégio Belisário dos Santos, demolido em 2014.

3.02.2015

CASA DA FAZENDA DO CAPÃO DO BISPO



    É um dos mais importantes monumentos históricos do subúrbio carioca. Construído no final do século XVIII e localizado na Avenida D. Hélder Câmara (antiga Avenida Suburbana), no bairro do Cachambi, a Casa da Fazenda do Capão do Bispo apresenta um genuíno exemplo da arquitetura rural do período colonial. Pertenceu a D. José Joaquim Justiniano Castelo Branco, o primeiro bispo nascido no Brasil, e fazia parte da Freguesia de São Tiago de Inhaúma, criada em 1743 e que daria origem a boa parte dos bairros suburbanos.


   
     Foi o bispo D. José Joaquim quem plantou, nas terras da fazenda, ainda no final do século XVIII, mudas de  café, que também estavam sendo plantadas na fazenda do holandês John Hoppman, em Mataporcos (atual bairro do Estácio), e na chácara dos padres capuchinhos, na Rua dos Barbonos (atual Rua Evaristo da Veiga). Dali elas seriam plantadas em larga escala, pela primeira vez no Brasil, nas terras do padre Antônio Couto da Fonseca, na Serra do Mendanha (na época parte da Freguesia de Campo Grande), e depois iriam se espalhar pelas fazendas do Vale do Paraíba.


    Tombada pelo Patrimônio Histórico em 1947, a Casa da Fazenda do Capão do Bispo necessita urgentemente de uma ampla reforma e poderia ser usada como sede de alguma unidade de um governo, seja municipal, estadual ou federal.




* Fotos tiradas por Ronaldo Morais em 1986. 

MEUS LIVROS:

- O Velho Oeste Carioca, volumes I e II (Ibis Libris)
- Fragmentos do Rio Antigo (Edital)
- A invasão francesa do Brasil -o corsário Du Clerc ataca o Rio de Janeiro por Guaratiba (Edital)
- A rebelião dos sinais (Edital)
- Manual do Serrote (Edital)
- O Peão Poeta (Edital)

2.19.2015

LEITE COM MANGA

Uma das atitudes mais corajosas que já tomei na vida foi quando pedi um copo de leite com manga numa agradável tarde de sábado em um bar do subúrbio carioca de Cascadura. Não que as condições do estabelecimento fossem inadequadas, era até simpático o bar, mas o ato de coragem se justifica por eu ter ouvido desde pequeno que a mistura de leite com manga poderia levar à morte em poucos minutos.
Não sei de onde veio a argumentação de que estas duas substâncias unidas poderiam provocar uma explosão fatal ao entrar no organismo, mas sei que ela existia e era constantemente lembrada, acabando por se constituir numa das lendas urbanas de maior durabilidade, tal qual a da mulher loura no banheiro, embora esta eu nunca tenha tentado desafiar e muitas vezes, quando criança, cheguei em casa com a bexiga no limite por medo de entrar no banheiro do colégio.
 Também não sei por quais cargas d´água tomei a coragem de fazer o insólito pedido naquela tarde, enquanto aguardava meu ônibus chegar ao ponto. Tinha 18 anos, estava feliz, ia a uma festa e não havia qualquer sombra de comportamento autodestrutivo em minha vida. Talvez fosse uma espécie de rito de passagem, aquela situação que todo adolescente precisa enfrentar antes de ingressar na fase adulta de peito aberto, deixando para trás o medo e a insegurança.
Pois bem, devia ser isso mesmo. E lá fui eu, cheio de coragem, pedir a estranha mistura num bar cheio de gente bebendo cerveja e outras misturas mais fortes. O ridículo da cena talvez lembre o personagem Shane, interpretado por Alan Ladd, pedindo uma gasosa no bar cheio de “homens brabos” do filme “Os brutos também amam”.
O mais incrível foi que, ao fazer o pedido, o atendente rapidamente se prontificou a fazer a, digamos, vitamina, ainda perguntando se eu queria com gelo. Enquanto ele preparava, fiquei pensando: será que esse perigo só existia na minha família? Mas não podia ser. Vários amigos e conhecidos me asseguravam que a mistura leite com manga era tão fatal quando picada de lacraia (outra história terrivelmente ameaçadora). Ou então será que aquele bar era o único bastião contra estas lendas disseminadas de geração a geração? Ou o dono era um sádico especializado em matar fregueses incautos e enterrá-los nos fundos do estabelecimento, como um bom filme americano de terror classe B?
Não sei, nada ali parecia tão ameaçador. E quando a mistura ficou pronta e o atendente falou, num tom razoavelmente alto, “sai um leite com manga”, não vi ninguém espantando. Achei até que alguma velhinha pudesse pegar o copo e despejá-lo subitamente na calçada e ainda me dar um belo de um esporro por ser tão inconsequente. Não, nada aconteceu. E então, de frente para o Viaduto de Cascadura, bebi tranquilamente meu primeiro copo de leite com manga. Paguei, agradeci e o atendente me deu o troco como se nada tivesse acontecido.
Peguei meu ônibus e achava, inconscientemente, que algo ainda aconteceria. De qualquer forma, tinha meu endereço e um número de telefone na carteira, como meu pai sempre recomendava, e por isso alguém (uma enfermeira, o mais provável), poderia dar a trágica notícia à família. Mas, também desta vez, nada aconteceu. Fui à festa, me diverti bastante, voltei para casa no dia seguinte e nas 48 horas seguintes, que seriam de observação e monitoramente, não tive nem uma diarreiazinha sequer.

Confesso: me decepcionei. Uma verdade tão inquestionável como aquela precisaria ter um fundo de...verdade, pelo menos. Um mito não cai por terra assim, sem esboçar um mínimo de reação. Mas aquele caiu, de forma irrefutável. Contei a façanha para amigos e familiares e alguns ainda me chamaram de louco e inconsequente. Seja como for, depois disso passei a adotar a vitamina de leite com manga no meu cardápio e me enchi de coragem para tomar outras atitudes impetuosas, como tomar banho depois do almoço ou andar de ônibus pela avenida Brasil de madrugada. Mas a mulher loura no banheiro, esta ficou sempre no meu imaginário como um símbolo de medo e covardia. 

2.09.2015

O CHORINHO DA PEDRA



    Um ótimo programa para as tardes de domingo é o chorinho do grupo "Choro na Calçada", na Praça São Pedro, em Pedra de Guaratiba, zona oeste do Rio de Janeiro. A praça fica em frente à praia, numa das extremidades do píer, com o belo visual da Restinga da Marambaia ao fundo. Em volta temos o Mercado do Peixe e vários bares, entre eles o tradicional Bar Budo, comandado pelo barbudo Wilson Paim e que já figurou no Guia Rio Botequim. Algumas amendoeiras garantem a sombra.



    A apresentação começa ao meio-dia e vai até as 18h, com pequenos intervalos, inclusive para o almoço. Não há couvert, apenas um dos integrantes passa o chapéu para quem quiser contribuir com o grupo, que não se limita ao chorinho e apresenta um repertório dos mais abrangentes, realçado por um naipe de sopros que dá um sonoro reforço aos tradicionais instrumentos de cordas e percussão do gênero.
    As especialidades dos restaurantes, como não poderia deixar de ser, são os pratos de frutos do mar, que na maior parte vem de outros lugares, já que a Praia da Pedra, assim como toda a Baía de Sepetiba, é poluída. Os muitos barcos próximos ao píer costumam partir para a pescaria no fundo da baía, perto da restinga, onde a água é mais limpa.



    À medida que a tarde vai caindo, um outro atrativo é o por do sol da  Pedra de Guaratiba, tendo ao fundo a Ilha da Marambaia, no final da restinga, e, bem mais distante, a Ilha Grande. O passeio no píer dá o contorno perfeito para este belo passeio de domingo, que muitas vezes vem acompanhado da Feira de Artesanato da Pedra, mas este já é assunto para outro artigo.
   













1.21.2015

SEPETIBA, O PARAÍSO PERDIDO



        Para quem não conhece, Sepetiba  é um bairro da zona oeste da cidade do Rio de Janeiro. Sua história conhecida remonta aos primórdios da fundação da cidade, quando a Fazenda de Santa Cruz foi implantada pelos jesuítas e Sepetiba, com sua bela baía, contornada pela não menos bela Restinga da Marambaia, escoava a imensa produção agropecuária da fazenda, que seria considerada uma das mais prósperas do Brasil colônia. Sepetiba também recebeu uma aldeia de índios catequizados pelos padres jesuítas e, mais tarde, seria a sede do importante Engenho do Pihai, do qual não ficou nenhum vestígio, apenas a vaga lembrança registrada no nome da Estrada do Piaí, que liga Sepetiba a Pedra de Guaratiba.



        No século XIX, quando a sede da fazenda passou a ser o Palácio de Veraneio do príncipe-regente D. João, após a transferência da Corte portuguesa para o Brasil, em 1808, a Baía de Sepetiba passou a ser defendida por navios portugueses fortemente armados, afinal, o primeiro monarca europeu a botar os pés no continente americano estava a poucos quilômetros dali, naquele que seria, um dia, o bairro de Santa Cruz.



        Mais tarde, no conturbado período da proclamação da independência, a futura imperatriz Leopoldina receberia, no cais de Sepetiba, o poderoso ministro José Bonifácio, o "patriarca da independência", que chegava de Santos e seguiria, com Leopoldina, para a Fazenda de Santa Cruz, discutir os próximos passos para que o marido dela  proclamasse a independência e se tornasse D. Pedro I, o primeiro imperador do Brasil.
        Também nesse período, Sepetiba ganharia três fortes: São Pedro, São Paulo e São Leopoldo, além da bateria de Pihai. Poucos vestígios destas construções foram preservadas.



        Da  segunda metade do século XIX em diante, Sepetiba teria linhas de navegação para a Ilha Grande, Paraty, Mangaratiba e outras localidades, além de uma linha de bondes para Santa Cruz. E ao longo do século XX, Sepetiba iria se transformar no balneário preferido dos cariocas, com suas águas calmas e limpas atraindo milhares de pessoas, principalmente no verão, quando várias casas eram alugadas por temporada, movimentando a economia da região, que vivia basicamente do turismo e da pesca. Na década de 70, o bairro ficaria mais conhecido ainda com a gravação da novela "O bem-amado", de Dias Gomes, exibida pela TV Globo, com o famoso prefeito Odorico Paraguaçu, interpretado por Paulo Gracindo, proferindo seus discursos repletos de "emborasmentes" no coreto da Praça Washington Luís, que ainda existe e é tombado pelo governo do Estado desde 1985.
        Tudo isso, no entanto, faz parte do passado. A partir desta mesma década de 70, obras de dragagem mal feitas para a construção do Porto de Sepetiba e a instalação de indústrias de material pesado iniciaram o processo de poluição da baía, agravada com o despejo in natura do esgoto, seja através de canos e manilhas, ou por rios como o Piraquê, que recebe o esgoto de outros rios, outrora limpos e navegáveis, e os despeja na outrora cristalina Baía de Sepetiba.



        Poluída a baía, os turistas foram embora, a pesca sofreu um duro baque e as casas de  veraneio se esvaziaram - o início de um longo processo de decadência que foi se intensificando até os dias de hoje. O transporte público é péssimo, não há um hospital, a violência aumentou, as estradas são perigosas, não há ciclovias, teatros, cinemas, livrarias, sequer um shopping. Suas três praias (do Cardo, Dona Luísa e Sepetiba) são dominadas pela lama (não mais a lama que os banhistas lambuzavam o corpo antigamente e diziam ter propriedades terapêuticas) e alguns barcos de intrépidos pescadores, que conseguem pegar alguma coisa mais para o fundo da baía.
        A única tentativa do poder público de fazer algo para revitalizar o bairro foi a renovação da faixa de areia da Praia de Sepetiba, a maior das três, um trabalho que durou anos e que, de  certa forma, revitalizou o espaço, embora a lama e o esgoto já estejam ocupando novamente o seu espaço.



        A população, no entanto, começa a reagir, principalmente através das redes sociais. A professora Bianca Wild, por exemplo, e um grupo de moradores do Ecomuseu de Sepetiba, vem promovendo eventos no bairro, como o passeio, sempre no primeiro domingo do mês, reunindo pessoas no histórico coreto e seguindo até a Ilha dos Marinheiros (onde marinheiros rebeldes foram fuzilados durante a Revolta da Armada, no final do século XIX), com palestras sobre a importância histórica da região, ações de conscientização ambiental e uma visita ao antigo Cais Imperial da ilha.
        Na língua tupi, Sepetiba significa "área com grande quantidade de sapê", que é uma espécie de vegetação rasteira que existia por todo o seu belo litoral.       

* Fotos tiradas por mim, em agosto de 2014. Legendas, de cima para baixo:

- Coreto
- Praia do Cardo
- Ilha do Tatu
- Praia de Dona Luísa
- Antigo Iate Clube
- Praia de Sepetiba

1.05.2015

RIO NOIR


Rio Noir - (coletânea de contos editada por Tony Belloto) - Casa da Palavra - 304 páginas.

         "Rio Noir" é a versão carioca de uma série de livros de sucesso nos Estados Unidos, publicada pela editora Akashic Books e que reúne contos noir de escritores do gênero (ou não) ambientados em alguma cidade escolhida para aquela edição. Como a ideia deu muito certo, a editora ampliou a coleção para cidades de outros países, como esta que traz a cidade do Rio de Janeiro como cenário - a primeira publicada no Brasil, feita em parceria com a Casa da Palavra e organizada por Tony Belloto, músico do grupo Titãs e já bastante experiente no tema com seus livros protagonizados pelo detetive Remo Bellini.
         A literatura noir teve seu auge nos Estados Unidos em meados do século passado, graças a autores como Raymond Chandler, Dashiell Hammett (do clássico "O falcão maltês") e James Ellroy e se caracterizou principalmente por fugir ao padrão da trama policial comum, onde os personagens são muito bem demarcados. No ambiente noir, o clima é outro, há humor, há crítica política e comportamental, os detetives são durões, mas sensíveis, gostam de jazz, boa literatura e bons restaurantes, seus auxiliares costumam ser pitorescos e muitas vezes "roubam a cena". As mulheres são sensuais e determinadas (geralmente louras) e os diálogos ágeis e muito bem escritos. Sem contar, obviamente, o clima sombrio, com muito nevoeiro e becos escuros (noir significa preto, em francês). Um fã do gênero é o cineasta Quentin Tarantino, que no filme Pulp Fiction fez uma homenagem ao livro e filme noir, inclusive no título, já que pulp fiction era o tipo de publicação inicial da literaturanoir, feita em formato de bolso, com papel barato e que poderia ser vendida em tudo que era lugar.
         Para transportar a literatura noir ao Rio de Janeiro, foram convidados 15 autores, alguns já dominando o gênero da literatura policial, como Luiz Alfredo Garcia-Roza, o próprio Tony Belloto e o jovem Raphael Montes, sucesso de vendas com seus romances "Dias perfeitos" e "Suicidas", além de nomes conhecidos na imprensa carioca, como Arnaldo Bloch, Arthur Dapieve e Guilherme Fiúza (que afirmou nunca ter escrito um conto antes deste livro), e autores importantes da literatura contemporânea, como Adriana Lisboa e Flávio Carneiro. Não poderia faltar, é claro, Luis Fernando Verissimo, criador do impagável detetive Ed Mort e que ambienta seu conto no bairro de Bangu, onde um duplo assassinato ocorre ao lado de um manuscrito de poesias intitulado "A hora das sombras compridas": "Uma das poucas coisas no apartamento que não estavam respingadas de sangue".
         O resultado é muito bom, com os autores criando suas histórias exatamente em cima do contraste entre as belezas naturais da cidade e a tão decantada hospitalidade dos cariocas e seu espírito festivo com o que se esconde (ou nem tanto) neste "purgatório da beleza e do caos", como já cantou Fernanda Abreu.
         Assim, cartões-postais consagrados da cidade surgem como cenários de situações que nenhuma agência de turismo iria publicar em "folders" promocionais, como o dedo que a personagem criada por Victoria Saramago encontra numa caminhada na Floresta da Tijuca ("Ponto Cego"), o corpo caído no Morro do Corcovado, com direito a um típico nevoeiro noir("Táxi argentino", de Arthur Dapieve), o famoso litoral da zona sul esquadrinhado por um gigolô disposto a observar "as burguesinhas do Leblon, as bichas da Farme, as gringas de Copacabana e as coroas cachorras do Leme" ("Coroas saradas", de Tony Belloto), e mesmo o canibal da Rua Canning, um coronel reformado do Exército que acreditava estar curado de certos hábitos ("Canibal de Ipanema", de Alexandre Fraga, que além de escritor é policial federal).
         Embora o tráfico de drogas esteja ligado a boa parte dos crimes no Rio, poucos autores o utilizam em suas histórias. O que sobressai mesmo é o clima noir das histórias e suas referências, seja no caso de Adriana Lisboa, que em "O enforcado", história passada no Largo do Machado, nos lembra "A cartomante", um dos grandes contos do mestre Machado de Assis, ou Flávio Carneiro, que em "A espera", narra uma história sem nenhuma cena de violência, mas cheia de deduções criativas e interessantes do Gordo, dono de um sebo na Rua do Lavradio e que ajuda um detetive amigo seu a investigar o homem que segue todo dia uma funcionária do setor de Obras Raras da Biblioteca Nacional e fica parado encostado num poste, jornal embaixo do braço, em frente ao prédio dela. Mais noir, impossível.

12.26.2014

VOU TE CONTAR - 20 HISTÓRIAS AO SOM DE TOM JOBIM

          


          Lançado para marcar os 20 anos da morte de Tom Jobim, ocorrida em 8 de dezembro de 1994, "Vou te contar - 20 histórias ao som de Tom Jobim" (Rocco) reúne contos de autores contemporâneos baseados em músicas do grande compositor. É uma homenagem bem apropriada, pois, como diz Ruy Castro na contracapa, Tom respeitava a palavra tanto quanto as notas musicais, e o que vemos aqui é uma reverência feita, com muito talento, a um dos grandes nomes da cultura brasileira.
        Organizado por Celina Portocarrero, o livro segue a ordem alfabética dos autores, de Adelice Souza a Vinicius Jatobá, que faz uma leitura original de "Águas de março", repleta de imagens poéticas espalhadas em um ritmo dinâmico. Já Adelice pontua seu conto com o primeiro verso de "Wave", Vou te contar, que inicia os parágrafos de uma história que mistura romantismo, praia e um amor estrangeiro que recebe o aval da rainha do mar. "Deixei os pés se molharem e a água nada ondulada lambia os joelhos e uma parte das coxas. E fiquei ali, ainda enxutos o sexo e o ventre, o olhar a pasmar-se no meio da secura fria. Agradecia, agradecia, agradecia".
     Entre Adelice e Vinicius circulam nomes como Claudia Nina,  Susana Fuentes, Lúcia Bettencourt, Marilia Arnaud, Angela Dutra de Menezes, Silviano Santiago, Henrique Rodrigues, Branca de Paula, Danielle Schlossarek e Mirna Brasil Portela, que faz de seu conto "Ligia" uma história de desespero dentro de um avião em turbulência, o clímax onde nada mais resta a não ser um surpreendente beijo na boca.
     O livro não traz as letras completas das músicas que inspiraram os autores, é uma opção editorial, o que de certa forma dá uma liberdade até maior para que os contos sejam, de fato, a recriação de cada canção de Tom Jobim. Assim, em alguns casos, não há, dentro do texto, nenhuma referência explícita à letra da canção que inspirou o conto, mas podemos observar, aqui e ali, um clima, um ambiente que nos remete à fonte daquela história.
        Homenagear um grande artista fora da sua área específica é sempre um risco de se "errar a mão", de se produzir algo completamente fora de contexto, mas não é o que se vê aqui. Os autores entraram no universo do compositor, acompanhados de uma edição caprichada e as belas fotos de Isabel De Nonno, que ilustram a capa e o início de cada conto.
       Como Vinicius de Morais, o principal parceiro musical de Tom, já disse numa canção, "a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida", e é exatamente o que vemos aqui nestas pequenas narrativas, que também podem ser encontros repletos de acidez, como entre pai e filho que nunca se entenderam ("Fotografia", de Carlos Henrique Schroeder), um ex-casal com muitas arestas por aparar ("Você vai ver", de Antonio Carlos Viana), a mulher que aguarda, na melancolia de uma praia onde tudo mudou, o encontro acordado trinta anos atrás ("As praias desertas", de Marcelo Moutinho), ou a filha que resolve encarar o passado e rever o pai que abandonou a família ("Espelho das águas", de Monique Revillion).
         Menalton Braff, o autor mais experiente da coletânea, com seus 20 livros publicados e um prêmio Jabuti na bagagem, escreve um conto sobre a descoberta do amor, aquele amor que deixa "minha testa úmida, minhas mãos encharcadas, meus olhos mergulhados numa nuvem densa" e que pode, ou não, se materializar em um encontro (novamente ele). E é o amor que sustenta, de fato, boa parte das histórias, o amor de Tom Jobim pelas pessoas, pela natureza, pela arte, enfim, pelo seu querido Rio de Janeiro. "Dizem que a maior solidão é a de quem está no meio de uma multidão. Naquele momento, ele tinha certeza de que a maior solidão era aquela de quem tem dúvidas acerca do amor, estando ao lado da pessoa supostamente amada" ("Vivo sonhando", de Danielle Schlossarek).












12.10.2014

CAPELA DE NOSSA SENHORA DA CABEÇA

           Localizada na Rua Faro, no Jardim Botânico, Zona Sul do Rio, a Capela de Nossa Senhora da Cabeça é um dos templos religiosos mais antigos da cidade. Tombada pelo Iphan (1965) e pelo município do Rio (2004), a capela foi construída entre 1625 e 1632, durante o governo de Martim de Sá, e fazia parte do Engenho d´El Rey, construído no final do século XVI e que abrangia uma área imensa, entre a futura Lagoa Rodrigo de Freitas e as encostas do Morro do Corcovado. Às margens dela corre o riacho que, devido ao nome da capela, assumiu o nome de Cabeça, mantido até hoje.



        Como acontece com todos os monumentos históricos do Rio de Janeiro, principalmente os mais antigos, a capela passou por reformas ao longo dos séculos, mas sempre manteve sua configuração original, o que é raríssimo. É um exemplo típico da arquitetura rural da época do Brasil Colônia. Na restauração feita em 2005, foram encontrados vestígios de louça, vidro e outros tipos de material até do século XVII.



        O engenho foi desativado após a chegada da Família Real ao Rio de Janeiro, em 1808. D. João mandou construir, em seu lugar, uma fábrica de pólvora, cujas ruínas ainda existem, dentro do Jardim Botânico. No local do antigo engenho, funciona hoje a Casa Maternal de Mello Matos. Cercado de muito verde, é um local que se mantém afastado do tumulto da cidade. À direita está o Corcovado e à esquerda muita vegetação e a vista da Lagoa Rodrigo de Freitas, antiga Lagoa de Sacopenapan, e que até o século XX era um arrabalde distante da vida social, cultural e econômica da cidade do Rio de Janeiro.


* Fotos tiradas por Ronaldo Morais - que colaborou neste artigo - em 1980. Legenda da pintura: Lagoa Rodrigo de Freitas e a capelinha da Chácara do Tosta (1879) - Nicolau Antonio Facchinetti

MEUS LIVROS:

- O Velho Oeste Carioca, volumes I e II (Ibis Libris)
- Fragmentos do Rio Antigo (Edital)
- A invasão francesa do Brasil -o corsário Du Clerc ataca o Rio de Janeiro por Guaratiba (Edital)
- A rebelião dos sinais (Edital)
- Manual do Serrote (Edital)
- O Peão Poeta (Edital)





12.01.2014

CONVENTO DO CARMO

          Os primeiros carmelitas chegaram ao Rio de Janeiro em 1589. Em frente à área onde hoje fica a Praça XV de Novembro existia a pequena Capela de Nossa Senhora do Ó, doada aos carmelitas, que logo a transformaram na capela da Ordem do Carmo. Em 1611 eles receberam o terreno ao lado da capela e começaram a construção do Convento do Carmo que, como toda obra de igreja, demorou bastante. Embora tenha sido inaugurado em 1619, somente no século XVIII foi que o convento recebeu seu terceiro andar, ficando com a configuração que temos hoje - embora sua fachada tenha passado por diversas restaurações. No século XIX, por exemplo, a sua estrutura lateral foi demolida para a abertura da Rua do Cano, atual Rua 7 de setembro.


          Quando a Família Real chegou ao Rio de Janeiro, em 1808, fugindo das tropas de Napoleão, o Convento, assim como as principais residências da cidade, públicas e particulares, foi requisitado para servir de residência à Rainha Maria I, que já estava louca. Foi construído então um passadiço ligando o convento ao Paço Real (atual Paço Imperial), sede do poder na época exercido pelo príncipe regente D. João, filho de Maria I. Os carmelitas foram transferidos para outros conventos da cidade. Também no convento foram abrigados os livros trazidos pela Família Real e que dariam origem, no Rio de Janeiro, ao acervo da Biblioteca Nacional.



          Tombado pelo Iphan, o antigo Convento do Carmo está hoje sob a tutela da Secretaria de Estado de Cultura, mas sem nenhum utilização, funcionando apenas como depósito de quinquilharias. Apesar de tudo ele permanece como um dos mais fortes símbolos do Rio de Janeiro colonial, indiferente ao trânsito intenso da Rua Primeiro de Março, a antiga Rua Direita.

* (Fotos tiradas por Ronaldo Morais - que colaborou neste artigo - em 1985)

MEUS LIVROS:

- O Velho Oeste Carioca, volumes I e II (Ibis Libris)
- Fragmentos do Rio Antigo (Edital)
- A invasão francesa do Brasil -o corsário Du Clerc ataca o Rio de Janeiro por Guaratiba (Edital)
- A rebelião dos sinais (Edital)
- Manual do Serrote (Edital)
- O Peão Poeta (Edital)


11.24.2014

LADEIRA DA MISERICÓRDIA, O ÚLTIMO VESTÍGIO DO MORRO DO CASTELO


         São poucos os que reparam nela. Quase sempre guias turísticos levando grupos a conhecerem a História da cidade do Rio de Janeiro. Afinal, qual o interesse numa pequena ladeira que não leva a lugar nenhum? Mas a Ladeira da Misericórdia, perto da Santa Casa e da Igreja de Nossa Senhora de Bonsucesso, leva, sim, aos primeiros anos de ocupação da cidade, quando os portugueses transferiram o pequeno núcleo fundado, em  de março de 1565, no espaço entre os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar, para o Morro do Castelo, em janeiro de 1567, após intensas batalhas contra os índios tamoios e os franceses.
  A ladeira é o que sobrou do morro, demolido na década de 1920, um projeto que surgira já no final do século XVIII, e atravessou o século XIX, movido por várias razões, entre elas a de que ele impedia a passagem dos ventos e a circulação do ar, o que agravava o quadro de doenças dos moradores da cidade. Além disso, sempre houve uma grande curiosidade sobre os possíveis tesouros escondidos nos subterrâneos do Morro do Castelo, tesouros que teriam sido guardados pelos jesuítas após a expulsão deles de Portugal e suas colônias pelo Marquês de Pombal, em 1759. O Colégio dos Jesuítas e a Igreja de São Sebastião, a primeira da cidade, ficavam no alto do morro.


  Os subterrâneos foram realmente encontrados, em 1905, durante as obras da Avenida Central, futura Avenida Rio Branco, mas, apesar de todo o rebuliço causado na cidade, nada de valor foi encontrado: apenas correntes de ferro, alguns documentos sem importância, ossadas e algumas cisternas. As passagens dos túneis foram, então, emparedadas algum tempo depois. O que sobrou do morro foi usado, principalmente, para a construção do Aeroporto Santos Dumont, ligando a Ilha de Villegagnon, usada pelos franceses que ocuparam a Baía de Guanabara a partir de 1555, ao continente.
  A destruição do morro começou na administração do prefeito Carlos Sampaio, usando, como principal argumento, a necessidade de se preparar a cidade para a Exposição Internacional de 1922, que traria delegações do mundo inteiro e iria comemorar os cem anos da independência do país. Com o apoio do governo federal, o trabalho começou, apesar dos protestos de muita gente, como o escritor Lima Barreto, que afirmou ser o projeto um desrespeito às tradições da cidade, um imenso gasto desnecessário de recursos, e ainda havia a questão dos moradores do morro, cerca de 4 mil pessoas que viviam lá, além dos monumentos históricos.
  Mesmo assim, a demolição foi feita e, em dois anos, quase todo o morro havia sido destruído, graças principalmente aos potentes jatos d´água instalados. Mas só no final daquela década toda a área onde ficava o histórico morro foi limpa, surgindo a Esplanada do Castelo, que ficaria deserta durante muitos anos, até construírem a Avenida Presidente Antônio Carlos e prédios importantes, como os ministérios do governo Getúlio Vargas, nos anos 40. O local até hoje é conhecido como Castelo, devido à fortaleza que ficava no alto do morro, que no início da ocupação da cidade era chamado de Morro do Descanso. Todo o trabalho de destruição foi exaustivamente registrado pelas lentes de Augusto Malta, o principal fotógrafo da cidade nas primeiras décadas do século XX.


  Os restos mortais de Estácio de Sá, fundador da cidade, foram retirados da Igreja de São Sebastião, demolida junto com o morro, para a Igreja dos Capuchinhos, na Tijuca, assim como alguns objetos religiosos. Já os 4 mil moradores ficaram alojados em barracões de madeira na Praça da Bandeira e depois alojados em vários lugares. A vidinha tranquila no morro, com suas muitas árvores, passarinhos, galinhas ciscando, um pouco do que era a vida no Rio de Janeiro antes das grandes transformações urbanas do prefeito Pereira Passos (1902-1906), ficaria mesmo no passado para aquela gente.
  A Ladeira da Misericórdia era um dos três caminhos do morro. Os outros dois eram a Ladeira do Carmo, no prolongamento da Rua do Carmo, e a Ladeira do Seminário (ou Ladeira da Ajuda), na Rua da Ajuda, perto da Cinelândia. A Rua da Ajuda ainda existe e é uma referência ao antigo Convento da Ajuda, destruído no início do século XX.


* (Fotos tiradas por Ronaldo Morais, que colaborou neste artigo, entre 1978 e 1986 - apenas a última, colorida, foi tirada por mim em 2014)

MEUS LIVROS:

- O Velho Oeste Carioca, volumes I e II (Ibis Libris)
- Fragmentos do Rio Antigo (Edital)
- A invasão francesa do Brasil -o corsário Du Clerc ataca o Rio de Janeiro por Guaratiba (Edital)
- A rebelião dos sinais (Edital)
- Manual do Serrote (Edital)
- O Peão Poeta (Edital)

9.12.2014

CAMPO GRANDE, SÍMBOLO DA VIDA RURAL CARIOCA

Artigo publicado por mim no site Rio 450 anos, do jornal O Globo, em 11 de setembro de 2014. Segue o link:



CAMPO GRANDE, SÍMBOLO DA VIDA RURAL CARIOCA

Cercado pelos parques florestais do Mendanha e da Pedra Branca, o bairro de Campo Grande tem suas origens no início da ocupação da cidade do Rio de Janeiro, quando os primeiros aventureiros partiram para a região que alguns séculos depois seria nomeada zona oeste da cidade. Já na passagem do século XVI para o XVII, eram doadas sesmarias, grandes porções de terras cujos donos tinham a obrigação de tornar produtivas, como a que o então governador do Rio de Janeiro, Martim de Sá, doou a Lázaro Fernandes e Pero da Silva, “moradores nesta cidade e suas mulheres e filhos, que lhes é necessário terras para suas lavouras e para fazerem eles e seus filhos fazenda e não tem nenhumas no Campo Grande”.

Na Serra do Mendanha, onde existe um vulcão extinto, é que foram plantadas em larga escala pela primeira vez mudas de café, levadas da Fazenda do Capão do Bispo, cuja sede ainda existe, no subúrbio. Só depois é que o café iria se espalhar pelo Vale do Paraíba. Também na mesma serra, nasceu, em 1797, aquele que seria um dos maiores botânicos brasileiros, Freire Alemão, descobridor de centenas de espécies de plantas. Do outro lado do bairro, a Serra do Rio da Prata ainda abriga um pouco da vida rural que dominou a paisagem da região durante séculos, com agricultores levando suas produções no lombo dos burros, a pracinha ajardinada e a igreja na frente, além do coreto e a bica tombados, símbolos de uma época em que os lavradores só iam ao centro do bairro para vender suas safras e receber o dinheiro no Café e Bar do Lavrador, que não existe mais e era uma espécie de “banco” que movimentava a vida rural na região.

Também era do centro do bairro que saíam os bondes, inaugurados no final do século XIX e que fizeram parte da paisagem campograndense até 1967, deixando saudades e muitas memórias nos moradores mais antigos. Além da linha Campo Grande-Rio da Prata, havia também as que iam para Santa Clara, Ilha de Guaratiba e Pedra de Guaratiba. Hoje, desta época de um transporte mais romântico e ecologicamente correto, só restou como lembrança a antiga Oficina de Manutenção dos Bondes, na Estrada do Monteiro, que é utilizada pela Comlurb (Companhia de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro.

Também outro símbolo forte do bairro, presente inclusive em algumas esculturas na área central, foi a laranja, principal produção agrícola da região entre as décadas de 1930 a 1950, embalada em imensos barracões e origem da riqueza de muitos fazendeiros que, após a decadência da produção, começaram a lotear as fazendas, incrementando o crescimento populacional do bairro, que hoje já atinge níveis de saturação.

Apesar disso, e do trânsito cada vez pior, o bairro ainda mantém traços da vida rural e tem como uma de suas principais características a hospitalidade de seus moradores, muitos deles “emprestados” de outros bairros, como eu, ou de famílias quatrocentonas, já que a Freguesia de Nossa Senhora do Desterro, nome da Igreja-Matriz que fica numa pequena elevação no centro do bairro, é de 1673, quando o Campo Grande era realmente uma imensa área que se estendia da Fazenda de Santa Cruz às Terras Realengas.

8.25.2013

CARTA PARA A MÃE

(texto publicado em agosto de 2011)

Qual a sensação de se chegar à idade em que a mãe morreu?

Cheguei, enfim, à idade em que minha mãe Lucy morreu, aos 42 anos, no hoje bem distante 1º de fevereiro de 1981. Aos 11 anos, recebia a notícia, de forma fria e seca, de uma tia-avó, sintetizada numa frase: "Morreu". Para mim, aquilo soou como o fim de uma era, algo estranho e misterioso que se iniciava e que estava preso a uma aura de sofrimento, vide o choro compulsivo de minha avó no sofá da sala.

Nunca parei para pensar em como seria quando chegasse à idade em que ela partiu. Achava que uma emoção inesperada tomaria conta de mim quando passasse a ver o mundo da idade dela, principalmente porque 42 anos, para um garoto de 11 anos, e numa época em que a expectativa de vida era menor, parecia muito tempo.

Ao me colocar na idade dela desde o último dia 3 de agosto, um dia frio e chuvoso, passei a sentir sua presença de forma viva, quase reconfortante. Como se aquele domingo ensolarado de verão voltasse de forma mais iluminada, sem a sombra amarga da morte, sem frases frias e sofridas, sem o olhar piedoso dos vizinhos, sem a chegada triste e contida de meu pai, e sem, principalmente, a sensação de que o tempo não me daria chance a um recomeço. Mas ele sempre dá.

7.18.2013

ATENTADOS LITERÁRIOS

         Costumo deixar livros no trem, mais precisamente quando a composição chega à Central do Brasil, estação final, no centro do Rio de Janeiro. Assim que a "minhoca de lata" chega, espero todo mundo sair, tiro o livro da mochila, coloco no canto de um banco e saio, sem olhar para trás. Prefiro esta atitude discreta, pois seria muito desagradável se alguém me cutucasse no ombro lá na frente e dissesse, com a melhor das intenções: "Amigo, esqueceu isso aqui". "Ah, sim obrigado".
         Os temas dos livros variam, pode ser de ficção, História, variedades, o que pintar, contando que esteja em bom estado. Fico imaginando a reação das pessoas, se vão gostar, levar pra casa, dar pro filho, ou mesmo deixar de lado. Não sei. O mais fascinante nesta atividade, que já desenvolvo há muitos anos, é exatamente deixar a imaginação livre para saber o destino do livro. Um amigo também já fez a mesma coisa, mas ele acrescentava um pequeno texto no início do livro, quase uma dedicatória, do tipo "Este livro não chegou a você por acaso, portanto trate dele com carinho".
         Certa feita vi uma reportagem sobre um grupo que fazia isso, mas em vários lugares, banco de praça, jardim, ônibus, balcões, metrô e trem, entre outros. Chamavam de atentado literário, já que tinha sido algum tempo depois dos atentados de 11 de setembro de 2001. Embora eu já fizesse o mesmo no trem havia algum tempo, gostei do nome e passei a adotá-lo.
         Apenas uma vez meu atentado literário quase não deu certo. Quando o trem chegou à Central, entraram várias pessoas para a viagem de volta, já que era de tardinha, hora da volta do trabalho. Ia deixar um exemplar da "Revista de História", da Biblioteca Nacional (deixo revistas também, às vezes), devidamente lida. Estava com um grupo de amigos, sem saber o que fazer, pois os outros trens já estavam cheios. Por sorte um dos amigos, bastante extrovertido, pegou a revista da minha mão e, já na saída da estação, quando entrou um rapaz com cara de estudante, entregou a revista para ele e disse, em um tom que não admitiria contestação: "Toma!" O rapaz sorriu e ainda balbuciou um agradecimento, mas já estávamos em um passo rápido e decidido, passo de quem acabou de cumprir uma importante missão.


Obs: este texto foi escrito dentro do trem, chegando à estação da Central, onde mais um atentado literário seria feito com sucesso.

3.31.2013

FRAGMENTOS DO RIO ANTIGO



FRAGMENTOS DE UMA CIDADE
QUE SEMPRE SE TRANSFORMA
         Foi há muito tempo, mas já houve uma tentativa de se defender o Rio de Janeiro com um muro, como aconteceu em muitas cidades medievais da Europa. O projeto, que durou três séculos, nunca foi muito à frente, principalmente por discordâncias e falta de continuidade de um governo para outro, um problema que, aliás, até hoje atrapalha as obras longas no país. A história das idas e vindas da construção do muro, cujos limites iam até a altura da atual rua Uruguaiana, é um dos capítulos deste livro, escrito pelo jornalista André Luis Mansur e pelo médico Ronaldo Morais e repleto de fotos de importantes monumentos históricos do Rio tiradas por Ronaldo principalmente nos anos 80.
         Uma delas é a Fazenda de Nossa Senhora da Conceição, na Pavuna, demolida na década de 80 e que abrigava uma picota, a única descoberta até hoje na cidade. A picota era um instrumento de tortura dos escravos e que substituía o pelourinho nas áreas mais afastadas do centro da cidade.
         Outra fazenda importante era a de Colubandê, em São Gonçalo, e que abrigou muitos judeus perseguidos pela Inquisição. Nas fotos ela aparece bastante degradada, mas hoje está muito bem preservada e oferecendo bárias atividades de lazer para os moradores da região. Outro monumento que aparece bastante degradado no livro e hoje está restaurado é a Casa de Banhos de D. João VI, no Caju, que hoje é o Museu da Limpeza Urbana da Comlurb. A Casa de Banhos era o local oferecido ao príncipe-regente para ele tomar banho na praia do Caju por recomendação médica, já que havia sido picado por um carrapato na Fazenda de Santa Cruz, na antiga zona rural da cidade. Com a medida, D. João inaugurou um hábito hoje totalmente associado ao lazer do carioca: o banho de mar.
         O livro traz também, entre outros monumentos importantes, a estação de trem de Marechal Hermes, de 1912, a Fundição Cavina, em Lins de Vasconcelos, de onde saiu, por exemplo, a estátua de Tiradentes, que fica em frente à Assembleia Legislativa. A fundição Cavina hoje está abandonada, assim como o Reservatório do Morro da Viúva, entre Flamengo e Botafogo,
         Além dos monumentos, o livro traz histórias curiosas e divertidas, como o primeiro acidente de automóvel da cidade, provocado pelo poeta Olavo Bilac, que bateu numa árvore com o carro do abolicionista José do Patrocínio. Outro caso que mereceu destaque no livro é o de Bárbara dos Prazeres, que morava perto do Arco do Teles, na atual Praça XV, e que, segundo reza a lenda, utilizava métodos bem sinistros em seus rituais. A história também, esta bem real, do assassinato da esposa de Fernando Carneiro Leão, amante de Carlota Joaquina, a mandante do crime, mostra como as relações de poder muitas vezes atropelaram os trâmites judiciais.
         Já a lenda da Pedra da Gávea, de que o suposto rosto que aparece na formação rochosa, seria de um monarca fenício, gera até hoje argumentos bem curiosos, até porque as inscrições que aparecem numa parte da rocha até hoje não foram bem explicadas.
“Sabe-se que nem todo brasileiro é apaixonado por carro, mas José do Patrocínio o era, até porque o seu era o único da cidade. E sua desolação foi imensa, pois seu carro foi a primeira “perda total” do trânsito no Rio. Quem não ficou triste, com certeza, foi o povo carioca, ao pensar que ao invés de um tronco de árvore poderia existir um pedestre no meio do caminho”.
Trecho de “No meio do caminho tinha uma árvore”.
Fragmentos do Rio Antigo (Edital)
         André Luis Mansur e Ronaldo Morais         
         Edital
         80 páginas
         R$ 29,99
        

2.17.2013

A ARTE DE LER JORNAL NA BANCA


Nunca passei por uma banca com jornais expostos que não tivesse alguém olhando. Geralmente há mais de um e por isso é preciso tomar cuidado para não ficar na frente de ninguém, principalmente se você for alto ou gordo. Caso haja muita gente, aguarde a vez para chegar perto, pois a leitura de jornal em banca não costuma levar muito tempo. O ideal é ficar numa posição em diagonal, pois é possível ler todos os jornais sem atrapalhar ninguém. É bom tomar cuidado também com a carteira, pois de vez em quando, infelizmente, aparece um ou outro que não está ali apenas com a intenção de se informar.

A leitura em banca de jornal, na verdade, é bastante limitada, pois só permite que se veja a primeira página, a chamada “página das manchetes”. Como antigamente muita gente abusava e folheava os jornais, os donos das bancas acabaram grampeando os jornais.

O leitor de bancas de jornal, embora não possa se aprofundar nas notícias (a não ser que, claro, compre o jornal) adquire, com este ofício, uma espécie de “apanhado geral” dos principais assuntos do momento. Isto é muito útil, por exemplo, em relações sociais e profissionais.

Uma figura inconveniente, no entanto, nestes ambientes, é o comentarista, que, como o próprio nome diz, se especializa em comentar as notícias com alguém. Geralmente é uma crítica em tom raivoso e que acaba atrapalhando a leitura dos outros, que para ser eficiente precisa ser dinâmica e silenciosa. Embora seja difícil identificar o comentarista, a recomendação, quando ele começar a resmungar, é procurar se manter concentrado na leitura, de preferência firmando um pouco os olhos e aproximando o rosto do jornal. Geralmente ele desiste. Há também outra figura inconveniente, que é a do egoísta, o sujeito que fica na frente dos jornais e não deixa ninguém ler, principalmente se ele for alto e gordo. Fumantes também provocam grande incômodo.

Os dias de maior movimento em torno das bancas de jornal são as segundas-feiras, por causa dos resultados do futebol de domingo, e também os dias seguintes a algum fato marcante. Embora muita gente acredite que este hábito seja prejudicial aos jornaleiros, o resultado é exatamente o contrário. Vá lá que a grande maioria apenas lê o jornal na banca e vai embora, mas muita gente acaba comprando o jornal, interessado no que viu nas manchetes. O que não se deve jamais fazer é pedir ao dono da banca para “dar uma olhadinha” num jornal porque viu algo interessante lá fora. Aí já é abuso.

Hoje, quando muitos jornais estão disponíveis na internet, acontece também de a pessoa olhar na banca algo que a interesse e ler a matéria inteira na versão online, o que é bastante prejudicial ao dono da banca, que precisa encontrar formas de se adaptar às novas tecnologias.

12.19.2012

LIVRO SOBRE O MÉIER

Muito importantes para a vida da região eram os bondes, inicialmente puxados a burro (os “caixinhas de fósforos“) e depois eletrificados. O bonde era dirigido pelo motorneiro e o condutor era quem cobrava as passagens. Entre os vários bondes que circulavam no Méier, um se destacava, o Boca do Mato, de nº 87, carinhosamente chamado de “Boquinha“. Ele conduzia passageiros para a Boca do Mato, bairro muito tranquilo e com um excelente clima, muito favorável aos portadores de doenças pulmonares – daí os apelidos “Europa dos Pobres“ e “Suíça Suburbana“.

Trecho deste livro aí embaixo que, acredito, vá agradar muito aos que se interessam pela História dos subúrbios cariocas.


12.04.2012

MATÉRIA NO EXTRA - 4/12/2012


Bruno Cunha



O seu amigo não divide a conta do bar com todos os presentes? Nem a do almoço ou a do lanche? Pois ele pode ser um expert na prática da “serrotagem” e você nem desconfia. Mas já poderá desmascará-lo (numa boa, é claro), a partir deste sábado, dia 8 de dezembro, quando André Luiz Mansur, Francisco Rosa Lemos e Sandro Nunes lançam o “Manual do Serrote”, um livro que esclarece o que é essa tal prática.

- O Serrote é uma figura muito comum nos botecos. É uma figura muito querida por todos, mas ele sempre consegue que alguém pague a conta para ele - explica Mansur, um dos autores do livro, com trecho do prefácio do jornalista Arnaldo Bloch.

As 96 páginas do livro também diferenciam a “serrotagem” da malandragem, apresentando ao leitor inúmeras técnicas adotas pelo praticante do serrote, que, de acordo com Mansur, só não serra a conta.

O lançamento está marcado para às 17h, na Livraria Edital, na Travessa Ferreira Borges 20, em Campo Grande. O livro custa R$ 19,90.



Leia mais: http://extra.globo.com/noticias/rio/zona-oeste/autores-lancam-livro-em-campo-grande-que-mostra-como-age-quem-nao-gosta-de-pagar-contas-como-do-bar-6921743.html#ixzz2E6RBak1W