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5.29.2018

AS MARIAS DE MACHADO

Quatro Marias foram importantíssimas na vida de Machado de Assis: sua mãe, Maria Leopoldina Machado de Assis, a madrinha, Maria José da Conceição Barroso, sua irmã, Maria Machado de Assis, e a segunda esposa do seu pai, Maria Inês.
Sua mãe era portuguesa, da Ilha de São Miguel, no Arquipélago dos Açores. Nasceu no dia 7 de maio de 1812, veio para o Brasil, ainda criança, com a família em busca de uma vida melhor. Já adulta, foi trabalhar na Chácara do Livramento, no Morro do Livramento, centro do Rio, que era propriedade de Bento Barroso Pereira, figura importante no governo imperial, e de sua esposa, Maria José da Conceição Barroso (a futura madrinha de Machado de Assis). Maria tornou-se agregada da fazenda, fazia bordados, costuras e outras atividades e foi lá que conheceu o futuro pai de Machado, Francisco José de Assis, pintor de casas, dourador e também agregado da fazenda. Eles se casaram no dia 19 de agosto de 1839, na capela da chácara.
Machado, que nasceu em 21 de junho de 1839, ganharia sua irmã em 3 de maio de 1841, mais uma Maria, mas que infelizmente morreria muito jovem, em 4 de julho de 1845, com apenas quatro anos de vida, vítima de uma epidemia de sarampo na cidade. Onze anos depois, Machado, ainda adolescente, escreveria no jornal "A Marmota Fluminense" a poesia "Um anjo", com a dedicatória "À memória de minha irmã", da qual retiro esta estrofe, que iniciava e terminava a poesia:
"Foste a rosa desfolhada
Na urna da eternidade
P´ra sorrir mais animada
Mais bela, mais perfumada,
Lá na etérea imensidade".
Naquele mesmo fatídico ano de 1845 morria também sua madrinha. Maria José da Conceição Barroso assumira a chácara após a morte do marido, que, como disse, foi figura importante no Império, chegando a senador, ministro e brigadeiro. Ela teve por Machadinho, como era conhecido na juventude, um carinho maternal. Muito provavelmente as primeiras leituras dele aconteceram na própria chácara, influenciada pela madrinha, que pode ter aberto para ele as portas da biblioteca de Bento Barroso Pereira. Maria José morreu em 11 de outubro de 1845, aos 72 anos, também vítima da epidemia de sarampo.
Quatro anos depois, em 18 de janeiro de 1849, era a vez da mãe de Machado de Assis partir, aos 36 anos, de tuberculose. Aos dez anos de idade, o futuro escritor já tinha perdido a mãe, a irmã e a madrinha, só lhe restando o pai. Na mesma "A Marmota Fluminense", Machado também homenagearia a mãe com uma poesia, da qual segue o trecho:
"Se devo ter no peito uma lembrança
É dela, que os meus sonhos de criança
Dourou: é minha mãe
Se dentro do meu peito macilento,
O fogo da saudade me arde lento
É dela: minha mãe"
Francisco de Assis se casaria novamente em 18 de julho de 1854 com outra Maria, Maria Inês da Silva. Nessa época, a família já tinha se mudado da Chácara do Livramento para a Rua São Luiz Gonzaga, em São Cristóvão, e Machadinho, com apenas 15 anos, começava a escrever em jornais cariocas, como a já citada "A Marmota Fluminense" e a fazer contatos no meio literário da Corte brasileira. Não se sabe quando Maria Inês morreu. A outra mulher importante na vida de Machado não tinha Maria no nome: Carolina Augusta Xavier de Novais foi sua esposa durante 35 anos e receberia, após a sua morte, em 1904, uma poesia do marido (um soneto), da mesma forma que Machado, ainda adolescente, fizera para a mãe e a irmã:
"Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs o mundo inteiro
Trago-te flores - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.
Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.

4.18.2018

FEIRA LITERÁRIA DE MAMBUCABA

Feira Literária de Mambucaba, em Angra dos Reis. Estarei lá dia 19 de maio, às 11 horas, com Mirian Bondim falando sobre pirataria na Costa Verde.


AUTÓGRAFOS EM SANTA CRUZ



Com o estudante de História Luiz Henrique (que comprou os exemplares de O Velho Oeste Carioca) e Tatiana Santos, que está à frente do NR Restaurante-Livraria, uma referência cultural no bairro de Santa Cruz. As fotos na parede são de Reinaldo Azevedo.


Com Mônica Ciraudo Reis, que também comprou os 3 exemplares do Velho Oeste Carioca no NR Restaurante-Livraria, em Santa Cruz. Seguem algumas fotos do espaço:







3.12.2018

DO SUBÚRBIO À ZONA RURAL

DO SUBÚRBIO À ZONA RURAL - André Luis Mansur (matéria escrita originalmente para a página do facebook Santa Paciência)
Foi na década de 80, mas precisamente em 1984, que vim a conhecer o bairro de Campo Grande, na zona oeste do Rio de Janeiro. Morava em Marechal Hermes, no subúrbio, e meus tios, que também moravam em Marechal, tinham se mudado para Campo Grande no ano anterior com os quatro filhos. Meu tio João trabalhava na Ótica Popular, que ficava na rua Augusto Vasconcelos, ao lado do Cine Palácio, com quase 2 mil lugares, considerado o maior, ou um dos maiores, cinemas do Rio de Janeiro. Tanto a Ótica quanto o cinema não mais existem, pois o prédio foi adquirido, no início dos anos 90, pela Igreja Universal do Reino de Deus, que no entanto não pode fazer mudanças estruturais no imóvel, tombado pelo município desde 1990.

                                                             Estação de trem de Marechal Hermes

Nesta primeira vinda ao bairro andei por uma Estrada do Cabuçu completamente diferente do que é hoje, 24 anos depois, em que temos engarrafamentos constantes, tal o incremento populacional e da rede de comércio e serviços que o bairro adquiriu nessas duas décadas e meia. O que eu vi e ainda continua circulando pela estrada é o velho 846 (Campo Grande-Rio da Prata), na época ainda da extinta Viação Santa Sofia, uma das principais da zona oeste na época.
Na localidade de Santa Rita, onde fica a casa dos meus tios, que tem esse nome devido à igreja de mesmo nome, todas as ruas, incluindo a deles, a Alto Parnaíba, eram, como se dizia, "de barro", sem a urbanização que só viria em 1991, na gestão do prefeito Marcelo Alencar. D
e frente para a casa fica a cadeia de montanhas da Pedra Branca, com a serra do Rio da Prata em destaque. Campo Grande, naquela época, ainda respirava muitos traços da vida rural, com vários agricultores passando com enxada na mão, carroças por todos os lados, bois e cavalos, o que contrastava com Marechal Hermes, um bairro que já nasceu urbanizado, em 1913. Outra diferença marcante é que nem todos os rádios pegavam e os canais de TV só eram sintonizados em UHF.

                                                                                Rio da Prata
O que mais me chamou a atenção no bairro, que é uma característica que ainda vejo hoje, mesmo com tantas mudanças, é a hospitalidade, o "bom dia" que você recebe de quem nunca te viu na vida, a solidariedade dos vizinhos (manifestada, principalmente, quando alguém passa mal), um clima de cidade do interior, poucos prédios (embora hoje exista uma quantidade bem maior), casas com quintal e árvores frutíferas, galinhas ciscando, vira-latas não muito receptivos e quitandas e armarinhos aos montes - e onde sempre dá para fazer um fiado.

                                                          Reportagem sobre o Palácio Campo Grande
Campo Grande passou a ser, então, uma espécie de "casa de campo", onde, mal chegava, já era convocado para as peladas na rua "de barro", para as festas juninas que praticamente desapareceram, as festas na Igreja de Santa Rita e aos shows de rock no Ítalo del Cima. E pude constatar, também, as diferenças entre dois bairros que, embora distantes apenas de 30 a 40 minutos de trem, tinham, e ainda têm, características bem diferentes. Um exemplo é a relação com o centro do Rio, que em Marechal Hermes é bem mais próxima. Várias vezes vi gente falando coisas do tipo "vou ali no centro e volto no início da tarde", frase impossível de ser dita em Campo Grande, já que a ida ao centro, para os moradores deste bairro, é uma autêntica viagem, com todos os cálculos logísticos possíveis.
Pesquisa de Fotos- Guaraci Rosa

11.01.2017

TIRADENTES CARIOCA - LANÇAMENTO

Amigos, irei lançar, no dia 30 de novembro, o livro "Tiradentes Carioca - as relações dos inconfidentes mineiros com o Rio de Janeiro", escrito por mim e Ronaldo Morais. O lançamento será na livraria Arlequim, no Paço Imperial, que fica na Praça XV (centro do Rio), das 18h às 20h30. Como tem um mês ainda pela frente, estamos começando a divulgação. Segue o release.

TIRADENTES CARIOCA - As relações dos inconfidentes mineiros com o Rio de Janeiro, de André Luis Mansur e Ronaldo Morais

"Tiradentes Carioca" fala das relações que os inconfidentes mineiros tiveram com o Rio de Janeiro, principalmente Joaquim José da Silva Xavier, seu personagem mais famoso, alçado à condição de mito após a proclamação da República. Tiradentes teve várias passagens pela então capital da mais rica colônia portuguesa, seja aquartelado com sua tropa no bairro do Leme, desenvolvendo projetos de canalização de rios que seriam apreciados pela rainha Maria I (a mesma que assinaria sua sentença de morte), curando pessoas com ervas medicinais e fazendo articulações políticas, muitas vezes de forma nada discreta.

O quarto livro da dupla André Luis Mansur e Ronaldo Morais (falecido em 2015) trata de um tema não muito explorado na Inconfidência Mineira, que é a relação que os inconfidentes mineiros, em especial Tiradentes, tiveram com pessoas e lugares no Rio de Janeiro, como Darcy Ribeiro ressaltou numa entrevista citada no livro: “Aqui ele viveu, aqui ele conspirou, aqui ele foi enforcado e esquartejado numa festa enorme em que a nobreza, os militares, o clero e a justiça, enfim, todos comemoraram a morte daquele que se levantou contra a rainha D Maria I, a Louca. E aqui para o Rio ele teve grandes projetos”.

Entre os projetos citados por Darcy Ribeiro estava o de canalizar águas dos rio Maracanã e dos córregos Catete e Andaraí para melhorar o abastecimento na área central da cidade, projeto que, apesar de ter chegado ao conhecimento da rainha Maria I, foi boicotado devido aos interesses daqueles que vendiam água aos moradores através de escravos e que teriam seus comércio prejudicado com o projeto de Tiradentes. "A canalização dos rios, se fosse concretizada, levaria água com muito mais facilidade aos moradores, através de chafarizes, o que daria grande prejuízo a estes comerciantes, que, aliás, tinham grande influência no Senado da Câmara, a instituição que poderia ajudar a aprovar os projetos de Tiradentes. Era um lobby muito poderoso na época, embora esta palavra ainda estivesse longe de ser usada".

A primeira passagem de Tiradentes pela cidade ocorreu com a sua tropa, o Regimento dos Dragões, onde servia como alferes. Devido à ameaça de uma invasão espanhola, o regimento ficou durante três anos no Reduto do Leme, construção que existe até hoje, e nesse período Tiradentes pôde conhecer bem a cidade. Suas andanças como militar, aliás, o fizeram desbravar como ninguém o Caminho Novo, a estrada que ligava Vila Rica (atual Ouro Preto) ao Rio de Janeiro e na qual era transportado o ouro das Minhas Gerais até o porto do Rio, onde era embarcado para Lisboa. O comandante de Tiradentes, Francisco de Paula Freire de Andrada, também era inconfidente e tinha uma relação forte com o Rio de Janeiro, pois era sobrinho de Gomes Freire de Andrada, governador do Rio de 1733 a 1763.

Mansur e Morais começam e terminam o livro falando do momento mais dramático da Inconfidência Mineira, o enforcamento de Tiradentes, dando todos os detalhes daquele fatídico 21 de abril de 1792. O livro não mergulha fundo no movimento em si, já que o foco aqui é outro, mas o explica de forma leve e agradável, dando destaque a personagens não tão conhecidos, e muito emblemáticos, como o padre José da Silva e Oliveira Rolim, o responsável pelo único momento de tiroteio na Inconfidência Mineira, e o advogado carioca José de Oliveira Fagundes, que fez o que pôde para tentar salvar os inconfidentes presos.

Os autores ressaltam que muitos comerciantes cariocas, boa parte ligados à maçonaria, apoiaram o movimento, interessados na independência de Portugal. José Joaquim da Maia e Barbalho era filho de um desses comerciantes. Estudante na Universidade de Coimbra, em Portugal. José Joaquim teve contato com Thomas Jefferson, então embaixador norte-americano na França, e mostrou a ele os planos da Inconfidência Mineira. Jefferson se interessou bastante pelo assunto e prometeu ajuda através de uma esquadra. A grande questão levantada neste encontro, e que já foi estudada por muitos pesquisadores, é a possível presença de Tiradentes no encontro com Thomas Jefferson.

Mansur e Morais também mostram que Joaquim Silvério dos Reis, o traidor do movimento com a sua "delação premiada", não teve uma vida fácil no Rio de Janeiro. Foi preso durante alguns meses na Ilha das Cobras e chegou a sofrer atentados na cidade, provando que a Inconfidência Mineira de fato tinha muito apoio no Rio. Só depois é que ele receberia as benesses pela sua denúncia do movimento.

Os autores também fazem uma descrição detalhada de como era o Rio de Janeiro naquele final do século XVIII e na parte final do livro a cidade assume o protagonismo da história, pois os inconfidentes foram sendo presos e levados para os seus porões e calabouços escuros e úmidos. Nesse ponto Mansur e Morais fazem um levantamento minucioso do destino e das datas de prisão de cada um deles, corrigindo, por exemplo, um erro muito comum, repetido até hoje, de que Tiradentes teria ficado preso na Cadeia Velha, demolida em 1922 e onde fica o prédio da Assembleia Legislativa (Alerj), que inclusive ostenta uma estátua do alferes na frente do prédio. Tiradentes, na verdade, ficou preso na Ilha das Cobras (sua cela ainda existe no prédio da Marinha) e no Hospital da Ordem Terceira da Penitência, que ficava no Largo da Carioca. Ele só foi para a Cadeia Velha, junto com os outros inconfidentes, nos três dias de leitura da sentença (de 18 a 21 de abril de 1792), ficando todos acorrentados na Sala do Oratório, enquanto em volta a população respirava ansiosa pelo desfecho daquela história que se arrastava por três anos nas prisões da cidade: "Por todo o centro da cidade do Rio de Janeiro havia um frisson, um burburinho, pessoas amontoadas pelas ruas enfeitadas, nas janelas dos sobrados, espiando pelas rótulas, todos na expectativa de algo grande, de algo que iria marcar a História não só da cidade, como do Brasil".

Sobre os autores:

André Luis Mansur é jornalista e escritor, autor de 11 livros, entre eles "O Velho Oeste Carioca", "Marechal Hermes - a história de um bairro" (Edital), "A rebelião dos sinais" (Edital) e "Fragmentos do Rio Antigo" (Edital), este com Ronaldo Morais. Trabalhou em jornais como "Tribuna da Imprensa", "Jornal do Brasil" e "O Globo", onde publicou mais de cem críticas literárias.

Ronaldo Morais (in memoriam) era médico e pesquisador da História do Rio de Janeiro. Fotografou, desde a década de 70, diversos monumentos históricos do Rio de Janeiro. Publicou, junto com André Luis Mansur, os livros "Fragmentos do Rio Antigo", "Violência no Rio Antigo" e "A invasão francesa do Brasil", todos pela Edital. Ronaldo faleceu em 2015, no Rio de Janeiro.

LANÇAMENTO: 30 DE NOVEMBRO, ÀS 19h

, NA LIVRARIA ARLEQUIM, PAÇO IMPERIAL. (PRAÇA XV DE NOVEMBRO, 48, CENTRO DO RIO)

7.31.2017

NA FLIP DE LIMA BARRETO

Amigos, participei pela primeira vez da Flip, em Paraty, na mesa Leitura e Comunidade, com o escritor Thassio Ferreira, mediada por Valéria Martins. Foi uma bela experiência, principalmente porque a Flip deste ano homenageou um dos meus escritores preferidos, Lima Barreto, que fez do subúrbio e dos suburbanos protagonistas de sua obra. (as fotos são de Mirian Bondim).



7.11.2017

A REBELIÃO DOS SINAIS EM SANTA CRUZ

O professor Helcio Gurgel vai encenar minha peça "A rebelião dos sinais" (que faz parte do livro de mesmo nome) com os alunos da Escola Municipal Emiliano Galdino, no bairro de Santa Cruz. A convite dele e da direção da escola (que me recebeu muito bem), fui assistir ao ensaio do primeiro ato, uma experiência muito gratificante, pois ver a garotada interessada em cultura, mesmo em um bairro tão esquecido pelas autoridades, apesar de sua riqueza história, é incrível. O mais bacana é no final os alunos pedirem para autografar os cadernos deles, tirar fotos e fazer perguntas sobre o trabalho de escritor. Uma aluna me disse: "A gente nunca tinha visto um escritor, venha mais vezes na nossa escola". Com certeza irei, Izabelle, até mesmo para ver a peça sendo encenada. Na peça em si, os sinais e acentos se revoltam por estarem excluídos da linguagem virtual e resolvem sair de livros, jornais e revistas.


CONVERSA COM ALUNOS

A convite da professora Ana Santos, estive na Escola Municipal Joaquim da Silva Gomes, em Santa Cruz, onde os alunos estão muito empenhados em estudar a história do bairro, que está completando 450 anos. Com certeza nunca respondi a tantas perguntas. Foi muito gratificante ver a garotada tão interessada na história deste bairro tão importante para o Rio de Janeiro.




ESPAÇO RETRÔ EM SEPETIBA

Conheci o Pedro Fraga, dono do Espaço Retrô, em Sepetiba, um lugar mágico, se é que posso chamar assim, pois o Pedro simplesmente criou um museu na casa dele, com uma variedade tão rica de objetos antigos que só indo lá para ter uma ideia precisa da dimensão do incrível trabalho dele. Este é um dos espaços e entre nós está a replica do Coreto de Sepetiba, na qual ele está trabalhando atualmente. Além dos objetos antigos, Pedro também procurar utilizar material reciclável nas suas criações, como no caso do coreto. Para quem quiser conhecer, o endereço é Rua Marema, 130, em Sepetiba, pertinho da praia. É bom ligar antes para agendar uma visita: 98830-0608. Esta é a página do face, para quem quiser conhecer um pouco mais: https://web.facebook.com/Espa%C3%A7o-Retr%C3%B4-1096034587…/
Foto de Paulo de Mello.



CONSULTORIA NO TREM

"Comprar barato não é vergonha. É inteligência e sabedoria".

(De um camelô no trem da Central, consultor econômico)

"Aproveita que tá baratinho, lá fora tá o osso! Cabral acabou com tudo!"

(De outro camelô no mesmo trem, este, além da consultoria econômica, também faz análises políticas)


ANIVERSÁRIO DE SEPETIBA

Com Rebeca Lamberti, jovem cheia de ideias e projetos bacanas para Sepetiba, presente ao aniversário de 450 anos do bairro e para quem autografei "A invasão francesa do Brasil" com muito prazer. A outra foto é dela, mostrando a comissão julgadora (da qual participei) que avaliou os alunos do Ciep Ministro Marcos Freire declamando poemas sobre Sepetiba.


O CORSÁRIO CARIOCA

Belo texto do jornalista Gustavo de Almeida, que esteve com
a gente no passeio do Corsário Carioca neste fim de semana. O próximo será dia 29. (as fotos também são dele)


É uma felicidade quando a gente encontra coisas que ainda funcionam no Rio de Janeiro - ultimamente só ouvimos falar de crise e violência.
Mas três horas a bordo do O Corsário Carioca nos dão esperança. Porque a primeira coisa que salta aos olhos é a honestidade. Professores, escritores (caso do André Luis Mansur Baptista), atores, todos reunidos para proporcionar a crianças (e seus adultos) um passeio de barco incrível pela Baía de Guanabara. O comando do grande Marcelo Senra, dando aulas de simplicidade e atenção, e mais o pessoal do Tá na Rua encenando Estácio de Sá, Vasco da Gama, Villegaignon, José de Anchieta e Araribóia (notem que coloquei o Vasco em segundo) nos proporcionaram uma manhã agradabilíssima.



Ver de perto a Ilha Lage, as fortalezas, a Ilha Fiscal, ver um ângulo diferente do Museu do Amanhã, são coisas que todo carioca deveria tentar fazer. O Corsário Carioca é um barato, e quem tem criança vai curtir muito - os pequenos ainda podem fazer a Oficina de Especiarias, aprender sobre cada uma, além de se divertir com as lutas de espada entre Estácio de Sá e Villegaignon.
Um projeto simples, honestíssimo, instrutivo e que nos dá ânimo para encarar essa cidade.
PS - Biscoito Globo com mate é combinação perfeita, parabéns ao time Corsário pela ideia!


2.09.2017

FERRUGEM


"Ferrugem", de Marcelo Moutinho. Editora Record.

Nos 13 contos de "Ferrugem", novo livro de Marcelo Moutinho, transitam personagens que encontramos nas esquinas, ônibus, praias, bares, boates e em outros cenários, inusitados ou nem tanto, de um Rio de Janeiro que o autor, carioca de Madureira, conhece tão bem. O estilo nascido em seu primeiro livro, "Memória dos barcos", de 2001, permanece aqui, no entanto mais encorpado, com pleno domínio de uma estrutura narrativa que muito mais sugere do que afirma.

Moutinho foge dos estereótipos de uma cidade caótica por natureza, com suas doses de violência cada vez mais intensas e surpreendentes, e todos os demais problemas que a metrópole de um país com tantos problemas sociais e políticos corruptos pode carregar. Ele desconstrói a expressão "cidade partida", criada por Zuenir Ventura, ao situar seus personagens em Honório Gurgel, no Lins, na Tijuca, no centro da cidade, na Urca e, claro, em Madureira, todos com os mesmos problemas,
angústias e esperanças, como o rapaz que se apaixona por uma passageira no ônibus ("362"), o casal que comemora o aniversário da esposa em um restaurante chique com uma frieza impressionante, ("Jantar a dois"), o intérprete de músicas de Roberto Carlos que se prepara para o show de sua vida numa boate da Lapa ("Rei") e a expectativa de uma menina em conhecer o Maracanã, apesar da relutância do pai, traumatizado com a derrota do Bangu para o Coritiba na final do brasileiro de 85 ("Domingo no Maracanã").

O conto, que no Rio de Janeiro já reverenciou mestres como Machado de Assis, Lima Barreto, João Antônio, Clarice Lispector, Fernando Sabino, Drummond, entre muitos outros (não todos nascidos na cidade, mas que a utilizaram como matéria-prima de boa parte de sua obra), encontra na obra de Moutinho, que também é um ótimo cronista, características essenciais de um estilo literário que permanece em plena ebulição, como a clareza e a concisão, o olhar sensível do cotidiano das ruas e o clímax, não necessariamente impactante, mas provocativo e reflexivo.

Muitos dos seus personagens se alimentam da nostalgia, acrescida aí de boas doses de melancolia, solitários na multidão, pessoas que por algum motivo não se transformaram naquilo que desejavam, seguiram por caminhos conflitantes e de repente se veem perplexas diante de uma realidade da qual não gostariam de fazer parte. "O que trinta anos não fazem com uma rua. Não conheço mais ninguém. Andei uns trezentos metros, parei em quatro quiosques e ninguém. Era mato sobre areia, lembra? E os trailer com cachorro-quente da Geneal" (do conto "As praias desertas").

Em alguns contos temos mulheres e crianças no papel de narradoras, nestes casos o autor do livro mergulha com naturalidade em outros papéis, enfrentando as agruras do machismo e a indiferença em relação às fantasias infantis ou, como no caso do primeiro conto, "Xodó", uma aberração cometida pelo irmão mais velho da menina. Variando de cenários, de gêneros e classes sociais, Marcelo Moutinho vai construindo uma obra rica de vozes e perspectivas, todas dentro de uma única cidade, fazendo do "seu quintal" um mundo onde o olhar sobre o outro é o personagem principal.

1.21.2017

TEORIAS DA CONSPIRAÇÃO



De cada dez pessoas que você encontrar na rua, pelo menos oito vão dizer que o ministro Teori Zavascki foi vítima de um atentado. Pessoa fundamental na delação premiada da Odebrecht, Teori era, a julgar pelas conversas telefônicas reveladas entre Sarney, Romero Jucá e Renan Calheiros, entre outros, não era uma pessoa lá, digamos, "flexível", daí a sua morte ter sido, com certeza, comemorada por muita gente, embora, diante das câmeras, todos lamentassem.


Mesmo que sejam apresentadas provas contundentes contra esta versão, não há jeito. Os autores das teorias da conspiração não acreditam em provas contundentes, mesmo que sejam descobertas pelo próprio autor da teoria da conspiração. Em tudo há algo além do que foi dito, esta é a premissa básica da teoria da conspiração. E, convenhamos, suas versões são sempre bem mais interessantes do que o que realmente possa ter ocorrido.


Outras teorias da conspiração famosas no Brasil referem-se ao acidente aéreo que matou o presidente Castelo Branco, em 18 de julho de 1967, ao acidente de automóvel em que morreu Juscelino Kubitschek, em 22 de agosto de 1976, e à morte de João Goulart, vítima de ataque cardíaco, em 6 de dezembro de 1976, todas colocadas na conta da linha dura da Ditadura Militar. Há teorias fascinantes, como a de que Hitler não se suicidou no seu bunker, em Berlim, no final de abril de 1945, quando o Exército Vermelho já estava babando por encontrá-lo vivo. Há quem diga que o Führer conseguiu fugir e teria morrido na Argentina, ou mesmo em São Paulo. Há outras toerias clássicas, como as de que Elvis não morreu, Jim Morrison não morreu, que Getúlio teria sido assassinado etc. Se você argumentar o contrário, vão te chamar de ingênuo, no mínimo, e dizer algo do tipo: "Tu já viu o corpo? Deixa de ser bobo, você não sabe do que eles são capazes!" O "eles", no caso, é o pronome-alimento fundamental das teorias da conspiração.


Uma que ouvi recentemente, e que achei até divertida, foi a de que Tiradentes não teria sido enforcado, e sim outra pessoa. Ele teria sido ajudado pela Maçonaria e morado no Rio de Janeiro, trabalhando como barbeiro durante o período da Corte de D. João. O detalhe é que Tiradentes era conhecidíssimo no Rio de Janeiro, portanto teria que ser colocado um sósia perfeito no lugar dele na forca para que ninguém reparasse na troca, mas o que são esses "detalhes" diante de uma legítima teoria da conspiração?


Mas a mais fascinante de todas para mim, mais até do que a que diz que George Bush já sabia que haveria o atentado no World Trade Center (tese defendida pelo cineasta Michael Moore e na qual confesso que acredito), foi a da Copa de 98, a de que a misteriosa convulsão de Ronaldinho foi na verdade apenas uma justificativa para a derrota do Brasil para a França, derrota que estava acertada entre toda a delegação brasileira e que todos receberiam uma fortuna da Nike.


E cadê o Zagalo que não desmente? Hum, aí tem...

1.11.2017

A BATALHA DE URUÇUMIRIM

                                              Atores do grupo O Corsário Carioca

Há 450 anos acontecia, na região que hoje compreende parte da zona sul do Rio de Janeiro, a batalha de Uruçumirim, que consolidou a fundação da cidade (ocorrida em 1º de março de 1565) e provocou a expulsão de franceses e seus aliados tupinambás (ou tamoios, que significam "os mais antigos, os avós").

Os portugueses, comandados pelo governador Estácio de Sá e por seu tio, Mem de Sá, estavam situados na pequena faixa de terra compreendida entre os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar, que hoje é a Praia de Fora e abrange a Fortaleza de São João. Ali, durante dois anos, eles foram atacados com frequência pelos índios aliados dos franceses em canoas que se aproximavam de forma soturna da pequena ocupação portuguesa. Um poderoso sistema de aldeias, que ia da foz do Rio Carioca, na atual Praia do Flamengo, se prolongava até o morro de Uruçumirim, hoje o morro da Glória. Havia também uma aldeia importante na Ilha da Maracajá, atual Ilha do Governador, que também já foi chamada de Paranapuan, entre outros nomes.

Como já se sabia que franceses e tupinambás estavam muito bem entrincheirados, tanto nas aldeias de Uruçumirim quando na Ilha de Maracajá, a expedição de combate foi preparada com muito cuidado. A esquadra contava com seis embarcações. O padre José de Anchieta, o Cacique Araribóia e outro sobrinho de Mem de Sá, Salvador Correia de Sá, também estavam presentes.
Ao amanhecer do dia 20 de janeiro, após uma missa comandada por Anchieta e o bispo D. Pedro Leitão, as tropas se dividiram em três, comandadas por Estácio de Sá e Gaspar Barbosa, que lutariam em Uruçumirim, e outra que lutaria na ilha de Maracajá comandada por Cristóvão de Barros. Com o reforço, os portugueses partiram para o combate. A batalha durou três dias, com muitos mortos e feridos de ambos os lados, entre os quais o próprio Estácio de Sá, atingido por uma flecha no rosto e que o fez sofrer durante um mês até a sua morte, em 20 de fevereiro, nas instalações portuguesas da Praia de Fora. O cacique tupinambá Aimberê também morreu na batalha e sua cabeça foi colocada numa estaca. A conquista da Ilha de Maracajá, também chamada de Paranapuan, entre outros nomes, também foi difícil. Outro que perdeu a vida foi Gaspar Barbosa, na batalha de Uruçumirim.
Os franceses e tupinambás sobreviventes ainda permaneceram em terras que iam da atual cidade de Niterói a Cabo Frio até 1575, quando foram dizimados a mando do governador Antônio Salema. Os portugueses iriam ocupar o hoje extinto Morro do Castelo. Em torno dele havia charcos, pântanos, lagos e mangues, um imenso desafio que os desbravadores da cidade iriam enfrentar ao longo dos séculos.

11.30.2016

Entrevista

Entrevista dada a Juliana Fiúza, da página Papo de Guia

André Luis Mansur é jornalista e escritor, Trabalhou no Jornal do Brasil, O Globo, Tribuna da Imprensa, além de ser o autor de preciosos livros sobre o Rio, como o “O Velho Oeste Carioca” “Marechal Hermes – a história de um bairro” e “A Invasão Francesa do Brasil: o corsário Du Clerc ataca o Rio por Guaratiba”. 
Quem veio primeiro? O jornalista ou o escritor?
André- Quem veio primeiro foi o curso de jornalismo, na Escola de Comunicação da UFRJ, a Eco, mas foi lá mesmo que me interessei em me tornar escritor. Até então nunca havia pensado nisso

Você é morador da Zona Oeste, foi isso que lhe motivou a escrever os livros “Velho Oeste Carioca” ?
André- Sim, eu moro em Campo Grande e, no final dos anos 90, eu trabalhava em duas enciclopédias no jornal O Globo, “O Globo 2000” e “Brasil 500 anos”, e foi ali que me interessei em trabalhar com pesquisa histórica. Na época, muitos livros foram lançados sobre a História do Brasil e do Rio de Janeiro, mas nada sobre os subúrbios e a zona oeste, daí achei que essa lacuna tinha que ser preenchida.

Como foi o processo de pesquisa e criação dos outros volumes?
André – Fiz muita pesquisa em instituições como a Biblioteca Nacional, Biblioteca do CCBB, Arquivo Nacional, material acadêmico, jornais e revistas antigos, conversas com moradores etc. A internet também ajudou muito, pois hoje muitas fontes primárias estão digitalizadas e disponíveis online.

Você acha que há um certo abandono da rica história da Zona Oeste por parte dos seus moradores? Se sim, isso também lhe motivou a escrever os livros?
André- Eu acho que já foi pior, hoje vejo que já há um interesse maior, muita gente atuando em prol da memória da região, lutando por seu patrimônio, convidando estudantes para visitarem os pontos históricos etc. Vejo um interesse muito grande pelos meus livros na região, esse é o melhor retorno que eu poderia ter.

Você escreveu um artigo sobre o hábito de flanar pelo Rio que está voltando ao cotidiano carioca, mesmo sem ele saber que esse ato possui um verbo que o defina e que já era usual nos séculos passados, e habilmente retrata a importância que esse hábito tinha na vida dos grandes escritores como João do Rio, Lima Barreto e Machado de Assis. E  você, também possui esse hábito?
André –  Tenho sim, sempre tive, sempre gostei muito de andar pelas ruas da cidade e observar tudo em volta. E isso bem antes de conhecer a obra de Lima Barreto, João do Rio e Machado de Assis, três escritores que conseguiram muito material para seus livros com esse saudável hábito de flanar pela cidade. 

Os seus livros trazem curiosidades marcantes e pouco difundidas, principalmente no ensino regular. Diria que seus livros tratam de uma parte da história considerada politicamente incorreta?
André – Eu acho que meus livros abordam aspectos da História que não são muito explorados nas escolas porque a História regional, a História dos bairros, ainda não tem um espaço generoso nas salas de aula, o que é uma pena, pois o aluno conhecer o passado do local onde ele mora poderia ser um aliado importante para que ele se sentisse identificado com o seu espaço.

De todos os livros escritos, qual é o seu favorito?
André – Eu acho que é o volume I do Velho Oeste Carioca, foi o que abriu muitas portas para mim. 

Como é o seu cotidiano? Você costuma ler muito e quais livros não podem faltar na prateleira de um amante da história da cidade do Rio de Janeiro?
André – Procuro ler e escrever bastante, todos os dias, sempre que possível. Há autores imprescindíveis para quem quer estudar a História da cidade, como Noronha Santos, Monsenhor Pizarro, Moreira de Azevedo, Joaquim Verissimo Serrão, Luiz Edmundo e Brasil Gerson. Estes são os antigos, entre os atuais temos alguns a destacar, como o Ruy Castro, o Nireu Cavalcanti e o arqueólogo Cláudio Prado de Mello. Temos também muitos sites e blogs importantes sobre a História do Rio, como o de Ivo Korytowski, Literatura e Rio de Janeiro.

Como o carioca poderia resgatar esse amor pela sua história? Qual seria a importância em ter um carioca que valorizasse seu passado e que benefícios isso poderia trazer para a sociedade?
André – Lendo muito sobre a História da cidade, comprando meus livros (rs), mas também, e isso vem acontecendo muito, participando de passeios e roteiros históricos pela cidade, como o Guiadas Urbanas, o Pé de Moleque e O Corsário Carioca, este pela Baía de Guanabara e que eu participo sempre com meus livros.

Você escreveu um livro sobre a história do bairro Marechal Hermes, a motivação veio de sua infância no bairro? Quais as lembranças mais marcantes que o senhor tem?
André – Sim, morei em Marechal até os 21 anos e é um bairro que eu amo muito. Procurei mesclar memórias pessoais com informações históricas, para ficar bem equilibrado. O que recordo muito é a tranquilidade do bairro, as ruas largas, os sobrados e uma época em que minha família era grande e morava todo mundo perto. 

Desde pequeno já possuía o amor pela história de onde você morava, ou isso veio com o passar dos anos?
André – Eu sempre fui um aluno muito bom em História, mas nunca havia me interessado pela História do Rio, isso só veio mesmo já depois dos 20 e poucos anos. Eu era para ter feito História na faculdade, mas meu irmão já era jornalista e eu fiquei empolgado em seguir a profissão. Não me arrependo não, o jornalismo me ajudou a ter um texto bem enxuto e a lidar com uma grande quantidade de informações.

Você acredita que os passeios turísticos por pontos históricos podem incentivar a população a ter uma consciência sobre seu passado histórico e passar a valorizá-lo?
André – Sim, com certeza, e isso já vem acontecendo muito, em roteiros como os que eu citei na resposta da pergunta 9 e também naqueles organizados individualmente, como os passeios do professor Milton Teixeira.

Para finalizar, não deixando de agradecer o prazer desta entrevista, gostaria de comentar ou acrescentar algo sobre seus projetos atuais ou futuros?
André – Gostaria de falar um pouco sobre Ronaldo Morais, o pesquisador que eu conheci em 2009 e com quem fiz três livros e ainda temos mais um para lançar ano que vem. Ronaldo faleceu no ano passado e eu procuro sempre citar o nome dele como um grande pesquisador do Rio de Janeiro. Ele fazia um trabalho com um grupo de amigos nos anos 70 e 80 muito interessante, fotografando tudo o que achavam interessante na cidade. Esse acervo está sendo espalhado pelos nossos livros. Fica aqui a homenagem a ele.

A lista completa de sua obra literária:
  • O Velho Oeste Carioca (Vol. I)
  • O Velho Oeste Carioca (Vol. II)
  • O Velho Oeste Carioca (Vol. III)
  • Marechal Hermes – a história de um bairro
  • O Peão Poeta
  • Fragmentos do Rio Antigo
  • Violência no Rio Antigo
  • A Invasão Francesa do Brasil – o corsário Du Clerc ataca o Rio de Janeiro por Guaratiba
  • A rebelião dos sinais
  • Manual do Serrote

11.23.2016

CONSIDERAÇÕES SOBRE O COMÉRCIO DE LIVROS



Outro dia um autor me perguntou por que os escritores ganhavam apenas 10% do valor do livro. Como, além de autor, trabalhei em livraria, fui editor, imprimo e distribuo meus livros, além de ter escrito críticas literárias em grandes jornais cariocas e ainda atuar como jornalista no meio literário, dei a pequena explicação que se segue. Espero que ajude a entender como funciona o mercado livreiro.

As livrarias ficam com 40% a 50% do valor dos livros (mais à frente vou explicar o porquê dessa porcentagem). Ou seja, sobram de 50% a 60% para ser repartidos entre o autor, o editor, o distribuidor e a gráfica. Se for uma editora grande, que consiga fazer boas tiragens, no caso, pelo menos uns 3 mil livros por título, dá para conseguir um preço melhor, já que, quanto mais livros você faz, mais cai o valor dele na gráfica. Mas a maior parte do mercado editorial brasileiro é formado por editoras pequenas, que muitas vezes fazem apenas 100, 300 ou 500 livros no máximo, e aí nem sempre o livro sai com um bom preço. No caso de grandes editoras, muitas têm a própria gráfica, o que facilita um pouco mais.

O distribuidor fica com 5%, ou mais um pouco, se o livro for distribuído em outras cidades e estados. Algumas editoras grandes costumam ter sua própria distribuidora, o que também facilita bastante. Na maioria das vezes, no entanto, se os livros forem distribuídos apenas na cidade onde for lançado, o próprio editor é quem o distribui. De qualquer forma, não deixa de ter o custo do transporte.

Após os custos da livraria, da distribuição e da gráfica, o que sobra fica entre o autor e o editor. O que vi muitas vezes é que o que sobra para o editor é um valor perto do que sobra para o autor, 10%, ou um pouco mais. Quando o livro recebe algum tipo de patrocínio, geralmente através de leis de isenção fiscal, aí o editor consegue um ganho um pouco maior, mas nem sempre é fácil trabalhar assim, pois o projeto precisa ser aprovado e é preciso captar recursos. Na maioria das vezes são livros feitos com os custos da própria editora.

Muitos podem perguntar: por que as livrarias ficam com a maior parte do bolo? Bem, as livrarias têm um espaço físico. Se for próprio, tem que pagar o IPTU, que geralmente não é baratinho, mas na maioria das vezes é um espaço alugado, e o aluguel comercial no Brasil, principalmente de alguns anos pra cá, teve um aumento absurdo. Aí também são incluídas despesas como conta de luz (que também é altíssima), contas d´água, vários impostos e taxas, funcionários e seguro da loja e dos livros. Qualquer dano ao livro, seja um simples amassado, já o deixa imprestável para venda e quem paga o prejuízo é o livreiro. Fora os roubos de livros, que acontecem com frequência.

O mercado dos livros eletrônicos (e-books) ainda é muito pequeno no Brasil, mas quase todos os livros hoje também são lançados nesta versão, o que elimina os custos de gráfica e distribuição, além de poupar muitas árvores. Neste caso, as livrarias não são totalmente excluídas do processo, pois as livrarias também vendem e divulgam e-books em seus sites.

O Brasil tem muito poucas livrarias, geralmente concentradas na área central das capitais. Já fui a cidades até de meio porte em que não se via uma livraria, no máximo uma papelaria que vende livros, na maioria didáticos e best-sellers. Aqui no Rio, distribuo meus livros nas livrarias na área central da cidade, mas onde moro, na zona oeste, há pouquíssimas livrarias. Daí pensei: por que não botar nas bancas de jornais? As bancas são pequenas livrarias, pois todas elas recebem livros para vender. É claro que depende do interesse do dono da banca. Os que veem o livro como algo importante os colocam na entrada da banca, em locais privilegiados. Já os que não se interessam, deixam bem no fundo, às vezes nem tiram da caixa. Posso dizer que as bancas que vendem meus livros sempre me dão um bom retorno, tanto de vendas quanto de divulgação. Outros locais onde vendo e divulgo meus livros são bares e restaurantes, novamente ressaltando que só em lugares onde os donos se interessam por livros, pois são eles que fazem a propaganda. E aí pergunto: se o dono de uma loja de roupas quiser botar o seu livro no balcão para divulgar, ou mesmo vender, qual o problema? O importante é fazer o livro chegar a todos os lugares.

Eventos também são sempre bem-vindos para divulgar o livro, não apenas literários, mas desde o aniversário de um bairro até uma feira comercial, contanto que deem um espaço para você, não há problema. No meu caso, que tenho muitos livros sobre a História da cidade, frequento muitos roteiros históricos, como os do grupo Pé de Moleque e os do Corsário Carioca, pela Baía de Guanabara.

Espero que esta pequena explicação sobre como funciona a comercialização dos livros tenha ajudado, assim como também as dicas de distribuição e divulgação, principalmente para autores que estão começando. Em um país onde o número de leitores, em relação ao tamanho da sua população, ainda é muito pequeno, o fundamental é fazer o livro circular, seja comercialmente, seja gratuitamente, como faço com os atentados literários nos bancos dos trens da Central do Brasil.








10.27.2016

CRÔNICA DO TREM

A vendedora entra no trem contando, meio revoltada, bem alto, que o sujeito pegou a sua pá emprestada e devolveu com outro cabo. "E ainda queria me cobrar dez reais, o desgraçado! Troca o cabo novinho da minha pá! Meu marido foi se meter e eu disse: não se mete não que o trato foi comigo!" Diante dos risos gerais, ela também começou a botar mais humor na história e ainda disse, apesar do forte sotaque nordestino, que era carioca. O vendedor que vinha atrás completou: "Ela é carioca da clara, da clara!" Depois, quando ela já estava mais na frente, ele ainda falou: "Ó, cuidado que eu chamo ela. Ela é braba. O marido dela que sabe!" Apesar da descontração que tomou conta do recinto, ficamos sem saber se o tal sujeito levou uma pazada na cabeça, com cabo trocado ou não.

10.25.2016

ESPECIARIAS: O TEMPERO DAS GRANDES NAVEGAÇÕES


  Na origem das grandes navegações portuguesas, estava a busca pelas especiarias, temperos e condimentos como pimenta-do-reino, açafrão, cravo-da-índia, canela, gengibre, noz-moscada e muitos outros. Seu comércio era controlado no Mar Mediterrâneo por reinos como Gênova e Veneza, que os compravam de comerciantes árabes. A partir de 1453, com a conquista de Constantinopla pelos turco-otomanos, esse comércio ficou ainda mais restrito.

Qual a importância das especiarias? Numa época em que não havia eletricidade, ou seja, não dava para armazenar comida em geladeiras ou freezers, as especiarias conservavam os alimentos, não com tanta eficiência, é verdade, mas pelo menos disfarçava a rápida degradação da carne, por exemplo. Também eram muito usadas na medicina, em perfumes etc. Boa parte delas vinha da Índia, mas como o caminho até lá estava bloqueado, a saída para Portugal seria contornar a África, como venho contando aqui em outras colunas. No caso da Espanha, o caminho foi seguir para o ocidente, como o fez Cristóvão Colombo, que era genovês.

A pimenta-do-reino existia em abundância na Índia, seus grãos são secos e moídos e o sabor picante característico tem como origem a substância piperina. O cravo-da-Índia, apesar do nome, é originário das Ilhas Molucas, na Indonésia (também conhecidas como ilhas da especiarias). Muito usado como aroma nos alimentos e também para fins medicinais, na China ele era aplicado também como antisséptico bucal. É extraído dos botões de uma flor muito perfumada e estava, junto com a noz-moscada, entre as mais caras especiarias. A canela é nativa do Sri Lanka, na Ásia, antigo Ceilão, é uma árvore que tem as cascas processadas por um método de ressecamento. A noz-moscada também era encontrada nas Molucas, mais precisamente na ilha Banda, onde o português Afonso de Albuquerque chegou, em 1512, um ano após ter conquistado Malaca, então o centro do comércio asiático. O gengibre, que também tem um sabor picante, é originário da ilha de Java, da China e da Índia, e já era usado havia muitos séculos para problemas de garganta. O açafrão é uma pequena flor lilás, que serve para colorir tecidos de um amarelo vivo e também proporcionar um belo aroma aos alimentos. É preciso colher 50 mil flores para se conseguir um quilo de açafrão. "Por isso, desde que é conhecido, há mais de 5 mil anos, o açafrão tem sido a especiaria mais cara do mundo. Hoje é cultivado na Índia, no Irã e na Espanha". ("A magia das especiarias", de Janaína Amado e Luiz Carlos Figueiredo).

Estas são apenas algumas das especiarias. Por elas, os portugueses enfrentaram batalhas, principalmente na Índia, e abarrotaram seus navios com os famosos temperos e condimentos, estabelecendo uma linha de navegação comercial que iria prosperar muito, embora houvesse contratempos, como a criação da Companhia das Índias Orientais pelos holandeses, que disputou com os portugueses o rendoso comércio, além dos constantes ataques de piratas e corsários.
Muitas destas especiarias foram descobertas pelos europeus alguns séculos antes, durante as cruzadas, as guerras contra os muçulmanos pela reconquista da chamada terra santa, entre os séculos XI e XIII. Portanto, quando você estiver usando alguns desses temperos e condimentos, hoje acessíveis em qualquer lugar, saiba que eles foram motivos de guerras e conflitos, mas também acabaram impulsionando o contato entre povos muito distintos e também o desenvolvimento da navegação em alto-mar.

10.24.2016

O NOME DA RUA

A pequena história que vou contar é ficcional, mas acho que representa bem o que acontece quando alguém vai dar uma informação sobre a localização de uma rua no subúrbio carioca, região que conheço bem. 
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É aniversário da mãe do amigo de Carlinhos, em um bairro do subúrbio carioca. Eles moravam perto da casa de Carlinhos, também no subúrbio, mas se mudaram. É a primeira vez que Carlinhos vai lá, por isso, pelo telefone, Marli, mãe do seu amigo, tenta explicar a Carlinhos como chegar. Ele a chama, carinhosamente, de tia.

- Quando o ônibus entrar na rua do supermercado, você vai descer dois pontos depois, onde tem uma vidraçaria, a vidraçaria do Alcides. Ela vai tá fechada porque é domingo, mas tem uma placa grande, não tem erro.

- Tá, tia, mas...

- Aí você entra na rua do lado, de paralelepípedo. Vai passar o depósito de gás, a padaria do seu Alberto e vai entrar na segunda rua à esquerda, onde tem um sacolão que vai tá aberto.

- Mas, tia, eu...

- Entra nessa rua, tem uma pracinha, no final dela...

- Não, tia, desculpe interromper, é só me dar o endereço que eu vejo no google maps.

- Ver aonde?

- No google. Na internet. É fácil.

- Ah, meu filho, olha, vai por mim, anota isso aí que eu te falei que é mais fácil. Tá anotando?

     Carlinhos, resignado, diz que tá anotando tudo. Depois de mais algumas referências, que incluem a oficina do seu Germano e o brechó da Solange, Marli conclui:

- Virou a esquina, é a terceira casa, do lado direito da calçada. Portão verde. Tá meio descascado, mas a gente vai pintar, não repara não.

- Que isso, tia, claro que não. Tá tudo anotado, me dá só o nome da rua, tia, vai que eu me perca, eu sou meio atolado, eu sempre gosto de saber o nome da rua. (Carlinhos faz mais uma tentativa)

- Rua? Ah, tá. É a rua B.

- Rua B? Mas não tem nome não, tia?

- Ih, meu filho, peraí, a gente tá morando há pouco tempo e só chamam de rua B. Peraí.

     Passam-se alguns segundos...

- Pronto, meu filho, anota aí: é Carlos Delgado de Carvalho. Nome bonito, não?

- Sim, tia, muito bonito.

     Eles se despedem e Carlinhos já joga o nome no google maps, usa street view e já planeja todo o caminho que vai fazer. No domingo, ao chegar, sem problemas, à casa dos amigos, Marli pergunta:

- Não foi fácil, meu filho?

- Muito fácil, tia, muito fácil, com a explicação da senhora, foi bem tranquilo.

     E Marli dá um sorriso de satisfação. Carlinhos,instintivamente, passa a mão no bolso, onde está o celular.
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Bem, não sei se acontece assim com todo mundo, mas posso garantir: em qualquer explicação de localização de rua no subúrbio carioca, sempre vai ter um depósito de gás como referência, é de lei!







10.18.2016

CRÔNICA DA PROVÍNCIA

          O homem que vende bolos e doces passa religiosamente às quatro da tarde e logo os cachorros das redondezas começam a soltar um sonoro lamento estimulado pela estridente buzina que o sujeito toca sem parar. Duas horas depois é a vez do pipoqueiro, com um sinal sonoro que não atrapalha nem animais nem seres humanos. E, pelo que parece, faz mais sucesso com a criançada do que o outro vendedor.
          De hora em hora toca o sino da igreja e eu, como não gosto de relógios, já me acostumei a me orientar por ele, que não é tocado mais por sineiros pendurados em suas cordas, mas sim por um programa de computador, bem mais fiel, pois não cochila na hora H. Quem também segue a hora certa é o vassoureeeeeiro, que não tem dia certo, mas sempre que passa, é sempre ao meio-dia, estando ou não aquele calorão de 50 graus.
          Passam também vendedores de tapetes e cadeiras, verdureiros e vendedores de aipim, entregadores de panfletos do mercadinho ou do sacolão, carros de som (alguns altíssimos), religiosas querendo conversar sobre "a palavra de Deus", ciclistas e charretes. Circulam, ainda, expressões vetustas "do tempo do ronca", como a que ouvi outro dia, por incrível que pareça, entre meninas de no máximo 12 anos, que falaram, em meio a uma ruidosa brincadeira de rua: "quem foi à roça perdeu a carroça"!.
          Perto de onde as meninas brincam fica o Moisés, um vira-lata esperto adotado por uma família e que adorar correr atrás de ciclistas e transeuntes (outra palavra vetusta). Correu atrás de mim, quando eu pedalava, por duas vezes, até que na terceira parei a bicicleta, ele veio, meio ressabiado, comecei a coçar seu pescoço e o peito e agora, toda vez que passo, vem pulando pra cima de mim - às vezes com um certo exagero. Até uma das meninas brincalhonas comentou: "ih, alá, o Moisés gostou do moço"! Pelo visto, deve ser raro isso.
          Sobre os vira-latas, já fui algumas vezes, chegando em casa de madrugada, conduzido por eles, que olhavam para os lados, vendo se não havia inimigos, anjos da guarda caninos, que se mandavam ao me verem abrir o portão, provavelmente em busca de outro andarilho da noite. Já nas andanças da manhã era constantemente surpreendido por cumprimentos, bons dias de pessoas que nunca vi na vida, e que, nesses tempos de falta de gentileza (que geram mais falta de gentileza, o oposto do que falava o profeta), causam logo espanto. Passei a adotar o mesmo expediente e, mesmo para aqueles que não respondem ou soltam  apenas um muxoxo (mais uma palavra vetusta, juro que é a última), continuo dando bom dia. Afinal, não custa nada ser gentil.

10.13.2016

PATRÍCIO, O BURRO PENSIONISTA

Há diversas histórias curiosas sobre a passagem de D.João por Santa Cruz. Uma delas se refere ao carrapato, ou melhor, ao “desalmado carrapato”, que, segundo Noronha Santos (“Meios de transporte no Rio de Janeiro” – vol. 1) “se agarrava a uma das reais pernas. Retirou-o d. João, precipitadamente e, com tal imprudência o fez, que a escoriação se transformou em ferida ulcerosa, dando cuidados aos médicos e cirurgiões da Corte”. Sem poder andar, o príncipe-regente passou a usar a cadeirinha para se locomover na fazenda, levada por 12 escravos, que costumavam cantar à chegada de D. João na antiga propriedade dos jesuítas: “Nosso Sinhõ chegô, cativeiro já acabô”. Ainda segundo o autor, “d. João, sem o querer, e o carrapato dos pastos de Santa Cruz intensificaram o uso das cadeirinhas na cidade, que, no limiar do século, eram utilizadas só por particulares”.
Uma outra história envolvendo as temporadas em Santa Cruz refere-se a um burro de estimação do príncipe-regente, trazido de Lisboa na comitiva real. Este burro, de nome Patrício, foi levado por D.João para Santa Cruz, onde passaria a residir, recebendo uma pensão para suas “despesas diárias”. D. João não deixava que perturbassem Patrício e chegou a repreender severamente um funcionário da fazenda que chicoteou Patrício, que assim podia invadir terrenos alheios sem ser incomodado.
Já Benedito Freitas, autor de uma coleção de três volumes sobre a história da fazenda (“Santa Cruz – Fazenda Jesuítica, Real, Imperial”) reúne tanto detalhes sobre o trabalho administrativo da fazenda como aspectos bastante curiosos. Um deles diz respeito ao espírito zombeteiro do carioca, que já se manifestava mesmo num local tão distante do centro. Como já foi bastante divulgado, à chegada dos 15 mil portugueses da comitiva de D.João, boa parte deles fidalgos, as melhores casas do Rio de Janeiro recebiam na porta a inscrição P.R., significando Príncipe Real e indicando um prazo para os moradores saírem daquela casa e cederem seu lugar ao nobre português, que não poderia ficar sem uma habitação digna de sua posição. Logo, o povo começou a divulgar outro significado para aquela inscrição, bem mais objetiva e sarcástica: “Ponha-se na rua”!
Foto de 1984, tirada por Ronaldo Morais, do Batalhão de Engenharia Militar Villagran Cabrita, antiga sede da Fazenda de Santa Cruz.