6.22.2022

SALDÃO DE LIVROS




SALDÃO: CADA LIVRO A 8 REAIS (e só chamar no zap: 21 999197723)

ANNA DE ASSIS (história de um trágico amor: Euclides de Cunha, Anna e Dilermando de Assis 

"Rio de Janeiro, 1909. Uma tragédia comove a Velha República e agita a provinciana sociedade carioca: Euclides da Cunha tenta matar a amante de sua esposa e, no duelo, é morto a tiros. Uma desgraça que ganhou imensa repercussão, pois tratava-se de um expoente da literatura nacional, integrante da Academia Brasileira de Letras e um dos homens mais cultos e admirados do país. Sete anos mais tarde, o filho de Euclides tenta vingar a morte do pai e também é morto por Dilermando de Assis. Publicado originalmente em 1987, este depoimento de Judith Ribeiro de Assis, filha de Anna de Assis e Dilermando, ao jornalista Jeferson de Andrade resgata a imagem da mãe e dá contornos de lucidez à triste realidade".

DE CALIGARI A LILI MARLENE

Luiz Nazário

"Mais do que um conjunto de técnicas abstratas, o expressionismo seria um código de signos concretos; mais do que um estilo, uma mensagem. Esta é a tese que se desprende das presentes reflexões sobre o cinema alemão. De todas as correntes artísticas que floresceram sob a República de Weimar, o expressionismo foi a que mais agudamente pressentiu o caráter apocalíptico do nazismo. Se de fato ele é uma mensagem, urge decifrá-la, já que ele retorna sublimado no novo cinema, quando mergulhamos numa crise igualmente planetária e que suscita um terror igual. Para isto convido o leitor a percorrer comigo as ruas estranhas pelas quais o Dr. Caligari nos conduz até a casa de Lili Marlene".

O EPISÓDIO DO GRAF SPEE - A BATALHA FINAL E SALVAMENTO

Fernando Klein

Um dos principais episódios das II Guerra Mundial aconteceu no litoral do continente sul-americano, principalmente na área do estuário do Rio da Prata. A batalha entre o encouraçado alemão Graf Spee e navios da Armada Britânica é o fruto da pesquisa de Fernando Klein, com uma ampla exposição de fatos, dados e imagens desta importante batalha naval.


"Como todas as nações latino-americanas, a Segunda Guerra Mundial apresentou ao Uruguai, em sua pacífica existência, o mais intenso desafio que por muito tempo havia suportado: como em todas as naçoes, seu processo e suas consequência exerceram um profundo impacto. O dramátcio episódio do Graf Spee serviu para alertar sobre uma convicção tão autêntica quanto inusitada: era a convicçao de que a guerra - tangível e física - poderia chegar 'até aqui".


(Entrevista dada por Jânio Quadros)


O FUMO NO BRASIL COLÔNIA


Jean Baptiste Nardi


Considerado frequentemente como economia secundária durante o período colonial, o cultivo do fumo foi, muito ao contrário, atividade essencial. Tudo porque unia facilidade de plantio e alvo valor comercial, além de ser moeda de troca no comércio escravagista. Ao longo dos séculos XVII e XVIII favoreceu a elevação de renda dos pequenos agricultores e os surgimento de uma rica oligarquia na Bahia, que mais tarde aplicaria seus capitais num primeiro surto de industrialização.


ALUCINADO SOM DE TUBA


Frei Betto


A família é despejada do barraco e Nemo, aos onze anos de idade, cai na vida. Vai conhecer um lado violento e ainda mais miserável da realidade à sua volta. Mas também vai descobrir a solidariedade e o amor. Qual desses caminhos seguirá? Neste livro, Frei Betto mostra com sensibilidade a cruel condição do jovem abandonado pela sociedade.


ORAÇÃO NA AÇÃO


Frei Betto


Segundo J. B. Libânio, "Frei Betto nos provoca neste estudo. Quer promover ´re-flexão´, balançar as posições ´quentes´ de um pentecostalismo mágico e as ´frias´ de um simples ativismo, para nos engajar numa ´história engravidada pelo amor´".


NA REPÚBLICA DO JERIMUM


Carlos Eduardo Novaes (ilustrações de Vilmar Rodrigues)


"Amanhã a Nova República completa seu primeiro mês de vida. Não se pode dizer que esteja uma gracinha. Pelo álbum de fotografias, nota-se, é um bebê forte, aparência saudável - apesar do parto difícil -, bem vestido, bem cuidado, bem alimentado, mas observando bem, percebe-se que falta-lhe alguma coisa. Talvez uma cerva vivacidade. Talvez um pai de verdade.


Domingo, 14 de março de 1985".


CONTRA-ATAQUE


Aaron J. Klein


Este livro é o relato completo do assassinato de atletas israelenses durante os Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, por membros do grupo conhecido como Setembro Negro. O livro inspirou o filme Munique, de Steven Spielberg.


“Poucos minutos antes, os terroristas tinham chegado à porta azul que levava ao apartamento 1. Estava aberta, como sempre, já que levava não só aos dormitórios dos israelenses, mas também ao estacionamento subterrâneo e aos apartamentos do andar superior. Atravessaram um pequeno hall até a porta do apartamento 1, onde estavam sete técnicos e juízes israelenses. Os terroristas tinham uma cópia da chave”.

O DAY AFTER DO CARIOCA

Carlos Eduardo Novaes (ilustrações de Vilmar Rodrigues)

“Estávamos em 22 de março de 1992. Ontem recebemos a grata notícia de que as contas do Brasil estão equacionadas pelo menos até o dia 1º de abril. O país respira aliviado. Delfim, Galvêas e Pastore, que voltaram a administrar nossa dívida externa, fecharam um empréstimo (big jumbão) de 3 trilhões de dólares. Devemos 34 quatrilhões de dólares, mas as autoridades continuam esperançosas. O Brasil é o país do futuro.


RÚSSIA - ANTES E DEPOIS DA URSS


Cláudio Vicentino


"Para melhor visualizar as últimas transformações da região russa e as raízes dos seus maiores desafios, é imprescindível levantarmos sinteticamente as suas origens. Para isso teremos de recuar até o estabelecimento do predomínio eslavo-russo que se efetivou em toda a região e traçar seus desenvolvimento em direção ao poderoso Estado czarista que sobreviveria até o início do nosso século. O embrião político de todo esse processo foi o Estado russo, cujo nascimento remonta ao século IX".


PRIMEIRA PÁGINA – AS MELHORES ENTREVISTAS FEITAS POR FERNANDO MORAIS


Um dos principais jornalistas e biógrafos brasileiros, Fernando Morais entrevistou grandes personalidades do nosso tempo, aqui registradas, como Yasser Arafat e Fidel Castro.


“ARAFAT – Vamos falar, em primeiro lugar, do principal ponto fraco da nossa luta: temos que reconhecer que não existe uma política árabe unificada em relação aos palestinos. Quando vários países árabes foram derrotados por Israel, em 1967, um general francês disse algo que ficou famoso: “Vocês, israelenses, venceram não por sua força, mas pela fraqueza dos árabes”.


“CRÍTICA DA RAZÃO IMPURA OU O PRIMARO DA IGNORÂNCIA”


Millôr Ferandes


Millôr Fernades faz uma análise minuciosa de livros publicados por dois políticos e escritores nacionais, ex-presidentes da República: José Sarney (Brejal dos Guajas) e Fernando Henrique Cardoso (Dependência e desenvolvimento na América Latina)


“Fascinado, continuo procurando demonstrar que Brejal dos Guajas é obra sem similar na literatura de todos os tempos. Só um gênio conseguiria fazer um livro errado da primeira à última frase”.


SOCOS NA PORTA


Fernando Morais (prefácio de Miguel Arraes)


O jornalista Fernando Morais, autor de biografias como “Olga” e “Chatô – o rei do Brasil”, além do livro-reportagem “A ilha”, traz, nesta publicação de 1980, uma descrição do seu trabalho como deputado estadual em São Paulo neste período.


“Sr. presidente, Srs. deputados, infelizmente, a cada dia que passa, novos fatos sobre a administração Paulo Maluf vêm à luz, evidenciando ainda mais o mar de lama sob o qual vivemos. A cada dia vemos novas ondas deste mar virem arrebentar nas praias da corrupção.


LIBERDADE DE EXPRESSÃO


Carlos Heitor Cony, Heródoto Barbeiro e Artur Xexéo


Reflexões feitas pelos três autores sobre vários temas, sempre abordados no programa do qual eles participaram durante alguns anos na rádio CBN.


Cony: Heródoto, o que é o tráfico? São drogas e armas. Duas coisas importadas. O Brasil não produz drogas e tem uma fabricação de armamentos insignificante. Tanto as armas quanto as drogas são importadas. E quem toma conta da importação é a Polícia Federal. Não é o Fernandinho Beira-Mar, nem esses pés-de-chinelo que morrem em tiroteios com a polícia, que atacam a gente no meio da rua”.


MEMÓRIAS (VOL. III – 1921 – 1933) – A PAZ ARMADA: OS PRIMÓRDIOS DO NAZISMO


Ilya Ehrenburg


De Paris, onde residia, o escritor soviético Ilya Ehrenburg, em permanente contato com a intelectualidade e com os acontecimentos políticos e sociais do tempo, pôde abordar, com felicidade e clareza, o ambiente da Europa nos anos imediatamente anteriores ao surgimento do Terceiro Reich.


“Compareci a uma reunião de nazistas, numa churrascaria. A fumaça dos charutos baratos irrita os olhos. Um nazista, agitando as mãos, urra longamente que os alemães estão fartos de passar fome, que os únicos a viver bem são os judeus, que os aliados saquearam a Alemanha, e que é preciso esmagar os franceses e os polacos”.


A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL (da série "Discutindo a História)


Letícia Bicacho Canêdo


"Mil razões teve a sociedade para bloquear as invenções mecânicas antes do século XVIII. E acorrentar o homem numa condição econômica que o impedia de ir para além do limite rígido que marcava o possível do impossível no fazer humano. Quanto à Antiguidade, pode-se falar na abundância de mão-de-obra fornecida por uma massa de dominados, capaz de levar os grupos dominantes a não se interessarem pelo problema da utilização de outras formas de energia além da muscular".


O CONTINENTE DO RIO GRANDE


José Honório Rodrigues


"A partir de uma pesquisa em cartas e documentos de época, José Honório Rodrigues relata a sala da conquista e povoamento do Rio Grande do Sul. No início, para impedir incursões espanholas, a a ocupação portuguesa foi feita por soldados recrutados, "mulheres solteiras desimpedidas" e presos comuns, enviados das várias partes da colônia. Dessa miscigenação formou-se o povo gaúcho, com uma identidade própria que só seria transformada em 1824, com a chegada dos primeiros imigrantes europeus dos limites meridionais do Brasil".


"LONGE - MEMÓRIAS DE UM LÍBANO RECENTE


Ana C. Leonardos


O olhar de uma estrangeira se detém em um país despedaçado, que, ao fim de uma longa guerra civil, ressurge dos escombros do passado e ousa redefinir seu espaço no mundo. Um Líbano que ainda se quer Líbano, com seus 18 grupos religiosos reconhecidos oficialmente - muito além de cobiças e ameaças.


"A Beirute de minhas primeiras viagens era um grande feixe de ruas sem qualquer sinalização, sinais luminosos ou placas de trânsito. Por verdadeiro milagre ou reflexo de motoristas habituados ao completo caos urbano, Beirute não figurava entre as primeiras cidades do mundo em acidentes automobilísticos (ou será que apenas não entrara nas estatísticas por tratar-se de uma cidade recém-saída de uma guerra devastadora?) Lembro-me ainda do impacto ao avistar a primeira placa de PARE alguns anos mais tarde: saltei do carro em pleno cruzamento para fotografá-la de vários ângulos".


POR QUE NÃO DEU CERTO – OS PAIS DO CRUZADO CONTAM


Depoimentos de André Lara Resende, Dilson Funaro, João Sayad, Luis Gonzaga Belluzzo e Persio Arida e Alex Solnik.


“João Sayad – O congelamento foi muito mal administrado. Ele tinha que ter atendido algumas coisas, tinha que ter uma fiscalização melhor. Eu propunha desde março de 1986 que a fiscalização fosse descentralizada. Se ela fosse descentralizada haveria apoio popular e se conseguiria que as pressões fossem atendidas localmente

2.21.2022

WALDYR ONOFRE E O FILME QUE PAROU CAMPO GRANDE

Um acontecimento que movimentou o bairro carioca de Campo Grande foi a filmagem e, depois, o lançamento do filme "As aventuras amorosas de um padeiro", em 1975, filme dirigido por Waldyr Onofre, morador do bairro e que, se não foi o primeiro, com certeza foi um dos primeiros diretores de cinema negros no Brasil. Além de  atores como Paulo César Pereio, Maria do Rosário Nascimento Brito, Ivan Setta e Haroldo de Oliveira, o filme contou com uma grande presença de pessoas de Campo Grande e da Pedra de Guaratiba, onde se passa a segunda parte do filme, ainda com suas águas limpas e uma grande frequência de banhistas. 


Assim, vemos no filme pessoas conhecidas no bairro, como o professor Moacyr Bastos, a atriz Vilma Camarate, o próprio Waldyr Onofre e o dramaturgo Odir Ramos, que escreveu, em sua coluna "Contra Regra", no jornal PATROPI, alguns meses antes do lançamento: "Até o pessoal mais abastado, os comerciantes, profissionais liberais e altos funcionários. Está todo mundo lá, sem estrelismo, sem cachê, sem exigir nomes nos letreiros, dando conta do recado, ajudando ao Waldyr, que recebeu um apoio popular de fazer deputado da ARENA morrer de olho grande". O filme foi produzido por Nelson Pereira dos Santos, que muito apoiou Waldyr em sua carreira.

Nascido na cidade de Itaguaí, em 1934, Waldyr Onofre (cujo nome de batismo era Waldyr Couto) começou no teatro na década de 60 e participou de produções importantes do teleatro da TV Globo, como a adaptação da peça "O matador", de Oduvaldo Vianna Filho, com direção de Sérgio Britto. Na mesma emissora participou de novelas clássicas, como "Irmãos Coragem", e no cinema também atuou como ator em vários filmes, como "Cinco vezes favela", "Macunaíma" e "Memórias do cárcere". Waldyr contava que começou a estudar cinema por correspondência, na Academia de Ciências e Artes Cinematográficas de Hollywood, e foi frequentador assíduo dos cinemas de Campo Grande, onde começou a se interessar pela Sétima Arte, entre eles o Cine Progresso, na rua Campo Grande, que funcionou de 1928 a 1964.

Waldyr morreu em 7 de janeiro de 2015, sendo sepultado no Cemitério de Campo Grande. Nos seus últimos anos de vida, deu aulas de teatro na Lona Cultural Elza Osborne e em outros lugares do bairro, sempre passando sua rica experiência para os mais jovens. Tive o prazer de, junto com o professor Moacyr Bastos, viajar junto com Waldyr, em 2010, para a cidade de Rio das Flores, onde o homenageamos com a exibição de um documentários sobre a sua vida e a inauguração do Cineclube Waldyr Onofre.




1.31.2022

A CASA ESQUECIDA DE MACHADO DE ASSIS


Rua dos Andradas, 147, centro do Rio. Neste imóvel Machado de Assis e sua esposa Carolina moraram alguns anos, logo após o casamento deles, em 1869. Só existe a fachada e embaixo funciona um estacionamento.

(foto tirada por mim)

1.17.2022

OS DUZENTOS ANOS DO ENCONTRO ENTRE LEOPOLDINA E JOSÉ BONIFÁCIO EM SANTA CRUZ


Por André Luis Mansur 


Faz 200 anos que um encontro ocorrido na região de Santa Cruz e Sepetiba, no Rio de Janeiro, marcaria o início de uma grande amizade e também teria repercussão no processo de independência do Brasil. Naquele dia 17 de janeiro de 1822, chegava de Santos, e desembarcava no antigo Cais de Sepetiba, José Bonifácio de Andrada de Silva, com sua comitiva. Aquele que seria denominado o "Patriarca da Independência" havia sido convocado para participar das articulações políticas que iriam culminar na Independência do Brasil em relação a Portugal. E quem estava na Fazenda de Santa Cruz, pertinho do Cais de Sepetiba, naquele momento, era Leopoldina, a futura Imperatriz do Brasil, que foi ao encontro de José Bonifácio e sua comitiva, ansiosa que estava por conhecê-lo, já que os dois desfrutavam de vários interesses em comum, entre eles as ciências naturais - em especial a mineralogia. “Desde o primeiro encontro estabeleceu-se entre ambos profunda simpatia, um desses nobres laços de amizade que tantas vezes ligam grandes príncipes aos homens superiores. A princesa não ficara somente encantada por poder falar na língua materna ao sábio de reputação europeia, mas também por ter encontrado um brasileiro cujos vastos conhecimentos no campo das ciências podia admirar e cujos pensamentos políticos se aproximavam dos seus” (A Imperatriz Leopoldina – Sua vida e sua Obra, de Carlos H. Oberacker Jr.)).



Leopoldina estava em Santa Cruz, Palácio de Veraneio de Família Imperial, com os filhos, Maria da Glória e João Carlos. Ela, que estava grávida novamente, havia sido enviada para lá, às pressas, na madrugada do dia 12, por D. Pedro I, já que o clima no centro da cidade estava tenso desde o famoso Dia do Fico, em 9 de janeiro, quando D. Pedro, então príncipe-regente do Brasil, se recusou a voltar a Portugal. O gesto foi considerado uma rebeldia às ordens das Cortes Constitucionais Portuguesas, que queriam fazer o Brasil voltar à condição de mera colônia portuguesa, o que o Brasil não era desde 1815, quando D. João criou o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Após o Dia do Fico, a Divisão Auxiliadora Portuguesa, comandada pelo General português Jorge Avilez, ameaçou levar D. Pedro à força para Lisboa e seus soldados começaram a fazer arruaças pelo Centro da cidade. 



Depois de descansar na fazenda, José Bonifácio e seus comandados seguiram para a Corte, a fim de ser nomeado Ministro da Justiça e Negócios Estrangeiros, enquanto Leopoldina e os filhos ainda ficariam em Santa Cruz até o dia 19. Ao voltarem, no entanto, o príncipe João Carlos, que tinha apenas dez meses de idade e já não estava bem de saúde, acabou piorando e morreu, no dia 4 de fevereiro, confirmando a "Maldição dos Bragança", a de que o primeiro homem a nascer em uma Família Bragança morreria antes de chegar ao trono. 


D. Pedro e Leopoldina encontraram um inimigo comum para a morte do pequeno príncipe: o general Jorge Avilez. Pois foi devido às ameaças dele que Leopoldina e os filhos foram enviados a Santa Cruz, enfrentando uma viagem difícil pela Estrada Real de Santa Cruz, de mais de 60 quilômetros, numa época de muito calor e umidade. Em carta ao pai, D. Pedro dizia que "este infortúnio é fruto da insubordinação e dos crimes da divisão portuguesa. O príncipe já estava incomodado quando esta soldadesca rebelde tomou as armas contra os cidadãos pacíficos desta cidade; a prudência exigiu que eu fizesse partir imediatamente a princesa e as crianças para a Fazenda de Santa Cruz,a fim de as pôr ao abrigo dos sucessos funestos de que estava capital podia via a ser o teatro. Esta viagem violenta, sem as comodidades necessárias, o tempo que era muito úmido, depois de quanto calor do dia, tudo enfim se reuniu para alterar a saúde do meu caro filho, e seguiu-se a morte".


Na carta, D. Pedro também indica que a vingança contra Avilez e seus comandados não se fazia por esperar: "A Divisão Auxiliadora, pois, foi a que assassinou o meu filho e neto de Vossa Majestade. Em consequência, é contra ela que levanto minha voz. Ela é responsável na presença de Deus e ante Vossa Majestade deste sucesso, que tanto me tem aflito, e que igualmente afligirá o coração de Vossa Majestade".


E D. Pedro levantou, não só a sua voz, mas o que podia contra a Divisão Auxiliadora, aquartelada na Praia Grande (atual Niterói), e sempre adiando a volta para Portugal. No dia 9 de fevereiro, um mês após o Dia do Fico, o príncipe embarcou na Fragata União e intimou os portugueses comandados por Avilez, bradando que eles  tinham até o dia seguinte para começarem o embarque, caso contrário os fortes e navios iria atacá-los.


Dois dias depois, a Divisão Auxiliadora foi embora do Rio de Janeiro. E do encontro entre Leopoldina e José Bonifácio, que faz parte de todo este drama histórico, são testemunhas o prédio da Fazenda de Santa Cruz, atual Batalhão de Engenharia Militar Vilagrán Cabrita, no centro do bairro de Santa Cruz, e a praia de Sepetiba, cujo cais, também chamado de Mole Imperial, pode ser visitado no primeiro domingo do mês, durante os passeios do Ecomuseu de Sepetiba.




* Ilustrações:


- Leopoldina

- José Bonifácio

- Fazenda de Santa Cruz - Pintura da inglesa Maria Graham em agosto de 1823

1.10.2022

A BATALHA DE URUÇUMIRIM

O dia 20 de janeiro de 2022, feriado de São Sebastião, marca os 455 anos da batalha de Uruçumirim, que consolidou a fundação da cidade do Rio de Janeiro (ocorrida em 1º de março de 1565) e provocou a expulsão de franceses e seus aliados tupinambás (ou tamoios, que significam "os mais antigos, os avós").

                    Morte de Estácio de Sá

               Pintura de Antônio Parreiras

Os portugueses, comandados pelo governador Estácio de Sá e por seu tio, Mem de Sá, estavam situados na pequena faixa de terra compreendida entre os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar, que hoje é a Praia de Fora e abrange a Fortaleza de São João. Ali, durante dois anos, eles foram atacados com frequência pelos índios aliados dos franceses em canoas que se aproximavam de forma soturna da pequena ocupação portuguesa. Um poderoso sistema de aldeias, que ia da foz do Rio Carioca, na atual Praia do Flamengo, se prolongava até o morro de Uruçumirim, hoje o morro da Glória. Havia também uma aldeia importante na Ilha da Maracajá, atual Ilha do Governador, que também já foi chamada de Paranapuan, entre outros nomes.

Como já se sabia que franceses e tupinambás estavam muito bem entrincheirados, tanto nas aldeias de Uruçumirim quando na Ilha de Maracajá, a expedição de combate foi preparada com muito cuidado. A esquadra contava com seis embarcações. O padre José de Anchieta, o Cacique Araribóia (comandando a tribo dos Temiminós) e outro sobrinho de Mem de Sá, Salvador Correia de Sá, também estavam presentes.
Ao amanhecer do dia 20 de janeiro, após uma missa comandada por Anchieta e o bispo D. Pedro Leitão, as tropas se dividiram em três, comandadas por Estácio de Sá e Gaspar Barbosa, que lutariam em Uruçumirim, e outra que lutaria na ilha de Maracajá comandada por Cristóvão de Barros. Com o reforço, os portugueses partiram para o combate. A batalha durou três dias, com muitos mortos e feridos de ambos os lados, entre os quais o próprio Estácio de Sá, atingido por uma flecha no rosto e que o fez sofrer durante um mês até a sua morte, em 20 de fevereiro, nas instalações portuguesas da Praia de Fora. O cacique tupinambá Aimberê também morreu na batalha e sua cabeça foi colocada numa estaca. A conquista da Ilha de Maracajá, também chamada de Paranapuan, entre outros nomes, também foi difícil. Outro que perdeu a vida foi Gaspar Barbosa, na batalha de Uruçumirim.
Os franceses e tupinambás sobreviventes ainda permaneceram em terras que iam da atual cidade de Niterói a Cabo Frio até 1575, quando foram dizimados a mando do governador Antônio Salema. Os portugueses iriam ocupar o hoje extinto Morro do Castelo. Em torno dele havia charcos, pântanos, lagos e mangues, um imenso desafio que os desbravadores da cidade iriam enfrentar ao longo dos séculos.

1.03.2022

INCÊNDIO NO SENADO




De dia, são os restaurantes. À noite, os bares e boates. O movimento intenso da Travessa do Comércio (antes da pandemia), que, às sextas-feiras, se tornava quase intransitável, parece alheio à trágica história que envolve o local onde funcionou o Senado da Câmara. Apesar do nome oficial, as pessoas se referem à travessa como o Arco do Teles, estendendo ao pequeno trecho de paralelepípedos o nome do Arco que fica num dos extremos da travessa, em frente à Praça XV. Lá dentro, há sempre movimento de turistas, principalmente europeus, entusiasmados com o casario em estilo eclético e bem preservado. Num deles, morou Carmem Miranda, conforme atesta uma placa na entrada do sobrado.

A Câmara foi instalada no local em 1750, quando passou a existir o Tribunal da Relação do Rio de Janeiro. Sete anos depois, a Câmara havia recebido o título de Senado da Câmara, concedido por Provisão Régia. Numa das casas, morava o Juiz de Órfãos Francisco Teles de Meneses, de tradicional família carioca e que emprestou o sobrenome ao Arco.
A praça XV ainda se chamava Largo do Carmo e do outro lado estava a Casa dos Governadores (depois Palácio dos Vice-Reis, Paço Real e Paço Imperial). O Arco, que manteve o traçado arquitetônico do período colonial, foi construído segundo projeto do brigadeiro João Fernandes Pinto Alpoim, o mesmo que projetou os Arcos da Lapa e o Paço Imperial.

O incêndio referido no início do texto, com a linguagem do jornalismo atual, começou às duas da madrugada de 20 de julho de 1790 num sobrado da Rua da Praia do Peixe (atual Rua do Mercado) e atingiu quase todas as casas. O arco não foi atingido, mas quase todo o acervo foi destruído. Só foram salvos 48 livros de assentamentos, a imagem de São Sebastião e o estandarte da cidade. Morreram um homem e uma criança, que dormiam no local.
Acredita-se que o incêndio tenha sido criminoso, porque o material destruído era formado basicamente por documentos a processos de ocupação da terra na cidade. As principais suspeitas recaíram sobre pessoas que teriam problemas em relação à posse de terras, pois assim acabaram eliminando a fonte de seus problemas.
Nunca conseguiram descobrir se o incêndio foi ou não criminoso e a única lembrança da tragédia reside numa placa bem ao lado do Arco.

* Foto de Ronaldo Morais tirada em 1984. 

11.23.2021

AS ORIGENS DE CAMPO GRANDE

O bairro de Campo Grande tem suas origens no século XVI, logo após a fundação do Rio de Janeiro, em 1º de março de 1565, por Estácio de Sá. Nos anos e décadas seguintes, a ocupação do solo foi feita a partir da distribuição das sesmarias, que eram grandes porções de terras distribuídas a quem o Reino de Portugal achava que merecesse, principalmente os que lutaram contra franceses e índios tupinambás na conquista e fundação da cidade. Essas sesmarias, se não fossem ocupadas e desenvolvidas, eram devolvidas, as chamadas "terras devolutas". Muitas se desenvolveram, entre elas as que deram origem à imponente Fazenda de Santa Cruz, origem deste importante bairro da zona oeste.

Campo Grande começou a ser ocupado, assim, no final do século XVI, e realmente justificou o seu nome, pois nos documentos era chamado de "o Campo Grande", uma região que ia da altura do atual bairro e arredores até o local onde seria o bairro de Realengo. Tanto é verdade que a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Desterro, bem na área central de Campo Grande, foi fundada em 1673 no local onde hoje é o bairro de Bangu pelo fazendeiro Manuel de Barcelos Domingos. Muito mais tarde ela seria transferida para o atual local. No final do século XIX, após um incêndio que a destruiu por completo. O padre Belisário dos Santos, com apoio do governo e da população, conseguiu que o templo atual fosse erguido. O sacerdote, cujos restos mortais estão sepultados dentro da igreja, morava na casa paroquial que mais tarde seria o Colégio Belisário dos Santos, um dos mais tradicionais de Campo Grande e demolido em 2014 para a construção de um estacionamento.


10.18.2021

A PONTE DOS JESUÍTAS

 



Construída em 1752, a Ponte dos Jesuítas é um dos mais importantes e bem preservados símbolos da arquitetura colonial do Rio de Janeiro. Também conhecida como Ponte do Guandu, ela não é uma ponte comum, e sim um ponte-comporta, já que através dos seus arcos era usada para regular a passagem das águas do Rio Guandu, que hoje não passam mais por ali, e também desviá-las para o Rio Itaguaí através de um canal artificial. Com 50 metros de extensão e seis de largura, ela também servia como passagem dos tropeiros que circulavam pelo "sertão carioca", levando mantimentos e outros produtos pelas muitas fazendas da região.



Seu piso é formado por sólidas lajes, no calçamento conhecido como pé de moleque, muito usado em Paraty e o terror dos saltos altos das mulheres. Os quatro arcos, revestidos internamente com pedra, eram chamados de "óculos", e os padres, por meio de comportas de madeira, controlavam a água para evitar enchentes que destruíam as plantações, matavam o rebanho e inundavam as casas. Feita de cantaria e construída na administração do padre Pedro Fernandes, grande empreendedor da fazenda, a ponte é ornamentada por oito colunas de granito com capitéis (parte superior de uma coluna ou pilastra) em forma de pinhas portuguesas. Na parte central, entre belas esculturas barrocas, há um bloco em mármore lioz, onde se vê um brasão com o símbolo da Companhia de Jesus (IHS) e a data de 1752, além da seguinte inscrição em latim:

Flecte genu, tanto sub nomine, flecte viator
Hic etiam reflua flectitur amnis agua

Que, traduzida para o português, diz o seguinte:

Dobra o joelho sob tão grande nome, viajante
Aqui também se dobra o rio oem água refluente



A ponte fez parte do amplo trabalho dos jesuítas de controle das águas, drenagem e irrigação da ampla área da Fazenda de Santa Cruz, repleta de pântanos e terrenos alagadiços em geral, sempre sujeitos a inundações. Dois padres foram mandados para estudar na Holanda, que enfrentava os mesmos problemas, para aprender os procedimentos corretos. Foram feitos mapas hidrográficos por toda a região, e os vales, morros e elevações em geral, foram estudados. Os jesuítas concluíram que os leitos dos rios deveriam ser contidos nos pontos de inundação, com as pontes-comportas, aberturas de valas e canais para o escoamento das águas, solucionando o problema de enchentes e secas e tornando a Fazenda de Santa Cruz uma das mais produtivas do Brasil.



Com a canalização do Guandu, cujas águas abastecem a população da cidade, a ponte perdeu sua função original, mantendo, no entanto, a importância histórica e arquitetônica, tanto que seu tombamento foi um dos primeiros do país, em 1938, quando o governo de Getúlio Vargas criou a Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, hoje o mais instituto de preservação do patrimônio, o Iphan (só mudando o "diretoria" para "instituto"). Infelizmente a ponte sofreu degradação de pessoas que retiraram partes de sua estrutura para algum tipo de obra, inclusive com a derrubada de duas colunas, mas os constantes trabalhos de recuperação (principalmente os de 2007, feitos pela prefeitura do Rio de Janeiro) e a conscientização da população local estão dando a este importante monumento da cidade o seu real valor. A Ponte dos Jesuítas fica na Estrada do Curtume.

- Fotos tiradas por Ronaldo Morais em 1984. Hoje a ponte está bem conservada.

10.11.2021

RIOS ANTIGOS

 

Um dos principais sintomas da degradação ambiental de uma cidade ocorre quando seus rios passam a ser chamados de valões. Aqui no Rio de Janeiro isso ocorre em todos os bairros e o mais irônico é que a cidade carrega um rio no nome e também foi um rio que deu nome aos nascidos na cidade, o Carioca, hoje quase totalmente canalizado. Tem apenas um pequeno trecho visível no Largo do Boticário, no Cosme Velho, e desemboca de forma muito mal-cheirosa na Praia do Flamengo.

Apesar da lastimável situação atual, os rios antigos já foram o principal meio de transporte desta cidade, já que as poucas trilhas que existiam eram perigosas e cheias de obstáculos. Assim, rios como o Maracanã, o Comprido, o Carioca, o Andaraí, o Piraquê, o Meriti, o Piraquara, o Guandu e tantos outros foram responsáveis pela maior parte da movimentação de cargas e passageiros da cidade por muito tempo, sempre atrelados a ancoradouros e portos que já não existem, como os de Irajá e Maria Angu, fundamentais para o escoamento de boa parte da produção agrícola do subúrbio carioca. Destes tempos de grande importância para o desenvolvimento da cidade só ficaram mesmo os nomes dos rios - boa parte subterrâneos - e os que não passaram por este processo ficam expostos a todo tipo de degradação, não apenas do esgoto jogado in natura nas suas águas, que nascem limpas e cristalinas nas serras, mas também à falta de educação dos moradores próximos que jogam todo tipo de porcaria em suas águas, de sacos plásticos a cadeiras, sofás e até geladeiras velhas. 

Fica aqui uma sugestão, que já compartilho com alguns amigos: por que não chamar o rio pelo nome? Nos mapas da prefeitura, é fácil identifica-los e alguns têm até plaquinhas. Não que isso vá lá mudar muita coisa, mas só de não chamá-los de valão, nome que simboliza sujeira e podridão, quem sabe eles não passem a ser mais respeitados? Afinal, não dizem que o sujeito só passa a existir quando é batizado? Eu não sei não, mas depois que passamos a chamar o rio perto da minha casa pelo nome dele, Cabuçu-mirim, afluente do Cabuçu, que desemboca no Piraquê e deságua na Baía de Sepetiba (este poderia ser o seu ´nome completo), já percebi que duas garças aparecem por lá todas as manhãs e ficam se refestelando num banco de areia que surgiu milagrosamente no meio do rio.

 * Imagem atual do Rio Carioca, na altura do Largo do Boticário

9.27.2021

CONSTRUÇÃO CARTOGRÁFICA EM SANTA CRUZ

 


Apresentação do projeto de Construção Cartográfica em Santa Cruz, um belo trabalho para o qual fui convidado a participar, organizado pela jornalista Juliana Braga e com jovens do bairro, que fizeram um mapeamento histórico e afetivo de Santa Cruz. Em breve o vídeo do projeto vai ser disponibilizado e haverá também uma exposição com as fotografias tiradas pelo jovens. O lançamento ocorreu hoje de manhã no Noph, Núcleo de Orientação e Pesquisa Histórica de Santa Cruz, no Palacete Princesa Isabel. O Noph é coordenado pelo historiador Bruno Cruz.



SINOS, INCÊNDIOS E BALEIAS

 Numa cidade cheia de sirenes e motores, é preciso fazer um grande esforço para se pensar na tranquilidade que devia ser quando estes e outros ruídos ainda não existiam. No centro do Rio de Janeiro, como havia, e ainda há, muitas igrejas, o auxílio dos sinos era fundamental. Eram eles que indicavam aos bombeiros o lugar exato do fogo, além de casamentos, enterros e outros eventos importantes. E indicavam também, como no caso do temido "toque do Aragão", a hora de se recolher.

O desembargador Francisco Alberto Teixeira de Aragão era o Intendente Geral (uma espécie de prefeito) em 1825, quando através de um edital foi determinado que os sinos das igrejas de São Francisco de Paula e do Mosteiro de São Bento tocariam durante meia hora, às 10 da noite, no verão, e às nove, no inverno, para alertar as pessoas de que ninguém deveria sair de casa até o amanhecer. Quem saísse seria revistado e poderia ser preso. Tudo para diminuir os casos de roubos e arruaças, bem menores do que hoje, porém já significativos para a época. Entre os principais arruaceiros, estavam os capoeiras, geralmente escravos fugidos que saíam em bandos para atacar as pessoas, ou mesmo a polícia, com seus "rabos de arraia" e outros golpes.

Os sinos já anunciavam os incêndios desde o início do século XVII. Se ocorresse à noite, no centro comercial da cidade, por exemplo, ele era avisado pela Igreja de São Francisco de Paula. Os sineiros também ganhavam dinheiro para anunciar o nascimento dos filhos de pessoas importantes. Se fosse do sexo masculino, eram nove badaladas, se fosse menina, davam sete toques. "Cidade de frequentes festas religiosas e procissões quase diárias, com foguetes e espocos e sinos a repicar, o velho Rio de Janeiro exteriorizava na música alegre dos sinos a alma simples e boa do seu povo" (Crônicas da cidade do Rio de Janeiro, Noronha Santos).

Outro aspecto dos incêndios que merece ser citado é o que ocorria quando os bombeiros partiam para apagar o fogo - sem sirenes, é claro. Se fosse à noite, os donos das casas que ficavam no caminho tinham de colocar lampiões na entrada para iluminar o trajeto, mesmo que precariamente. Quem não fizesse isso, corria o risco de ser punido. Os lampiões eram acesos, em sua maior parte, com o óleo extraído das baleias que infestavam a Baía de Guanabara. Antes de 1854, quando a iluminação a gás fez com que o Rio de Janeiro deixasse de ser uma cidade de sombras, o óleo de baleia era de fato o principal combustível dos lampiões e dos oratórios que ficavam nas esquinas.
As baleias foram embora há muito tempo e deixaram em seu lugar, nas escuras águas da Baía de Guanabara, personagens mais exóticos, como pneus de carro e garrafas de refrigerante.


9.20.2021

LEITE COM MANGA

 Uma das atitudes mais corajosas que já tomei na vida foi quando pedi um copo de leite com manga numa agradável tarde de sábado em um bar do subúrbio carioca de Cascadura. Não que as condições do estabelecimento fossem inadequadas, era até simpático o bar, mas o ato de coragem se justifica por eu ter ouvido desde pequeno que a mistura de leite com manga poderia levar à morte em poucos minutos.

Não sei de onde veio a argumentação de que estas duas substâncias unidas poderiam provocar uma explosão fatal ao entrar no organismo, mas sei que ela existia e era constantemente lembrada, acabando por se constituir numa das lendas urbanas de maior durabilidade, tal qual a da mulher loura no banheiro, embora esta eu nunca tenha tentado desafiar e muitas vezes, quando criança, cheguei em casa com a bexiga no limite por medo de entrar no banheiro do colégio.
 Também não sei por quais cargas d´água tomei a coragem de fazer o insólito pedido naquela tarde, enquanto aguardava meu ônibus chegar ao ponto. Tinha 18 anos, estava feliz, ia a uma festa e não havia qualquer sombra de comportamento autodestrutivo em minha vida. Talvez fosse uma espécie de rito de passagem, aquela situação que todo adolescente precisa enfrentar antes de ingressar na fase adulta de peito aberto, deixando para trás o medo e a insegurança.
Pois bem, devia ser isso mesmo. E lá fui eu, cheio de coragem, pedir a estranha mistura num bar cheio de gente bebendo cerveja e outras misturas mais fortes. O ridículo da cena talvez lembre o personagem Shane, interpretado por Alan Ladd, pedindo uma gasosa no bar cheio de “homens brabos” do filme “Os brutos também amam”.
O mais incrível foi que, ao fazer o pedido, o atendente rapidamente se prontificou a fazer a, digamos, vitamina, ainda perguntando se eu queria com gelo. Enquanto ele preparava, fiquei pensando: será que esse perigo só existia na minha família? Mas não podia ser. Vários amigos e conhecidos me asseguravam que a mistura leite com manga era tão fatal quando picada de lacraia (outra história terrivelmente ameaçadora). Ou então será que aquele bar era o único bastião contra estas lendas disseminadas de geração a geração? Ou o dono era um sádico especializado em matar fregueses incautos e enterrá-los nos fundos do estabelecimento, como um bom filme americano de terror classe B?
Não sei, nada ali parecia tão ameaçador. E quando a mistura ficou pronta e o atendente falou, num tom razoavelmente alto, “sai um leite com manga”, não vi ninguém espantando. Achei até que alguma velhinha pudesse pegar o copo e despejá-lo subitamente na calçada e ainda me dar um belo de um esporro por ser tão inconsequente. Não, nada aconteceu. E então, de frente para o Viaduto de Cascadura, bebi tranquilamente meu primeiro copo de leite com manga. Paguei, agradeci e o atendente me deu o troco como se nada tivesse acontecido.
Peguei meu ônibus e achava, inconscientemente, que algo ainda aconteceria. De qualquer forma, tinha meu endereço e um número de telefone na carteira, como meu pai sempre recomendava, e por isso alguém (uma enfermeira, o mais provável), poderia dar a trágica notícia à família. Mas, também desta vez, nada aconteceu. Fui à festa, me diverti bastante, voltei para casa no dia seguinte e nas 48 horas seguintes, que seriam de observação e monitoramente, não tive nem uma diarreiazinha sequer.

Confesso: me decepcionei. Uma verdade tão inquestionável como aquela precisaria ter um fundo de...verdade, pelo menos. Um mito não cai por terra assim, sem esboçar um mínimo de reação. Mas aquele caiu, de forma irrefutável. Contei a façanha para amigos e familiares e alguns ainda me chamaram de louco e inconsequente. Seja como for, depois disso passei a adotar a vitamina de leite com manga no meu cardápio e me enchi de coragem para tomar outras atitudes impetuosas, como tomar banho depois do almoço ou andar de ônibus pela avenida Brasil de madrugada. Mas a mulher loura no banheiro, esta ficou sempre no meu imaginário como um símbolo de medo e covardia. 

* Este texto faz parte do meu livro de crônicas O Peão Poeta.



9.08.2021

O FRANCÊS QUE SAQUEOU O RIO

 Se o francês Jean François Du Clerc, com cerca de mil corsários, não conseguiu conquistar o Rio de Janeiro, em 11 de setembro de 1710, e ainda acabaria assassinado na prisão, um ano depois a situação seria bem diferente. Outro corsário francês, René Duguay-Trouin, chegava à cidade com 17 navios (na verdade foram 18, pois no caminho os franceses obrigaram a tripulação de um navio inglês a seguir com eles) e cerca de 4 mil corsários. Duguay-Trouin rompeu as defesas da Baía de Guanabara e invadiu o Rio, apoiado por uma forte neblina, no dia 12 de setembro de 1711, há 310 anos.

Apesar do bombardeio das fortalezas e navios de guerra portugueses, os franceses foram avançando até se estabelecerem na Ilha das Cobras (exatamente em frente ao atual Boulevard Olímpico), de onde partiriam para conquistar a cidade. "No dia 14 de setembro já estavam em terra todas as nossas tropas, num total de dois mil e duzentos soldados, e entre setecentos e oitocentos marinheiros, armados e experimentados, o que perfazia, incluídos os oficiais, guardas-marinha e voluntários, uma tropa de cerca de três mil e trezentos homens. Além disso, tínhamos ainda quase quinhentos homens atacados por escorbuto, os quais desembarcaram junto com os outros, e ao cabo de quatro ou cinco dias já estavam em condições de ser incorporados ao resto das tropas". ("Memórias do Senhor Duguay-Trouin", São Paulo, Imprensa Oficial-Editora UnB, 2003).
Após alguns dias de intensa batalha, a tropa portuguesa e os moradores da cidade a abandonaram após um grande bombardeio francês na noite do dia 20, acompanhado de intensa tempestade com muitos raios e trovoadas. O povo ficou em pânico, achando que os franceses realizavam um ataque geral, e fugiu da cidade levando o que podia em meio aos caminhos alagados. O governador Francisco de Castro Morais, e toda a administração da cidade, se refugiaram na Fazenda do Engenho Novo, dos jesuítas. Todos aguardavam, ansiosos, a chegada de uma imensa tropa que vinha de Minas Gerais, sob o comando de Dom Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho.
Duguay-Trouin já sabia da iminente chegada dessa tropa e, por isso, acelerou a negociação do pagamento do resgate, ameaçando destruir toda a área central do Rio de Janeiro, já que, além das centenas de canhões dos navios de guerra, os franceses dominavam todas as fortalezas. Dom Antônio chegou no dia 11 de outubro, com cerca de 6 mil homens de tropas regulares. Mas nada mais podia ser feito. O resgate da cidade já havia sido assinado, os franceses receberam 610 mil cruzados, 100 caixas de açúcar e 200 vacas, fora o que os corsários saquearam pela cidade. Duguay-Trouin devolveu o Rio de Janeiro e embarcou de volta com seus corsários no dia 13 de novembro, incluindo aí centenas de franceses da expedição de Du Clerc que estavam presos na cidade.
Considerado culpado pela perda da cidade, o governador Francisco de Castro Morais foi degredado para a Índia, só conseguindo o perdão quase 30 anos depois. O Rio de Janeiro passou a ser governado por Dom Antônio de Albuquerque. Já a volta dos corsários para a França foi cheia de contratempos, com imensas tempestades pelo caminho. O navio Aigle naufragou na ilha de Caiena, quando estava ancorado, mas a tripulação conseguiu escapar. Já os navios Magnanime e Fidèle naufragaram em alto mar, com a morte de quase 1200 franceses, incluindo Monsieur de Courserac, o primeiro a forçar a barra na Baía de Guanabara. Junto com o Magnanime, foram parar no fundo do mar boa parte das mercadorias trazidas do resgate e 600 mil libras em ouro e prata.

8.24.2021

O ADVOGADO DOS INCONFIDENTES

 Um importante personagem da Inconfidência Mineira nasceu no Rio de Janeiro, em 1752. José de Oliveira Fagundes era filho do comandante José Ferreira Lisboa e de Firmina Inácia de Oliveira. Aos 20 anos, foi estudar Direito em Coimbra, tendo concluído o curso em 1778. Trabalhou em Lisboa e depois voltou ao Rio de Janeiro, exercendo a profissão em varas cíveis e criminais. No dia 31 de outubro de 1791 foi nomeado, pela Alçada, advogado da Santa Casa de Misericórdia para defender os réus da Inconfidência Mineira, prestando juramento nessa data. As duas devassas já estavam reunidas numa só. Sua admissão na Santa Casa ocorreu em 1790 e ele ganharia 200 mil réis pelo serviço.

Tanto tempo depois das prisões, só agora era concedido o direto de defesa aos réus. O advogado não perdeu tempo: começou a dar vistas ao sete imensos volumes, com todos os interrogatórios, e apresentou os primeiros embargos de defesa no dia 23 de novembro, com 121 parágrafos referentes a 29 réus vivos e três falecidos. Fagundes foi ajudado por outros advogados na leitura dos autos, mas seus nomes não foram registrados.
Sobre Tiradentes, Fagundes estabelece sua defesa afirmando que o alferes era conhecido "por loquaz, sem bens, sem reputação, sem crédito para poder sublevar tão grande número de vassalos quanto lhe seriam indispensáveis para o imaginário levante contra o Estado", e ainda cita "o caso que se fazia em toda aquela capitania da lubricidade da sua língua, basta notar a indiscrição, e nenhum acordo com que, sem escolha de tempo e de pessoas, e de lugar proferia as quiméricas ideias que a sua libertinagem lhe subministrava". (Tiradentes - a defesa, Paulo Duque (org.) O advogado ainda retirava o crédito da própria confissão de Tiradentes, provocado, segundo ele, por ser o alferes um homem "desesperado por ter sido preterido quatro vezes, parecendo-lhe que tinha sido muito exato no serviço (...)". (Tiradentes - a defesa, Paulo Duque (org.)
A defesa seria difícil. Os interrogatórios se sucediam e os réus, presos em calabouços terríveis, iam descrevendo todos os detalhes do movimento, fornecendo todo o material necessário para os juízes indicarem as culpas de cada um. Mesmo assim, Fagundes apresentou seus embargos, escritos de forma bem detalhada, inclusive de Domingos Fernandes da Cruz, que apenas emprestou a casa a Tiradentes, sem ter a menor ideia do que se tratava, e também estava preso. "(...) o réu Domingos Fernandes da Cruz, em cuja casa foi preso o réu Xavier ignorava qual era o seu delito, e o recolheu em sua casa a instâncias de Inácia Gertrudes de Almeida, a quem também o dito réu enganou (...)". (Tiradentes - a defesa, Paulo Duque (org.)
A defesa estava lançada, agora era esperar o resultado do imenso trabalho de Fagundes. Em homenagem a este grande conhecedor das leis, desde 1989, uma das salas da Procuradoria Geral da República, em Brasília, tem o nome de José de Oliveira Fagundes. E no prédio da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) há uma placa com o nome do advogado.

* Este texto faz parte do livro "Tiradentes Carioca", meu e de Ronaldo Morais.



7.17.2021

O NOSSO 11 DE SETEMBRO

 A data de 11 de setembro costuma ser lembrada por dois acontecimentos dramáticos de alcance mundial: o ataque às torres gêmeas, em Nova York, em 2001, e o golpe militar no Chile, em 1973.

Já aqui, no Rio de Janeiro, também tivemos o nosso 11 de setembro, bem mais antigo, mas também com altas doses de violência e dramaticidade. Foi nesta data, em 1710, que o francês Jean François Du Clerc, acompanhado de cerca de mil corsários, invadiu a cidade do Rio de Janeiro pela praia da Barra de Guaratiba, no lado oeste da cidade. O objetivo? Conquistar e saquear a cidade e depois dividir o butim, o valor do resgate, entre os corsários e os que apoiaram a invasão. O corsário, ao contrário do pirata, tinha autorização do rei para suas investidas (no caso de Du Clerc, do rei Luis XIV, o Rei Sol, ícone do modelo político conhecido como Absolutismo) e apoio financeiro de companhias e nobres abastados.
Du Clerc tentou invadir o Rio de Janeiro pela Baía de Guanabara, mas foi rechaçado, com seus seis navios, pela Fortaleza de Santa Cruz. Foi, então, navegando pelo litoral da cidade até chegar a Angra dos Reis, que foi duramente bombardeada e teve algumas fazendas saqueadas. Quatro escravos fugidos de uma dessas fazendas informaram aos franceses que a praia da Barra de Guaratiba seria um bom ponto de desembarque para se atingir o centro do Rio de Janeiro. Os franceses seguiram o conselho e desceram na praia no dia 11 de setembro.
Após oito dias de dura caminhada pelas montanhas (e com direito a alguns saques, como na Fazenda do Camorim), chegaram ao centro do Rio, onde já eram esperados sem o menor pingo de hospitalidade. Numa violenta batalha que durou um dia inteiro, com muitos mortos e feridos de ambos os lados, os invasores se renderam. Os franceses sobreviventes foram distribuídos pelas prisões e Du Clerc ficou preso no Convento dos Jesuítas, no já extinto Morro do Castelo, sendo depois transferido para uma casa, na esquina da rua da Quitanda com (também já extinta) rua General Câmara, onde, apesar de estar guardado por várias sentinelas, foi assassinado no dia 18 de março de 1711, um crime que nunca foi solucionado.
Ainda em 1711, um outro corsário, René Duguay-Trouin, chegava ao Rio com a mesma intenção de Du Clerc, mas desta vez com 18 navios e cerca de seis mil corsários franceses. Mas essa história deixo para contar outro dia.
* Esta história é contra no livro A invasão francesa do Brasil, meu e de Ronaldo Morais.


6.23.2021

CURSO DE HISTÓRIA DA ZONA OESTE CARIOCA

 O Curso Livre de História da Zona Oeste Carioca será ministrado pelo jornalista e escritor André Luis Mansur de forma on-line e ao vivo, em quatro aulas, terças, das 19h às 21h, abrangendo a região entre Deodoro e Sepetiba. Os alunos vão lidar com temas importantes do passado da região, como a Fazenda de Santa Cruz, a Fábrica Bangu, a invasão de corsários franceses em Guaratiba, além de personagens importantes, como Freire Alemão e Padre Miguel, entre muitos outros assuntos.

O curso será baseado nos livros da trilogia O Velho Oeste Carioca, publicados por André Luis Mansur.
Início: 13 de julho - terça
Encontros: 13/ 20/ 27 de julho e 10 de agosto
Terça - 19 às 21h
Investimento: 80,00
Informações: 981772039
Ideias Espaço Criativo



6.22.2021

A CASA DA INFÂNCIA


Portão do número 84 da rua Sirici, em Marechal Hermes, onde morei, e fui muito feliz, de 1969, quando nasci, até 1990, quando me mudei para Campo Grande. É uma vila de 6 casas e morávamos no número 6.- em cima tem mais 2 apartamentos. Fica bem pertinho do Largo de Marechal e da Estação de Trem.

Quando entreguei as chaves para o senhorio, "seu" Hélio, em um dia cheio de saudades, o último objeto retirado da casa foi a minha boa e velha Monark Monareta, com a qual vim pedalando para Campo Grande. Escrevi uma crônica sobre isso para o jornal O Dia. O link é este:

https://odia.ig.com.br/opiniao/2018/10/5579738-andre-luis-mansur-baptista-de-marechal-a-campo-grande.html?fbclid=IwAR0EuGP_qtCeDmCmFMGx9-LDPLxG1UIzOtap4T1NPLWUHOat5d8qxAtrgNs

5.20.2021

NOMES DE BAIRROS CARIOCAS E SUAS LENDAS

 NOMES DE BAIRROS CARIOCAS E SUAS LENDAS, ALGUMAS ATÉ BEM CONVINCENTES

Por André Luis Mansur

 

        Nomes de bairros sempre despertam curiosidades. E o mais interessante é que, ao lado da versão, digamos, oficial, há sempre a lenda, a explicação mais folclórica, que ficou na tradição oral durante décadas, às vezes séculos, e muitas vezes são as mais interessantes. É o que acontece com o nome da Ilha de Guaratiba e de outros bairros aqui da Zona Oeste do Rio de Janeiro.

        Quando comecei a conhecer a região, lá pelos anos 80, estava em Campo Grande e vi um ônibus com o destino "Ilha". Meu primeiro pensamento foi que seguia para a Ilha do Governador. Mas depois vim a descobrir que não havia, e não há até hoje, um ônibus direto entre Campo Grande e Ilha do Governador. Que ilha era essa então? Aí me explicaram que era a Ilha de Guaratiba. Ah, tudo bem, Guaratiba tem um amplo litoral, deve ser alguma das ilhas que estão ali por perto. Mas que nada. A Ilha de Guaratiba fica é em terra mesmo, foi o que me disseram, e seu nome tinha a ver com um tal inglês que morou lá fazia muito tempo. Um tal de William.

       Reza a lenda, e aí vem a versão folclórica, que um inglês chamado William, que teria vindo com a Corte portuguesa, em 1808, foi morar em Guaratiba e aí, quando as pessoas iam para lá, diziam: "Vai aonde? - Para a fazenda do seu William. - Que William? - O William de Guaratiba". E aí o tal William de Guaratiba, com o tempo, e bota tempo nisso, foi mudando até chegar ao nome atual de Ilha de Guaratiba.

        Bem, como eu disse, esta é a versão folclórica. A outra explicação diz que o nome Engenho da Ilha já existia bem antes da chegada da Família Real e não tem nada a ver com inglês nenhum, e sim com a grande quantidade de rios e canais da região, que, quando enchiam (e lembremos que os rios tinham muito mais água do que hoje), deixavam uma grande porção de terra, mais elevada, cercada de água por todos os lados, a tal Ilha de Guaratiba. Como não sou dono da verdade, nem pretendo ser, deixo para cada um escolher a sua versão - eu escolho esta última.


                         Fachada da sede do Ilha Futebol Clube


         O mesmo acontece com Realengo, que para muitos é a abreviatura de um engenho, o Real Eng., que com o tempo passaria a ter o nome atual. A outra versão, na qual eu acredito, é que toda aquela região fazia parte das Terras Realengas, ou seja, terras que eram do Reino de Portugal na época da colônia e onde não se podia construir nada particular. Houve algumas invasões de fazendeiros, é verdade, mas no século XIX, quando o governo imperial resolveu transformar aquela região em área militar, ela estava praticamente vazia de construções particulares, justificando a origem do nome (embora alguns conflitos tenham ocorrido nas Terras Realengas no passado exatamente por disputas de áreas de fazendas).

                                                                    

                                                                 Brasão de Realengo

         O bairro de Inhoaíba, entre Campo Grande e Cosmos, também tem duas explicações para a origem de seu nome. Tem a de origem indígena, Nhu (campo) Ahyba (ruim), e a que fala dos escravos de uma fazenda que chamavam o seu dono de "Sinhô Aníbal", ou "Inhô Aníbal". Confesso que neste caso ainda não sei em qual acredito, mas tenho uma tendência a dar mais crédito à versão da origem indígena.

    


                             Inhoaíba - Instituto Ana Gonzaga


     Também o bairro de Vila Valqueire, já ali entre as Zonas Norte e Oeste, possui uma explicação bem curiosa sobre o seu nome, a de que teria existido uma fazenda em um tal "V Alqueire" ("V" é "cinco" em algarismo romano, seria um "quinto alqueire"), mas neste caso não há dúvida, o nome vem mesmo do fazendeiro Antônio Fernandes Valqueire, dono de um engenho na região no século XVIII. Mesmo assim há quem acredite no tal "quinto alqueire".    



                   Rua das Verbenas, na Vila Valqueire, década de 30


        Dúvidas à parte, esta e outras versões sobre os nomes de vários bairros da cidade sobreviveram até hoje, mostrando a força da tradição oral, que se muitas vezes está distante da verdade registrada em documentos oficiais, ela não deixa de ter o seu valor ao despertar a curiosidade dos moradores pela origem dos nomes dos seus bairros. Como já falei aqui neste espaço, conhecer a História do seu bairro é fundamental para se criar afinidade com ele e saber o que reivindicar em melhorias e investimentos. E saber a origem do nome do bairro, da rua ou do logradouro, é o primeiro passo para isso. Afinal, quem não fica curioso ao ouvir falar em nomes como Curral Falso, Manguariba, Marapicu, Paciência, Viaduto dos Cabritos, Buraco do Faim, Esquina do Pecado, Marco 7, Caminho do Vai e Vem e tantos outros que enriquecem a História, "oficial" ou não, da Zona Oeste do Rio de Janeiro.

* Este texto faz parte do meu livro "Crônicas Históricas da Zona Oeste Carioca"