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12.02.2019

VIAJANTES ESTRANGEIROS NA ZONA OESTE CARIOCA NO SÉCULO XIX

Viajantes estrangeiros na zona oeste carioca no século XIX - Adinalzir Pereira Lamego - Letra Capital.



Mais um livro sobre a História da Zona Oeste Carioca é lançado, desta vez sobre a grande quantidade de viajantes de outras nações (principalmente da Europa) que estiveram na região durante o século XIX. Desde que a Fazenda dos Jesuítas, em Santa Cruz, uma das maiores do Brasil, passou a ser Palácio de Veraneio do príncipe-regente, D. João, após a chegada da Família Real, em 1808, um grande número de pintores, cientistas e comerciantes, entre outros, passaram a conhecer a região e a registrar, tanto em quadros quanto em textos, o que viram. Todo esse material era publicado na Europa em livros que eram autênticos best-sellers para a época, estimulando mais ainda a curiosidade em torno de toda essa área que muito mais tarde seria conhecida como a Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro.

Após contar um pouco da História dos bairros da zona oeste no início do livro, o professor Adinalzir Pereira Lamego descreve, em detalhes, a rotina das viagens de pessoas como Jean Baptiste Debret, Thomas Ender, Maria Graham, John Mawe, Spix e Von Martius, entre outros, que visitaram essas terras seja através dos rios, o principal meio de transporte na época, ou pela Estrada Real de Santa Cruz. É um material extremamente rico sobre a História do Brasil, que precisa ser conhecido não só por pesquisadores, como pelos moradores da zona oeste, o retrato de um passado histórico rico e que atraía o interesse de gente conseguiu traduzir a beleza, riqueza e variedade de uma região que, segundo John Emmanuel Pohl, oferecia "uma vista magnífica, com prazer o meu olhar percorria o imenso espelho do mar, de onde assomavam, em pitoresca beleza, as ilhas da Restinga, Madeira, Itacuruçá, Mangaratiba e, muito ao fundo, a Ilha Grande".
       
      Adinalzir Pereira Lamego participa de duas instituições de pesquisa importantes da Zona Oeste, uma mais antiga, o Noph (Núcleo de Orientação e Pesquisa Histórica de Santa Cruz), fundado em 1983, e a Camempa (Casa da Memória Paciente), de 2015. Além disso, mantém já há bastante tempo o blog saibahistoria.blogspot.com



11.15.2019

AS ORIGENS DE CAMPO GRANDE

O bairro de Campo Grande tem suas origens no século XVI, logo após a fundação do Rio de Janeiro, em 1º de março de 1565, por Estácio de Sá. Nos anos e décadas seguintes, a ocupação do solo foi feita a partir da distribuição das sesmarias, que eram grandes porções de terras distribuídas a quem o Reino de Portugal achava que merecesse, principalmente os que lutaram contra franceses e índios tupinambás na conquista e fundação da cidade. Essas sesmarias, se não fossem ocupadas e desenvolvidas, eram devolvidas, as chamadas "terras devolutas". Muitas se desenvolveram, entre elas as que deram origem à imponente Fazenda de Santa Cruz, origem deste importante bairro da zona oeste.
Campo Grande começou a ser ocupado, assim, no final do século XVI, e realmente justificou o seu nome, pois nos documentos era chamado de "o Campo Grande", uma região que ia da altura do atual bairro e arredores até o local onde seria o bairro de Realengo. Tanto é verdade que a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Desterro, bem na área central de Campo Grande, foi fundada em 1673 no local onde hoje é o bairro de Bangu pelo fazendeiro Manuel de Barcelos Domingos. Muito mais tarde ela seria transferida para o atual local. No final do século XIX, após um incêndio que a destruiu por completo. O padre Belisário dos Santos, com apoio do governo e da população, conseguiu que o templo atual fosse erguido. O sacerdote, cujos restos mortais estão sepultados dentro da igreja, morava na casa paroquial que mais tarde seria o Colégio Belisário dos Santos, um dos mais tradicionais de Campo Grande e demolido em 2014 para a construção de um estacionamento.


11.11.2019

CINE LUX, O CINEMA DE MARECHAL HERMES



Marechal Hermes, assim como todos os bairros dos subúrbios, tinha o seu cinema, o Cine Lux, que infelizmente só peguei nos últimos anos, na década de 80, bem depois da época em que a tampinha de uma caixa de sabão em pó podia ser trocada por um ingresso e de quando os cinemas ainda tinham os lanterninhas, no caso do Lux conhecidos ironicamente como Montanha e Tarzan, pois eram dois senhores bem magrinhos. Muita gente frequentava as matinês do cinema, que além dos filmes passava jornais e seriados.
O jornal "Correio da Manhã" assim noticiava (com a grafia da época), em 11 de dezembro de 1934, a inauguração do cinema:
UMA TARDE DE FESTAS EM MARECHAL HERMES
Inaugura-se hoje, ali, um cinema, que rivalisa com os mais modernos
"Hoje, ás 4 horas da tarde, Marechal Hermes será enriquecido com a inauguração de um cinema que rivaliza com os melhores da cidade. Trata-se do Cine Lux, moderníssima concepção de architectura, que, além da belleza das linhas exteriores, tem uma sala de projecção, um verdadeiro estudo de acustica. Tem o novo cinema, para commodidade dos seus frequentadores, ventilação natural dada por uma cupola; os apparelhos de som, das mais recentes fabricações, são da Western Electric o que assegurará, sem duvida, a primeira posição entre os cinemas dos nossos suburbios.
Para a inauguração do novo cinema foi escolhido o film da Metro Goldwin Mayer "Viva Villa", uma das grandes creações daquela companhia americana. Á "premiére" comparecerão os ministros do Trabalho e da Educação, interventor Pedro Ernesto, director da Central do Brasil, presidente do Instituto Nacional de Previdencia - a quem se deve a iniciativa do melhoramento - e outras autoridades.
Estão, pois, de parabens, os moradores do suburbio pela bellissima acquisição que acabam de realizar".
Mas se Marechal não tem mais o seu cinema, transformado em templo religioso há mais de 20 anos, o bairro, com suas ruas largas, tranquilas e arborizadas e os sobrados centenários, Marechal Hermes é um cenário muito utilizado em filmes, novelas e seriados. É o segundo bairro do Rio de Janeiro que mais serve de cenário para produções audiovisuais, só perdendo para Copacabana. Na década de 70, por exemplo, foi rodado no bairro o filme “Chuvas de verão”, com Miriam Pires e Jofre Soares, dirigido por Cacá Diegues na Rua Engenheiro Assis Ribeiro. Mais tarde, outros filmes foram rodados no bairro, como "Parahyba mulher macho", de Tizuka Yamazaki, "A suprema felicidade", de Arnaldo Jabor e "Billi Pig", dirigido por José Eduardo Belmonte.
Em 1998, a segunda versão de "Pecado Capital", da Rede Globo, foi rodada nas ruas do bairro, onde moravam o taxista Carlão (Eduardo Du Moscovis) e sua namorada, Lucinha (Carolina Ferraz). Outras produções que se utilizaram do bairro foram as novelas "Pecado mortal" (Record), "Boogie Woogie (Globo), "Avenida Brasil" (Globo) e "Além do horizonte" (Globo).
Parte dos sobrados originais do bairro precisa de uma reforma. Em 2013, o bairro foi o primeiro da zona norte a ganhar uma Área de Proteção do Ambiente Cultural (Apac), reunindo seis ruas e uma praça, incluindo a estação ferroviária e os prédios dos cursos de Mecânica e Eletrotécnica da Escola Visconde de Mauá. O decreto impede a construção de imóveis com gabarito superior a três andares, ou 11 metros de altura, e abre possibilidades para que as obras de restauração dos sobrados sejam custeadas pela prefeitura.
* Imagem aérea do bairro na década de 1930, com o Cine Lux em destaque

10.11.2019

PATRÍCIO, O BURRO PENSIONISTA

Há diversas histórias curiosas sobre a passagem de D.João por Santa Cruz. Uma delas se refere ao carrapato, ou melhor, ao “desalmado carrapato”, que, segundo Noronha Santos (“Meios de transporte no Rio de Janeiro” – vol. 1) “se agarrava a uma das reais pernas. Retirou-o d. João, precipitadamente e, com tal imprudência o fez, que a escoriação se transformou em ferida ulcerosa, dando cuidados aos médicos e cirurgiões da Corte”. Sem poder andar, o príncipe-regente passou a usar a cadeirinha para se locomover na fazenda, levada por 12 escravos, que costumavam cantar à chegada de D. João na antiga propriedade dos jesuítas: “Nosso Sinhõ chegô, cativeiro já acabô”. Ainda segundo o autor, “d. João, sem o querer, e o carrapato dos pastos de Santa Cruz intensificaram o uso das cadeirinhas na cidade, que, no limiar do século, eram utilizadas só por particulares”.
Uma outra história envolvendo as temporadas em Santa Cruz refere-se a um burro de estimação do príncipe-regente, trazido de Lisboa na comitiva real. Este burro, de nome Patrício, foi levado por D.João para Santa Cruz, onde passaria a residir, recebendo uma pensão para suas “despesas diárias”. D. João não deixava que perturbassem Patrício e chegou a repreender severamente um funcionário da fazenda que chicoteou Patrício, que assim podia invadir terrenos alheios sem ser incomodado.
Já Benedito Freitas, autor de uma coleção de três volumes sobre a história da fazenda (“Santa Cruz – Fazenda Jesuítica, Real, Imperial”) reúne tanto detalhes sobre o trabalho administrativo da fazenda como aspectos bastante curiosos. Um deles diz respeito ao espírito zombeteiro do carioca, que já se manifestava mesmo num local tão distante do centro. Como já foi bastante divulgado, à chegada dos 15 mil portugueses da comitiva de D.João, boa parte deles fidalgos, as melhores casas do Rio de Janeiro recebiam na porta a inscrição P.R., significando Príncipe Real e indicando um prazo para os moradores saírem daquela casa e cederem seu lugar ao nobre português, que não poderia ficar sem uma habitação digna de sua posição. Logo, o povo começou a divulgar outro significado para aquela inscrição, bem mais objetiva e sarcástica: “Ponha-se na rua”!
* Foto de 1984, tirada por Ronaldo Morais, do Batalhão de Engenharia Militar Vilagrán Cabrita.
n Cabrita, antiga sede da Fazenda de Santa Cruz.

10.04.2019




A DEFESA DE SEPETIBA
Com seu amplo litoral e as águas calmas da baía,
Sepetiba sempre atraiu a cobiça de piratas e corsários, e também de aventureiros brasileiros, que desembarcavam para saquear as riquezas transportadas pelos caminhos do sertão.
Na época em que a família real transformou o
antigo Convento dos Jesuítas em palácio de veraneio, no início do século XIX, a Baía de Sepetiba passou a contar com uma fragata real protegendo a entrada, mas foram os fortes, o sistema de defesa mais utilizado no Brasil Colônia, que protegeram
as praias e as ilhas da Baía de Sepetiba.
Duas décadas antes da chegada da família
real, no entanto, essa preocupação com a defesa do
litoral da região oeste da cidade começou a tomar
forma. No dia 7 de março de 1790, o Vice-Rei D.
José Luís de Castro, o Conde de Resende, expediu
um ofício ordenando a avaliação das condições de
defesa de todo o litoral da Baía de Sepetiba e a
possibilidade de se instalarem fortes e quartéis em
toda a sua extensão. Além disso, mandou que fosse
feita uma planta topográfica da região.

9.30.2019

VINÍCIUS E AS CUTIAS


No excelente documentário "Vinicius", de Miguel Faria Jr., Toquinho conta que certa vez Vinicius de Moraes o chamou para ver algo que o deixou impressionado: no quintal de uma casa, animais de diferentes espécies conviviam harmoniosamente, uma situação que o poeta nunca presenciara em seus anos de diplomacia. A mesma observação atenta, e impecavelmente irônica, pode ser aplicada a um outro local bem no centro do Rio de Janeiro.
Ao lado da avenida Presidente Vargas, uma das mais movimentadas da cidade, o Campo de Santana chama a atenção não apenas pelas muitas árvores que abriga, além de dois lagos e uma gruta, mas principalmente por um roedor de tamanho médio que está por todas as partes do campo: a cutia. Sempre de bom aspecto, afinal são bem alimentadas pelos funcionários, elas dividem espaço com gatos, gansos, patos e até pavões, numa demonstração clara de que a convivência entre as diferenças é uma etapa já superada pelos animais ditos irracionais há muito tempo.
Mas quem passa por ali todos os dias (e é muita gente) e se admira do que vê em volta, vai ficar muito mais impressionado se conhecer a rica história daquele espaço que se originou de um outro campo, este muito maior, o de São Domingos, onde ficava a igreja de São Domingos, já destruída e que pertencia a uma irmandade de negros escravos. Já havia uma igreja de outra irmandade de escravos, a de São Rosário e São Benedito, que até hoje está na rua Uruguaiana. Uma terceira surgiria, a de Santana, mas sem igreja ainda os fiéis pediram e conseguiram que a imagem da santa fosse cultuada na igreja de São Domingos, uma prática comum entre irmandades no Brasil colonial. Divergências, no entanto, provocaram a expulsão dos fiéis e da imagem de Santana e a irmandade então solicitou um terreno próprio, no que foi atendida. A igreja foi construída próximo ao morro da Conceição, em 1735, na altura onde é hoje o prédio da Central do Brasil.
À medida em que a cidade se expandia, toda aquela região começou a ser urbanizada, com a formação de ruas e praças, já que a área era constantemente alagada. No início do século XIX, o Conde de Resende, último vice-rei do Brasil, mandou aterrar o Campo de Santana, que na época se estendia por toda a área da atual avenida Presidente Vargas em frente à atual Central do Brasil. Com a melhoria do terreno, surgiram as festas do Divino de Santana, ou Folias do Divino, que antes do carnaval eram as festas preferidas do carioca.
Em 1811, foi iniciada a construção de um quartel no campo, ao lado da igreja. Considerado muito feio, o edifício abrigou o 2º Regimento de Linha em 1814, mesmo sem estar concluído. Depois foi reformado e ocupado pela Secretaria de Guerra durante todo o Segundo Reinado. A partir da República seria a sede do Ministério da Guerra até meados do século XX, quando enfim foi destruído, dando lugar ao Palácio da Guerra, atual sede do Comando Militar do Leste, ao lado da Central do Brasil.
Foi no Campo de Santana que D. Pedro I protagonizou o Dia do Fico e recebeu, em 12 de outubro de 1822, já após a independência, o título de Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil, no amplo balcão do pavilhão construído em 1818 e que explodiu em 1841 quando estava repleto de barris de pólvora e fogos de artifício armazenados para a festa de coroação de D. Pedro II, matando o organizador da festa. O reflexo do sol no vidro de um lampião teria sido o estopim da explosão. Foi durante esse período que o campo passou a se chamar Campo da Aclamação.
O Campo também abrigou o Museu Real, fundado por D. João VI em 1818, na casa do Barão de Ubá, que depois seria a sede do Arquivo Nacional e que ainda existe, na esquina com a rua Visconde do Rio Branco. O Museu abrigou uma grande quantidade de espécies da flora e da fauna, além de um rico acervo mineral, sendo depois transferido para o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista.
O gradeamento é de 1873, obra de François Marie Glaziou, um botânico francês que trabalhou em vários jardins públicos da Corte. O que ele não poderia imaginar é que quase 140 anos depois sua obra serviria de passagem para que várias pessoas, na maioria idosas, levassem quilos e mais quilos de ração para os muitos gatos do campo à noite. É nessa hora que surge a única iminência de conflito entre os animais do local, pois os fornecedores da ração acabam tendo de afastar os patos que, sorrateiramente, vão se aproximando, de olho na ração dos gatos. Já as cutias aproveitam a redução do barulho dos carros e dormem a sono solto no campo onde elas representam o papel principal durante o dia.

ALGUM LUGAR PARA CAIR E FECHAR OS OLHOS DE VEZ



Algum lugar para cair e fechar os olhos de vez - Raphael Vidal - Pallas Editora.

Certa vez conversei com Raphael Vidal sobre o escritor João Antônio, referência literária para nós dois e que eu conhecera nos anos 90, enquanto Vidal já o homenageara em um evento. Agora Vidal consagra seu livro "Algum lugar para cair e fechar os olhos de vez" a João Antônio e a Lima Barreto. A referência ao escritor não está só na dedicatória e também na temática e no estilo do livro, intenso e dinâmico, feito de frases curtas, gírias de rua, a língua viva dos entorpecidos, dos atropelados pela realidade.

Quando conheci João Antônio, no início de 1994, ele me convidou para tomar umas em um boteco que não existe mais, na esquina da Rua da Relação com Avenida Gomes Freire. Lá ele me falou do incômodo que sentia com a forma como os pobres eram retratados por boa parte de nossos escritores, jornalistas e autores de novelas, seja com preconceitos ou com um olhar excessivamente piedoso. Entre as exceções do passado, Lima Barreto, sua grande inspiração, que sempre teve um olhar sensível e digno para essas pessoas, principalmente os encardidos que frequentavam os muquinfos nas madrugadas, para usar o linguajar de João.

                                                                       João Antônio

Pois foi exatamente dessa conversa com João e da leitura de Lima Barreto que me lembrei ao ler o livro de Raphael Vidal, cria do subúrbio carioca como eu, e que não passa indiferente a essa gente que "tenta escapar do destino, da carne, do corpo, do sangue nas veias". Muito pelo contrário, se mistura com ela, vivencia suas dores e alegrias e percebe a imensa riqueza que há na vida dos que nem sempre são percebidos pelos olhares rápidos de quem só quer cumprim suas obrigações dentro do sistema.

Aqui os pobres são protagonistas, os remediados das ruas estão no palco principal, não há espaço para firulas, não dá tempo sequer de esperar a ressaca passar. "Morrer de verdade é insistir em viver". Como Malagueta, Perus e Bacanaço, os personagens mais famosos de João Antônio, os brasileiros que Vidal nos apresenta são criados nas biroscas e nas quitandas, sem eira nem beira, se arrastando para ganhar um qualquer, como o velho que sobe a ladeira com as flores da igreja, aguardado ansiosamente pelo padre e pelas senhoras, sobe como se fosse um Cristo levando a cruz, em um dos momentos mais emblemáticos do livro: "Caído, lambendo pedra, as flores fizeram um espetáculo, voando para a finitude. Um tapete desenrolava-se bem a sua frente, guiando pelo caminho do fracasso. Ele, o homem, sorria. Se precisasse de uma razão só em toda sua vida, lá estava: o fim".

Vidal já tem uma vivência cultural de muitos anos pelas ruas da cidade, principalmente na área portuária, onde mora, no Morro da Conceição, e onde está à frente da Casa Porto, misto de restaurante, boteco, Centro Cultural, fuzuê e casa de amigos, pois ele recebe a todos do mesmo jeito, informal, sempre de bermuda e sandália, onde não há como não ficar à vontade. João Antônio e Lima Barreto com certeza iriam adorar tomar umas lá, olhando pela moldura da janela o casario do morro e a Baía de Guanabara ao fundo, sonhando com uma cidade mais justa e menos cruel.



                                                        Raphael Vidal na Casa Porto


9.26.2019

INCÊNDIO NO SENADO


De dia, são os restaurantes. À noite, os bares e boates. O movimento intenso da Travessa do Comércio, que, às sextas-feiras, se torna quase intransitável, parece alheio à trágica história que envolve o local onde funcionou o Senado da Câmara. Apesar do nome oficial, as pessoas se referem à travessa como o Arco do Teles, estendendo ao pequeno trecho de paralelepípedos o nome do Arco que fica num dos extremos da travessa, em frente à Praça XV. Lá dentro, há sempre movimento de turistas, principalmente europeus, entusiasmados com o casario em estilo eclético e bem preservado. Num deles, morou Carmem Miranda, conforme atesta uma placa na entrada do sobrado.
A Câmara foi instalada no local em 1750, quando passou a existir o Tribunal da Relação do Rio de Janeiro. Sete anos depois, a Câmara havia recebido o título de Senado da Câmara, concedido por Provisão Régia. Numa das casas, morava o Juiz de Órfãos Francisco Teles de Meneses, de tradicional família carioca e que emprestou o sobrenome ao Arco.
A praça XV ainda se chamava Largo do Carmo e do outro lado estava a Casa dos Governadores (depois Palácio dos Vice-Reis, Paço Real e Paço Imperial). O Arco, que manteve o traçado arquitetônico do período colonial, foi construído segundo projeto do brigadeiro João Fernandes Pinto Alpoim, o mesmo que projetou os Arcos da Lapa e o Paço Imperial.
O incêndio referido no início do texto, com a linguagem do jornalismo atual, começou às duas da madrugada de 20 de julho de 1790 num sobrado da Rua da Praia do Peixe (atual Rua do Mercado) e atingiu quase todas as casas. O arco não foi atingido, mas quase todo o acervo foi destruído. Só foram salvos 48 livros de assentamentos, a imagem de São Sebastião e o estandarte da cidade. Morreram um homem e uma criança, que dormiam no local.
Acredita-se que o incêndio tenha sido criminoso, porque o material destruído era formado basicamente por documentos a processos de ocupação da terra na cidade. As principais suspeitas recaíram sobre pessoas que teriam problemas em relação à posse de terras, pois assim acabaram eliminando a fonte de seus problemas.
Nunca conseguiram descobrir se o incêndio foi ou não criminoso e a única lembrança da tragédia reside numa placa bem ao lado do Arco.

* Foto de Ronaldo Morais tirada em 1984.

NATUREZA MORTA

Natureza morta, de José Fontenele. Editora Moinhos.



        O romance "Natureza morta" é construído por José Fontenele em torno de um tema sensível e doloroso: a morte de um bebê durante a gravidez, o chamado parto interrompido. O luto da personagem Laura, que perde primeiro Henrique e, pouco mais de um ano depois, Rafael, não é um luto muito reconhecido pela sociedade, seria uma espécie de dor menor, mas que para a mãe "é como se a natureza dentro de mim não me quisesse como raiz de nada".

A narrativa, com suas muitas doses de dramaticidade e personagens singulares, é bem conduzida pelo autor, que alterna as vozes de Laura e seu marido Damião, que, ao não entender esse tipo de luto, se refugia em um silêncio constrangedor. Em volta dele, todos são vistos e caracterizados como animais, uma forma de representação da sociedade que vai se encaixar muito bem com o destino do personagem, no final do livro. "Todo dia era forçado a ultrapassar bicos, penas, patas, narizes que ninguém sabe o nome, cascos, asas, falsos pés, e toda a sorte de animália possível".

Incompreendida pelo marido e pela família, Laura usa a pintura para enfrentar a sua dor solitária. Mas de repente, do nada, ela se vê cercada, em seu apartamento, por pessoas interessadas em ajudá-la, o aspirante a escritor Hipólito e Tereza, que consegue uma exposição para as obras de Laura. A forma como esses novos personagens são vistos pelo casal é completamente diferente entre Laura e Damião, que os vê como dois intrusos em sua vida com a esposa, enquanto Laura os percebe como eles realmente são: a sua tábua de salvação, o único pedacinho de esperança que ela tinha para se agarrar à vida. "Já ouvi que para ser feliz a dois, nunca devemos nos revelar completamente ao parceiro. Algo como se fôssemos um capítulo de novela que se renova dia a dia, indefinidamente, até a hora desconhecida da morte".

Damião representa a vida adaptada ao sistema, um emprego chato em um hotel, mas suportável apenas pelo desejo de crescer na empresa, e a indiferença, ou a falta de compreensão, em relação ao problema da esposa, facilmente substituível por um jogo de futebol na noite de quarta-feira na TV, aliada à falta de bom senso ao tocar em assuntos traumáticos com a esposa no dia da vernissage dela. Enquanto isso, Laura vive no fio da navalha, uma vida frágil, que pode ser rompida a qualquer momento, e que acaba sendo a o principal combustível para a qualidade da sua pintura: "Mas não tem jeito, Arte é um ofício irregular porque áspera é a vida".

Como foi dito no início, o livro trata de um tema sensível e complexo e José Fontenele, por ser homem, obviamente jamais poderia sentir, em toda a sua dimensão, a dor de Laura ao perder dois filhos durante a gravidez. Mas uma das grandes qualidade deste livro é exatamente o uso da empatia pelo autor, essa capacidade de se sentir no lugar do outro, mergulhando fundo na tristeza e frustração de Laura. Acredito que após a leitura de "Natureza morta" muitos terão um olhar diferenciado para esse tipo de luto tão comum, mas ao mesmo tempo tão oculto pela sociedade.

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                                                                   Eu com o autor


SOBRE O AUTOR
José Fontenele nasceu no Piauí. É jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), escritor e organizador cultural. Autopublicou seu primeiro romance, O ralo da consciência, em 2014. Está entre os coordenadores do Clube da Leitura RJ e o Clube de Leitura ZO (RJ). Participou da coletânea Clube da Leitura Vol. IV (Rubra), como escritor e organizador; e tem um conto na coletânea 80 anos, devagarinho — Conta forte, conta alto, publicada pela Festa Literária das Periferias (FLUP), em homenagem à obra de Martinho da Vila. Escreve sobre Cultura e Literatura para a revista literária Revéstres. Colabora com resenhas para sites de literatura e trabalha na agência literária Oasys Cultural. Mora na cidade do Rio de Janeiro.                             



9.23.2019

O ADVOGADO DOS INCONFIDENTES

Um importante personagem da Inconfidência Mineira nasceu no Rio de Janeiro, em 1752. José de Oliveira Fagundes era filho do comandante José Ferreira Lisboa e de Firmina Inácia de Oliveira. Aos 20 anos, foi estudar Direito em Coimbra, tendo concluído o curso em 1778. Trabalhou em Lisboa e depois voltou ao Rio de Janeiro, exercendo a profissão em varas cíveis e criminais. No dia 31 de outubro de 1791 foi nomeado, pela Alçada, advogado da Santa Casa de Misericórdia para defender os réus da Inconfidência Mineira, prestando juramento nessa data. As duas devassas já estavam reunidas numa só. Sua admissão na Santa Casa ocorreu em 1790 e ele ganharia 200 mil réis pelo serviço.
Tanto tempo depois das prisões, só agora era concedido o direto de defesa aos réus. O advogado não perdeu tempo: começou a dar vistas ao sete imensos volumes, com todos os interrogatórios, e apresentou os primeiros embargos de defesa no dia 23 de novembro, com 121 parágrafos referentes a 29 réus vivos e três falecidos. Fagundes foi ajudado por outros advogados na leitura dos autos, mas seus nomes não foram registrados.
Sobre Tiradentes, Fagundes estabelece sua defesa afirmando que o alferes era conhecido "por loquaz, sem bens, sem reputação, sem crédito para poder sublevar tão grande número de vassalos quanto lhe seriam indispensáveis para o imaginário levante contra o Estado", e ainda cita "o caso que se fazia em toda aquela capitania da lubricidade da sua língua, basta notar a indiscrição, e nenhum acordo com que, sem escolha de tempo e de pessoas, e de lugar proferia as quiméricas ideias que a sua libertinagem lhe subministrava". (Tiradentes - a defesa, Paulo Duque (org.) O advogado ainda retirava o crédito da própria confissão de Tiradentes, provocado, segundo ele, por ser o alferes um homem "desesperado por ter sido preterido quatro vezes, parecendo-lhe que tinha sido muito exato no serviço (...)". (Tiradentes - a defesa, Paulo Duque (org.)
A defesa seria difícil. Os interrogatórios se sucediam e os réus, presos em calabouços terríveis, iam descrevendo todos os detalhes do movimento, fornecendo todo o material necessário para os juízes indicarem as culpas de cada um. Mesmo assim, Fagundes apresentou seus embargos, escritos de forma bem detalhada, inclusive de Domingos Fernandes da Cruz, que apenas emprestou a casa a Tiradentes, sem ter a menor ideia do que se tratava, e também estava preso. "(...) o réu Domingos Fernandes da Cruz, em cuja casa foi preso o réu Xavier ignorava qual era o seu delito, e o recolheu em sua casa a instâncias de Inácia Gertrudes de Almeida, a quem também o dito réu enganou (...)". (Tiradentes - a defesa, Paulo Duque (org.)
A defesa estava lançada, agora era esperar o resultado do imenso trabalho de Fagundes. Em homenagem a este grande conhecedor das leis, desde 1989, uma das salas da Procuradoria Geral da República, em Brasília, tem o nome de José de Oliveira Fagundes. E no prédio da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) há uma placa com o nome do advogado.

https://vejario.abril.com.br/cidades/livro-revela-relacao-do-heroi-da-inconfidencia-com-o-rio-antigo/


ROTEIRO SOBRE O LIVRO FRAGMENTOS DO RIO ANTIGO

Apesar do tempo chuvoso no sábado, dia 24, de manhã, tivemos o roteiro sobre o meu livro Fragmentos do Rio Antigo no centro do Rio, com a guia de turismo Deca Serejo, do Rio de Coração Tour.








FOTOS RARAS DA PEDRA DE GUARATIBA

Fotos raras da Pedra de Guaratiba em 1957, tiradas por Walter de Araujo Silva, tio de J.c. Cardoso, que gentilmente permitiu que eu as divulgasse. Vemos o Convento da Pedra, demolido naquela mesma década, e a Igreja do Desterro, do início do século XVIII e que, felizmente, continua de pé. Legendas minhas e de Nilson Pinto.


                        Frente do Convento. A porta principal é a mesma da Igreja de São Pedro da Pedra


                                                            Lateral do Convento, já em ruínas




                                                           Igreja de Nossa Senhora do Desterro


                                                        Praia da Pedra, trecho do antigo Coqueirinho


Praia da Pedra. Ao fundo, os ranchos dos Pescadores


                                                   Vista do Convento. Ao fundo, a Ponta do Ferreiro



                                          Vista do Convento. Ao fundo, Barra de Guaratiba


                                     Fundos da Igreja do Desterro. Ao longe, a Restinga da Marambaia

9.20.2019

TRECHO DO MEU ROMANCE A PRAÇA


Na praça, há uma regra bem clara: nenhuma prostituta rouba o cliente da outra. Quando isso acontece, geralmente dá briga. E briga feia. Na última delas, Solange, mais conhecida como Sol, uma veterana de mais de 20 anos na área, com pequenas passagens pela Praça Mauá e Vila Mimosa, tomou o cliente de Dayse, uma jovem de 19 anos que estava há dois meses na praça. Incentivada por algumas mulheres que não gostavam de Sol, Dayse resolveu reagir. E da forma mais atabalhoada possível. Simplesmente esperou Sol chegar e se atracou com ela no bar do Hotel Paris, na esquina da Avenida Passos. O dono, o espanhol Ramirez, a tudo observou, limitando-se a afastar as garrafas vazias de cerveja para evitar prejuízo. Uma delas, no entanto, por distração, ficou no balcão e Solange, acostumada a brigas na praça, pegou a garrafa, bateu com ela no balcão até quebrar e já se preparava para rasgar o rosto de traços ainda adolescentes de Dayse, quando as mulheres em volta e também alguns fregueses conseguiram contê-la.



            Dayse ficou com medo e achou melhor sair da praça. Um dos clientes do bar a levou ao Cine Íris, na Rua da Carioca, onde ela agora faz dois shows de striptease por dia e sempre um ou dois programas à noite.
            Os clientes de Leila já eram fiéis a ela, que tinha boas relações com os donos de bares, taxistas, policiais que circulavam por lá e também com os donos de hotel. Embora boa parte das prostitutas da praça cheirasse, os únicos vícios de Leila eram o cigarro e o chiclete, que ela só abandonava na hora do programa, e às vezes nem isso.
            No instante em que Vera Lúcia e Stella estavam com Luiz Antônio na praça, Leila estava com um desses clientes fiéis, conhecido como Zezé da Vaca. Zezé gosta de cheirar. Tanto que quando Leila saiu do banho, as fileiras já estavam prontas na mesa. O quarto é o mais caro, com banheiro e teto espelhado, mas mesmo assim fede um pouco e os lençóis apresentam uma umidade que parece eterna, igual à dos outros quartos. Depois que Zezé cheira, eles transam de forma apressada e tensa, ele por cima dela e bufando muito. Depois ele cheira mais um pouco e pede desculpas pela forma como tudo aconteceu, disse que está com problemas em casa, toma um banho e paga em dobro, como sempre faz. Leila não se mete na vida dos clientes, só se eles insistirem muito. Embora muitos ali queiram desabafar, ela não quer misturar as coisas. Ali é um trabalho para ganhar dinheiro, nada mais. Apenas com Luiz Antônio e seus amigos ela se sente mais à vontade.
            Ela e Zezé da Vaca conversam um pouco, descem as escadas e se separam, com a promessa dele de voltar na semana seguinte. Leila vai para o bar do Freitas encontrar Luiz Antônio e os amigos dele.

* Ilustração de Fernando Krieger.




SINOS, INCÊNDIOS E BALEIAS

Numa cidade cheia de sirenes e motores, é preciso fazer um grande esforço para se pensar na tranquilidade que devia ser quando estes e outros ruídos ainda não existiam. No centro do Rio de Janeiro, como havia, e ainda há, muitas igrejas, o auxílio dos sinos era fundamental. Eram eles que indicavam aos bombeiros o lugar exato do fogo, além de casamentos, enterros e outros eventos importantes. E indicavam também, como no caso do temido "toque do Aragão", a hora de se recolher.
O desembargador Francisco Alberto Teixeira de Aragão era o Intendente Geral (uma espécie de prefeito) em 1825, quando através de um edital foi determinado que os sinos das igrejas de São Francisco de Paula e do Mosteiro de São Bento tocariam durante meia hora, às 10 da noite, no verão, e às nove, no inverno, para alertar as pessoas de que ninguém deveria sair de casa até o amanhecer. Quem saísse seria revistado e poderia ser preso. Tudo para diminuir os casos de roubos e arruaças, bem menores do que hoje, porém já significativos para a época. Entre os principais arruaceiros, estavam os capoeiras, geralmente escravos fugidos que saíam em bandos para atacar as pessoas, ou mesmo a polícia, com seus "rabos de arraia" e outros golpes.

Os sinos já anunciavam os incêndios desde o início do século XVII. Se ocorresse à noite, no centro comercial da cidade, por exemplo, ele era avisado pela Igreja de São Francisco de Paula. Os sineiros também ganhavam dinheiro para anunciar o nascimento dos filhos de pessoas importantes. Se fosse do sexo masculino, eram nove badaladas, se fosse menina, davam sete toques. "Cidade de frequentes festas religiosas e procissões quase diárias, com foguetes e espocos e sinos a repicar, o velho Rio de Janeiro exteriorizava na música alegre dos sinos a alma simples e boa do seu povo" (Crônicas da cidade do Rio de Janeiro, Noronha Santos).

Outro aspecto dos incêndios que merece ser citado é o que ocorria quando os bombeiros partiam para apagar o fogo - sem sirenes, é claro. Se fosse à noite, os donos das casas que ficavam no caminho tinham de colocar lampiões na entrada para iluminar o trajeto, mesmo que precariamente. Quem não fizesse isso, corria o risco de ser punido. Os lampiões eram acesos, em sua maior parte, com o óleo extraído das baleias que infestavam a Baía de Guanabara. Antes de 1854, quando a iluminação a gás fez com que o Rio de Janeiro deixasse de ser uma cidade de sombras, o óleo de baleia era de fato o principal combustível dos lampiões e dos oratórios que ficavam nas esquinas.
As baleias foram embora há muito tempo e deixaram em seu lugar, nas escuras águas da Baía de Guanabara, personagens mais exóticos, como pneus de carro e garrafas de refrigerante.



9.16.2019

DA VALA AO VALÃO


          Quem anda pelo terreno firme do centro do Rio de Janeiro com certeza ficará impressionado se souber que está pisando numa grande quantidade de lagoas, pântanos e morros devidamente aterrados ao longo dos séculos. A conquista daquela região foi uma árdua luta contra um terreno onde só era possível a residência principalmente de mosquitos.

          Refugiados no extinto morro do Castelo, os pioneiros habitantes da cidade só foram descendo a encosta aos poucos, à medida que o terreno ia sendo conquistado. As primeiras ruas, da Misericórida, cuja ladeira é a única testemunha do que sobrou do morro, e a Direita, atual Primeiro de Março, ainda eram ali, bem pertinho e também próximas ao litoral. Só aos poucos, com a chegada de mais portugueses e a necessidade de se expandir a área residencial, até mesmo para mostrar quem era o dono da terra e evitar novos ataques de franceses ou outros invasores, é que a cidade foi sendo conquistada.

                       Ladeira da Misericórdia - Foto de Ronaldo Morais de 1984

          Imagine o que deviam ser os métodos de drenagem e irrigação daquela época e de quantos braços eram necessários para uma empreitada deste porte. Muito, muito tempo foi preciso para que a cidade ganhasse uma configuração minimamente parecida com a atual. As principais lagoas aterradas foram as de Santo Antônio, do Desterro, da Sentinela, da Pavuna e do Boqueirão.

          À medida que charcos e pântanos iam sendo debelados, novas ruas eram abertas, e com um detalhe interessante: quem passa por algumas das que sobraram da época pode perceber que eram ruas muito estreitas, com o objetivo  de fazer com que recebessem sombra durante a maior parte do tempo. Uma medida inteligente e adotada em todas as colônias tropicais de portugueses e espanhóis. Quem anda sob o sol de verão pela larga avenida Presidente Vargas, obra da década de 40 do século XX, entende bem a necessidade de tal medida.

          Com o desenvolvimento das tecnologias de destruição da natureza, os morros foram sendo tirados do caminho sem dó nem piedade. O Rio de Janeiro, durante um bom tempo, foi a cidade do quadrilátero dos morros, espremida entre os do Castelo, São Bento, Conceição e Santo Antônio. Sobraram os da Conceição, São Bento e menos da metade do de Santo Antônio, já que sua outra parte foi desmontada para a construção da avenida Chile. Outros morros menores foram completamente destruídos, como o do Senado, na rua do Senado e também chamado de morro de Pedro Dias, e o morro das Mangueiras.



                                        Desmonte do Morro de Santo Antônio 
                           Acervo do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro

          Parte dos aterros destes desmontes foi usada exatamente para acabar com as lagoas e os alagadiços imundos que existiam pela cidade. Nunca é demais lembrar que não existia sistema de esgoto até boa parte do século XIX e por isso os dejetos eram jogados in natura na Baía de Guanabara ou nas lagoas. A rua Uruguaiana, por exemplo, era chamada de rua da Vala por causa da imunda vala que percorria toda a sua extensão e desembocava na baía, carregando toda sorte de detritos. Boa parte deste mar de imundícies também seguia para o Mangal de São Diogo, que já ia para a região além do Campo de Santana e que só seria habitada após a chegada da Família Real e a expansão da cidade no que ficou conhecido justamente como Cidade Nova.

          Se formos ver hoje o estado deplorável do Canal do Mangue, descendente direto do Mangal, e da Baía de Guanabara, convenhamos que pouca coisa mudou. Isto sem contar que os rios, principal meio de transporte da época, hoje recebem a triste alcunha de valões.


                                                Rio Carioca atualmente





ROTEIRO HISTÓRICO NA PEDRA DE GUARATIBA

Autografando A invasão francesa do Brasil e falando do livro durante o roteiro histórico na Pedra de Guaratiba, comandado por Deca Serejo, do Rio de Coração Tour.





9.14.2019

MARECHAL HERMES - O INÍCIO DE TUDO


No dia 1º de maio de 1911, foi lançada a pedra fundamental da Vila Proletária de Marechal Hermes com a presença do presidente da República e diversas autoridades, como os ministros do Interior, da Guerra, da Agricultura, Fazenda, Viação, o prefeito Bento Ribeiro, o Chefe de Polícia e representantes de vários movimentos operários "afinados" com o governo, além de muitos políticos.


O presidente e sua comitiva saíram do Palácio do Catete pouco antes das 13 horas em direção à Central do Brasil, onde um trem especial os aguardava. O Marechal recebeu um telegrama do operariado da Gávea, onde foi construída a Vila Orsina da Fonseca, saudando o presidente "pelo lançamento da pedra fundamental da Villa operaria em Sapopemba, pedindo a sua attenção e humanidade para o infeliz bairro, tão desprovido de casas para sua morada". (O Paiz, 2/5/1911). Logo à saída do trem, no entanto, por pouco não ocorre uma tragédia, pois o trem presidencial "quasi apanha uma mulher que mais parecia ter procurado um meio fácil de acabar com a vida que parecia descuidada. Um guarda-cancella, porém, atirou-se á frente do trem e salvou a mulher". (O Paiz, 2/5/1911). O presidente viajava no carro-salão, na parte da frente do trem, e mais tarde daria uma "medalha de distinção" ao guarda.



Após 40 minutos de viagem, toda a comitiva desceu na improvisada plataforma de trem, pois a estação ainda seria construída. Com "ruidosa manifestação", segundo a imprensa da época, foram todos conduzidos a um pavilhão no centro do terreno, onde foi assinada a ata de comemoração e distribuídas medalhas douradas com o retrato do Marechal, além de cartões-postais e reproduções da planta das edificações. Palmyro Pulchério, então, recolheu uma das 24 André Luis Mansur duas vias da ata e a colocou em um cofre de madeira, acompanhada de moedas brasileiras, jornais do dia, medalhas, fotos e outros objetos. O cofre foi fechado com cimento pelo próprio Marechal na pedra fundamental e o presidente fez um breve discurso, acompanhado em seguida pelo prefeito Bento Ribeiro, que ressaltou que a vila a ser construída ali deveria se chamar Marechal Hermes, afirmação reforçada pelo discurso, logo em seguida, do jornalista Pinto Machado, dirigente de uma central operária. Após um lanche no pavilhão, toda a comitiva voltou para a estação improvisada e regressou à Central. Tanto na ida quanto na volta, a comitiva recebeu a proteção da 52ª Companhia de Caçadores do Exército.