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Based on a work at www.emendasesonetos.blogspot.com. Emendas e Sonetos

Emendas e Sonetos

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Nome: André Luis Mansur
Local: Rio de Janeiro, RJ, Brazil

Sou jornalista e escritor. Publiquei o livro ´Manual do Serrote - nos botequins da vida, sem contas nem despesas´, pela editora Bruxedo,(www.manualdoserrote.blogspot.com) e ´O Velho Oeste Carioca´, sobre a História da zona oeste do Rio de Janeiro, pela editora Ibis Libris. Colaborei em jornais como crítico literário e, aos poucos, estou reunido as críticas feitas desde 1995 no blog www.criticasmansur.blogspot.com

10.19.2009

LEITE COM MANGA


Uma das atitudes mais corajosas que já tomei na vida foi quando pedi um copo de leite com manga numa agradável tarde de sábado em um bar do subúrbio carioca de Cascadura. Não que as condições do estabelecimento fossem inadequadas, era até simpático o bar, mas o ato de coragem se justifica por eu ter ouvido desde pequeno que a mistura de leite com manga poderia levar à morte em poucos minutos.

Não sei de onde veio a argumentação de que estas duas substâncias unidas poderiam provocar uma explosão fatal ao entrar no organismo, mas sei que ela existia e era constantemente lembrada, acabando por se constituir numa das lendas urbanas de maior durabilidade, tal qual a da mulher loura no banheiro, embora esta nunca tenha tentado desafiar e muitas vezes, quando criança, cheguei em casa com a bexiga no limite por medo de entrar no banheiro do colégio.

Também não sei por quais cargas d´água tomei a coragem de fazer o insólito pedido naquela tarde, enquanto aguardava meu ônibus chegar ao ponto. Tinha 18 anos, estava feliz, ia a uma festa, não havia qualquer sombra de comportamento autodestrutivo em minha vida, talvez fosse uma espécie de rito de passagem, aquela situação que todo adolescente precisa enfrentar antes de ingressar na fase adulta de peito aberto, deixando para trás o medo e a insegurança.

Pois bem, devia ser isso mesmo. E lá fui eu, cheio de coragem, pedir a estranha mistura num bar cheio de gente bebendo cerveja e outras misturas mais fortes. O ridículo da cena talvez lembre o Shane pedindo uma gasosa no bar cheio de “homens brabos” de “Os brutos também amam”.

O mais incrível foi que, ao fazer o pedido, o atendente rapidamente se prontificou a fazer a, digamos, vitamina, ainda perguntando se eu queria com gelo. Enquanto ele preparava, fiquei pensando: será que esse perigo só existia na minha família? Mas não podia ser. Vários amigos e conhecidos me asseguravam que a mistura leite com manga era tão fatal quando picada de lacraia (outra história terrivelmente ameaçadora). Ou então será que aquele bar era o único bastião contra estas lendas disseminadas de geração a geração? Ou o dono era um sádico especializado em matar fregueses incautos e enterrá-los nos fundos do estabelecimento, como um bom filme americano de terror classe B?

Não sei, nada ali parecia tão ameaçador. E quando a mistura ficou pronta e o atendente falou, num tom razoavelmente alto, “sai um leite com manga”, não vi ninguém espantando. Achei até que alguma velhinha pudesse pegar o copo e despejá-lo subitamente na calçada e ainda me dar um belo de um esporro por ser tão inconseqüente. Não, nada aconteceu. E então, de frente para o Viaduto de Cascadura, bebi tranquilamente meu primeiro copo de leite com manga. Paguei, agradeci, o atendente me deu o troco como se nada tivesse acontecido.

Peguei meu ônibus e achava, inconscientemente, que algo ainda aconteceria. De qualquer forma, tinha meu endereço e um número de telefone na carteira, como meu pai sempre recomendava, e por isso alguém (uma enfermeira, o mais provável), poderia dar a trágica notícia à família. Mas, também desta vez, nada aconteceu. Fui para a festa, voltei para casa no dia seguinte e nas 48 horas seguintes, que seriam de observação e monitoramente, não tive nem uma diarreiazinha qualquer.

Confesso: me decepcionei. Uma verdade tão inquestionável como aquela precisaria ter um fundo de...verdade. Um mito não cai por terra assim, sem esboçar um mínimo de reação. Mas aquele caiu, de forma irrefutável. Contei a façanha para amigos e familiares e alguns ainda me chamaram de louco e inconseqüente. Seja como for, depois disso passei a adotar a vitamina de leite com manga no meu cardápio e me enchi de coragem para tomar outras atitudes impetuosas, como tomar banho depois do almoço ou andar de ônibus pela avenida Brasil de madrugada. Mas a mulher loura no banheiro, esta ficou sempre no meu imaginário como um símbolo de medo e covardia.

10.05.2009

A CARROÇA DO SEU DAMÁZIO


Toda família tem alguém assim, mesmo que escondido

Além dos bondes, o outro meio de transporte importante da zona rural carioca até a maior parte do século XX era o veículo de tração animal, mais conhecido como carroça. E para quem acha rigorosas as normas dos departamentos de trânsito impostas aos motoristas hoje, é interessante estudar o caso de Florêncio Antônio Damázio, examinado e aprovado em 26 de junho de 1927 pela Inspectoria de Vehiculos do Rio de Janeiro, antiga capital federal, a “dirigir carroça de Fiador a dois muares”.

Aos 53 anos, residente à antiga Estrada Real de Santa Cruz, nº 2735, na altura do atual bairro de Augusto Vasconcelos, Florêncio precisava seguir uma rígida cartilha denominada “Obrigações dos conductores de vehiculos”. Eram 14 as obrigações, algumas delas divididas em itens, como a XI, que recomendava, entre outras coisas (respeitada a grafia da época), “tratar com polidez os passageiros”; não fazer correrias na via pública, para angariar passageiros” e “não promover ajuntamento nem fazer assuada e vozeria nas ruas e praças”.

No item XI, também está a ordem de “dirigir os animais sem castigos bárbaros, ou immoderados” e no XIV “não dar fuga a criminosos de qualquer espécie no acto de serem perseguidos pela polícia ou pelo clamor público” - o tradicional “Ladrão, ladrão”, ainda muito ouvido em correrias desabaladas pelo centro da cidade. Como o Rio era a capital da República, não podia faltar a norma que mandava “parar o vehiculo para dar passagem ao carro do Presidente da República, em qualquer occasião”, além de várias sobre a passagem dos bondes, como a que manda “retirar o vehiculo de cima da linha dos bonds ao primeiro signal do motorneiro”.

Outro retrato bem claro da época é a norma que manda o condutor “não cortar os cortejos fúnebres, quer compostos de outros vehiculos, quer de pedestres, nem formaturas ou préstitos”, uma lei que só poderia existir mesmo numa época em que as pessoas ainda velavam os corpos em casa, com bebida, comida e música e depois o levavam de bonde, ou a pé, até o cemitério.

É interessante observar que o regulamento imposto aos condutores de carroça como Florêncio Damázio só era rigoroso porque o trânsito selvagem, apesar de muitos acharem o contrário, parece não ser uma invenção recente, mas apenas se aprimorou com a maior quantidade de carros, cada vez mais velozes. Se a coisa fosse tão tranqüila naquela época, não seria necessário uma regulamentação tão severa, afinal, a lei vem sempre a reboque do que está errado. Aliás, basta ver alguns filmes mudos de comédia dos anos 20 para ver o que era possível fazer com um bom calhambeque em termos de barbeiragem.

Embora todas estas normas aplicadas às "carroças de fiador a dois muares" tenham o seu lado pitoresco, principalmente quando comparadas aos dias de hoje, o que realmente mais me chama a atenção na história de Florêncio Damázio é a sua conduta irreprensível no trabalho, tanto que recebeu um elogio registrado na carteira “por não ter commetido infração alguma durante o anno de 1927”. Quando seu neto, Luiz Damázio, me mostrou os documentos, com um indisfarçável orgulho do avô, tive a certeza de que Florêncio faz parte daquela categoria de pessoas que todos nós temos na família, mesmo que seja uma só, meio esquecida, e morando longe. São figuras de honestidade inabalável e a chamada conduta reta diante da vida. No meu caso, guardo até hoje um recorte do jornal “O Globo” dos anos 50 em que meu pai, então motorista de táxi, virou notícia ao devolver na delegacia uma bolsa cheia de jóias valiosas de uma passageira que descera em Copacabana.

Geralmente pessoas assim acabam se tornando uma referência ética na família e na vizinhança, principalmente para quem passa pela (ufa, graças a Deus já vão longe) infância e adolescência: as questões éticas. “Devolve isso que não é teu”, “vai lá e pede desculpas”, “nunca aceita nada de ninguém na rua”, “pelo menos ninguém vai te acusar de nada” etc etc, frases que, soltas em momentos adequados, podem marcar uma personalidade - claro, se ouvidas e aplicadas, caso contrário, passam a fazer parte das famosas "palavras ao vento".

Afinal, até hoje, mais de 80 anos depois de Florêncio Damázio conduzir impecalvelmente sua carroça pelas ruas do Rio de Janeiro, quem é honesto ainda costuma virar notícia.

9.26.2009

TV ZONA OESTE - CAMPO GRANDE - RIO DE JANEIRO

Quem puder, dê uma olhadinha nesta entrevista que dei sobre o meu livro "O Velho Oeste Carioca" para a TV Zona Oeste. Abraços a todos.

http://www.tvzo.com.br/videos/andremansur/index.htm

9.21.2009

OS ÓRFÃOS DE BIBLIOTECA



Sempre eleito, e com justiça, o melhor do Rio de Janeiro, o Centro Cultural Banco do Brasil, também conhecido como CCBB, completa 20 anos de atividades ininterruptas agora em outubro. Confesso que o frequento desde o primeiro mês e os motivos são estes: conforto, segurança, programação e preço (quando há). O prédio da rua 1º de Março, 66, no centro da cidade, foi construído no início do século XX e abriga salas de exposição, de vídeo, cinema, teatro, livraria, restaurante e uma biblioteca, tema deste texto. A programação, renovada mensalmente, é de ótima qualidade, as exposições e a sala de vídeo são gratuitas, o ingresso do cinema custa seis reais e o do teatro dez. Além disso, há sempre eventos importantes, como o Anima Mundi, e todos os dias são realizadas visitas escolares com auxílio de monitores atenciosos e bem-informados sobre os eventos.

A biblioteca do CCBB é uma jóia rara (jóia com acento mesmo, pois jóia sem acento para mim parece falsificada). Ninguém te perturba quando você entra, não pedem documentos, não tem crachá, você mesmo manuseia os livros, aliás, uma infinidade deles e dos mais variados assuntos, sem contar as dezenas de revistas, semanais, mensais, bimestrais etc. A sala de leitura é ampla e confortável, com vista para a Baía de Guanabara, (que de longe, sem o odor característico, é belíssima) as poltronas são confortáveis e as mesas grandes, tanto que muita gente vai só para tirar um cochilo, às vezes em cima de um livro mais volumoso como travesseiro. O silêncio é total, os banheiros são limpíssimos e os funcionários educados e, assim como os monitores, atenciosos.

Pois não é que há duas semanas, ao adentrar o elevador que é uma verdadeira obra de arte e pedir à ascensorista “quinto andar, por favor”, como faço há 20 anos, ela me diz, de forma calma e pausada: “A biblioteca está fechada para obras”. Alguns segundo depois, digeri, ainda meio atônito, a informação e percebi o que ela me dizia: faltando um mês para o aniversário de 20 anos do CCBB, a biblioteca, um lugar visitado por milhares de pessoas todo mês, fecharia para obras. Depois do baque, tive que arrumar outro lugar para botar a mochila e dei umas voltas pela Praça XV, num sol ameno de inverno, até chegar às barcas. Fiquei olhando a Baía, desta vez mais de perto e, de tão atordoado que estava, nem percebi o odor característico. Foi aí que entendi o que era um órfão de biblioteca.

Para quem é apaixonado por livros, a biblioteca é como se fosse um santuário, um espaço místico onde você vai compartilhar o seu gosto com pessoas afins. Quem é muito religioso precisa ir ao templo, estar com os que comungam da mesma fé, até para a direcionarem melhor e também para resolverem problemas práticos do grupo. Entre os leitores é a mesma coisa. Ler em casa sozinho é muito bom, não resta dúvida, mas ir a uma biblioteca gera uma sensação de irmandade, pois muitas vezes você está em casa mas os vizinhos começam uma discussão, os carros lá fora passam roncando o motor (isso quando não é o da pamonha), alguém liga uma televisão ou o rádio, enfim, os ruídos em volta não comungam do seu prazer, do seu gosto.

Na biblioteca não. Mesmo que alguns cochilem e ronquem um pouco, mesmo que um celular toque de vez em quando, que alguns leiam apenas por prazer e outros por obrigação, todos ali obecedem à mesma fé, digamos assim. E a companhia dos livros, milhares deles, de autores que já se foram desta vida, mas que permanecem ali, como uma vingança da arte contra a morte (queria lembrar de quem é esta frase), nos dão uma sensação de segurança e tranquilidade que outro lugar não oferece.

A biblioteca é o espaço democrático por excelência, ninguém te discrimina ou te impede de entrar por não estar com ´a roupa ou o penteado´ inadequado. Até quem não tem onde morar pode chegar lá, compartilhar do ar-condicionado, beber uma água gelada e se manter informado pelas revistas. Quando estou numa biblioteca e percebo o fascínio que a leitura é capaz de provocar é que tenho a certeza absoluta de que o Brasil só dará um salto na educação quando os estudantes adquirirem o vício da leitura, o único vício saudável que conheço, e cada lugar tiver uma minibiblioteca, que seja de 20 livros, mas disponível a qualquer um, que seja numa loja de ferragens, mas que o sujeito acabe instigado a ler alguma coisa enquanto o mecânico faz o alinhamento do carro.

Já que falei tanto em fé, felizmente acredito que as orações dos órfãos do CCBB foram ouvidas e a direção do Centro Cultural resolveu, quando já havia, inclusive, terminado este texto, adiar o fechamento da biblioteca para 2010. Uma notícia e tanto, principalmente para quem estava com pesquisas em andamento, mas sem dúvida uma decisão das mais corretas para o próprio CCBB, que hoje também existe em São Paulo e em Brasília e não deveria comemorar seu aniversário com um de seus espaços mais privilegiados fechado.

9.08.2009

REMINISCÊNCIAS (VII): O TÉCNICO DE TELEVISÃO


Com uma lâmpada forte na testa e uma maleta de mil e uma utilidades, o técnico de televisão era uma figura quase mítica no imaginário infantil.

Quando digo televisão, me refiro àquele trambolho pesado, de madeira e com rodinhas, ou seja, um distinto móvel da sala. A lá de casa era uma telefunken, em preto e branco, com uma tela de vidro na frente da tela de TV propriamente dita. Não havia controle remoto e os poucos canais eram trocados por uma rodela chamada seletor, que fazia um barulhão quando mudava os canais no espaço físico denominado “do 2 ao 11” (pelo menos no final da década de 70, no Rio de Janeiro): 2 (TVE), 4 (Globo), 6 (Tupi), 7 (Bandeirantes), 11 (TVS – a TV Studios, origem do atual SBT). Curioso é que muita gente não nomeava os canais, apenas dizia “bota no 4”, “muda pro 7, que tem um programa agora”, ou então “coloca no canal do Sílvio”. Havia botões de horizontal e vertical, que “limpavam” a imagem de interferências, uma faixas horizontais ou verticais que sempre apareciam, e quando o seletor se soltava, precisávamos recorrer a um bom alicate para mudar os canais.

Quando a TV enguiçava, a gente recebia a notícia, às vezes depois de um tempo excessivamente longo, que o técnico vinha para consertar. Geralmente era no sábado de manhã e a tarefa se constituía numa complexa cirurgia. O sujeito abria a tampa de trás, colocava a indefectível lâmpada na testa e espalhava as peças pelo chão. Levava horas para o conserto terminar, isso quando não era preciso comprar alguma peça na loja da esquina. Quem olha as TVs de plasma hoje, de telas finíssimas, não tem idéia das milhares de peças que se escondiam na parte de trás do aparelho. O que mais me impressionava era que quando o técnico fechava a tampa e terminava o trabalho, não sobrava nenhuma peça no chão.

Hoje, dependendo de quantas antenas o sujeito tiver em casa, ele pode acessar qualquer canal do mundo, desde gigantescas redes de comunicação até emissoras regionais, que só "pegam" numa cidade. Isso sem contar a transmissão pela internet. A figura clássica de Homer Simpson sentado diante da TV num confortável sofá, um saco de batatas fritas e uma lata de coca-cola ao lado e o controle remoto com mais de cem canais à disposição reflete bem a situação de muitos telespectadores modernos. Pelo menos quando não havia o controle remoto, o sujeito tinha duas opções: ou se levantava toda hora para trocar de canal, o que, pelo menos, o fazia perder algumas calorias, ou se tornava mais fiel a alguma emissora, o que era o caso mais freqüente.

Quando o telespectador desligava o aparelho, surgia um feixe de luz horizontal que ia diminuindo até apagar. Nada de programar a televisão para desligar. O que acontecia muitas vezes era ele dormir no sofá e acordar no meio da noite com a tela cheia de chuviscos ou de manhã, na hora do telecurso. Também podia acordar na hora exata do término da programação, que, se fosse na Globo (ou no 4), começava com a inevitável frase do “Logo estaremos junto novamente”, o que não deixava de ser um pedido de fidelidade eterna.

E que hoje, com tantos canais à disposição e aparelhos de TV que se renovam eternamente, é praticamente impossível.

8.24.2009

DOM QUIXOTE E A SÍNDROME DO NÃO LIDO


Terminei de ler o quarto e último volume de “Dom Quixote de la Mancha”, de Miguel de Cervantes, às 17h30 do dia 11 de agosto do ano corrente, oito dias após completar 40 anos de idade. Sem dúvida, as informações contidas neste primeiro parágrafo não interessam a nenhum ser humano da face da terra a não ser àquele que as escreve, mas o que direi a seguir talvez provoque uma identificação e um interesse maiores.

Digo isso porque chega um momento da vida em que percebemos que não conseguiremos ler nem um décimo dos livros que gostaríamos, o mesmo valendo para filmes, shows, discos, exposições, viagens etc. E o que isso quer dizer? Quer dizer que a ´síndrome do não lido´, ou ´não feito´, pode gerar uma grande frustração, principalmente para quem passa dos 40.

O ideal me parece que é ir aceitando o que deu para conseguir e a partir daí planejar, sem nenhuma obrigação de êxito, os próximos passos. Ler “Dom Quixote” para mim era uma necessidade por ser jornalista e escritor, afinal, foi o livro que praticamente inaugurou o romance ocidental como o conhecemos. Agora, quando irei encarar “Guerra e paz” (já tinha lido um terço quando o exemplar da biblioteca sumiu), “Em busca do tempo perdido”, “Os sertões” e “A montanha mágica” só Deus sabe. Hoje isso não me incomoda nem um pouco, mas quando temos 20 anos muitas vezes achamos que dá para fazer tudo e até perdemos um pouco do prazer que a absorção da cultura pode proporcionar, caindo na armadilha da quantificação, de nos preocuparmos apenas em “estar por dentro de tudo”, em conhecer todos os clássicos, nem que seja “de orelhada”, apenas para não passar vergonha diante de uma reuniãozinha social.

Bem, confesso que não tenho o menor pudor em dizer que nunca li José Saramago ou Guimarães Rosa. O primeiro até tentei, mas era um livro sem pontuação e me cansou; o segundo, ainda vou ler um dia. Ou não. Mas “Quincas Borba”, de Machado de Assis, já li três vezes, e isso vale para outra reflexão. Quando o tempo se torna mais precioso (e você só percebe isso quando vai ficando mais velho), passamos a hesitar diante do desconhecido. Entre ver um filme que se não gostar vou perder duas horas da minha vida, acabo optando por rever “Cantando na Chuva” ou “Casablanca”, cujo prazer, pelo menos para mim, é garantido.

A julgar pelo progressivo aumento da expectativa de vida, é bem provável que um dia alcancemos a eternidade e não morramos mais de "susto, bala ou vício", como diria Caetano. E aí tudo o que falei aqui perderá o sentido. Qualquer um vai poder se programar com calma para ler a gigantesca "Comédia da vida humana", de Balzac, ou dar a volta ao mundo de bicicleta.

Mas isso ainda deve demorar um pouquinho, por isso o jeito é tentar recomeçar "Guerra e paz".

8.10.2009

O PAI DA PÁTRIA


Nome de uma conhecida avenida carioca, o general Gomes Freire de Andrada governou o Rio de Janeiro durante 30 anos (1733 a 1763), deixando importantes obras que permanecem até hoje como legado de sua administração. Seu braço direito neste intenso processo de urbanização foi o brigadeiro José Fernandes Pinto Alpoim, o “Oscar Niemeyer” da época, responsável pelos traços arquitetônicos de construções como o Palácio dos Governadores (Paço Imperial), os conventos de Santa Teresa e da Ajuda (já demolido) e a restauração e ampliação do Aqueduto da Carioca (Arcos da Lapa).

Gomes Freire e o brigadeiro Alpoim também deram partida à construção da nova igreja matriz da cidade, a Sé Nova. Desta obra, no entanto, só ficou a base, tamanha a lentidão do trabalho, motivo de um chiste muito comum entre os cariocas durante bastante tempo: “Velha como as obras da Sé”. A construção só seria terminada em 1810, mas o prédio foi adaptado para a Academia Militar. Mais tarde foi Escola Central de Engenharia, depois Escola Politécnica e, por fim, nesta longa crise de identidade, ganhou mais dois nomes: Escola Nacional de Engenharia e, atualmente, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ (IFCS), em frente ao Largo de São Francisco. Já o Convento de Santa Teresa foi construído num terreno de propriedade de Gomes Freire, no morro do Desterro, que a partir daí passou a se chamar morro de Santa Teresa, muito freqüentado por turistas hoje em dia.

Mas se Gomes Freire foi responsável por grandes obras no Rio de Janeiro, ele também teve a coragem de desenvolver associações culturais e a criar uma tipografia, o que era proibido pela Coroa portuguesa, temerosa de que as idéias iluministas francesas e o liberalismo econômico inglês colocassem em risco o poder absoluto do rei. Assim, os literatos reunidos no palácio realizaram uma sessão inaugural em seis de maio de 1736, criando a Academia dos Felizes, que encerrou as atividades em 12 de abril de 1740, após uma série de reuniões quinzenais.

Mais tarde surgiu a Academia dos Seletos, que realizou a primeira sessão em 30 de janeiro de 1752, provavelmente uma precursora bem precoce da Academia Brasileira de Letras, criada em 1896. Como a divulgação de idéias e princípios é conseqüência imediata de uma associação, logo surgiu a tipografia, sob a responsabilidade de Antônio Isidoro da Fonseca, conhecido impressor português. Antes que a Coroa mandasse destruí-la e queimá-la pelas razões citadas acima, ela chegou a produzir algumas obras, entre elas a “revolucionária” “O exame de bombeiros”, do brigadeiro Alpoim.

Apesar de incentivar a cultura na colônia, Gomes Freire mostrou-se um leal servidor do Rei ao mandar cercar o Colégio dos Jesuítas, no extinto morro do Castelo, em três de março de 1760, prendendo os religiosos e os enviando a Portugal no dia 16, por ordens expressas do ministro Marquês de Pombal, que expulsou os jesuítas de Portugal e de todas as suas colônias. Gomes Freire, que também assumiria os governos de São Paulo e Minas Gerais, por duas vezes foi à região sul negociar um tratado de limites com a Espanha para resolver a situação da Colônia do Sacramento, perdida pelos portugueses em 1762, o que muito o abateu.

Um ano depois, no dia 1º de janeiro, morria Gomes Freire, nomeado Conde de Bobadela pelo Rei e Pai da Pátria pelo povo, tanto pelas importantes obras realizadas quanto pela preocupação com a defesa da cidade e da colônia. Seus restos mortais foram enterrados no Convento de Santa Teresa.

7.23.2009

LULA, SARNEY E COLLOR...20 ANOS ATRÁS



Youtube (www.youtube.com) é hoje o site de vídeos mais popular da Internet e o que mais me fascina nele é a possibilidade de ver vídeos antigos, cenas de filmes, séries, novelas, propagandas, gols, shows etc. Um mundo audiovisual surpreendente que possibilita, a qualquer um, o estabelecimento de uma memória afetiva das mais ricas para uma geração que já nasceu ligada na televisão, mesmo que fosse em preto e branco, sem controle remoto e com botões de horizontal e vertical.

Quanta gente já não assistiu a um vídeo no youtube e o relacionou a algo importante, feliz ou triste, da sua vida, desdobrando uma corrente de lembranças que seria praticamente impossível sem esse ponto de partida? Proust já explicava este processo, ainda bem antes da linguagem virtual, na sua grande obra “Em busca do tempo perdido”.

No caso da política, o youtube nos presta um outro serviço, essencial para o processo democrático: mostrar o que os políticos pensavam, diziam e faziam em priscas eras, comparando com o que são hoje. Não é mais uma questão de escavar arquivos empoeirados de jornal, está ali a imagem viva, nua, crua e colorida para quem quiser. E um que me chamou muito a atenção foi a do debate entre Lula e Collor na eleição presidencial de 1989, mediado por Alexandre Garcia (o nome do vídeo é Debate: Collor x Lula (1989) - 2 de 2). Naquele momento, Lula liderava as pesquisas de opinião e era a esperança de milhões de brasileiros que sonhavam com a ética na política, a principal bandeira do candidato e do Partido dos Trabalhadores, o único partido que não precisava pagar militantes, voluntários que acreditavam ser a estrela vermelha do PT um oásis em meio ao deserto de conchavos, corrupção e apadrinhamentos da política brasileira.

José Sarney era o presidente da República. Desgastado com uma inflação de 80% ao mês e responsável maior pelo embuste eleitoral que foi o Plano Cruzado, nenhum dos candidatos queria associar sua imagem ao presidente. Num determinado momento do debate, perto do final, Collor pergunta ao "outro candidato", como ele se referia a Lula: "Eu gostaria de saber como é que ele recebe, e como é que ele se sente, recebendo o apoio para a sua candidatura do senhor José Sarney e do senhor Moreira Franco, governador do Rio de Janeiro".

E Lula, que hoje, de barbas e cabelos grisalhos e bem penteados, bem diferentes da época, e defendendo com unhas de dentes Sarney, atual presidente do Senado e envolvido no escândalo dos atos secretos, respondeu, entre outras coisas: "Pouca gente neste país brigou contra o Sarney como eu briguei" e "Eu espero que (o presidente José Sarney) vote corretamente, depois de tantos males que causou ao Brasil".

Mais não precisa ser dito, basta a imagem da semana passada, em que Lula e Collor aparecem fortemente abraçados, como se fossem amigos de longa data. Na política já disseram que tudo se esquece, mas pelo menos está aí o youtube para nos lembrar.

7.13.2009

REMINISCÊNCIAS (VI): DISQUETE E CONEXÃO DISCADA


Quem diria? O disquete já virou peça de museu.

Pois é, aquele pequeno objeto quadrado, capaz de armazenar uma certa quantidade de informações, já nem pode ser usado nos novos computadores, que não apresentam o compartimento para o seu uso, o chamado ´drive´. Quando alguém introduz o disquete em computadores mais velhos, numa lan-house, por exemplo, o barulhinho característico da operação chama logo a atenção de quem está por perto. São inevitáveis os bochichos, comentários, sussurros e risinhos contidos de uma geração que não tem tempo sequer de se apegar aos pequenos utensílios do dia a dia. O próprio CD-Rom, coitado, que armazena uma quantidade maior de informações, também já é bem pouco usado, e o pen-drive, que ainda está na moda, provavelmente irá pelo mesmo caminho, tal a velocidade das mudanças.

E a conexão discada? Com a expansão da internet e a melhoria da sua qualidade, a ´grande rede´ está chegando aos mais distantes lugares. Gente que nem tem computador em casa consegue acessar a web em lan-houses por um ou dois reais a hora com banda larga, o que permite ao usuário ver fotos, baixar vídeos, ouvir músicas, participar de joguinhos superincrementados etc. Mas há bem poucos anos a maior parte da conexão era discada, com aquele ruído característico e irritante. De segunda a sexta, ainda era possível se conectar rápido, mas nos fins de semana e feriados, com muita gente em casa, a conexão era um suplício e a mensagem “tente novamente mais tarde” era o prenúncio de uma longa espera. Muita gente deixava o discador no automático e ia fazer outras coisas. Alguns até almoçavam, faziam a siesta e quando voltavam...nada. Quando conectava, era uma festa, quase com direito a fogos, mas muitas vezes não demorava e caía de novo. E nada de baixar arquivos pesados, como fotos ou vídeoS, que aí era bem pior.

Dentro desta temática, uma atividade bastante divertida hoje é folhear revistas de informática dos anos 90, que muito se assemelham a papiros manuseados apenas por paleontólogos. Pois que outro nome poderíamos dar a um ´computador´ 286 senão de dinossauro? E as previsões dos ´especialistas´ sobre a capacidade de armazenagem, que não chegavam sequer perto da metade da metade dos computadores atuais e seus ´gigamegas´ de memória paquidérmica?

Mas acredito fielmente que em cinco ou dez anos no máximo é bem provável que alguém leia este artigo de forma bastante irônica, fazendo comentários do tipo: ‘ih, os caras ainda usavam mouse´, ´caramba, o pessoal ainda precisava de teclado pra mandar mensagem´ ou...´pra que eles precisavam de modem pra acessar a internet´? Enfim, o jeito é tentar acompanhar o ritmo das mudanças, ou ´chutar o balde´ e voltar a enviar sinais de fumaça e pombos-correio.

6.29.2009

NÃO QUER CASAR? ENTÃO VAI PRO QUARTEL!


Não havia muita escolha para os homens cariocas na época do Conde da Cunha.

D. Antônio Álvares da Cunha foi o primeiro Vice-Rei do Brasil Colônia, tomando posse em 19 de outubro de 1763, no mesmo ano em que a capital foi transferida da Bahia para o Rio de Janeiro. Logo ao chegar, ficou impressionado com as péssimas condições de higiene da cidade, ordenando logo à Câmara que aterrasse, com lajes grossas, a rua da Vala (atual Uruguaiana), onde o povo gostava de jogar todo tipo de imundícies, mais ou menos o que acontece com os valões de hoje, já chamados de rios em tempos passados. Ali perto abriu a rua do Piolho, hoje a famosa rua Carioca, entre o Largo de mesmo nome e a Lagoa da Sentinela, já aterrada como tantas outras no centro do Rio.

Outra preocupação grande do Vice-Rei foi em relação à defesa da cidade, invadida por franceses em 1710 e 1711. Realizou obras importantes em fortalezas, construiu dois armazéns para depósito de pólvora, oficinas de armas no morro da Conceição e uma instalação para o parque de artilharia na antiga ponta da Misericórdia, dando início ao Arsenal de Guerra da cidade. Também mandou construir o Arsenal de Marinha, em terreno doado pelo Mosteiro de São Bento, às margens da extinta praia de São Bento. A primeira construção do arsenal foi a nau São Sebastião.

O conde aumentou também os efetivos militares da colônia, criando o Regimento da Cavalaria da Guarda do Vice-Rei, que ficou alojado num quartal atrás da Casa do Trem (atual sede do Museu Histórico Nacional), e mandou trazer de Portugal três regimentos completos, que chegaram à cidade em 1767: o Regimento de Bragança, aquartelado na rua dos Quartéis da Armada, que passou a se chamar rua do Bragança e é a atual Conselheiro Saraiva; o Regimento de Estremoz, com quartel numa casa cedida pelos frases do Mosteiro de São Bento, na rua dos Arcos de São Bento e atual rua de São Bento e, por fim, o Regimento de Elvos ou do Moura, perto do antigo porto dos Padres da Companhia, ao lado da Casa do Trem. Este porto servia aos padres jesuítas do extinto morro do Castelo. O Largo em frente ao regimento passou a se chamar Largo do Moura e hoje é a rua Marechal Âncora.

Mas foi essa preocupação em aumentar os efetivos militares que gerou uma das leis mais curiosas do Brasil Colônia. “Para moralizar o povo, aumentar a população e diminuir o número de vadios” (1), o Conde da Cunha obrigou os jovens a se casarem e os que não quisessem teriam de ir para um regimento militar. Parece que a maioria preferiu casar, pois a população carioca teve um crescimento razoável nas décadas seguintes.

O que contribuiu para isso foi a fama de rígido e disciplinador do Conde da Cunha, que mantinha a chamada “prisão da potência”, uma cela infecta junto à escada da Guarda do Palácio dos Vice-Reis (atual Paço Imperial), para onde iam os presos recomendados por ele. “De gênio muito forte, reprimia energicamente os perturbadores da ordem. No seu governo, os moradores podiam deixar as portas abertas até dormindo, pois assaltantes e agressores o temiam, sabedores do rigoroso castigo que sofreriam” (2). Também não era de muita pompa e cerimônia, pois ficaram no registro dos que o conheceram “os hábitos simples, considerado exageradamente econômico pelo Marquês de Lavradio, que não o perdoava por nunca haver dado um jantar” (3).

O Conde da Cunha também proibiu o ofício de ourives em toda a colônia, para evitar o furto do ouro das Minhas Gerais, e fundou o Hospital dos Lázaros, primeira instituição a tratar da lepra no Brasil e que hoje é o hospital Frei Antônio, em São Cristóvão. Seu governo terminou em 17 de novembro de 1767 e ele voltou a Portugal em 22 de dezembro, com poucos recursos, tanto que teve de pedir dinheiro emprestado ao ouvidor Alexandre Nunes Leal para a viagem. Morreu em Lisboa com pouco mais de 90 anos.

FONTES CONSULTADAS:

(1) O Rio de Janeiro - Sua história, monumentos, homens notáveis, usos e curiosidades - Moreira de Azevedo (vol.I)
(2) Memórias históricas do Rio de Janeiro - Monsenhor Pizarro (vol.V)
(3) Santa Cruz - Fazenda Jesuítica, Real, Imperial - Benedicto Freitas (vol.II)
(4) O Rio de Janeiro em seus 400 anos - Vários Autores
(5) A Praça XV de novembro

6.15.2009

CAMARÃO!


Sempre achei que o brasileiro só se unia em Copa do Mundo, mas depois do que vi no centro do Rio de Janeiro outro dia mudei de idéia.

Vinha eu flanando numa bela tarde de quarta-feira pela rua do Rosário quando ouvi o burburinho à frente, uma agitação no ar e algumas pessoas gritando. Pensei logo em confusão, assalto ou algo assim, mas havia um carro da polícia e o policial estava tranquilamente encostado nele e rindo um pouco. Todos olhavam em direção à rua Uruguaiana, inclusive os que gritavam bem alto a palavra que eu já podia identificar: “Camarão!” Fui andando mais um pouco e não consegui perceber o motivo da agitação, que se propagava pelas lojas e pelos transeuntes, como se todos já soubessem a senha e também gritassem: “Camarão!”, algumas vezes seguida dos epítetos nada lisonjeiros de “Corno!” e “Chifrudo”!

Foi ao me aproximar da esquina com a Uruguaiana que, enfim, cheguei ao motivo da balbúrdia. Um homem de uns 50 anos, baixo, mais ou menos forte, todo arrumado (com camisa social para dentro da calça), carregando uma pastinha e com cara de invocado. O sujeito esbravejava, jogava os braços para o alto e fazia xingamentos em direção à turba, sendo que o mais leve era “É a mãe!”.

Achei que a coisa iria parar ali, seria mais uma provocação dessas que às vezes encontramos em centros urbanos, dirigidas principalmente a pessoas excêntricas e que respondem aos desaforos. Mas não, a coisa continuou. Entrei na Uruguaiana, bem perto do tal sujeito, e o mais incrível é que no novo espaço outras pessoas continuavam os impropérios, como se fosse realmente combinado. Porteiros, camelôs, transeuntes, vendedores, que iam à frente da loja, botavam a mão em forma de concha ao lado da boca, e gritavam, bem alto: “Camarão!”, “Corno!”, para depois voltarem correndo para o interior da loja, como uma brincadeira de recreio. E o sujeito seguia firme, voltando de vez em quando para xingar também de forma ríspida, vermelho como um...camarão.

Eu já o seguia bem de perto e não conseguia parar de rir com o inusitado da situação. Ao passarmos a Igreja do Rosário, a situação atingiu proporções impressionantes, pois no prédio comercial em frente as pessoas iam à janela para gritar a mesma palavra, o garçom do bar ao lado, as pessoas na mesa, o contínuo que passava de moto, a coisa continuou no mesmo ritmo no Largo de São Francisco. De vez em quando, o tal Camarão encontrava algum interlocutor solitário e esbraveja com ele, recebendo como resposta algo do tipo: “Não liga não, esse pessoal é muito bobo”, no que ele respondia, cuspindo para todos os lados: “São é uns filhos das putas! Não têm o que fazer!”. Alguém perto de mim decifrou o enigma e disse: “Ih, esse cara é corno lá no Bairro de Fátima, o pessoal vai gritando até lá”!.

Entrei na rua da Conceição e deixei o Camarão de lado, achando tudo muito engraçado, mas lamentando apenas que esse fervor solidário em torno de um objetivo, no caso, de se divertir às custas de uma pessoa raivosa, não fosse usado para outros fins, como o de, por exemplo, exercer a cidadania.

O HOMEM CÉLEBRE


Às vezes, quando penso nos homens célebres, sinto por eles toda a tristeza da celebridade. A celebridade é um plebeísmo. Por isso deve ferir uma alma delicada. É um plebeísmo porque estar em evidência, ser olhado por todos inflige a uma criatura delicada uma sensação de parentesco exterior com as criaturas que armam escândalo nas ruas, que gesticulam e falam alto nas praças. O homem que se torna célebre fica sem vida íntima: tornam-se de vidro as paredes da sua vida doméstica; é sempre como se fosse excessivo o seu traje; e aquelas suas mínimas ações - ridiculamente humanas às vezes - que ele quereria invisíveis, coa-as a lente da celebridade para espectaculosas pequenezes, com cuja evidência a sua alma se estraga ou se enfastia. É preciso ser muito grosseiro para se poder ser célebre à vontade.

Depois, além dum plebeísmo, a celebridade é uma contradição. Parecendo que dá valor e força às criaturas, apenas as desvaloriza e as enfraquece. Um homem de génio desconhecido pode gozar a volúpia suave do contraste entre a sua obscuridade e o seu génio; e pode, pensando que seria célebre se quisesse, medir o seu valor com a sua melhor medida, que é ele-próprio. Mas, uma vez conhecido, não está mais na sua mão reverter à obscuridade. A celebridade é irreparável. Dela como do tempo, ninguém torna atrás ou se desdiz. E é por isto que a celebridade é uma fraqueza também. Todo o homem que merece ser célebre sabe que não vale a pena sê-lo. Deixar-se ser célebre é uma fraqueza, uma concessão ao baixo-instinto, feminino ou selvagem, de querer dar nas vistas e nos ouvidos. Penso às vezes nisto coloridamente. E aquela frase de que "homem de gênio desconhecido" é o mais belo de todos os destinos, torna-se-me inegável; parece-me que esse é não só o mais belo, mas o maior dos destinos.

Diz-se que os herméticos da Rosa-Cruz, seita esotérica e magista, descobriram, desde o início dos tempos, o segredo da vida-eterna, o elixir da vida; que, nunca morrendo, passam de época em época, através dos ciclos e das civilizações, despercebidos, nenhuns e, contudo, pela grandeza da coisa transcendental que criaram, maiores do que os gênios todos da evidência humana. Da sua seita é o preceito, que cumprem, de se não darem nunca a conhecer. A sua presença eterna, que vive à margem da nossa transiência, vive também fora da nossa pequenez. Vão-se-me os olhos da alma nessas figuras supostas - e quem sabe a que ponto reais? - que, verdadeiramente, realizam o supremo destino do homem: o máximo do poder no mínimo da exibição; o mínimo da exibição, por certo, por terem o máximo do poder. O sentido das suas vidas é divino e longínquo. Apraz-me crer que eles existam para que possa pensar nobremente da humanidade.

Fernando Pessoa, "Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação"

6.01.2009

OS ÓRFÃOS DA RUA LARGA


A origem de uma das mais tradicionais escolas do país está ligada a duas igrejas literalmente atropeladas pela modernidade.

Tudo começou quando o sacristão-mor da Igreja de São Pedro, no centro do Rio de Janeiro, viu-se diante de uma missão que iria pôr à prova o seu espírito cristão. Um grande amigo seu falecera, deixando dois filhos completamente desamparados. O religioso não pensou duas vezes. Com a bênção do bispo, do governador e de alguns comerciantes, montou num sobrado ao lado da igreja uma Escola para Meninos Órfãos.

Era o ano de 1735 e a idéia do sacristão revelou-se tão necessária que a casa passou a abrigar uma grande quantidade de órfãos, chamando a atenção do bispo D. Antônio de Guadelupe, que quatro depois a ampliou e a transformou no Seminário de Órfãos de São Pedro.

O trabalho causou grande admiração da população carioca, incluindo aí o poderoso proprietário de terras Manuel de Campos Dias, dono de boa parte da Zona do Valongo, que ficava ali perto e era onde se fazia o comércio de escravos. Em 1766, Manuel Dias ergueu uma casa bem mais ampla ao lado da Igreja de São Joaquim, santo da sua devoção, e que ficava no Largo de São Joaquim, na atual avenida Marechal Floriano.

Com instalações bem melhores, o Seminário de São Joaquim trazia uma novidade: a presença de alunos de famílias abastadas, que podiam pagar pela permanência deles. O maior número de vagas, no entanto, ainda era reservada aos órfãos que, de certa forma, não estudavam completamente de graça, pois prestavam serviços ao seminário, como o acompanhamento de enterros em troca de dádivas, participação no coro da Igreja e outros serviços, como o pedido de esmolas nas ruas. As aulas básicas eram o latim e o cantochão e o traje dos alunos, tanto órfãos como abastados, constituía-se de uma túnica branca, cinta preta e uma cruz vermelha no lado esquerdo da manga.

Em dois de dezembro de 1837, aniversário do imperador D. Pedro II, o regente Pedro de Araújo Lima, que seria Marquês de Olinda, transformou o seminário em Imperial Colégio de Pedro II. Era um Rio de Janeiro bem diferente, com grande número de chácaras e pequenas e poucas residências urbanas. Ali perto, no morro do Livramento, ficava, por exemplo, a chácara onde nasceria o menino Joaquim Maria Machado de Assis, dois anos depois. Um detalhe interessante é que o próprio imperador ia pessoalmente participar dos exames anuais dos alunos.

O colégio continua lá e por ele passaram figuras ilustres da vida brasileira, como o sanitarista Oswaldo Cruz, ex-presidentes como Nilo Peçanha e Rodrigues Alves e escritores como Lima Barreto e Manuel Bandeira. Algumas filiais também funcionam na cidade, como no Humaitá, São Cristóvão e em Realengo. Já as igrejas de São Pedro e São Joaquim, bem, estas foram arrasadas pelo rolo compressor da modernidade, que deu origem, entre outros caminhos, à avenida Presidente Vargas, bem mais larga do que a antiga rua Larga, nome pelo qual muita gente ainda chama a avenida Marechal Floriano.

5.19.2009

REMINISCÊNCIAS (V): O RADINHO DE PILHA


Ele ficava colado ao ouvido ou jogado nos campos de futebol por algum torcedor revoltado com a derrota do seu time de coração.

Para quem está acostumado com Ipod, MP3, MP4 e outras siglas exóticas, a visão de um radinho de pilha deve se assemelhar à de um fóssil por um paleontólogo. Com tantas mídias se cruzando em aparelhos cada vez menores, fica difícil explicar como era a relação quase amorosa entre o ouvinte e seu aparelho.

Embora o fone de ouvido não seja uma invenção recente, o que o ouvinte gostava mesmo era de colar o radinho no ouvido, como se fosse um prolongamento do aparelho auditivo. É interessante ressaltar que os fones eram chamados muito apropriadamente de egoístas, já que só permitiam a escuta ao dono do aparelho.

O som geralmente era cheio de ruídos, seja em OM (ondas médias) ou na FM (freqüência modulada), que só era possível captar com uma pequena antena, muita vezes reparada com um pedaço de bombril na ponta para melhorar a captação do som.

O radinho vinha com um laço para o dono segurá-lo com mais firmeza, embora suas quedas fossem constantes, o que provocava a abertura do compartimento das duas pilhas pequenas (quase sempre Ray-o-vac, as amarelinhas), que se espalhavam pelo chão. As pilhas garantiam o funcionamento do rádio por um bom tempo, já que o gasto de energia era pequeno.

Um dos horários de maior utilização dos radinhos de pilha era a tarde de domingo, devido às já referidas partidas de futebol. Neste período, quase todos os porteiros de edifício mantinham seus radinhos ligados. Aliás, esta categoria é uma das poucas remanescentes a manter o uso dos radinhos, assim como empregadas domésticas e aposentados, que adoram ouvir programas do tipo “Debates populares”, marcante na época em que era comandado por Haroldo de Andrade na rádio Globo. Aquele que começava com o famoso “Concerto para orquestra e piano nº 1”, de Tchaikovsky.

Companheiro fiel também da hora de dormir, o radinho de pilha já embalou o sono de muita gente com outro clássico das ondas médias, as curiosidades enunciadas pela rádio relógio acompanhadas do famoso bordão “Você sabia?” Hoje, o radinho está completamente fora de moda, tanto que nem nos estádios, onde era um elemento de integração social na hora de uma dúvida sobre o que estava acontecendo no campo, ele é mais ouvido.

NÃO SEI O QUE NEM QUERO SABER

Não sabe e não quer saber?

Tem gente que sabe
Buscando quem quer saber.

E quem quer saber
Buscando quem sabe.

Quem sabe um encontra o outro?
Outro que sabe

Não quer que ninguém saiba,
Porque se souberem
Não vão mais querer saber.

Se souberem o que ninguém sabe
Saberão porque ninguém sabe.

E os que não sabem
Ficarão sem saber.

O que se sabe
É que o que se sabe
Nem sempre é o que se deveria saber,

E o que se deveria saber
Nem sempre se sabe ao certo.

O que ninguém sabe, no entanto,
É o quanto se sabe,
E quanto se deveria saber.

Pois, realmente, o que se sabe
É o que dizia o sábio:
“Nada sei. Só sei que quanto mais sei mais sei que menos sei”.

Portanto, não sei e nem quero saber!

VOLNER AMARAL

5.04.2009

O PRAIÃO DE SANTA LUZIA


Numa época em que o carioca sequer pensava em tomar banho de mar, o centro do Rio de Janeiro abrigava um verdadeiro praião. Hoje só existe aterro por lá e o mar apenas pode ser visto dos prédios, coisa que também não existia na época. À frente da praia, a igreja de Santa Luzia, que lhe dava o nome, construída em 1592 em terreno doado por João Pereira Lemos e sua esposa, ainda estava em sua localização original, a pouca distância da atual, que é do final do século XIX e já havia recebido duas torres e uma ampla e bem trabalhada porta.

Para se ter uma idéia de como praia era algo totalmente alheio ao estilo de vida carioca, basta dizer que a de Santa Luzia também era conhecida como Praia da Forca, devido à existência de um pelourinho nela, e também abrigava um cemitério de indigentes ao redor. Até meados do século XIX, também era o endereço do matadouro da cidade. Menos convidativo, impossível.

Na liturgia católica, Santa Luzia é a santa que protege os olhos. O príncipe-regente D. João, chegado aqui em 1808 com toda a sua Corte fugida de Napoleão, era católico da cabeça aos pés e com certeza agradeceu muito a Deus por ter chegado são e salvo à sua mais rica colônia. Foi por toda essa fé que, em 1817, o príncipe disse ao Intendente Geral Paulo Fernandes Viana que queria ir à igreja de Santa Luzia para cumprir a promessa de cura de um problema que seu neto, D. Sebastião, tivera nos olhos.

Bem, de simples o pedido de D. João não tinha nada. Qualquer movimentação sua pela cidade exigia uma grande infra-estrutura logística. Carruagens, cocheiros de fardas, cadetes na frente, lacaios atrás (com jarro d´água e goiabada), escolta, padre, jumento com criado e pinicos feitos de pura louça pintada, além de outras parafernálias, tudo tinha de ser devidamente preparado. Ou seja, mesmo que quisesse sair apenas para comprar um galetinho na esquina, D. João daria muito trabalho a muita gente.

Mas isso constituía a rotina do príncipe e precisava sempre ser feita. O pior era que o trajeto até a igreja, também chamado de Caminho da Forca, era muito estreito e não permitia a passagem da comitiva. Além disso, para piorar, a região ficava constantemente alagada.

Foi preciso então fazer uma espécie de “choque de ordem”, para usar uma expressão da moda. O estreito caminho para se chegar à igreja e à praia foi alargado, embora para isso fosse preciso derrubar o muro da chácara de d. Ana Francisca de Jesus, que recebeu uma indenização de 800 mil réis no ano seguinte. Provavelmente estava bem aquém do valor do terreno, mas não adiantava reclamar. Não havia Procon nem colunas de ´Defesa do consumidor´, haja vista a absurda lei que obrigava os donos das melhores casas da Corte a cederem suas residências por um determinado tempo aos nobres ociosos.

Depois que perdeu estas companhias indesejáveis, ainda no século XIX, a praia de Santa Luzia acabou se tornando a predileta dos clubes de regata e das casas do banho de mar, como a Charneca da lua e a Sociedade Alemã de Ginástica. O mais curioso é que as pessoas tomavam banho de mar amarradas a cordas presas em trapiches. Como se vê, ´pegar uma praia´ na época era um programa dos mais exóticos para um povo que usava trajes europeus em pleno calor tropical.

RETRATOS URBANOS


A matéria-prima da fotógrafa Elisa Gaivota é a mesma da Elisa escritora, que eu ainda irei divulgar neste espaço: a sensibilidade em perceber o sentimento e a expressão das pessoas. Como disse Evandro Teixeira: enquanto todo mundo focava o presidente para um monte de fotos iguais, eu focava o povo, na esperança do inusitado.

Algumas de suas fotos lembram os filmes do cinema novo, Gláuber e Nélson Pereira dos Santos principalmente, e não por acaso, afinal esses cineastas dirigiram suas lentes para o povo e sua intensa capacidade de expressão. Duas fotos com sorrisos, uma de uma mulher e outra de um homem, captam uma alegria intensa, que com certeza teriam uma intensidade muito menor se fossem tiradas um milésimo de segundo antes ou depois. O homem que olha para a estátua de Zumbi favorece uma múltipla leitura, de devoção, afinidade ou esperança. Ou as três juntas.

A primeira foto, do malabarismo na praça, não apenas tem o momento preciso do equilíbrio, mas também, e aí, o paradoxo, pois a foto teoricamente é uma imagem ´parada. É a mesma situação de um pintor que consegue criar movimento na tela parada. Ali gostei também da centralização do movimento, a rodinha em volta, tudo muito bem enquadrado.

A foto tirada na pista Cláudio Coutinho também me chamou a atenção pelo enquadramento, o pescador preso numa interseção que permite até uma leitura meio sensual, se formos perceber duas pernas na árvore que se debruça sobre o mar.

Escolhi apenas algumas fotos para falar, pois o principalmente aqui é dar uma opinião geral sobre o que achei da mostra, que, aliás, tem um ótimo título. Resumindo, o fotógrafo artista é aquele que não apenas registra os fatos, mas deixa uma ampla gama de possibilidades de livre interpretação, mas sempre baseadas na beleza, na percepção estética do belo, que muitas vezes surge até em meio à miséria, como nas fotos de Evandro Teixeira sobre o sertão e na foto que você faz dos meninos saindo da água poluída da Baía de Guanabara, na praça XV. Poderíamos imaginar aqueles garotos saindo da piscina de um centro esportivo, tal a alegria deles, o que gera, e aí a sua percepção do lado humano, a possibilidade de mudança da situação deles, do que ´poderia ser feito´, enfim, a foto como elemento transformador social. Engraçado que sempre vejo garotos nadando ali e imaginei que daria uma ótima foto.

A percepção do seu talento me permite dizer que você une a intuição do artista com o olhar rápido e atento do fotojornalista.

- A exposição "Retratos urbanos" estará no Centro Universitário Moacyr Sreder Bastos, no bairro de Campo Grande, entre 26 de maio e 7 de junho. E todo o trabalho da Elisa, inclusive as fotos que menciono neste texto, estão publicadas no blog dela (www.elisagaivota.blogspot.com).

4.20.2009

"QUEM MATOU ELZA?"


Elza, a garota - Sérgio Rodrigues - Editora Nova Fronteira - 240 páginas - R$ 29,90

Para quem domina a ficção, é irresistível preencher uma pesquisa histórica cheia de lacunas com os ingredientes literários de uma narrativa inventada. É o que Sérgio Rodrigues faz diante da conturbada vida de Elvira Cupello Calônio, codinome Elza, comunista morta por comunistas num período em que se dizia que eles comiam criancinhas com batata. No caso de Elza, foi quase isso.

Namorada de Antônio Maciel Bonfim, o Miranda, secretário-geral do PCB, Elza foi presa junto com vários camaradas durante a fracassada Intentona Comunista de 1935, uma tentativa de golpe que só aumentou o poder de Getúlio Vargas, dando-lhe subsídios para a criação do Estado Novo, em 1937, e considerada pelo jornalista e escritor Zuenir Ventura no prefácio do livro “um dos maiores erros políticos já praticados pela esquerda em toda a sua história”.

Algumas semanas depois de solta, Elza foi enforcada com uma corda de varal no bairro carioca de Guadalupe (na jurisdição atual) pelos próprios comunistas, que a acusavam, junto com Miranda, de traição, e enterrada dentro de um saco de aniagem no quintal da casa. “É tão fácil matar quem está na clandestinidade!”

A própria idade de Elza é um mistério, oscilando entre 16 e 21 anos. Segundo os legistas que a examinaram, ela teria “um corpo em formação”, embora o processo do Tribunal de Segurança Nacional mencione 21 anos. O mesmo tribunal condenou Luiz Carlos Prestes, o grande nome do comunismo brasileiro, denominado “cavalheiro da esperança”, e mais seis pessoas a 30 anos de prisão pela morte de Elza. Todas estas penas foram suspensas pela anistia de 1945.

Prestes não teria participado da execução, mas a ordenado da prisão, o que configura mais uma capítulo polêmico de sua biografia, assim como, ao conquistar a liberdade, passou a apoiar Getúlio Vargas, o algoz de sua esposa Olga Benário Prestes, entregue, grávida, de mãos beijadas para ser morta num campo de concentração nazista.

O maior mérito de Sérgio Rodrigues neste livro é superar a difícil tensão entre ficção e realidade, que caminham lado a lado, disputando espaço e instigando o leitor a imaginar as peças que faltam neste quebra-cabeças polêmico, confuso e cruel. Assim, o autor conta de forma harmônica duas histórias paralelas: uma, a pesquisa baseada em documentos e entrevistas, e a outra, um quase monólogo do ex-comunista Xerxes, de mais de 90 anos, que teria conhecido Elza (até chegou a trocar beijos com ela), diante do jornalista Molina, contratado por Xerxes para escrever a sua história.

Na verdade, Sérgio Rodrigues parece usar a ficção para compensar a falta de informações confiáveis sobre a vida de Elza, que o levaram a vasculhar arquivos e descobrir, por exemplo, uma carta falsa escrita pelo temido Filinto Muller, chefe de polícia de Getúlio Vargas; a viajar a Sorocaba, terra natal de Elza, e a entrevistar pessoas que viveram e conheceram bem a época, mas que não lhe deram muitas certezas. Xerxes, provavelmente, simboliza o percurso de Sérgio nesta pesquisa: “O que todo mundo sabe sobre a Intentona é necas, xongas”.

Os dois personagens criados são bem interessantes e desenvolvidos com muita habilidade, já que o autor é bastante atento ao ambiente que os cerca, a sala do apartamento de Xerxes, na zona sul carioca, e também às interrupções, como alguma tosse, a chegada de Maria, a empregada, os devaneios do interlocutor, enfim, tudo que consiga dar um ritmo mais dinâmico a um, como já foi dito, quase monólogo.

O entrevistador, que quase não dá pitaco na história, é o típico jornalista de meia-idade frustrado, duro, morador de um pequeno apartamento decadente e cheio de livros, mas que tem o seu charme, uma namorada 20 anos mais nova e que lhe dá o suporte emocional que precisa. Fã incondicional da antiga série de TV “Além da imaginação”, Molina costuma dar longos passeios pelo Rio, apesar das intempéries que encontra pelo caminho, como o busto de Getúlio Vargas no bairro da Glória, bem em frente à casa da namorada e que surge como uma metáfora da história que ele pesquisa, “o emblema definitivo de todas as desproporções, aleijões e fealdades que a intervenção humana tinha infligido à paisagem natural daquela que um dia fora a mais bela cidade do mundo”.

Para Xerxes, comunista desencantado, “o filho-da-puta de extrema direita sabe que é um filho-da-puta”, mas o de esquerda, respondendo a uma pergunta de Molina, “se acha mais puro que São Francisco de Assis”. Suas revelações típicas de quem não conseguiu se adaptar a um mundo desprovido de sonhos acabam se revelando uma grande surpresa ao final do livro enquanto Elza, a garota, continua sendo um dos muitos cadáveres insepultos da História política brasileira.

4.13.2009

TIÃO VIANA E AS ORGANIZAÇÕES TABAJARA


A descoberta da astronômica conta de telefone celular da filha do senador Tião Viana (PT-AC) simboliza bem a vergonhosa “parceria-público-privada” da política brasileira. A história, já bem divulgada pela imprensa, é a seguinte: o senador emprestou o telefone celular para a filha, que numa viagem ao México gastou exatos R$ 14.758,07 com ligações, despesa esta que seria paga, como diz o Ancelmo Góis, pelo meu, o seu, o nosso dinheiro. Escândalo revelado pela imprensa, o nobre parlamentar afirmou que iria pagar a despesa do próprio bolso, como sempre acontece após a "casa arrombada".

Diante de tantos episódios absurdos de uso do dinheiro público para fins particulares que vêm sendo divulgados no Congresso, como as diversas comissões cuja única função é a de empregar apadrinhados (tem uma até para cuidar do coral do Senado), a impressão que se tem é que, com raríssimas exceções, aquele que consegue se eleger para a Câmara dos Deputados ou o Senado Federal pode estufar o peito e gritar bem alto o bordão das Organizações Tabajara, do grupo Casseta & Planeta, bastando apenas inverter o pronome: “Os meus problemas acabaram!”

Diante desta autêntica farra do dinheiro público, o sujeito que consegue se eleger para Brasília pode muito bem se assemelhar a um ganhador da loteria. Senão, vejamos: ele vai passar quatro ou seis anos ganhando um excelente salário e se aposentar em bem menos tempo que a maioria dos mortais, receberá diversas benesses, como viagens, casas confortáveis, carrões para ele e a família, direito de nomear um monte de gente e muitas outras vantagens, como o auxílio-paletó e a língua do contribuinte para colar o selo das cartas.

Acredito que o Brasil não teve uma revolução até hoje para mudar este estado de coisas porque a maioria da população vê o cargo eletivo em Brasília realmente como um prêmio da loteria. Ao invés de dizer: “Ladrões, corruptos! Precisamos tirá-los de lá!” e tomar a Bastilha do cerrado, é mais fácil sonhar acordado: “Quem sabe um dia eu não chego lá e não faço o mesmo? Vou recuperar tudo o que eles me roubaram!”

O mais triste é saber que estas denúncias são apenas a ponta do iceberg, que os ralos do dinheiro público são muitos e se espalham também pelo Executivo, Judiciário e toda a máquida do governo, só que de vez em quando a coisa vaza na imprensa, devido, principalmente ao pitoresco de casos como o destas ligações de celular ou dos cartões corporativos, usados até para comprar pamonha.

Dá para acreditar no que escreveu, de forma muito perspicaz, o correspondente do “The New York Times”, Larry Rother: “A corrupção no Brasil é endêmica”. Principalmente quando descobrimos que o gasto de telefone celular da filha de um senador poderia matar a fome de muitas famílias pobres. Mas a Copa do Mundo e as Olimpíadas vêm aí e tudo logo será esquecido.

3.30.2009

DA VALA AO VALÃO


Quem anda pelo terreno firme do centro do Rio de Janeiro com certeza ficará impressionado se souber que está pisando numa grande quantidade de lagoas, pântanos e morros devidamente aterrados ao longo dos séculos. A conquista daquela região foi uma árdua luta contra um terreno onde só era possível a residência principalmente de mosquitos.

Refugiados no extinto morro do Castelo, os pioneiros habitantes da cidade só foram descendo a encosta aos poucos, à medida que o terreno ia sendo conquistado. As primeiras ruas, da Misericórida, cuja ladeira é a única testemunha do que sobrou do morro, e a Direita, atual 1º de março, ainda eram ali, bem pertinho e também próximas ao litoral. Só aos poucos, com a chegada de mais portugueses e a necessidade de se expandir a área residencial, até mesmo para mostrar quem era o dono da terra e evitar novos ataques de franceses ou outros invasores, é que a cidade foi sendo conquistada.

Imagine o que deviam ser os métodos de drenagem e irrigação daquela época e de quantos braços eram necessários para uma empreitada deste porte. Muito, muito tempo foi preciso para que a cidade ganhasse uma configuração minimamente parecida com a atual. As principais lagoas aterradas foram a de Santo Antônio, do Desterro, da Sentinela, da Pavuna e do Boqueirão.

À medida que charcos e pântanos iam sendo debelados, novas ruas eram abertas, e com um detalhe interessante. Quem passa por algumas das que sobraram da época pode perceber que eram ruas muito estreitas e isso tinha como objetivo fazer com que elas recebessem sombra durante a maior parte do tempo. Uma medida inteligente e adotada em todas as colônias tropicais de portugueses e espanhóis. Quem anda sob o sol de verão pela larga avenida Presidente Vargas, obra da década de 40 do século XX, entende bem a necessidade de tal medida.

Com o desenvolvimento das tecnologias de destruição da natureza, os morros foram sendo tirados do caminho sem dó nem piedade. O Rio de Janeiro, durante um bom tempo, foi a cidade do quadrilátero dos morros, espremida entre os morros do Castelo, São Bento, Conceição e Santo Antônio. Sobraram os da Conceição, São Bento e menos da metade do de Santo Antônio, já que sua outra parte foi desmontada para a construção da avenida Chile. Outros morros menores foram completamente destruídos, como o do Senado, na rua do Senado e também chamado de morro de Pedro Dias, e o morro das Mangueiras.

Parte dos aterros destes desmontes foi usada exatamente para acabar com as lagoas e os alagadiços imundos que existiam pela cidade. Nunca é demais lembrar que não existia sistema de esgoto até boa parte do século XIX e por isso os dejetos eram jogados in natura na Baía de Guanabara ou nas lagoas. A rua Uruguaiana, por exemplo, era chamada de rua da Vala por causa da imunda vala que percorria toda a sua extensão e desembocava na baía, carregando toda sorte de detritos. Boa parte deste mar de imundícies também seguia para o Mangal de São Diogo, que já ia para além do Campo de Santana e que só seria habitada após a chegada da Família Real e a expansão da cidade para a região justamente conhecida como Cidade Nova.

Se formos ver hoje o estado deplorável do Canal do Mangue, descendente direto do Mangal, e da Baía de Guanabara, convenhamos que pouca coisa mudou. Isso sem contar que os rios, principal meio de transporte da época, hoje recebem a triste alcunha de valões.

AMIZADE DE OURO


(Publicado no caderno "Prosa & Verso", do jornal "O Globo", em 21 de março de 2009)

Livro reúne cartas de Machado de Assis a Mário de Alencar

“Empréstimo de ouro – Cartas de Machado de Assis a Mário de Alencar” – Organização, introdução e notas: Eduardo F. Coutinho e Teresa Cristina Meireles de Oliveira – Ouro sobre azul - 128 páginas – R$ 75

Ilustres desconhecidas para a geração do e-mail, as cartas eram o meio de comunicação mais utilizado no final do século XIX, entregues rapidamente por mensageiros – que muitas vezes aguardavam pacientemente a resposta. Machado de Assis as empregou muito bem, e em grande quantidade. Este livro, que ainda pega carona nas efemérides do centenário do grande escritor no ano passado, reúne 22 cartas enviadas por Machado a Mário de Alencar, filho de seu grande amigo, o escritor José de Alencar e recebido por Machado, já no final da vida, como “empréstimo de ouro”, para justificar o título.

As 22 cartas, escritas entre 1902 e 1908, ano de sua morte, não trazem lá muita coisa de interessante. São considerações banais, cumprimentos às famílias, encontros e desencontros e recomendações mútuas de saúde (“Se um enfermo pode mostrar a outro o espelho do seu próprio mal conseguirá alguma cousa”). Mas, levando-se em conta que estamos falando de uma pessoa que fez da rigorosa discrição um estilo de vida, não há como negar que a publicação destas missivas se justifica por encontrarmos, aqui e ali, pequenas pistas e detalhes da rotina de Machado na sua então solitária casa do Cosme Velho após a morte da esposa Carolina, em 1904, após quase 35 anos de um casamento feliz.

Assim, descobrimos que para disfarçar a solidão e a melancolia provocadas pela ausência da esposa e pelos problemas de saúde, o maior escritor brasileiro passava algumas noites a jogar paciência no seu sobrado da então silenciosa rua do Cosme Velho, trabalhava em excesso em casa (inclusive aos domingos) e sofria com alguns males, descritos ao amigo de forma detalhada, mas sem esquecer a ironia, sua marca registrada. “Falta de apetite, amargor de boca e recrudescimento do corisa. Um hospital, meu querido!”. Ou então algumas considerações sobre fatos determinantes de sua própria existência, como a ausência de filhos, que poderiam diminuir a solidão. “É o que sucede a quem os possui, para compensar a felicidade de os ter”, sobre um filho de Mário que estava doente.

Organizada pelos professores de Literatura Comparada da UFRJ Eduardo F. Coutinho e Teresa Cristina Meireles de Oliveira, a edição é ricamente ilustrada, com fotos raras do Rio Antigo, reproduções em fac-símile das cartas e uma produção gráfica impecável. Pela publicação das cartas originais, notamos que, à medida que o estado de saúde de Machado piorava, as cartas vão diminuindo consideravelmente de tamanho, abreviaturas surgem aqui e ali e a letra fica bem menos legível. “Vá relevando esta letra execrável, cada vez pior que a de costume”.

Sua preocupação com a Academia Brasileira de Letras, fundada em 1897 e presidida por ele até a morte, era constante. Ainda sem sede própria, Machado ficava a par de tudo o que acontecia, dos novos candidatos, das atas, palestras, reivindicações etc. “A Academia pegou, como dizem alguns, e parece que sim.” Todos os nomes citados nas cartas merecem notas explicativas bem detalhadas, assim como ruas e logradouros do Rio, sempre citados por um escritor que amou sua cidade como poucos e adorava passear por ela. As últimas cartas revelam de forma profunda a tristeza de Machado, que já não tinha forças para “ir à cidade”, expressão que até hoje é usada por quem se dirige ao centro do Rio.

Machado viveu e morreu cercado de amigos, inclusive os da Academia. E não deixa de ser curioso notar que o escritor que criou personagens em sua grande maioria dissimulados, interesseiros e muitas vezes cruéis, tenha sido exatamente o oposto disso tudo, sempre solícito e gentil, incapaz de uma grosseria ou de incomodar os outros com seus problemas (como os de saúde, por exemplo, sempre um transtorno em sua vida). Nestas cartas, nas quais o carinho e a gentileza são as tônicas, como em toda a sua vasta correspondência, isto fica mais do que evidente. Apesar da grande tristeza pela morte de Carolina, “a dor que o dilacerou não o fez encerrar-se em si mesmo”, como diz Antonio Candido na apresentação.

Nas cartas, descobrimos também que Machado confiou a Mário a leitura de seu último livro, “Memorial de Aires”, antes da publicação. O livro é um diário do Conselheiro Aires, espécie de alter-ego do autor, e não faltou ao amigo mais novo a perspicaz observação de que Machado empregava todo o seu talento em pintar com cores belas e saudosistas sua Carolina na figura doce e honestíssima de Dona Carmo. Sem ter como recriar na realidade a felicidade da vida doméstica que viveu por quase 35 anos com sua amada mulher, Machado, como artista genial que era, a reviveu na ficção em seu último e comovente suspiro literário.

3.16.2009

A ARTE DE LER JORNAL NA BANCA

Nunca passei por uma banca com jornais expostos que não tivesse alguém olhando. Geralmente há mais de um e por isso é preciso tomar cuidado para não ficar na frente de ninguém, principalmente se você for alto ou gordo. Caso haja muita gente, aguarde a vez para chegar perto, pois a leitura de jornal em banca não costuma levar muito tempo. O ideal é ficar numa posição em diagonal, pois é possível ler todos os jornais sem atrapalhar ninguém. É bom tomar cuidado também com a carteira, pois de vez em quando, infelizmente, aparece um ou outro que não está ali apenas com a intenção de se informar.

A leitura em banca de jornal, na verdade, é bastante limitada, pois só permite que se veja a primeira página, a chamada “página das manchetes”. Como antigamente muita gente abusava e folheava os jornais, os donos das bancas acabaram grampeando os jornais.

O leitor de bancas de jornal, embora não possa se aprofundar nas notícias (a não ser que, claro, compre o jornal) adquire, com este ofício, uma espécie de “apanhado geral” dos principais assuntos do momento. Isto é muito útil, por exemplo, em relações sociais e profissionais.

Uma figura inconveniente, no entanto, nestes ambientes, é o comentarista, que, como o próprio nome diz, se especializa em comentar as notícias com alguém. Geralmente é uma crítica em tom raivoso e que acaba atrapalhando a leitura dos outros, que para ser eficiente precisa ser dinâmica e silenciosa. Embora seja difícil identificar o comentarista, a recomendação, quando ele começar a resmungar, é procurar se manter concentrado na leitura, de preferência firmando um pouco os olhos e aproximando o rosto do jornal. Geralmente ele desiste. Há também outra figura inconveniente, que é a do egoísta, o sujeito que fica na frente dos jornais e não deixa ninguém ler, principalmente se ele for alto e gordo. Fumantes também provocam grande incômodo.

Os dias de maior movimento em torno das bancas de jornal são as segundas-feiras, por causa dos resultados do futebol de domingo, e também os dias seguintes a algum fato marcante. Embora muita gente acredite que este hábito seja prejudicial aos jornaleiros, o resultado é exatamente o contrário. Vá lá que a grande maioria apenas lê o jornal na banca e vai embora, mas muita gente acaba comprando o jornal, interessado no que viu nas manchetes. O que não se deve jamais fazer é pedir ao dono da banca para “dar uma olhadinha” num jornal porque viu algo interessante lá fora. Aí já é abuso.

Hoje, quando muitos jornais estão disponíveis na internet, acontece também de a pessoa olhar na banca algo que a interesse e ler a matéria inteira na versão online, o que é bastante prejudicial ao dono da banca, que precisa encontrar formas de se adaptar às novas tecnologias.

3.02.2009

VINICIUS E AS CUTIAS


No excelente documentário "Vinicius", de Miguel Faria Jr., Toquinho conta que certa vez Vinicius de Moraes o chamou para ver algo que o deixou impressionado: no quintal de uma casa, animais de diferentes espécies conviviam harmoniosamente, uma situação que o poeta nunca presenciara em seus anos de diplomacia. A mesma observação atenta, e impecavelmente irônica, pode ser aplicada a um outro local bem no centro do Rio de Janeiro.

Ao lado da avenida Presidente Vargas, uma das mais movimentadas da cidade, o Campo de Santana chama a atenção não apenas pelas muitas árvores que abriga, além de dois lagos e uma gruta, mas principalmente por um roedor de tamanho médio que está por todas as partes do campo: a cutia. Sempre de bom aspecto, afinal são bem alimentadas pelos funcionários, elas dividem espaço com gatos, gansos, patos e até pavões, numa demonstração clara de que a convivência entre as diferenças é uma etapa já superada pelos animais ditos irracionais há muito tempo.

Mas quem passa por ali todos os dias (e é muita gente) e se admira do que vê em volta, vai ficar muito mais impressionado se conhecer a rica história daquele espaço que se originou de um outro campo, este muito maior, o de São Domingos, onde ficava a igreja de São Domingos, já destruída e que pertencia a uma irmandade de negros escravos. Já havia uma igreja de outra irmandade de escravos, a de São Rosário e São Benedito, que até hoje está na rua Uruguaiana. Uma terceira surgiria, a de Santana, mas sem igreja ainda os fiéis pediram e conseguiram que a imagem da santa fosse cultuada na igreja de São Domingos, uma prática comum entre irmandades no Brasil colonial. Divergências, no entanto, provocaram a expulsão dos fiéis e da imagem de Santana e a irmandade então solicitou um terreno próprio, no que foi atendida. A igreja foi construída próximo ao morro da Conceição, em 1735, na altura onde é hoje o prédio da Central do Brasil.

À medida que a cidade se expandia, toda aquela região começou a ser urbanizada, com a formação de ruas e praças, já que a área era constantemente alagada. No início do século XIX, o Conde de Resende, último vice-rei do Brasil, mandou aterrar o Campo de Santana, que na época se estendia por toda a área da atual avenida Presidente Vargas em frente à central. Com a melhoria do terreno, surgiram as festas do Divino de Santana, ou Folias do Divino, que antes do carnaval eram as festas preferidas do carioca.

Em 1811, o Conde de iniciou a construção de um quartel no campo, ao lado da igreja. O edifício era considerado muito feio e abrigou o 2º Regimento de Linha em 1814, mesmo sem estar concluído. Depois foi reformado e abrigou a Secretaria de Guerra durante todo o Segundo Reinado. A partir da República seria a sede do Ministério da Guerra até meados do século XX, quando enfim foi destruído, dando lugar ao Palácio da Guerra, atual sede do Comando Militar do Leste, ao lado da Central do Brasil.

Foi no Campo de Santana que D. Pedro I protagonizou o Dia do Fico (ver o texto deste blog "Lula e o dia do Fico, do último dia 26 de janeiro) e recebeu, em 12 de outubro de 1822, já após a independência, o título de Imperador Constitucional de Defensor Perpétuo do Brasil, no amplo balcão do pavilhão construído em 1818 e que explodiu em 1841 quando estava repleto de barris de pólvora e fogos de artifício armazenados para a festa de coroação de D. Pedro II, matando o organizador da festa. O reflexo do sol no vidro de um lampião teria sido o estopim da explosão. Foi durante esse período que o campo passou a se chamar Campo da Aclamação.

O Campo também abrigou o Museu Real, fundado por D. João VI em 1818, na casa do Barão de Ubá, que depois seria a sede do Arquivo Nacional e que ainda existe, em péssimo estado de conservação, na esquina da rua Visconde do Rio Branco. O Museu abrigou uma grande quantidade de espécies da flora e da fauna, além de um rico acervo mineral, sendo depois transferido para o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista.

O gradeamento é 1873, obra de François Marie Glaziou, um botânico francês que trabalhou em vários jardins públicos da Corte. O que ele não poderia imaginar é que quase 140 anos depois sua obra serviria de passagem para que várias pessoas, na maioria idosas, levem quilos e mais quilos de ração para os muitos gatos do campo à noite. É nessa hora que surge a única iminência de conflito entre os animais do local, pois os fornecedores da ração acabam tendo de afastar os patos que, sorrateiramente, vão se aproximando, de olho na ração dos gatos. Já as cutias aproveitam a redução do barulho dos carros e dormem a sono solto no campo onde elas representam o papel principal durante o dia.

OBRAS CONSULTADAS:

- O Rio de Janeiro Imperial - Adolfo Morales de los Rios Filho - Topbooks - 2000 - Rio de Janeiro (RJ)

- O Rio de Janeiro - Moreira de Azevedo - Brasiliana Editora - 1969 - Rio de Janeiro (RJ)

- O Rio de Janeiro em seus 400 anos - Vários autores - 1965 - Rio de Janeiro (RJ)

- O Rio de Janeiro em seus 400 anos

2.09.2009

SARNEY, O ETERNO


Apesar de já ter a imortalidade garantida por fazer parte da Academia Brasileira de Letras, o ex-presidente José Sarney parece cultivar outro tipo de "eterna permanência": o poder.

Sua trajetória política comprova isso. Vindo da Aliança Renovadora Nacional (Arena), o partido oficial do governo na época da ditadura, Sarney conseguiu fazer parte da chapa que levaria Tancredo Neves à presidência do país em 1985, numa eleição indireta. Bem, o que aconteceu todo mundo já sabe, e Sarney foi o presidente da chamada “Nova República” entre 1985 e 1990, tendo entregue a Fernando Collor de Melo um país com uma inflação média de 84% ao mês e tendo sido protagonista de um dos episódios mais folclóricos da recente História política brasileira, que foi a picareta arremessada contra o ônibus dele, no centro do Rio de Janeiro.

Recém-eleito presidente do Senado pela terceira vez, José Sarney é uma espécie de eminência parda do governo Lula, que em outras épocas era seu ferrenho adversário, embora em política a amnésia seja um dos atributos essenciais para o sucesso e a sobrevivência. Lula, como político experiente que é, sabe que uma figura como Sarney é imprescindível para a articulação política no Legislativo.

O ex-presidente, com sua fala mansa, seu jeito conciliador, sua vasta experiência na política e na vida e seu profundo conhecimento dos dispositivos internos e da burocracia do Congresso, fundamentais para o governo que quer aprovar um projeto – principalmente se estiver com pressa - representa a figura do trabalhador que já está há muito tempo na empresa e que precisa ser respeitado por quem entra agora, pois conhece todos os atalhos tanto para ajudar como para derrubar. Citando uma tirada filosófica de Romário, Sarney impõe respeito àquele que entra no ônibus agora e já quer sentar na janela.

Aliás, o PMDB, partido de Sarney (que na “infância”, quando se chamava MDB, era oposição à Arena, partido de Sarney), cumpre com perfeição este tipo de política na esfera federal. Nunca lança candidato à presidência (o ex-governador do Rio Anthony Garotinho entendeu isso de forma clara) mas sem ele ninguém governa. Ainda mais agora, que também elegeu Michel Temer para a presidência da Câmara.

Nunca li um livro de Sarney, por isso não posso julgar sua verve literária, mas se um dia ele vier a escrever suas memórias, com certeza elas serão indispensáveis a qualquer um que se interesse por política, independentemente de partido ou ideologia. Posso até sugerir o título: "Políticos e picaretas".

2.03.2009

OS PINGOS DOS IS


Falaram tanto do trema, mas a reforma que pretende unificar a língua portuguesa custou muito tempo e dinheiro e não eliminou o mais inútil dos sinais – tanto daqui como d´além mar.

Há quem defenda e quem condene a reforma, sendo que o segundo grupo me parece ser bem maior, a julgar pelos comentários que tenho ouvido. Mas acontece que ela está aí, aprovada e aos poucos sendo adotada em veículos de comunicação. O prazo para a completa adaptação é bem longo, até 2012. Depois disso não tem jeito: quem não escrever do novo jeito vai...bem, não vai acontecer nada, pois até hoje são raros os que dominam completamente todas aquelas inúmeras regrinhas de ortografia e acentuação, incluindo aí as terríveis exceções da regra.

Um exemplo é o hífen. Se suas regras de aplicação já eram mais misteriosas do que letra de médico, imagine agora. Vai ser preciso, enfim, estudar as regras antigas apenas para negá-las depois, quase um exercício de masoquismo gramatical. Mas diante de tantas mudanças, foi estranho perceber a permanência daquele que é, a meu ver, o símbolo mais inútil da língua portuguesa: o pingo do i e do j. Afinal, para que ele serve? Lembra aquele sujeito que quando falta ao trabalho ninguém nota e por isso ele faz questão de chegar cedo, falar com todo mundo e mostrar presença, só para não perceberem sua inutilidade.

Assim é com o pingo. Por algum motivo, ele continua presente com a nova reforma ortográfica. Será que é possível pensarmos em alguma espécie de lobby político-lingüístico para a sua permanência, enquanto o pobre do trema (este mesmo aí na linha de cima) foi excluído, com todas as letras, da língua portuguesa? Bem ou mal, ele tinha lá a sua função, nem sempre bem entendida, mas útil. Imagine se daqui a algum tempo as pessoas começarem a falar cinkenta em vez de cinqüenta?

A única vantagem do pingo parece ter sido a de dar origem a uma expressão bastante usada até há algum tempo, “vamos colocar os pingos nos is”, quando alguém queria explicar algo de forma convincente. A julgar pelas dúvidas que a reforma está provocando, principalmente em relação aos já citados hífens, esta expressão me parece ser bem atual.

2.02.2009

(Publicado no caderno "Prosa & Verso", do jornal "O Globo", em dois de fevereiro de 2009, versão online (www.oglobo.com.br/blogs/prosa)

Por Miguel Conde

André Mansur e as histórias da Zona Oeste carioca

O título do novo livro do jornalista André Luis Mansur, "O Velho Oeste carioca" (Ibis Libris), sugere à primeira vista mais um relato sobre o bangue-bangue diário em que a vida no Rio de Janeiro às vezes parece transformada. Não é nada disso, explica o autor. O livro conta uma história menos sangrenta, mas à qual não falta dramaticidade: o desenvolvimento da Zona Oeste do Rio de Janeiro. A partir de relatos da época e trabalhos de historiadores, Mansur conta uma história que a maioria dos cariocas desconhece, e que ajuda a entender um tanto da cidade atual.

Nos comentários sobre a última eleição municipal, houve quem apontasse um antagonismo entre Zona Sul e Zona Oeste. O que você acha disso?

Acho que existe um antagonismo principalmente cultural. Na zona sul, você esbarra em teatros, cinemas, museus e centros culturais, enquanto na parte da zona oeste que estudo no livro (de Deodoro a Sepetiba) não há sequer uma livraria de peso. Em relação à memória da região, tema do meu livro, destaco uma instituição que faz um trabalho muito importante, que é o Núcleo de Orientação e Pesquisa Histórica (Noph), de Santa Cruz.


Na verdade, quando pensei no título, pensei principalmente na sonoridade dele e na curiosidade que poderia despertar, características que me foram confirmadas por muita gente que se sentiu atraída pelo título. No caso da “terra sem lei”, há alguns trechos que falo disso em relação aos problemas de limites e demarcação de algumas das antigas fazendas, que muitas vezes deram origem a conflitos.

O desenvolvimento urbano do Centro e da Zona Sul é razoavelmente conhecido, mas o da Zona Oeste não. Como ele se deu?

Com exceção da Fábrica de Tecidos Bangu, foi basicamente um desenvolvimento agropastoril, com destaque para a Fazenda de Santa Cruz - uma das maiores do Brasil na época em que foi dos jesuítas e chamada de “jóia da Coroa” -, muitos engenhos e o ciclo da laranja, que fez de Campo Grande o maior produtor da fruta nos anos 30 e 40 do século passado. A exceção deste contexto foi a área entre Realengo e a Vila Militar, que, por opção estratégica, foi ocupada principalmente por quartéis do Exército.

Como estudar a história da Zona Oeste nos ajuda a entender o atual estado da região, e em particular seus problemas?

Um dos grandes problemas da Zona Oeste é que ela passou de uma área rural para uma área urbana muito rapidamente nas últimas décadas. Não houve uma fase intermediária, uma fase sub-urbana. Com isso, surgiram diversos problemas, como crescimento populacional desordenado, trânsito caótico e diversas questões de “ordem pública”, para usar uma expressão que está na moda, como poluição sonora, por exemplo. Isso sem contar a degradação ambiental verificada nos parques florestais e no litoral, principalmente em Sepetiba e na Pedra de Guaratiba.

Quais foram os principais autores que registraram algo sobre a vida na Zona Oeste nos séculos anteriores?

Além de autores importantes da região, como o historiador Benedicto Freitas, que escreveu uma coleção de três volumes sobre Santa Cruz, cito autores que dedicaram um bom espaço à região em livros sobre o Rio de Janeiro, como Brasil Gerson, Noronha Santos e Monsenhor Pizarro, sem contar os muitos visitantes europeus que estiveram na região, como a inglesa Maria Graham e o pintor francês Jean Baptiste Debret.

Durante sua pesquisa, o que te surpreendeu sobre a região?

Sem dúvida, foi a história da Fazenda de Santa Cruz, principalmente do período a partir da chegada do príncipe-regente D. João, em 1808, que se apaixonou pela região e transformou o prédio principal da fazenda em palácio de veraneio. Saber que um bairro da zona oeste se tornava sede de um poderoso império durante vários meses do ano realmente me surpreendeu. E a excelente condição da sede da fazenda (hoje é a sede do Batalhão de Engenharia Militar Villagran Cabrita), sempre recebendo visitas de pesquisadores e alunos de escolas públicas, é uma referência perfeita de como pode e deve ser preservado o imenso patrimônio histórico da região.

1.26.2009

LULA E O DIA DO FICO


Não sei não, mas cada vez me parece mais que Lula quer repetir D. Pedro I.

Faltando dois anos para o fim do mandato, o presidente Lula vive um dilema aparentemente inconciliável: como transferir parte dos 80% de sua aprovação pessoal pelo povo (pelo menos é o que dizem os institutos de pesquisa) para um candidato. Pois a não ser que haja uma mudança radical no quadro político, já deu para perceber que a ministra Dilma não terá força e, principalmente, carisma (mesmo com a plástica) para receber o bastão da permanência do Partido dos Trabalhadores no governo.

Como não há prováveis sucessores dentro do partido, já que os amigos mais próximos foram atropelados pelo rolo compressor do mensalão e outros escândalos, Lula vê como única alternativa para a permanência do PT no governo o terceiro mandato, que, a julgar pelas pesquisas, é barbada certa para ele.

Mas o presidente da República não pode defender abertamente um terceiro mandato, pois pode cheirar a golpismo. No Congresso, a possibilidade de que tal idéia vingue é, além de remotíssima, extremamente desgastante politicamente. Por isso, Lula optou por um caminho menos espinhoso, menos exposto, o caminho da sutileza, do tipo “comendo pela beirada”.

Embora Lula negasse essa possibilidade, um ou outro aliado sempre dava uma declaração aqui e ali, deixando a possibilidade em aberto, situação parecida com a do sujeito que gosta de uma garota, mas por excessiva timidez pede a um amigo para interceder por ele.

O presidente, no entanto, parece estar perdendo a timidez no assunto reeleição e a possibilidade do terceiro mandato já parece clara e tentadora. A maior prova disso foi a recente declaração dele defendendo a possibilidade do presidente venezuelano Hugo Chávez se candidatar indefinidamente à reeleição naquele país e afirmando, textualmente, que no Brasil “isso não impede que, daqui a um tempo, apareça um partido, uma maioria de deputados, que proponha mudar a lei que proíbe ter apenas uma reeleição (para) poder três ou quatro. Isso pode acontecer”.

Se a tônica será esta daqui para frente, é bem provável que Lula prepare um novo “Dia do Fico”, quem sabe em nove de janeiro de 2010, 188 anos depois de D. Pedro I ter dito, no Campo de Santana, sua famosa frase “Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto! Digam ao povo que eu fico”!, recusando a partida para Portugal e preparando o terreno para a independência do Brasil e sua posse como primeiro imperador do país.

Mas se Lula repetir a frase de D. Pedro I, uma coisa é certa. Pelo menos desta vez ele não poderá iniciar o discurso com o seu já famoso bordão: “Nunca antes na História deste país...”

1.25.2009

AS HISTÓRIAS E AS LENDAS DO VELHO OESTE CARIOCA


(Publicado no jornal "Extra", de 11 de janeiro de 2009)

Jornalista reúne em livro episódios da Zona Oeste da cidade: fatos e lendas sobre a ocupação da região

ISABELLA GUERREIRO


No Velho Oeste carioca não tinha cowboy, como no faroeste americano. Mas, nas histórias sobre a ocupação da região – que vai de Deodoro a Sepetiba – tem pirata, ou melhor, corsários franceses, e até um sacerdote que evangelizava com a ajuda de um projetor de cinema, sem falar das curiosidades sobre a Família Real, que se hospedava na Fazenda Santa Cruz.

Esses e outros casos dos séculos 16 ao 21 foram reunidos pelo jornalista André Luis Mansur, de 39 anos, no livro “O Velho Oeste Carioca” (Editora Ibis Libris, R$ 30). Mansur, que foi criado em Marechal Hermes e mora em Campo Grande há 18 anos, decidiu resgatar o patrimônio histórico da região quando pesquisava para um trabalho sobre os 500 anos do Descobrimento do Brasil.

- Em 2000, saíram muitos livros sobre a história do Rio. Vi algumas coisas sobre a Zona Oeste, mas nenhuma obra específica sobre a região. Então, resolvi pesquisar sobre a área – conta.

Invasão de corsários

Durante cinco anos, Mansur levantou dados sobre a história da Zona Oeste em livros de pesquisadores da região, jornais e relatos de cronistas do Rio Antigo e de viajantes europeus. Um dos fatos que mais o surpreendeu foi a invasão de piratas franceses a partir de Barra de Guaratiba, em 1710.

- Eles foram guiados por escravos e atravessaram as montanhas e florestas da região até o centro da cidade, onde foram derrotados – explica Mansur. Conta-se ainda que o líder do grupo, Du Clerc, após ser preso foi morto misteriosamente. A causa seriam “aventuras amorosas” – diverte-se.

O historiador Mílton Teixeira ressalta, porém, que os invasores eram corsários. Ele explica a diferença.

- Pirata rouba para si. Corsário rouba para o rei, no caso Luís XIV, da França – diz Teixeira, que se diverte ao comentar o episódio: - Deve ter sido uma cena espetacular. Mil soldados com penachos vermelhos na cabeça atravessando a cidade. Uma cena que nem Joãosinho Trinta poderia imaginar.

Outra história curiosa do livro é sobre Padre Miguel, sacerdote espanhol que chegou ao Rio em 1908, com 29 anos. Apaixonado por cinema, produziu diversos filmes mudos de caráter religioso na região de Realengo.

* DOM PEDRO I:
o príncipe gostava de tomar uma pinga famosa numa barraca em Realengo durante as idas até a Fazenda Santa Cruz. Ele gostava muito de fazenda e cavalo. Lá, Dom Pedro I aproveitava para se encontrar com sua amante, Domitila de Castro e Canto Melo, a Marquesa de Santos. Bem afastado do burburinho da Corte.

* FAZENDA SANTA CRUZ: Conta-se que Dom João foi mordido por um carrapato na fazenda, antiga propriedade dos jesuítas, hoje batalhão do Exército. A ferida se transformou numa úlcera e o príncipe-regente passou a usar uma cadeirinha para se locomover. Era na fazenda que ficava o boi Patrício, animal de estimação de Dom João. Ninguém podia bater no animal, que veio de Portugal junto com a Corte, em 1808.

* FUTEBOL NASCEU EM BANGU?: Há uma suspeita de que o futebol possa ter dado seus primeiros chutes em Bangu, antes que o paulista e filho de ingleses Charles Miller trouxesse bolas da Inglaterra e iniciasse a prática do esporte em São Paulo, em 1894. Consta que a primeira bola entrou em Bangu escondida por Thomas Donohue, um dos técnicos britânicos contratados pela Fábrica Bangu. No campo que existia nos jardins da fábrica, Donohue jogava futebol com outros funcionários britânicos.

* DIRIGÍVEIS: Santa Cruz possui o único hangar de dirigíveis do mundo. Construído entre 1934 e 1936, o hangar do Zeppelin, como é conhecido, servia de abrigo aos dirigíveis construídos na Alemanha pelo conde Ferdinand von Zeppelin, e que faziam a rota entre Berlim e o Rio. A região foi escolhida para sediar o hangar principalmente devido às condições climáticas e à direção favorável dos ventos. Lá, os dirigíveis eram recolhidos para manutenção, reabastecimento e embarque de passageiros.

Foto: Fábrica Bangu, com um campo de futebol ao lado.

1.19.2009

O ENIGMA DA RABANADA


No final do ano, duas coisas são mais do que certas: reportagem sobre vendas de Natal e o enigma da rabanada, que consiste simplesmente no seguinte: por que só se come rabanada no final do ano se os seus ingredientes estão disponíveis durante todos os outros meses em qualquer quitanda? Esta é uma questão levantada por muita gente e que se torna ainda mais complexa por ser uma guloseima extremamente apreciada, fria ou quente, comida na hora ou no dia seguinte.

Talvez a explicação mais plausível seja a da tradição, esta insondável causa de situações para lá de incompreensíveis e que se justificam apenas por passarem de geração a geração. Era o que acontecia, por exemplo, ou ainda acontece, com a mistura de leite com manga, que os avós diziam ser fatal mas sem nenhum argumento convincente, e que privou gerações inteiras de uma mistura das mais saborosas.

Experimente pedir uma rabanada em abril, ou agosto. A pessoa, provavelmente, irá lhe lançar um olhar crispado de indignação, como se você estivesse prestes a realizar um ato dos mais sórdidos e, principalmente, contribuir para solapar os alicerces que dão estabilidade à família e, por conseqüência, à sociedade.

Isso sem contar os comentários dos vizinhos, que, ao sentirem o inconfundível aroma da rabanada, são capazes de ligar para um “disque qualquer coisa” a fim de denunciar tão vil iniciativa ou realizar um abaixo-assinado pedindo a expulsão de um vizinho desagregador de costumes. No mínimo, diriam, num severo tom de censura: “Rabanada nessa época? Tá maluco?!”

Ou seja, é uma árdua batalha e, para vencê-la, é preciso muita ousadia. Aqueles que tomarem a dianteira vão sofrer, com certeza. Irão provocar raiva, ou inveja, quando fizerem a “rabanada fora de época”. Mas, quem sabe, esse esforço não gere bons frutos? Quem sabe se daqui a uns 20 anos, na Avenida Rio Branco, coração do centro do Rio de Janeiro onde proliferam barracas de churros, não será normal encontrar barracas de rabanadas a um real cada, quente ou fria, dependendo do gosto do freguês?

Há pessoas tão viciadas em rabanada que logo após as festas de fim de ano sofrem da síndrome de abstenção da guloseima e passam o mês de janeiro inteiro irritadiços, ansiosos e às vezes violentos. É preciso que algo urgente se faça, uma sugestão seria a inclusão da rabanada na cesta básica. Aguardo sugestões.

1.16.2009

RELATO HISTÓRICO

(Publicado no caderno “Zona Oeste”, do jornal “O Globo”, em 13 de setembro de 2008)

Em “O Velho Oeste carioca”, jornalista André Luis Mansur divulga sua pesquisa sobre a região

Por Thaís Britto

Reza a lenda que a região da Ilha de Guaratiba recebeu este nome por causa de um marinheiro inglês chamado William, que chegou ao Brasil junto com a comitiva de D. João. Outra sugere que a origem do futebol no Brasil não é nada daquilo que se pensa: o esporte teria nascido aqui, com os funcionários ingleses da Fábrica Bangu, antes da chegada de Charles Müller. Entre causos e fatos, o jornalista André Luis Mansur, de Campo Grande, lançará em outubro (o livro foi lançado no dia nove de dezembro, no Paço Imperial) o livro “O Velho Oeste Carioca”, onde reúne cinco anos de pesquisa sobre a Zona Oeste e sua importância na formação do Rio.

A idéia de lançar o livro surgiu no ano 2000, quando Mansur trabalhou como freelancer no projeto de pesquisa dos 500 anos do Descobrimento do Brasil.

- Sempre via informações sobre a Zona Oeste nessas buscas, mas sentia falta de publicações especíificas sobre a região. Acabei me interessando por trabalhar com pesquisa e passei a procurar histórias – comenta o autor.

Ele conta ter passado muito tempo em bibliotecas, entre as quais a do Centro Cultural Banco do Brasil, a Biblioteca Nacional e a do Centro Universitário Moacyr Sreder Bastos, onde trabalha.

Diarios de viajantes europeus e obras históricas, como “As freguesias do Rio Antigo”, de Noronha Santos; Histórias das ruas do Rio”, de Brasil Gerson; e “Donos do Rio em nome do rei”, de Fania Fridman, foram algumas das principais fontes de informação jornalista. Morador de Campo Grande, ele fará o lançamento oficial da obra na livraria Arlequim, no Paço Imperial, no Centro. Mas a première será no Chopp da Villa, no bairro onde mora. Comandado por Seu Ernesto, o bar é uma ode aos velhos tempos da região.

- O Chopp da Villa é um lugar que resgata as origens da Zona Oeste. As paredes são cheias de fotos históricas e raras da região. Além, é claro, de ser um ponto de encontro cultural em Campo Grande – acentua Mansur.

De piratas a encontros amorosos

Quando finalizou a pesquisa, em 2005, o jornalista tentou lançar o livro, sem muito sucesso. Para dar vazão às histórias, surgiu o blog Emendas e Sonetos, (emendasesonetos.blogspot.com), que serviu tanto para testar o alcance da pesquisa com os leitores para, finalmente, despertar o interesse de uma editora, a Ibis Libris.

- Não queria algo que se restringisse aos moradores da Zona Oeste. O blog acabou sendo o termômetro de aceitação do livro. Recebi e-mails de muita gente, de estudantes de outros estados que pesquisavam sobre a região – conta Mansur.

Além da ilha do Seu William e do nascimento do futebol em Bangu, o autor narra fatos inusitados como a concorrência entre uma famosa marca de refrigerantes e o suco de laranja em Campo Grande (o bairro era um dos maiores produtores da fruta) e a invasão de piratas franceses, no século XVIII, em Barra de Guaratiba.

- Em 1710, uma esquadra de piratas franceses tentou invadir o Rio de Janeiro pela Baía de Guanabara. Como encontrou resistência, chegou à Barra de Guaratiba, rumou para a Barra da Tijuca e alcançou o Centro, onde acabou derrotada – explica o autor.

O bairro de Santa Cruz, de importância vital para a História da cidade, ganha espaço no livro com diversos monumentos, como a Ponte dos Jesuítas, a Fonte Wallace, o Hangar do Zeppelin (único hangar de dirigíveis ainda existente) e a Fazenda de Santa Cruz, onde hoje está instalado o Batalhão Villagran Cabrita.

- Quando D. João chegou aqui, encantou-se com a beleza da fazenda e ali construiu sua residência de veraneio. Muitas decisões importantes do Império foram tomadas aqui. E muitas histórias secretas aconteceram também, como os encontros de D. Pedro I com a Marquesa de Santos – acrescenta.

A História mais próxima da população

O historiador Sinvaldo Souza, morador de Santa Cruz, é referência na região quando se fala em passado da Zona Oeste. Segundo Mansur, ele foi um colaborador próximo, passando informações e bibliografia.

- O que o Mansur fez nesse livro é bem similar ao que Eduardo Bueno faz com a História do Brasil. Ele pegou livros importantíssimos, com uma quantidade valiosa de informação, mas que são muito chatos. E deu a eles uma linguagem jornalística, muito mais acessível às pessoas – comenta o historiador, que acredita na oportunidade do lançamento do livro.

- Acho que é muito legal para a Zona Oeste conhecer e se interessar mais por suas raízes. Os marcos históricos, por exemplo, estão abandonados, pois as pessoas não sabem do que se trata.

1.02.2009

A GRANDE ILUSÃO DO ANO-NOVO


Talvez maior do que a do Papai Noel, a grande ilusão da infância nesta época do ano seja acreditar que tudo vai mudar no Ano-Novo.

Eu, pelo menos, quando criança, acreditava que o dia 1º de janeiro simbolizava a entrada numa espécie de “admirável mundo novo”. Tudo levava a isso. A esperança dos adultos (“que tudo se realize...no ano que vai nascer...”), o clima de euforia nas ruas, as propagandas e os especiais de fim de ano da televisão e, por fim, todo aquele ambiente efusivo de cumprimentos, choros, abraços emocionados (e muitas vezes suados), foguetórios, champanhe estourando e mesa farta, quase como se tivessem esvaziado tudo da despensa, já que no “novo mundo” não precisaríamos mais nos preocupar em armazenar provisões.

Ou seja, tudo em excesso, tudo no limite, quase um expurgo do passado para adentrar o ano-novo limpo de tudo o que ficou para trás.

E lá vinha o 1º de janeiro. No início, talvez movido ainda por toda aquela energia eufórica do réveillon, acrescida da barulheira de fogos e música alta, ainda me sentia numa espécie de torpor. Acordava cedo para ir às ruas, ansioso por ver, sentir, provar as mudanças anunciadas com tanto alarido. E realmente percebia algo novo no ar, os sorrisos pareciam mais amistosos, as ruas menos barulhentas, o céu mais azul. Com o passar do tempo, no entanto, a ilusão caía por terra. Quando me lembrava do início das aulas, quando meu time levava uma sova no Maracanã, quando tinha o primeiro tombo de bicicleta do ano, eu percebia que nada mudava.

Mas a infância é teimosa e sempre busca encontrar atalhos para suas justificativas. Pensava...ah!, neste ano não deu certo por algum motivo, mas no ano que vem realmente tudo vai mudar, até porque os mais velhos continuam esperançosos. E aí levava o ano inteiro alimentando essa expectativa da melhor forma possível, a passagem do tempo na folhinha do calendário se aproximando, a ansiedade crescendo. E no réveillon a mesma coisa, a mesma euforia, as mesmas falas e os mesmos pratos.

Acho que foi na quarta decepção que, enfim, parei de acreditar no Ano-Novo – Papai Noel eu já sabia que passeava de trenó numa loja de crediário há muito tempo. Mas até hoje acho legal o ritual dos encontros, mesmo achando que a passagem do dia 31 para o dia 1º é igual à dos outros dias do ano e que a esperança por dias melhores que eu, otimista incorrigível, ainda mantenho, continua em alta, mesmo que ela venha lá pelo meio do ano. Acredito na mudança contínua e perseverante, dentro mesmo de uma rotina, e que mudanças explosivas como fogos de artifício só funcionam para quem ganha na mega-sena. Não à toa, ela quase sempre fica acumulada nesta época.

Mas...voltando ao tema do "nada mudou" após a "torturante contagem regressiva" (obrigado, Bruna), querem algo mais déjà vu do que uma guerra entre israelenses e palestinos?

12.15.2008

SEÇÃO REMINISCÊNCIAS (IV): O VENDEDOR DE ENCICLOPÉDIAS


Talvez o maior símbolo da relação direta entre desenvolvimento tecnológico e aumento do desemprego seja a que existe entre o pen drive e o vendedor de enciclopédias.

Eles sempre pediam licença ao professor para interromper a aula, apenas por uns breves minutos. Geralmente eram bem vestidos, penteados (pelo menos os que tinham cabelo) e bem falantes, como convém a um bom vendedor. Alguns chegavam meio suados, com um indefectível brilho na testa e uma singela mancha nas axilas, devido ao calor lá fora e ao peso que carregavam.

Após a apresentação, começava o discurso, que se prolongava por pelo menos uns 20 minutos. Grandes Tesouros da Antiguidade, dicionários, Atlas, tudo para o seu conhecimento, tudo de que você, estudante, precisa para desenvolver e enriquecer seus estudos de forma completa e satisfatória. E vejam que belas ilustrações, que material de qualidade, que textos bem escritos, que facilidade de manuseio, e não apenas o estudante vai se interessar, mas com certeza o papai e a mamãe vão querer adquirir esta coleção dessas em casa, uma fonte de consulta para os momentos de dúvida, para a pesquisa ou mesmo para os momentos de lazer proporcionados por uma leitura agradável e instrutiva.

E tudo isto por apenas...

E aí vinha a facada. Eram caríssimas as enciclopédias, mas ali tínhamos uma aula muito especial, uma aula de sutilezas de venda. Antes de dizer o preço, o vendedor já impunha um desconto especial de tantos por cento, que na verdade nada mais era do que o preço normal da coleção. E depois dava o preço, mas nunca à vista, apenas as parcelas e sempre em suaves prestações e sem juros. É claro que ainda complementava dizendo que o conhecimento não tinha preço, que uma coleção daquelas, de capa dura, era para a vida toda, para os filhos e netos. E nos distribuía um folheto ricamente ilustrado para levarmos aos nossos pais, prometendo voltar em breve.

A verdade é que muita gente comprava, não apenas do vendedor na sala de aula como também os fascículos vendidos em banca de jornal. Além de realmente auxiliar nas pesquisas e estudos em geral, não deixava de ser charmoso ter uma enciclopédia em casa. Hoje, que eu saiba, os vendedores de enciclopédias são raríssimos. A disseminação da internet (com conexões cada vez mais rápidas) e seus poderosos sistemas de busca como o Google tornaram obsoleta esta figura. Além de várias enciclopédias gigantescas estarem disponíveis na “grande rede”, ainda surgiu este minúsculo objeto chamado pen drive, capaz de armazenar toneladas de informação – inclusive enciclopédias inteiras.

Como o material de propaganda das novas casas e apartamentos raramente reserva um espaço aos livros (quanto mais enciclopédias), o minúsculo pen drive tem tudo para reinar absoluto no espaço onde proliferavam os simpáticos e bem arrumados vendedores de enciclopédia. E, ainda por cima, não interrompe a aula.

12.01.2008

SEÇÃO REMINISCÊNCIAS (III) - A FICHA DE TELEFONE


Para quem demorava no telefone, era preciso andar com os bolsos cheios. A ficha de telefone, mais uma invenção pré-histórica como a carta e a máquina de escrever, também marcou época e instituiu hábitos.

Elas eram vendidas de forma avulsa ou em cartelas de cinco unidades. O tempo de duração dependia do prefixo. Nas ligações para os números que começavam com o algarismo 3 elas demoravam mais. Os números ainda tinham sete algarismos, não havia ligações a cobrar nos orelhões e celular era uma palavra que só existia nas aulas de biologia.

Colocávamos as fichas num compartimento acima do aparelho, geralmente mais de uma para que não houvesse risco de a ligação acabar antes do tempo. Elas ficavam presas ali e, à medida que acabava o tempo de ligação de cada ficha, ela caía, fazendo um barulho que servia para calcularmos quantas restavam. Não havia visor, o método era bem tosco mesmo.

Ocorria muitas vezes de o orelhão “engolir” alguma ficha, o que às vezes era resolvido com algumas pancadas no aparelho. Mas muitas vezes não tinha jeito mesmo, a ficha era perdida para sempre. É importante acrescentar, para quem costuma reclamar de interferências ocasionais nas ligações de hoje, que quando uma ficha caía havia sempre uma incômoda interrupção na ligação.

Ao final da conversa, era só colocar o fone no gancho que as fichas que sobravam caíam de forma estrondosa num compartimento onde havia uma “portinha” metálica escrito Devolução. Também podia ocorrer, nestes casos, o fenômeno da deglutição de fichas pelo aparelho.

Assim como acontece com os cartões hoje, as fichas eram vendidas principalmente em bancas de jornal, camelôs ou nos postos da companhia telefônica. Aqui no Rio era a Telerj, mais conhecida como Telerda.

Havia bem menos telefones públicos e, como não havia celular, as filas nos orelhões em horário comercial eram sempre longas. Bastava alguém demorar um pouquinho na ligação para outra pessoa (geralmente o último da fila) começar a reclamar, soltando frases do tipo: “É pra hoje, hein!” ou “Deixa pra fofocar em casa!” Alguns, mais exaltados, chegavam a bater no aparelho.

Aliás, como hoje a maioria dos seres humanos tem um aparelho de telefone celular (exceto alguns primatas que se recusam a evoluir, como eu) e as operadoras oferecem várias promoções nas ligações, as filas nos orelhões praticamente não existem mais – o que não deixa de ser mais um risco de conflito urbano evitado.

As fichas de telefone deixaram como herança uma expressão ainda bastante popular: "A ficha caiu", referindo-se àquela situação em que a pessoa, enfim, compreende algo que estava meio, digamos, embaralhado em sua mente.

11.17.2008

O VELHO OESTE CARIOCA/LANÇAMENTO


LANÇAMENTO DO LIVRO
“O VELHO OESTE CARIOCA”,
DE ANDRÉ LUIS MANSUR (editora Ibis Libris)

A HISTÓRIA DA ZONA OESTE CARIOCA, DE DEODORO A SEPETIBA, CONTADA DESDE O SÉCULO XVI

DIA 9 DE DEZEMBRO (terça-feira), ENTRE 17h E 20h30, NA LIVRARIA ARLEQUIM, PAÇO IMPERIAL, PRAÇA QUINZE, CENTRO

DIA 13 DE DEZEMBRO (sábado), A PARTIR DAS 17h , NO CHOPP DA VILLA, ESTRADA DO PRÉ, 91, LARGO DA VILLA SANTA RITA, EM CAMPO GRANDE

A Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro é sempre citada nos livros de História do Brasil por dois motivos: a invasão de piratas franceses em Guaratiba, em 1710, e as longas temporadas de D. João na antiga fazenda dos jesuítas, em Santa Cruz, no início do século XIX.

O resgate do patrimônio histórico da região, desconhecido da maioria de seus moradores, tem sido feito por pesquisadores da Zona Oeste, com seus próprios recursos e a ajuda de amigos para divulgação desses trabalhos.

É preciso também fazer justiça a importantes cronistas do Rio Antigo, que mencionam, em seus livros, o então chamado “sertão carioca”, como Monsenhor Pizarro, Vieira Fazenda, Brasil Gerson e Noronha Santos.

Indispensável, também, citar ilustres viajantes europeus, que conheceram de perto a região, como Debret, Maria Graham e os naturalistas Spix e Martius, que, com relatos e imagens, nos legaram um rico acervo, de seus aspectos mais prosaicos que, na maioria das vezes, passam despercebidos nas “publicações oficiais”.

Este livro reúne o material de pesquisadores locais, bem como de autores reconhecidos, e apresenta uma visão global da região, que se estende desde o Campo dos Afonsos a Sepetiba, percorrida pela antiga Estrada Real de Santa Cruz. O objetivo deste livro é chamar a atenção para a riqueza histórica e natural da região. A melhor forma de valorizar um lugar é conhecer seu passado, identificando os que o ajudaram a se tornar o que é hoje.

GUARDIÃO DE UMA UTOPIA PARTICULAR


Literatura da urgência - Lima Barreto no domínio da loucura - Luciana Hidalgo - editora Annablume - 252 páginas - R$ 30,00

Afonso Henriques de Lima Barreto pagou um preço alto por viver deslocado numa sociedade de convenções, formalismos e fingimentos. Pagou com a própria vida, pode-se dizer assim, uma vida marcada por percalços de todo tipo e que culminaram com a pobreza, o alcoolismo, a internação como louco e, por fim, a morte prematura, em 1922, aos 41 anos de idade. O que a jornalista Luciana Hidalgo faz neste livro, conseqüência de uma tese de doutorado defendida na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é mergulhar no deslocamento vivido por um escritor incompreendido no seu tempo e cuja obra permanece atualíssima exatamente porque as mazelas políticas e sociais denunciadas por ele, com coragem e sinceridade radicais, infelizmente continuam todas aí.

O ponto de partida do livro é o “Diário do hospício”, escrito por Lima Barreto quando ele esteve internado no Hospital Nacional dos Alienados, o primeiro hospício do país, inaugurado em 1852 por D. Pedro II e que hoje é a sede do campus da Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na Zona Sul do Rio de Janeiro. Lima esteve internado lá duas vezes. A primeira, em 1914, e a segunda em 1919/20, quando escreveu o diário. O motivo: delírios provocados pelo alcoolismo e que cessavam imediatamente assim que o escritor recuperava a sobriedade.

Era uma época em que os diagnósticos de insanidade primavam por argumentos para lá de bizarros, como comprova um estudo feito por Francisco Carlos da Fonseca Elia citado por Luciana: “(...) tanto a menstruação na mulher e as hemorróidas no homem seriam causas que muito teriam contribuído para a perda da razão na cidade do Rio de Janeiro”. O pesquisador também cita as causas morais, como emoções vivas, o terror ou o amor levado ao excesso ou contrariado.

No diário, que gerou o livro “Cemitério dos vivos”, Lima Barreto faz observações sobre a rotina do hospício, para ele muito mais um espaço onde o Estado abrigava parte do refugo social excluído da sociedade elegante da Belle Epoque carioca do que um local de tratamento. Ele expõe a sua revolta contra o Estado, a sociedade e contra si mesmo, frustrado, revoltado por não ter tido o reconhecimento literário que julgava (e merecia) ter recebido. “Ah! A Literatura ou me mata ou me dá o que peço dela”.

A partir daí, Luciana desenvolve um profundo estudo teórico baseado em dois conceitos fundamentais, a escrita de si e a literatura de si, fundamentais para se entender não apenas a obra de Lima Barreto, este “guardião de uma utopia particular”, mas também a de autores de estilos bem diferentes, como Antonin Artaud, Fernando Pessoa e dos personagens já estudados por ela em livros anteriores, como o poeta curitibano Loriel (“A arte da urgência”, com Mônica Drummond. Cultural Office, Curitiba, 2006), e o artista plástico (mesmo sem o saber) Arthur Bispo do Rosário (“Arthur Bispo do Rosário – O senhor do labirinto”. Rocco, Rio de Janeiro, 1996), que lhe valeu o prêmio Jabuti.

Dona de um excelente texto, fugindo como pode dos habituais jargões acadêmicos, Luciana Hidalgo passeia por teorias literárias, artigos sobre a loucura, considerações sobre a política brasileira e a evolução urbana do Rio de Janeiro do início do século XX, além de outros temas, fazendo de seu livro (e aí sim, um jargão acadêmico) uma obra multidisciplinar. Lima Barreto, o personagem principal, é definido aqui como um a-intelectual/a-social, ou seja, um sujeito que não se enquadrou nos rígidos padrões vigentes no meio intelectual e social da época. Também por isso, ele sempre esteve em busca do a-lugar, o espaço onde poderia conseguir, talvez, a alforria do eu, para usar uma expressão da autora.

Infelizmente, como explica Luciana, este espaço Lima Barreto nunca encontrou. E o deslocamento que o acompanhou desde a infância, quando ele, um menino negro, pobre e morador do subúrbio, se interessava por literatura, se radicalizou a partir do primeiro livro, “Recordações do escrivão Isaías Caminha”, quando desancou toda a grande imprensa e passou a ser evitado nas rodinhas intelectuais.

Desta forma, a grande frustração de Lima Barreto, frustração esta intransponível e que o levaria ao alcoolismo e à decadência física, foi mesmo a falta de reconhecimento ao seu imenso talento literário, tanto da sociedade que ele tanto criticava (o que seria mais ou menos óbvio) quanto dos seus pares, negros ou mulatos, pobres e suburbanos como ele, que não liam (ou não sabiam ler) e permaneciam numa apatia e submissão revoltantes para o escritor diante da corrupção, dos problemas sociais e das arbitrariedades que ele tanto denunciava.

Ao usar conceitos como a escrita de si e a literatura de si, Luciana Hidalgo abriu um outro olhar sobre Lima Barreto, o “escritor do povo”, assim como a literatura da urgência, termo que dá título ao livro, foi a defesa e o ataque do escritor no seu momento mais crítico, o da internação, quando seu corpo passou a ser propiedade do Estado e ele só pôde contar com a pena e o papel para se manter “en garde”, como ela diz, contra tudo o que sofria.

Luciana demonstra, de forma clara, como a loucura, que também acometeu o pai de Lima Barreto, esteve sempre presente em sua obras, e em como o escritor misturou vida e ficção em personagens como Policarpo Quaresma, Leonardo Flores, Gonzaga de Sá e Vicente Mascarenhas, de “O cemitério dos vivos”. Na época, este tipo de literatura não foi absorvida, ou entendida, ainda mais exposta até as vísceras por um sujeito radical nas opiniões e que vivia bêbado e maltrapilho. Mas agora, com esta obra singular, Lima Barreto pode, ainda que tardiamente, ter encontrado um espaço singular, talvez o seu tão desejado a-lugar na literatura brasileira.

Luciana Hidalgo nasceu em 1965, no Rio de Janeiro . É doutora em Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), atualmente com Bolsa de Pós-Doutorado da Faperj, dando aula no curso de Letras da mesma universidade . É autora do livro Arthur Bispo do Rosario – O senhor do labirinto (Rocco, 1996/ Prêmio Jabuti , 1997), que foi recentemente adaptado para o cinema ( com roteiro de Luciana Hidalgo, Geraldo Motta e José Joffily) e será lançado em 2009. Formada em Comunicação Social , trabalhou como jornalista no suplemento literário Prosa & Verso , do jornal O Globo , e no Jornal do Brasil ( revista Programa e Caderno B), entre outros veículos . Dirigiu e editou a revista Gesto , publicação de ensaios sobre o tema corpo nas áreas de literatura , filosofia etc.

11.03.2008

AS PEGADAS DE MACHADO


Machado de Assis jamais poderia imaginar que seus textos escritos a bico de pena e sob a luz de lampião iriam se transformar em relíquias disputadas por ávidos pesquisadores. Quanto vale um texto ou uma foto inédita do maior escritor brasileiro?

Diante de tantos livros, debates, adaptações para outros meios e homenagens em geral a Machado de Assis no ano de centenário de sua morte, não deixa de ser intrigante, para os muitos admiradores de sua obra, viajar ao seu tempo e espaço, naquele Rio de Janeiro pacato e ainda bem distante de qualquer tipo de indústria cultural. No silêncio da casa do Cosme Velho, silêncio quebrado apenas pelo ruído de uma ou outra charrete, ou pelo canto dos vendedores ambulantes, Machado redigia seus textos a bico de pena, acompanhado apenas pela sua amada Carolina. Embora chamado (excessivamente, a meu ver) de bruxo, Machado não tinha bola de cristal para prever o futuro. Sendo assim, mesmo recebendo as glórias em vida, não poderia imaginar o alcance que sua obra teria hoje e de como seria esmiuçada com precisão cirúrgica por incansáveis historiadores que procuram relacionar textos escritos em jornais, cartas, ofícios de serviço público, romances, poemas, críticas, crônicas, contos e peças, tudo para dar uma dimensão maior e mais completa de um homem discretíssimo por natureza, que não deixou uma biografia e cujas pegadas, principalmente as da juventude, despertam fascínio e curiosidade exatamente por estarem envolvidas pelo mistério.

UMA GRANDE CHARADA

Um dos trabalhos mais penosos neste esforço coletivo é o de se aventurar pelos textos escritos por ele em jornais, publicados de forma sistemática logo após sair da adolescência, quando ainda era o Machadinho. A dificuldade tornou-se muito maior devido à grande quantidade de pseudônimos que o escritor adotou ao longo da vida de jornalista, muitos deles já devidamente descobertos, mas muitos outros a descobrir, como se ele tivesse deixado de propósito uma grande charada aos seus estudiosos.

Escrevendo sob a luz de lampião, muitas vezes tarde da noite em jornais, aquele jovem cheio de ambições literárias publicava artigos apócrifos que permanecem esquecidos em jornais já extintos e que hoje são objetos do desejo de pesquisadores ávidos por encontrar qualquer coisa inédita do mestre, mesmo um tema irrelevante, escrito apenas para fechar uma página no calor do fechamento de uma redação da época em que tudo era mais trabalhoso no jornalismo.

Neste grande esforço feito em torno do centenário de sua morte, muito material inédito foi descoberto: cartas, contos, artigos, pseudônimos, inscrição na Biblioteca Nacional, dedicatórias, fotos de Carolina ainda bem jovem (e bonita) etc. É curioso especular sobre quando vale um texto inédito de Machado, pois ele teve de escrever muito em jornais para poder sobreviver, já que ganhava-se muito pouco nas redações, pois afinal, escrevia-se para quem? Num país escravocrata e atrasado, uma minoria da minoria apreciava a leitura diária dos jornais. Da mesma forma, ou pior ainda, quem comprava livros no Brasil? Os de Machado, editados por Baptiste Louis Garnier, (também conhecido por Bom Ladrão Garnier, devido às relações quase nunca vantajosas para os autores) lhe garantiam alguns mil-réis por mês).

O "ESTILO" DA REPARTIÇÃO


Ou seja, Machado teve de escrever muito. Não apenas por amor à literatura, mas também para sobreviver. E mesmo se levarmos em conta a estabilidade financeira conseguida no serviço público, não nos esqueçamos da imensa quantidade de documentos oficiais que ele precisou redigir nas quase quatro décadas que atuou como funcionário público. Alguns foram, inclusive, descobertos e expostos recentemente como relíquias, pois o “estilo” machadiano das repartições públicas é praticamente desconhecido.

Relíquia também seria alguma carta descoberta trocada entre ele e Carolina. Só existem duas, pois as outras (e deviam ser muitas) ele mandou que as queimasse, o que foi feito após a sua morte. A discrição, realmente, foi um dos maiores tesouros que Machado de Assis deixou como legado de sua existência.

10.20.2008

VIOLÊNCIA NO FUTEBOL


Segue abaixo uma relação de frases ligadas à violência e que são utilizadas no dia a dia do futebol. Não sei até que ponto elas influenciam a violência dentro e fora do campo. Uns vão falar que sim, outros que não tem nada a ver. Mas, enfim, acho que vale uma reflexão, pois mesmo quem acompanha o esporte talvez não perceba como ele está repleto de expressões deste tipo.


- Matou a jogada; matou a bola; matou a defesa adversária.

- Fuzilou o goleiro adversário.

- É a chance de se vingar da derrota do ano passado.

- Deu um tiro certeiro de longa distância.

- Fez uma jogada que matou o goleiro.

- A competição vai ser decidida no mata-mata.

- Mandou a bomba, que explodiu no travessão.

- Mandou um míssil.

- O time se recuperou e atropelou todos à sua frente.

- O jogo foi uma verdadeira batalha.

- Mandou um petardo de fora da área.

- Um verdadeiro bombardeio de cruzamentos na área.

- O artilheiro deste ano é um verdadeiro matador.

- Acertou um balaço no ângulo.

- A batalha de Montevidéu.

- O time caiu para a zona da degola.

- Uma das armas dele é o cruzamento na área.

- O atacante mirou de fora da área e acertou o alvo no ângulo.

- Acho que ia golear, mas tomou uma surra.

- O jogo foi um verdadeiro massacre.

10.17.2008

CHEGA DE CRISE!


Acho que ninguém agüenta mais ver todos os dias as mesmas imagens de operadores da Bolsa com a mão na cabeça, olhar perdido ou sentados de cabeça baixa. A crise é séria? É. Pode afetar a gente? É...pode. Mas, pelo que vejo, o pior dela já passou e quem anda nas ruas das grandes cidades percebeu que as dezenas de financeiras continuam com a corda toda, despejando funcionários nas ruas ávidos por conseguir novas vítimas, digo, clientes, e oferecer empréstimos (ou seja, crédito) sem comprovante de rendimento nem consulta ao Serasa. Se o primeiro elemento econômico a sumir numa crise é o crédito, ela, pelo jeito, não passou por aqui.

Ah, algumas empresas perderam muito dinheiro com a alta do dólar. Mas também ganharam fortunas quando a moeda americana estava em baixa, o que aconteceu durante muito tempo. Ora, este é um risco normal de quem atua em um sistema econômico volátil como o capitalismo. Dentro de uma grande empresa há analistas que fazem projeções sobre alterações no sistema financeiro. E há quanto tempo ouvimos falar que a “bolha iria estourar”? Se, com tantas informações disponíveis no mundo capitalista selvagem e globalizado, alguns empresários não se prepararam, paciência.

Já estava na hora também de se parar com este endeusamento de algumas figuras do mundo das finanças. Desde 1997, quando fui redator de economia do Jornal do Brasil (ainda na saudosa sede da Avenida Brasil) e estourou a crise dos tigres asiáticos, que ouço falar que o mercado está apreensivo com a possibilidade de uma recessão americana. Lá, como cá, eram usadas com exaustão as mesmas imagens citadas no início deste texto. O então presidente do Federal Reserve (caprichar na pronúncia), o Fed, Alan Greenspan, era exaltado como um deus. Não à toa, a expressão “Todo Poderoso” era constantemente empregada em relação a ele. Lembro de uma frase quase apocalíptica a respeito de Mr. Greenspan: “Quando este homem fala, o mundo treme!” Meu Deus...

Por quanto tempo seremos massacrados com índices, gráficos, projeções e viés de baixa e alta? Um dia a Bolsa despenca, noutro dispara. “O mercado está nervoso”, “O mercado aguarda com cautela”, “O mercado está eufórico”. Falam do mercado de ações como se ele fosse realmente um representante fiel da economia de empresas e países, mas se esquecem que hoje, com esta orgia desenfreada de grandes capitais migrando de um para outro lado do mundo com um simples toque no teclado, o marcado de ações está muito mais para um cassino de grandes proporções do que outra coisa. Só perde dinheiro mesmo o desesperado que retira a aplicação quando as ações despencam, ou seja, o investidor de primeira viagem. Os tubarões então vão lá, compram os papéis em baixa, os índices disparam e mais uma fortuna foi feita, quase sem esforço físico nenhum.

Ah, mas o “valor de mercado” das empresas caiu em tantos por cento. O valor de mercado é tão volátil quando os índices da Bolsa. Podem ter certeza de que quando tudo se normalizar, em breve, o valor de mercado das empresas vai estar lá, no lugar onde sempre esteve. A única coisa que mudou é que, por enquanto, algumas megafusões e megacompras de empresas estão em suspenso. Nada demais, afinal todos ganharam muito dinheiro com a farra e agora aguardam apenas a ressaca passar.

O capitalismo precisa destas crises sistêmicas, até para poder sobreviver enquanto “agoniza, mas não morre”. A locomotiva (no caso, a economia americana) dá uma freada para sacudir os vagões lá atrás, mas daqui a pouco retoma a viagem. Portanto, vamos falar mais de cultura, meio-ambiente, ciência, política e esporte e deixar a “crise” um pouco em segundo plano. O mundo já tem vários outros motivos para “tremer” de vez em quando.

10.06.2008

NÃO É DO MEU TEMPO


Uma das desculpas mais esfarrapadas quando alguém quer justificar a falta de conhecimento é alegar que tal assunto “não é do meu tempo”. Se formos pensar assim, nenhum dos diversos estudiosos que vêm falando sobre a obra de Machado de Assis no ano de centenário de sua morte está autorizado para tal função, pois nenhum deles é do tempo do genial escritor. Ou aqueles que pesquisaram a chegada da Família Real ao Brasil, há 200 anos, pois com certeza ninguém vivo hoje dividiu um franguinho com D. João VI.

A questão ganhou espaço há alguns meses, quando jogadores da seleção brasileira de futebol não souberam dar o nome de nenhum dos integrantes da seleção campeã do mundo de 1958, conquista esta que completou 50 anos. Em sua defesa, disseram apenas: “Pó, cara, isso aí não é do meu tempo não”.

Para quem utiliza este argumento, portanto, o livro, um documentário ou mesmo a transmissão oral de nada adiantam na transmissão do conhecimento. E esse “meu tempo”, na verdade, é bastante relativo, pois quando o tempo histórico de uma pessoa se inicia? Na fecundação? No nascimento? No primeiro beijo? No primeiro fora? Ou naquilo que se costuma chamar de vida adulta, o que também é bastante relativo, pois tem gente de 40 anos que age como criança e adolescente de 15 anos que sustenta uma família.

Por outro lado, há uma questão mais séria que envolve este tipo de argumento. O que é mais importante? Ter vivido na época em que o fato ocorreu, no calor dos acontecimentos, ou poder avaliá-lo com o devido distanciamento histórico? Ter tomado um café com Machado de Assis na rua do Ouvidor ou perceber, através de estudos recentes, a dimensão cada vez maior que a obra do escritor atinge? Dimensão esta não percebida na época dele, apesar de ele ter atingido a glória ainda em vida.

O ideal seria juntar as duas coisas. É claro que no caso citado seria impossível, pois teríamos de encontrar alguém com no mínimo uns 120 anos, lúcido e com uma memória privilegiadíssima para recordar uma conversa com Machado. Mas há, por exemplo, diversos livros importantes sobre a II Guerra Mundial escritos depois do fim do conflito por pessoas que participaram ativamente dele. No calor da guerra, russos e americanos eram aliados, mas uma década depois já eram inimigos ferrenhos, só para dar uma idéia de como o distanciamento histórico é importante.

Li uma vez que cientistas já desenvolveram todo o conhecimento teórico para produzirem uma máquina do tempo – só falta encontrar a loja onde comprar as peças. Portanto, quando isso acontecer, e aí com certeza não será do meu tempo, poderemos ter a união entre o “calor dos acontecimentos” e o “distanciamento histórico”. Desta forma, um mestrando de História que quisesse se aprofundar nos seus estudos sobre a Inconfidência Mineira poderia pedir para passar uma semana na antiga Vila Rica (atual Ouro Preto) e voltar sem dúvidas, provavelmente um pouco sujo e, quem sabe, com um dos dentes arrancados pelo próprio Tiradentes. Sem anestesia, é claro.

9.22.2008

A GUANTÁNAMO CARIOCA


A temida prisão do Aljube, aos pés do morro da Conceição, foi um cenário de terror por muito tempo em pleno centro do Rio de Janeiro.

Ela foi construída em 1733, por ordem do bispo D. Antônio de Guadelupe, para servir de prisão eclesiástica. Embora com o tempo o amplo casarão da rua da Prainha (atual rua do Acre) passasse a abrigar desde escravos e ladrões até presos políticos e vítimas de perseguição de todo tipo, dentro dele “purgaram de seus pecados muitos padres turbulentos, os que iam às missas comerciais contra as ordens régias, os desobedientes dos superiores, os contrabandistas, os arruaceiros. Ali gemeram também os cristãos-novos, esperando para serem levados e julgados em Lisboa...” ("Antiqualhas e memórias do Rio de Janeiro, Vieira Fazenda, Imprensa Nacional)

Um dos motivos de tanto sofrimento é que a Coroa não estava nem aí para a alimentação dos presos. Os que não tinham quem lhes levasse comida, contavam apenas com a remessa irregular da Santa Casa de Misericórdia – geralmente um prato de sopa rala. Como as celas ficavam abaixo do nível da rua, a umidade se encarregava do resto e epidemias e surtos eram constantes, ainda mais numa época em que não se falava em vacina e as condições de higiene da cidade eram as piores possíveis, com esgotos a céu aberto e dejetos atirados em todos os lugares (ver texto ´Tigres na cidade´, 6/1/2007).

O morro da Conceição e toda a área em volta era considerada os fundos da cidade. Na recepção, ficava a região em torno da atual Praça XV, por onde, por exemplo, chegou a Família Real, em 1808. Já perto da prisão do Aljube ficavam os armazéns e mercados de venda de escravos, a forca e as áreas de habitação mais populares. Os enforcamentos, que antes ocorriam em várias partes da cidade (o de Tiradentes foi perto da atual Praça Tiradentes), a partir da chegada da Família Real passaram a ser realizados perto do Aljube, para onde era recolhida a forca após o cumprimento da sentença.

Um carrasco muito conhecido no período foi o escravo João Cabindo, recolhido ao Aljube com prisão perpétua após ter assassinado o senhor dele e que, por ser bastante forte, era o principal carrasco nas execuções. Foi no Aljube que morreu, de causa natural, em 1834, Pedro Espanhol, um temido assassino tema do romance “Pedro Espanhol”, de José do Patrocínio. Quando a forca ficou no Largo da Prainha (atual Praça Mauá), o caminho do Aljube até lá era chamado Caminho da Penitência.

O Aljube virou casa de cômodos em 1856 e os presos foram transferidos para outras cadeias, mas o casarão ainda ficou de pé até o início do século XX, quando foi demolido.

Ilustração: "Morro da Conceição", pintura de João Barcelos.

9.08.2008

A REDENÇÃO DO OVO


Agora foi a vez do ovo. Depois de décadas relegado ao papel nada agradável de vilão por provocar aumento dos níveis de colesterol, ele de repente passou a se enquadrar na categoria dos superalimentos.

Quem acompanha o noticiário científico com atenção já sabe que é mais do que comum que um alimento mude de status com freqüência. O café, por exemplo, passa constantemente de herói a vilão e vice-versa. Agora mesmo, foi declarado saudável. Ultimamente, o que tido bombardeado é o leite, que provoca isso, retém aquilo e impede acolá.

O que me parece é que muita gente da comunidade científica poderia aprender mais com as pessoas simples, o que pouparia tempo e verbas gigantescas. Perguntem a um sujeito que trabalhou a vida inteira na roça, por exemplo, e hoje, já em idade avançada, goza de perfeita saúde, inclusive tomando leite, comendo ovos, bebendo café e, em alguns casos, fumando um cigarrinho de palha e tomando uma pinga.

Um deles me diz, quando pergunto a respeito do tema deste artigo: “Na roça, a carne era conservada na banha de porco e ninguém sabia o que era colesterol”. No entanto, ele complementa com aquilo que parece profundamente óbvio: “Na roça, começávamos a trabalhar de madrugada, não dava tempo para a gordura se acumular”. Ou seja: você não precisa se preocupar tanto com alimentação se realizar atividades físicas regulares, mas para quem leva aquela vidinha carro-escritório-televisão-laptop, até uma folha de alface cai mal.

Voltando ao ovo, o que fizeram com ele nada mais foi do que uma covardia. Quem tem mais de 30 cresceu ouvindo a mãe mandar comer ovo para ficar forte e inteligente. E a gemada de manhã, e a caracu com ovo (muitas vezes colorido), e o pão francês com ovo na chapa, acompanhado de seu parceiro de propaganda maledicente, o café? E, por fim, cadê os cinco ovos que os valentões dos filmes de bang-bang comiam alegremente nos saloons após uma briga.

Tudo isso caiu por terra quando condenaram covardemente o ovo por ter muito colesterol. Agora, quem se arrisca a comer dois (!) ovos por dia já é severamente repreendido. Pois o que os pesquisadores da Universidade da Califórnia descobriram é que, entre diversas outras qualidades, o ovo agora é bom para o coração e fundamental para evitar derramems problemas de visão – talvez até mais do que a cenoura.

Portanto, aproveitemos a brecha, pois amanhã tudo pode mudar. E aguardemos a redenção do leite.

9.07.2008

POR CAUSA DE UMA PIPA LILÁS


Um dia eu quebrei o dedão do pé e acreditei que aquela era a maior dor do mundo. Um dia, com oito anos de idade, correndo, quebrei o dedão do pé direito. Com oito anos de idade constatei que não-liberdade significava ter que ficar com um pedaço do corpo abafado por uma parede disforme e branca (que breve receberia as mais criativas pichações), enquanto as pernas sãs, bastante ou não tanto ligeiras, das demais crianças se gabavam no pique-pega. Com oito anos quebrei o dedão do pé direito e constatei que a maior injustiça do mundo era eu não poder mais ser bailarina, leve.

Após oito enigmas indecifráveis, com os anos que pude ter até então, percebi que o que há de pior é aquilo que não dói tanto e que, portanto, não pode ser considerado “a maior dor do mundo” em algum momento. É aquilo que se encaixa nas horas. Cabe nos dias. Nos anos. Aquilo que não sobra e nem sequer precisa. Nem sequer precisa de uma pipa lilás cambaleante levantando vôo, numa aquarela viva emoldurada pela janela do meu quarto — precisa epifania. Não precisa. Nem sequer quer do mundo um bem-me-quer.

BRUNA MITRANO (www.deliriolilas.blogspot.com)

8.25.2008

EU PROMETO!


Para uns, a propaganda política na TV é humor garantido; para outros, coisa séria, mas para a grande maioria sobra apenas a indiferença. E talvez o motivo principal seja a constante repetição dos velhos bordões de promessa. Eis aqui alguns deles, separados por categorias, na campanha do Rio de Janeiro.

SÚPLICAS

Por isso, precisamos do seu voto/Conto com o seu voto/Peço o seu voto/Pode me cobrar

MUITO PRAZER

Você me conhece/Sou um legítimo representante do povo/Vote em quem você conhece/Agora é a nossa vez/Esse é o cara!/Esse não promete. Faz!

MUDANÇA

O Rio precisa mudar/Vote na renovação/O Rio tem jeito/O Rio merece o melhor/Juntos, lutaremos para mudar este quadro

DEIXA COMIGO

Vou defender seus interesses/Pode contar comigo/Pelo respeito ao cidadão/Há oito anos trabalhando em prol da comunidade

E EU COM ISSO?

Sou casado e tenho dois filhos/Trabalhei a vida inteira/Tive uma infância pobre/Sou candidato pela primeira vez

LUGAR COMUM

Transporte barato e de qualidade/Oportunidades para todos/Saúde, educação e emprego/A maior riqueza de uma nação é a educação/Pelo direito da criança e do adolescente/Vou ampliar a verba da educação e da saúde e aumentar os salários de médicos e professores

NOVAS PROMESSAS

Pelos portadores de necessidades especiais/Em defesa da terceira idade/Lutar pelos direitos dos gays e das lésbicas

CHOQUE DE CULTURAS


(Publicado no caderno "Prosa & Verso", do jornal "O Globo", em 23 de agosto de 2008)

Escritor viajante, Paul Theroux explora o tema sem cair na armadilha dos clichês

A suíte elefanta
, de Paul Theroux. Tradução de Fernanda Abreu. Editora Alfaguara, 308 pgs. R$ 44,90


O americano Paul Theroux é famoso por seus relatos de viagem e talvez por isso mesmo ele faça do “choque de culturas” o tema das três novelas deste livro, no caso entre americanos endinheirados e uma Índia “faminta, a Índia da luta, a Índia em conflito consigo mesma”.

Embora livros deste tipo costumem ser uma cilada de clichês e estereótipos, o autor consegue se sair muito bem. Afinal, Theroux não é um viajante de folhetos de agência, que passeia em grupos pelos principais pontos turísticos de um país sempre acompanhado de um solícito guia que evita qualquer contato direto com a cultura local, privilegiando, aí sim, os clichês e estereótipos de uma viagem convencional (Torre Eiffel, Big Bem, Cristo Redentor, Muralha da China etc). Ao contrário, ele faz de suas constantes viagens matéria-prima para o trabalho como escritor, indo ao encontro de lugares e personagens que serão fundamentais em seus livros.

Nesse caso, a Índia que surge nas três histórias é a Índia que não está nas páginas de economia dos jornais como um país emergente e uma futura potência, onde se ganha muito dinheiro e se realizam investimentos de todos os tipos. A Índia de Paul Theroux é a Índia da pobreza e da miséria, do trânsito confuso, dos pedintes e das prostitutas, da sujeira e do fedor, situada em torno dos hotéis de luxo onde se hospedam os americanos, verdadeiros casulos cercado de submissão e formalismo - a suíte elefanta do título.

Pois é quando saem destes casulos que os personagens do livro ganham força e acabam, no contato com a dureza das ruas e seus personagens que não desfrutam das benesses econômicas de um país emergente aos olhos de quem está de fora, encontrando respostas para seus próprios problemas íntimos.

Os massagistas da primeira história (“Colina dos macacos”), as prostitutas da segunda (“O Portal da Índia”) e o elefante da terceira (O Deus-Elefante”) auxiliam na busca dos personagens principais pelas suas próprias “porções individuais do mundo”, mostrando, de uma certa forma, que a viagem, mesmo que seja para o outro lado do mundo, pode realizar a transformação íntima que a pessoa talvez nunca conseguisse se não saísse do seu quintal, onde o contato freqüente com o outro trava, muitas vezes, qualquer possibilidade de distanciamento. “Gente falastrona tornava muito fácil para ele ser anônimo”.

Mesmo com essas considerações mais profundas, o autor não descuida do básico em histórias curtas: mantém o suspense sobre o destino dos personagens até os respectivos finais, sempre surpreendentes e carregados de tensão. A sensualidade e o erotismo, nem sempre velados, estão presentes nas três histórias como elementos que aceleram o esse mergulho íntimo, que em alguns casos, como no caso do executivo de “O Portal da Índia”, acaba dando uma guinada para a espiritualidade.

Há no livro uma crítica constante ao comportamento dos americanos, com seus “bonés de beisebol ao contrário”, ávidos pelo lucro que um país de um bilhão de pessoas e pouquíssimas garantias trabalhistas pode proporcionar. A personagem Alice, de “O deus elefante”, personifica esta crítica recheada de ironias, como quando ela ensina o inglês de telemarketing para trabalhadores indianos terceirizados de uma operadora de celular e se espanta com a mudança de comportamento provocada pelo sotaque metálico dos “call-centers”.

Alice é a “amiga feia da garota bonita”, que se afasta de sua amiga patricinha e interesseira e parte sozinha em busca do “algo a mais” que ela espera encontrar na Índia. Na multidão, ela entende melhor o prazer de se perceber completamente desconhecida, quando ninguém conhecia a sua história e nem sabia o seu nome. A libertação de “ser quem se quisesse ser”. O problema, como Alice e os demais personagens americanos do livro vão descobrir, é que a transformação que eles acreditam encontrar num país repleto de gente desconfiada em relação aos turistas nem sempre é prazerosa.

8.14.2008

REMINISCÊNCIAS (II): A MÁQUINA DE ESCREVER


Para quem se irrita porque precisa reescrever um parágrafo, vale a pena saber o que era a máquina de escrever, uma geringonça que hoje só existe em antiquários.

Era preciso ter dedos fortes para fixar a letra no papel ofício, inserido cuidadosamente no cilindro da máquina, para que o texto não saísse inclinado. Era preciso também ter dedos precisos, para não errar as teclas e ralar o dedo no emaranhado de suportes de ferro das teclas. E, acima de tudo, muita paciência para trocar a fita periodicamente, quando as letras começavam a ficar apagadas, numa operação que sempre terminava com os dedos sujos de preto e vermelho.

De semelhança com o computador, apenas a configuração do teclado, o que, de certa forma, valida até hoje o curso de datilografia que muita gente, como eu, fez, e que permite a digitação rápida e realizada com todos os dedos; e sem olhar para a tela. Afinal, haja exercícios de ´asdfg´ e qwert´. Mas se esta é a única semelhança, o resto é uma distância absoluta de vantagens do PC em relação às velhas Olivetti e Remington (as marcas mais usadas). A começar pelo barulho, ensurdecedor nas máquinas e quase inexistente no computador. Quem já entrou, por exemplo, numa redação de jornal na hora do fechamento. possivelmente se sentiu no meio de um tiroteio ou de uma chuva com trovoadas.

Um erro de digitação, que pode ser facilmente resolvido com um simples toque na tecla "delete", na máquina era resolvida de três formas, nenhuma delas satisfatória. Ou se riscava a frase com um monte de "xxxx", ou se usava o velho "liquid paper", uma tinta branca que emporcavalhava o papel e provocava o efeito estético de uma parede cheia de retoques nas rachaduras. Era preciso ainda dar uma sopradinha para a tinta secar antes de recomeçar o trabalho. Havia ainda o expediente da borracha, que deixava sempre uma mancha no papel e sujava o interior da máquina. Quanto aos erros de parágrafos, ou a necessidade de intercalá-los, nada de "copiar" e "colar". No caso, a única coisa que podia ser feita era puxar o papel com força, transformá-lo numa perfeita esfera, arremesá-la numa cesta e recomeçar o texto em outra folha.

Já que não havia apoio para o pulso, problemas de tendinite eram muito comuns, principalmente em escrivães, jornalistas e secretários, que precisavam bater atas, memorandos, cartas comerciais e toda sorte de documentos, cada um com um tipo de margem. Era comum também que para se conseguir determinado emprego em escritório a pessoa precisasse bater algumas centenas de toques por minuto. Até hoje não sei por que esta tarefa nunca entrou em algum tipo de competição esportiva, tamanha a capacidade de coordenação e reflexo necessários para empreendê-la.

Mesmo após a popularização do computador doméstico, na virada do século, alguns escritores ainda cultivavam a máquina de escrever, principalmente pelo charme. Lembro de uma foto famosa do escritor Ernest Hemingway em sua casa em Cuba, em frente à máquina de escrever, uma garrafa ao lado e a expressão de quem tinha muito a dizer na folha de papel enrolada na sua frente. Há pouco tempo também lembro de uma mulher no centro do Rio de Janeiro que tinha muito trabalho na sua máquina, batendo vários tipos de documentos. Não sei se ainda está lá.

Mas aos que sucumbiram ao computador e ainda têm uma certa nostalgia da máquina, vale a pena conferir o vídeo do youtube, no qual o genial Altamiro Carrilho aparece tocando a música "A máquina de escrever", numa repartição repleta de Paulos Silvinos (http://www.youtube.com/watch?v=ZuRhduG3jgc&feature=related).

PODER PITORESCO NO CATETE


Publicado no caderno "Prosa & Verso", do jornal "O Globo", em nove de agosto de 2008)

Livro de Isabel Lustosa sobre episódios divertidos de presidentes ganha reedição

“Histórias de presidentes – A república no Catete (1897-1960) – Isabel Lustosa – Editora Agir – 296 páginas – R$ 39,90

Uma das recomendações da esposa do presidente Campos Sales, que estava saindo do poder, para a filha mais velha do novo presidente Rodrigues Alves era sobre a lavagem de roupa suja (literalmente) no Palácio do Catete, então sede do poder. D. Catita deveria “começar lavando a roupa fora até poder ajuizar por si mesma se convém fazer esse serviço em casa” e recebia a indicação de uma lavadeira muito séria, pontual e que “lava e engoma bem”.

O que parece uma amena conversa de comadres no distante ano de 1902 era, na verdade, uma importante recomendação na passagem do mais alto cargo do Brasil republicano, que de 1897 a 1960 foi representado no Palácio do Catete, na Zona Sul do Rio, tema do primeiro livro da historiadora Isabel Lustosa, lançado em 1989 para marcar os cem anos da república no país e que é relançado agora.

O que torna o texto leve e bastante espirituoso, apesar de a autora não descuidar do conteúdo, é que há bastante espaço para o acervo de revistas como “O Malho”, “D. Quixote”, “A bruxa” e “O tagarela”, nas quais nomes como Angelo Agostini, J. Carlos e Raul Pederneiras usaram seus inspirados bicos de pena para traduzir de forma divertida, criativa e muitas vezes acompanhada de rebuscamento literário a situação política do país. “O atual presidente é Prudente de Morais...uma pergunta ´prudente´: Demorais?”

No retrato que faz dos governantes que passaram pelo Catete, todos adornados com seus respectivos, e nem sempre respeitosos, apelidos, Isabel Lustosa, que também se valeu de muitos livros, jornais, marchinhas de Carnaval e depoimentos de outros historiadores, ressalta também o aspecto rigoroso de muitos desses presidentes no trato com o dinheiro público. O serviço doméstico, no palácio, durante um bom tempo foi custeado pelo presidente. Venceslau Brás, que governou o país de 1914 a 1918, pediu um corte de 50% no seu salário e conseguiu 20%. O mesmo Venceslau que tinha uma notória fama de pão-duro, tanto que ganhou do poeta Emílio de Meneses este “epitáfio em vida”: Morrendo verificou estarem dez velas acesas/Levantou-se, reclamou: Parcimônia nas despesas!”

O Palácio do Catete, que teria no suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, descrito com detalhes pela autora, seu momento mais trágico, vai deixar de ser o principal cenário do Brasil republicano em 21 de abril de 1960, quando Juscelino Kubitschek inaugura a nova capital, Brasília, e o Palácio do Planalto. JK, aliás, rompe o aspecto meio que provinciano de se governar do Palácio do Catete, já que inaugurou o “estilo aéreo” de governar e passou boa parte do seu mandato viajando pelo Brasil. Mas mesmo assim, quando estava no Catete, na hora do almoço, não deixava de pedir sua marmitinha da d. Etelvina com a simples e tradicional comida mineira. Mais caseiro que isso, impossível.

A autora acerta ao enfatizar situações que vão causar uma inevitável comparação com os dias atuais, em que o poder presidencial está longe demais do povo, tanto física quanto emocionalmente. “Não se juntarão mais diante dos portões os manifestantes, não sofrerá mais a ameaça dos canhões quando estourarem as revoltas”. Naquela época, o chefe de Estado ficava mesmo era no palácio despachando, de onde muitas vezes o povo podia vê-lo numa das suas muitas janelas e aos domingos encontrá-lo num passeio com a família pela Praia do Flamengo – ainda bem antes do aterro.

Desta forma, o livro acaba provando que, apesar das roupagens e dos cenários diferentes, o poder e seus representantes acabam se manifestando sempre da mesma forma. A maior prova disso é o lema do presidente Nilo Peçanha, em 1909? “Paz e amor”. Qualquer semelhança com o “lulinha paz e amor” do atual presidente, com certeza, não será mera coincidência.

8.04.2008

REMINISCÊNCIAS (I): A CARTA


Venho por meio desta informar que houve uma época em que as pessoas se sentavam e escreviam cartas. Isso foi bem antes do advento do e-mail. As cartas eram escritas numa folha de papel com uma caneta ou um pequeno toco de madeira chamado lápis, cuja ponta precisava ser afinada constantemente pelo apontador, o que gerava muita sujeira. A ponta também quebrava com freqüência.

Escrita a carta, cuja maior dificuldade era a ausência do botão "delete" (as letras eram eliminadas através de riscos ou da borracha, que também provocava muita sujeira), era preciso enviá-la ao destinatário, o que se constituía numa operação extremamente trabalhosa, já que a carta não podia ser enviada imediatamente, como acontece com o e-mail. A pessoa precisava dobrá-la cuidadosamente, colocá-la de dentro de um envelope, fechar o envelope (com cola ou, em casos mais raros, saliva), escrever os nomes e endereços do remetente e do destinatário e levá-la até a uma agência de correio.

O pior, no entanto, ainda estava por vir. Enquanto o envio de um e-mail é praticamente gratuito, o remetente, para mandar a carta, precisava pagar por um selo, que era colado à carta, antes do seu envio. Além disso, enquanto o e-mail custa o mesmo preço, ainda que seja mandado para qualquer parte do planeta, o selo da carta ficava mais caro à medida que o destinatário morasse mais longe.

Finda esta parte da operação, agora era aguardar que a carta chegasse ao seu destinatário, o que, dependendo do local, poderia levar alguns dias. Havia também o risco de extravio, por isso muitas vezes o remetente precisava registrar a carta, pagando um pouco mais.

É bom lembrar que muitas vezes, em algum momento desta operação, o remente enfrentava algum tipo de fila.

Quando o destinatário recebesse a carta, precisava abrir o envelope com cuidado, para não rasgá-la, e ler a carta, o que, muitas vezes, era uma tarefa impossível devido à péssima caligrafia do remetente. Na época, existiam os cadernos de caligrafia, que tinham como objetivo tornar legíveis, e também mais bonitas, as letras de quem os usasse.

Caso o destinatário quisesse responder a carta, todo o processo iria se repetir. Cartas de namorados costumavam ser enviadas com algum tipo de perfume e acúmulos de cartas comprometedoras já arruinaram a vida de muita gente de reputação ilibada até então.

Em breve, falarei sobre a máquina de escrever, que, entre outras, também era usada para escrever a carta.

Sem mais, despeço-me atenciosamente.

7.24.2008

O ÚLTIMO CIGARRO


Fernando Sabino fez de uma decisão de parar de fumar, “decisão assumida de repente, como a própria aceitação da morte”, material para duas crônicas bem ao seu estilo, recheadas de um humor contido e de comparações propositadamente exageradas. “O último cigarro” e “Depois do último cigarro”, publicadas no livro de crônicas “A falta que ela me faz” (Record, 9ª edição, 1981), são de um período em que o ato de fumar ainda era considerado charmoso e estava associado a jogos de sedução e até a atividades esportivas, vide anúncios publicitários da época, hoje terminantemente proibidos.

Naqueles tempos em que o movimento anti-tabagista não tinha nem de longe a força que tem hoje, os textos revelam as conseqüências deste verdadeiro (pelo menos para a época) ato de coragem do escritor, ou melhor dizendo, um ato heróico, “porque ainda me sinto como aquele condenado à morte, diante do pelotão de fuzilamento, a quem ofereceram o último cigarro”.

Entre os melhores trechos, estão as citações a outros dois colegas, de profissão e de tabagismo. Rubem Braga, por exemplo, é mencionado como exemplo de perseverança, capaz de olhar para um cigarro como se fosse uma mulher por quem foi apaixonado perdidamente e dizer, com a “olímpica indiferença” de quem já fumou quatro maços de cigarro por dia. “Não sei como é que eu pude gostar dessa mulher”.

Já João Condé representa aquele tipo de personagem muito comum nos contos e crônicas de Sabino, pitoresco e extremamente engraçado, exatamente por tentar levar a sério as situações mais absurdas. No caso, Condé resolve prometer aos santos de sua devoção que só fumaria em Caruaru. Apesar de, no início, viajar para lá com uma freqüência incomum, com o tempo vai diminuindo, ou melhor, regateando com os santos as dificuldades da promessa. De Caruaru, limita o alcance do seu direito de fumar para São Paulo, depois até Niterói e, por fim, resolve fumar só aos domingos, o que só aumenta a ansiedade das noites de sábado. “A partir da meia-noite dispara a fumar, até a meia-noite seguinte”.

Sabino, ao tomar decisão tão radical, anseia por nascer o homem novo, “sem sarro nos dentes ou nos dedos, e sem úlcera de estômago, distúrbio das coronárias, enfisema pulmonar”, todos os males que o artigo lido por ele coloca como fatores de risco para os fumantes, inclusive o de que os fumantes têm uma probabilidade duas vezes maior de morrer na meia-idade do que os que não fumam, afirmação que serve de mote para uma série de especulações estatísticas para lá de irônicas exatamente sobre a obsessão por estatísticas quando o assunto é saúde.

Por fim, o autor considera, placidamente, como se estivesse a fumar da janela de seu apartamento, hábito que ele considerava dos mais prazerosos, que “não há outros vícios que eu possa abandonar, a não ser o de viver”, pois, como afirma, viver também é morrer um pouco, pois “faz cair os cabelos e os dentes. Provoca rugas na pele, flacidez nos músculos e artrite nos ossos”.

O mais interessante nos contos e crônicas de Fernando Sabino é que, apesar de a grande maioria deles terem sido escritos há mais de 30 anos, não ficaram datados. Pois mesmo num assunto que hoje carrega uma abordagem completamente diferente, como o hábito de fumar, nas suas mãos ainda apresenta o aspecto de um texto escrito hoje, época em que os fumantes se sentem cada vez mais acuados em seus poucos rincões. E o humor, sempre presente em suas crônicas, aqui encontra terreno dos mais férteis para se manifestar sem deixar de provocar a devida reflexão, mesmo que venha espremida entre sonoras gargalhadas.

7.16.2008

DOS MAGROS BUCÉFALOS AOS BURROS SEM RABO


Ligando a Praça Tiradentes ao Largo da Carioca, dois dos pontos mais simbólicos da História da cidade, a rua da Carioca teve seu início num caminho primitivo chamado de rua do Egito, “ou porque houvesse nas proximidades um oratório em que se venerava a Família Sagrada fugindo de Herodes, ou porque os cavaleiros que por ali passavam eram magros bucéfalos, lutando contra a natureza arenosa do terrenos, se vissem em apuros e risco de quebrar as costelas. E o carioca, sempre propenso a pilhérias, dizia que os tais eram ´para o Egito´”. (1)

Isso foi lá pelos idos do século XVII, antes de 1667, quando ela ficava no caminho dos que iam buscar água no antigo chafariz do Largo da Carioca. O chafariz recebia água do Aqueduto da Carioca, de 1723 (que depois seria conhecido como os Arcos da Lapa), e deu muito trabalho ao Corpo da Guarda instalado no local, “pois os escravos acotovelavam-se para passar a frente uns dos outros, o que degenerava em pancadaria. A função da Guarda era colocar os escravos em fila, em boa ordem. Foi a primeira instituição da fila no Rio de Janeiro”.(2)

A rua mesmo foi aberta em 1698 e manteve o nome de rua do Egito até o século XIX, quando mudou para outro nome bastante peculiar, o de rua do Piolho, isto por causa de um proprietário de casas na rua e procurador, “terrível chicanista e amigo de demandas”, (1) que recebeu o apelido de Piolho por andar pelos cartórios e tribunais em busca de causas de todo o tipo, “como piolho em costura”.
(1) Este nome foi mantido até 1848, quando a Câmara Municipal a denominou como a conhecemos hoje. Mesmo assim, ainda mudou de nome algumas vezes, para rua São Francisco da Penitência (1879), rua São Francisco de Assis (1882), rua Presidente Wilson (1918) e, enfim, de novo e definitivamente para rua da Carioca, em 1919.

A rua, que fica aos pés do Convento dos frades franciscanos, teve sua origem em 1741, quando o convento cedeu um terreno de 20 braças de frente para o largo de 200 de fundo para a rua, a fim de que a Ordem Terceira de São Francisco da Penitência levantasse um hospital. Foi nessa época que começaram as edificações. O caminho, que ia até a Travessa dos Baiotas (atual rua Silva Jardim), foi prolongada pelo vice-rei D. Antônio Álvares da Cunha (1763-1767) até a já aterrada Lagoa da Sentinela, no lado esquerdo da rua Frei Caneca.

Em 1905, ela teria a configuração atual, quando foi alargada na reforma urbanística empreendida pelo prefeito Pereira Passos, e foi nessa época mais ou menos que os “burros sem rabo”, homens que transportavam carrinhos de mão tornaram-se figuras marcantes do centro da cidade, aproveitando os trilhos de bitola estreita das ruas (inclusive os da Carioca) para transportarem seus carrinhos. Até hoje, embora não haja mais trilhos e eles circulem pelo asfalto mesmo, são conhecidos assim no centro da cidade.

Após a restauração feita nos anos 90, quando foi recuperada inclusive a cor original dos pequenos sobrados, a Carioca pôde recuperar o status de uma das ruas mais representativas da História do Rio, e que hoje abriga, além do comércio em geral, alguns dos estabelecimentos dos mais tradicionais do centro do Rio, como o Bar Luiz, os cines Íris e Ideal e a loja Guitarra de Prata.

LIVROS CONSULTADOS

(1)– O Rio Antigo (vol.1) – Dunlop

(2)- O Rio de Janeiro em seus 400 anos – artigo “O Rio no século XVII”, de Cláudio Bardy


* Foto de Augusto Malta sobre o alargamento da rua da Carioca, já com os "burros sem rabo".

REMOS, RIMAS E RUMOS


PRESENTE

Eu calo
Tu calas
Ele cala
Nós calamos
Vós calais
Eles falam
e mandam...

TENHO DITO

O progresso
do recesso
que faz parte
do processo
é o sucesso
do abscesso.

Eu confesso:
estou possesso!
Minha Nossa Senhora.
De Bonsucesso!

CONTAGEM REGRESSIVA

Angra III
Angra II
Angra !

Bum!!!


RIOCENTRO

Riocentro,
fragmento!
Riovento,
meteoro...!
Riolento,
cata-vento!
Rio, tento...
não decoro!


ESTÁDIO DE CALAMIDADE

Circo?
Além da hora e meia...
pra camuflar o pavio.
Conseqüência:
casa cheia
...para um povo
bem vazio!


Extraído do livro "Remos, rimas e rumos",

de Paulo Plimma

Março de 83

7.08.2008

OS POLEMISTAS GRATUITOS (ou a arte de falar m...)


As farpas lançadas pelo escritor colombiano naturalizado mexicano Fernando Vallejo na última Flip, quando disse que Ingrid Betancourt buscou seu seqüestro e que preferiria que “aquela mulher horrível continuasse presa”, provocou grande polêmica. Mas, se analisarmos friamente, esta declaração faz parte, sem dúvida alguma, do universo dos polemistas gratuitos.

Os polemistas gratuitos são espaçosos. Pode ser um evento pequeno, com apenas dez pessoas, incluindo o palestrante. Mesmo assim o polemista gratuito precisa estar onipresente e onisciente. Ou seja, não deixa de ser um egoísta, pois não quer deixar ninguém falar algo que preste. Ele quer que apenas a sua voz, a opinião ressoe como a verdade fundamental.

Muitas vezes o polemista gratuito acaba até se tornando necessário. Isso acontece em eventos chatos, onde todos assumem posições politicamente corretas em excesso, o que é péssimo para a imprensa, pois não sobra nenhuma manchete interessante. O problema é que o polemista gratuito, depois de soltar suas bravatas e garantir as manchetes dos jornais, acaba se tornando mais um chato, pois uma de suas principais características é não saber a hora de parar no auge e despejar sem limites o seu rancor e a sua rabugice até que todos se cansem e se afastem dele.

Geralmente o polemista gratuito gosta de provocar escândalo quando está perto de lançar um disco, um livro, perto de estrear um show, ou quando se sente em posição secundária durante algum evento. Suas opiniões são dadas de forma estudada, procurando sempre atingir um tema que mexa com a emoção popular e, de preferência, que cause algum tipo de raiva ou rancor. E aí, quando alguém for perguntar quem é o autor de tal livro, por exemplo, o vendedor, ou quem estiver por perto, vai poder dizer: “Ah, é aquele cara que meteu o malho em fulano de tal. Não lembra?” É a glória do reconhecimento para o polemista gratuito.

Quando dois polemistas gratuitos estão presentes ao mesmo evento, raramente eles juntam forças. Vaidoso por natureza, ele quer todas as glórias para si, quer ser o causador da ´grande polêmica´, aquela que vai sair com a foto em destaque no jornal, geralmente em poses bastante típicas, como a do queixo apoiado na mão, a leitura de um livro ao lado de uma janela, ou uma baforada de cigarro (ou charuto) acompanhada de um olhar contemplativo para o teto.

O polemista gratuito, no entanto, precisa tomar cuidado para que a sua tentativa de chamar a atenção não caia na banalidade, senão onde ele aparecer vai ter sempre alguém falando: “Ih, lá vem aquele cara falar m...”. Nestes casos, o polemista gratuito já se tornou uma figura bizarra, decadente e incapaz de provocar uma polemicazinha que seja. Vai vagar pelos salões, auditórios e tendas tentando provocar efeito com tiradas pseudo-inteligentes, mas o máximo que vai conseguir serão olhares de desprezo, deboches ou, em casos extremos, a retirada do recinto por seguranças de terno, óculos escuros e fone no ouvido.

- Ilustração de Nássara para o disco de Roberto Paiva e Francisco Egydio que tinha como temática a briga entre Noel Rosa e Wilson Batista.

POESIA DE BUTECO


aí né...lá tava eu num buteco.
dancei com a filha do neco
bebi chop no caneco,ela quase teve um treco!
aí né...levei ela num quarto vazio
ela gritava com eco,a cama fez reco reco
e quando acordei de manha
a filha do neco teve um buneco.
aí né...lá tava eu no buteco.
o neto no colo do neco
o neco olhando pro teto
o teto pingando no neto
o neto chorando de eco
eu bebendo os canecos
aí né...lá tava eu num buteco
me confessei com o padreco
perdi a mulé pro maneco
seu neco criou o seu neto
perdi tudo fiquei sem teto
juntei meus trapos e cacarecos
e fui morar no buteco.

CARLOS ALEXANDRE (DOCA)

- Foto: capa da sexta edição do guia "Rio Botequim", da editora Casa da Palavra.

6.30.2008

UMA FRASE INFELIZ


Uma das frases mais infelizes da História do Brasil foi dita pelo ex-presidente Washington Luiz, que governou o país de 1926 a 1930: "Governar é construir estradas”. Está aí o resultado: acidentes, engarrafamentos, estresse, poluição e propaganda de carro.

Se Washington Luiz, que por ironia dá nome a uma rodovia federal com grande número de acidentes no Rio de Janeiro, tivesse dito que “governar é construir ferrovias”, com certeza teríamos uma situação bem melhor no item transportes. Mas quem disse isso, ou melhor, quem fez isso foi Irineu Evangelista de Sousa, o Barão, e depois Visconde, de Mauá, 70 anos antes, o pioneiro em construção de estradas de ferro no país.

Infelizmente, as oligarquias atrasadas deram uma rasteira em Mauá e, mais tarde, a matriz energética baseada no petróleo impôs a opção pelas rodovias, geralmente mal planejadas, cada vez mais esburacadas ou, pelo menos nas que estão em bom estado, quase proibitivas por pedágios caríssimos.

São inegáveis as vantagens do transporte ferroviário: é mais rápido, não tem engarrafamento (quando muito, um atraso de sinal), é limpo (não polui o ar), carrega muito mais gente e, no caso do transporte de cargas, evita o desperdício de grãos caindo dos caminhões na estrada.

O trânsito carioca, por exemplo. Sem dúvida lembra muito um clássico desenho do Pateta que sempre passava na televisão (e talvez ainda passe nos canais por assinatura). É a história de um sujeito completamente pacato, incapaz de um ato violento, mas que quando entrava no automóvel lembrava as transformações de “o médico e o monstro”. Bufava, arregalava os olhos, soltava fogo pelas ventas, e ai de quem estivesse pela frente. Fazia do carro uma arma de algumas toneladas, o que, infelizmente, acontece com freqüência nas estradas brasileiras, que com certeza são piores do que o cenário descrito no desenho, pois pelo menos ali o simpático e desajeitado personagem de Walt Disney não ingeria bebida alcoólica.

Como o transporte público deixa a desejar, já que não é baseado nos trens, ideais para o transporte de massas, pois são muito mais espaçosos, rápidos e não poluem o ar, as soluções que surgem para o grande número de carros nas ruas são sempre paliativas, como o rodízio de placas em São Paulo. Além do quê, a cada ano a indústria automobilística bate recordes de produção, principalmente depois que aumentou o prazo de investimento para a compra de carros. Basta ver a quantidade de estacionamentos (talvez a forma mais eficiente de se ganhar um dinheiro rápido com o mínimo de custos) que surgem todos os meses. Duvido que ao passar pelo centro de uma grande cidade pelo menos uma vez você não tenha que parar na calçada para um carro sair ou entrar de um deles.

E como as ruas nas grandes cidades não podem ser mais alargadas, e o brasileiro, como diz uma dessas inúmeras propagandas entusiastas do transporte automotivo, é apaixonado por carro, o caos completo já está bem próximo. A não ser que, para citar um outro desenho animado, em breve circularemos naqueles veículos da família Jetsons, pelo ar, mas aí poderemos ter graves acidentes com os helicópteros, que cada vez infestam mais os nossos céus.

6.28.2008

PROTEÇÃO


Atravessa a rua
Atravessa a rua, com pensar
Rio Branco, Presidente Vargas
O que fizeres de tua vida
Irá pesar


Alguém grita:
- Sai da rua, é avenida!

(Mas caminho por caminho
O que importa não é a extensão
E, sim, como se anda nele)


Depois de atravessar a rua, avenida, caminho,
Segue em frente, não estranha a morada dos mortos
Que tu sentes e que te causa horror.
Pega na mão que te oferecem,
Confortável e materna –obedece

Sobe, agora, a ladeira, sem desviar
Pela legião de durmientes, soturnos,
Em seus casulos a espreitar.

Segue, segue em frente, escuta a voz
a te orientar
Cruzando o aclive de santos:
-Santa Lucía, bendiga los ojos de mi hija
Para mirar más allá!


ALINE CANEJO

6.19.2008

SEÇÃO DE GASTRONOMIA (APENAS PARA ESTÔMAGOS FORTES)


A ESTÉTICA DO PODRÃO

Muitos o chamam de bate-entope, MacPombo, ou outros nomes mais sugestivos, porém ele é mesmo mais conhecido como podrão. Trata-se de qualquer guloseima (geralmente um ´x´ qualquer coisa) que provoca duas sensações naquele que o consome: a primeira, é a satisfação imediata da fome; a segunda, algumas horas depois, é o arrependimento e a promessa de que nunca mais irá incorrer em tal erro. Mas passam-se alguns dias e lá está ele de novo, consumindo o podrão.

O ´x´ da questão, como qualquer consumidor de ´fast-food´ de rua sabe, vem da simplificação do cheese, queijo em inglês, que de ´cheeseburger´ virou x-burguer e depois x-burg, passando a denominar o maior de todos os podrões: o x-tudo, que, como o próprio nome diz, engloba realmente tudo que se possa pensar. São, geralmente, três pedaços de hambúrguer, ovo, presunto, queijo, batatas fritas, alface, cebola, tomate, bacon e o que mais a imaginação do vendedor oferecer.

Confesso que já consumi alguns podrões, principalmente durante a madrugada após uma saída, sem nenhum lugar aberto, que é quando o podrão aparece como a única opção para resolver aquela fome devastadora. Na verdade, acredito que muita gente, principalmente contínuos que precisam comer algo rápido na rua, desenvolvem uma espécie de resistência aos podrões. Desenvolvi essa resistência quando comi, há muitos anos, um salgadinho na Central do Brasil na época em que as lanchonetes da Central assustavam qualquer um. Hoje não.

Muitos podem indagar se o cachorro-quente também não é um podrão e eu respondo, sem sombra de dúvida: o cachorro-quente, que muitos também chamam de dogão, está na categoria dos podrões mais antigos e o primeiro a ser incrementado, deixando para trás o tradicional pão com salsicha (ou lingüiça) e molho de tomate, pimentão e cebola, para abrigar em sua forma estreita produtos de grande diversidade, resultando daí numa mistura cujo maior mérito, tanto para quem vende quanto para quem compra, é manter o produto em perfeito equilíbrio. É claro que sempre ocorrem algumas quedas de petiscos, o que os vira-latas de plantão, sempre atentos, agradecem.

Para aqueles que nunca comeram um podrão, mas têm curiosidade, o único conselho que dou é: cuidado! O organismo que não está acostumado pode sofrer um revertério daqueles de expulsar as tripas. Mas se a pessoa realmente quiser, é melhor começar aos poucos. Um churrasquinho de gato aqui, um joelho acolá, quem sabe um pastel de vento e uma coxinha, quem sabe...mesmo assim o podrão é sempre um risco, até para quem já está acostumado. Eu, que há muito tempo não o consumo, acho melhor não arriscar. Prefiro sempre, após uma saída noturna, esperar para chegar em casa e encarar o velho e tradicional miojo (também conhecido por alguns como ´que nojo´), o verdadeiro bálsamo da madrugada.

6.09.2008

O PRIMEIRO ´PREFEITO´


O nome oficial não era este, mas pode-se dizer que o primeiro prefeito do Rio de Janeiro foi o conselheiro Paulo Fernandes Viana. Nomeado o primeiro Intendente Geral da Polícia da Corte e Estado do Brasil (este era o nome oficial) pelo príncipe regente Dom João em 10 de maio de 1808, Viana promoveria uma verdadeira revolução numa cidade onde não havia qualquer tipo de planejamento urbano.

Nos treze anos em que ficou no cargo, Paulo Fernandes Viana mandou destruir casas velhas e mal construídas, que foram substituídas por construções mais bonitas e resistentes; iniciou o calçamento e a pavimentação das ruas; estendeu a iluminação pública para toda a cidade; mandou construírem trapiches e armazéns no já extinto Cais do Valongo e saneou o Campo de Santana, aterrando as áreas alagadiças e mandando ajardinar uma das suas esquinas, a da rua do Conde (atual Frei Caneca), onde ele morava. Além disso, desenvolveu um novo sistema de abastecimento de água para a área ao redor da Quinta da Boa Vista, urbanizada havia pouco tempo, captando água do rio Maracanã, e abriu várias estradas, inclusive a da Floresta da Tijuca, por onde só se chegava através de uma trilha complicada.

Um bom exemplo do trabalho de Viana é o edital, publicado em 1808, no qual alertava “que toda a pessoa que for encontrada a deitar águas sujas, lixo, e qualquer outra imundície nas ruas e travessas será presa, e não sairá da cadeia sem pagar dois mil réis para o Cofre das despesas da Polícia: o que igualmente se praticará com os que constar que o fizeram, ainda que, não sejam achados, ou tiverem as suas testadas sujas, não mostrando logo quem foram, a não ser eles ou vizinhos, ou pessoas que assim o praticaram. E para que se não chamem a ignorância mandei afixar o presente por todos os lugares públicos desta cidade para que assim chegue à notícia de todos". (1)

Viana fundou também as bases das polícias civil e militar do Rio de Janeiro. A primeira, com a criação da Secretaria de Polícia num prédio do Campo de Santana, e a segunda com a criação do Corpo Real da Guarda, comandada pelo temido Major Vidigal, homem que ficaria conhecido pela brutalidade com que tratava os bandidos, especialmente os capoeiras, grupos de negros que percorriam a cidade promovendo roubos, arruaças e espancamentos. Vidigal acabou entrando para as páginas da literatura brasileiras pelas mãos de Manoel Antônio de Almeida, que o colocou como um dos personagens do livro “Memórias de um sargento de milícias”.

Apesar de toda a excelência administrativa, o primeiro “prefeito” da cidade não se furtou de utilizar o malfadado “jeitinho brasileiro” para conseguir um emprego para um amigo, como explica Benedicto Freitas. “Para reforçar a mão-de-obra, o intendente Paulo Fernandes Viana enviara da cidade os vadios encontrados nas ruas. E ainda um importante detalhe, que não poderia faltar: o pescoção mandando admitir o aprendiz de carpinteiro, irmão de Manoel da Paixão ´que serve no quarto de Sua Alteza´". (3) Viana foi demitido do cargo em março de 1821, após a partida de D. João VI para Lisboa, e morreria dois meses depois. Sua filha, Ana Luísa, se casou em 1833 com Luís Alves de Lima e Silva, o futuro Duque de Caxias.

FONTES CONSULTADAS:
- (1) O Rio de Janeiro em seus 400 anos – artigo “O século XIX”, de Cláudio Bardy
- (2) O Rio de Janeiro Imperial – Adolfo Morales de los Rios Filho
- (3) Santa Cruz, fazenda jesuítica, real, imperial – Benedito Freitas

5.29.2008

A ESTÁTUA POR TRÁS DOS ÓCULOS


O quarto roubo dos óculos da estátua de Carlos Drummond de Andrade, na praia de Copacabana, no último dia 22, mostra que há uma deliberada intenção de evitar que o “poeta por trás dos óculos” “veja” o que acontece à sua volta.

O Rio que Drummond adotou como sua cidade já não existe faz tempo. E a impressão que passa é que o Rio de Janeiro em que o poeta cumprimentava as pessoas nos seus passeios pela orla de Copacabana, sem medo de balas perdidas, caminha placidamente da civilização à barbárie.

É claro, não sejamos ingênuos de achar que a cidade era um paraíso. Havia violência, corrupção, drogas, crescimento desordenado das favelas, injustiça social etc, basta olhar as colunas do tipo ´Há quarenta anos´, mas talvez a maior diferença entre estas épocas, pelo menos é o que falam os mais velhos, é que hoje há muito mais falta de educação nas ruas do que antes.

Na orla que Drummond costumava freqüentar, por exemplo, além de ninguém precisar se desviar de balas perdidas ou de algum carro que fosse parar na areia, havia uma cordialidade que hoje parece patética se alguém tentar reproduzi-la. Experimente dar ´bom dia´ para um desconhecido na rua e veja o que acontece.

O poeta, que era um profundo observador do cotidiano, seja do seu banco, na orla de Copacabana, ou nas andanças pelo centro da cidade, onde trabalhava como funcionário público, não gostaria de ver a selvageria do trânsito, a ação dos flanelinhas, a barulheira dos carros de som que saem de todos os lugares, os assaltos constantes a turistas em plena luz do dia, a ostentação artificial daqueles que viram ´celebridades da noite para o dia´...e por aí vai.

Talvez Drummond, que também era contista e cronista, conseguisse extrair humor de algumas destas situações, como muitas vezes ele fazia, mesmo ao falar de pequenas tragédias. Assim como ele perguntou em “Rio em flor de janeiro”, “que mudou nesta cidade da noite para o dia?”, referindo-se às flores da cidade, talvez fosse preciso refazer a pergunta e se esquecer de tentar encontrar a resposta, tão difícil e complexa que parece ser.

O Rio, que corre “pela nossa vida, como sangue, como seiva” (“Canto do Rio em sol”), agora é incapaz de lhe emprestar uns óculos para que ele conseguisse tentar decifrar o que se passa. Sem os óculos, a estátua de Drummond está em harmonia com a realidade que a cerca, uma realidade míope e tosca de uma cidade em que a civilidade já foi um hábito. Mas de repente, quem sabe, os ladrões que roubaram os óculos da estátua podem estar fazendo um favor involuntário ao poeta, que assim pode continuar no seu posto preferido de observador mas sem poder observar as tantas "pedras no meio do caminho" da cidade que tanto amava.

Só espero que aquele Rio de Janeiro onde Drummond viveu não tenha se transformado apenas em quadro na parede, como a Itabira do poeta mineiro.

5.05.2008

CAPITU NÃO TEVE CHANCE


Passa um tempo e a pergunta volta: Capitu traiu ou não traiu Bentinho? Neste ano então, em que se completam os cem anos da morte de Machado de Assis, ela vai se fazer muito presente. Mas a questão central desta polêmica que já dura mais de 100 anos (“Dom Casmurro” foi lançado em 1900) raramente é mencionada.

Quando alguém é acusado de alguma coisa, o máximo que se espera é que tenha chance de se defender. Mas Capitu não teve esta chance, pois “Dom Casmurro” nada mais é do que a versão de Bentinho pura e simples. Lembremos que o livro começa com Bentinho dentro do trem, dirigindo-se ao bairro do Engenho Novo, no subúrbio do Rio, e que na época era um local ideal para quem queria se isolar do burburinho do centro da cidade.

A meta de Bentinho é escrever a “História dos subúrbios”, mas o que ele faz mesmo é contar a grande amargura da sua vida, a traição da mulher que ele amou desde a infância passada junto com ela na rua de Matacavalos (atual rua do Riachuelo). Bentinho está velho, isolado, amargurado e provavelmente com lapsos de memória. Mas assim mesmo escreve a sua versão sobre o que ocorreu, a mesma versão que até hoje causa polêmica através da pergunta: Capitu traiu ou não traiu?

Portanto, para começarmos a tentar descobrir a “verdade sobre os fatos”, teríamos de pelo menos ouvir a versão de Capitu e de Escobar, seu suposto amante, o que Machado torna impossível, pois quando Bentinho começa a contar sua história os dois já estão mortos.

O escritor Fernando Sabino chegou a fazer uma recriação de “Dom Casmurro” sem o narrador original, em terceira pessoa, no livro “Amor de Capitu”. Há quem goste deste tipo de especulação e eu respeito, mas acho que a continuação de uma obra de arte só pode ser feita pelo autor da obra de arte, e isto vale também para a música e o cinema (não tiveram a coragem de fazer uma continuação de “Casablanca”?).

As suposições de Bentinho são mostradas principalmente em alguns trechos do livro, como neste, em que Bentinho recebe a visita de seu suposto filho Ezequiel, mas que para Bentinho...“Era o próprio, o exato, o verdadeiro Escobar” (Cap. 145). Ou esta, ainda envolvendo Ezequiel: “Capitu e eu, involuntariamente, olhamos para a fotografia de Escobar, e depois um para o outro. Desta vez a confusão dela fez-se confissão pura. Este era aquele; havia por força alguma fotografia de Escobar pequeno que seria o nosso pequeno Ezequiel” (Cap. 139).

Depois de um tempo de casamento feliz com Capitu, de uma vida “mais ou menos plácida” (Cap. 105), começam as desconfianças de Bentinho em relação a Capitu e Escobar, que terminam de forma trágica e melancólica, com Bentinho dizendo que “a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me...A terra lhes seja leve! Vamos à História dos Subúrbios” (Cap. 148).

Mas, como foi dito, este é o desfecho de um relato repleto de rancor e melancolia feito por um homem desprezado pelos vizinhos e que logo no início do livro irrita um passageiro no trem. Num estado como esse, até que ponto é possível acreditar na sua versão sobre uma frustrada história de amor? Esta sim é que me parece a questão central de "Dom Casmurro" e não a velha pergunta citada no início.

4.28.2008

UMA CORTE NO MEIO DO MANGUE


Mal chegou ao Rio de Janeiro e o príncipe-regente de Portugal, Dom João, já ganhou logo a melhor casa do Rio de Janeiro – presente do comerciante português Elias Antônio Lopes. O problema é que ela ficava no final de um longo e fedorento caminho repleto de pântanos e mangues. Mas o que poderia ser um “presente de grego” acabou se transformando no belo palácio imperial, cercado do jardins e ligado à área central da Corte através de um trecho completamente urbanizado. Hoje o palácio é o Museu Imperial e a área que o cerca é a Quinta da Boa Vista, no bairro de São Cristóvão, um dos locais mais visitados do Rio.

O português Elias Antônio Lopes, natural do Porto e comerciante atacadista na rua Direita (atual rua Primeiro de Março e a mais importante da época) foi quem doou sua chácara, recém-construída e ainda não habitada, ao príncipe-regente com objetivos bem claros: obter privilégios de toda a espécie. A bajulação foi tão grande que ele mandou colocar na frente do prédio as armas reais e as descobriu na primeira visita de D. João.

O terreno da chácara pertencia à antiga fazenda do Engenho Velho, dos jesuítas, e após o seu confisco (os jesuítas foram expulsos do Brasil por ordem do Marquês de Pombal em 1759) Elias o adquiriu. A chácara começou a ser construída em 1803 e ficou pronta em 1808. Ficava na subida de uma colina, com ampla vista para o mar, daí o nome que tornaria famoso o local. Era, sem dúvida, a melhor casa da pequena cidade que ainda se formava naqueles tempos.

D. João ampliou o terreno, mandando desapropiar vários prédios e terrenos das redondezas. Mandou, também, realizar trabalhos de terraplanagem para construir um grande jardim, com diversas fontes e aléias.

O grande problema é que o percurso do centro da cidade até lá era péssimo, uma verdadeira epopéia. Começava na rua de Matacavalos (atual rua do Riachuelo) até o Catumbi, chegando a Mataporcos (atual Largo do Estácio). Depois passava pela Lagoa da Sentinela (já aterrada) até ultrapassar o Mangal de S. Diogo (parte do atual canal do mangue) e seguia por uma estreita faixa de terra que separava os morros de Paulo Caieiro (atual morro da Conceição) e de São Diogo – parte do atual morro do Livramento e citado no famoso “Conto de escola”, de Machado de Assis.

Esta estreita faixa de terra foi aterrada a mando de D. João e foram então construídas duas fileiras de postes de alvenaria com lâmpadas de azeite. Havia um grande medo de que a carruagem do príncipe-regente caísse no mangal à noite. O caminho, por isso, passou a ser chamado de Caminho das Lanternas, depois Caminho do Aterrado e, por fim, Aterrado.

No Decreto Real de 26 de abril de 1811 foi dada isenção de impostos durante dez anos às casas de dois pavimentos ou de cinco ou mais portas e janelas que fossem construídas no aterrado. Logo, começaram a ser construídas dezenas de casas sobre os novos aterros do mangal. Afinal, todos queriam ficar perto do príncipe-regente. Foi formado um canal paralelo aos aterros para a drenagem da água, que originou o atual Canal do Mangue.

Até hoje boa parte deste trajeto que vai até o Campo de Santana é conhecido como Cidade Nova, já que praticamente uma nova cidade surgiu em torno da moradia de D. João. Lá ficava uma praça chamada Rossio Pequeno e que depois ganharia o nome de 11 de junho. Com a construção da avenida Presidente Vargas, na década de 40, ela desapareceu, mas o nome Praça Onze até hoje permanece como referência do local.

Em 1854 o Barão de Mauá fundou a Companhia de Gás na sede do Aterrado, onde está até hoje, na atual avenida Presidente Vargas e ainda bem conservada. Alguns anos depois ele mandou revestir o canal de alvenaria, protegeu as margens com balaustradas de ferro e mandou plantas palmeiras ao longo das margens, dando a feição atual do Canal do Mangue.

A Quinta da Boa Vista foi a residência oficial de D. João durante o período em que ele ficou no Brasil (1808 a 1821) e dos imperadores D. Pedro I e D. Pedro II, que inclusive nasceu no palácio no dia dois de dezembro de 1825. Quanto a Elias Antônio Lopes, recebeu vários títulos e cargos, como Comendador de Cristo, Cavaleiro Fidalgo da Casa Real. Faleceu em oito de outubro de 1815, mas dizem que ainda procurou receber da Fazenda Real o valor da doação (ver artigo "A casa é sua...literalmente", de 17/1/2008).

FONTES CONSULTADAS:

- O Rio de Janeiro em seus 400 anos - artigo "O século XIX", de Cláudio Bardy.
- O Rio de Janeiro – Sua história, monumentos, homens notáveis, usos e autoridades (I) - Moreira de Azevedo
- O Rio de Janeiro Imperial - Moreira de Azevedo.

ABBOTT, O MAIS BAIANO DOS INGLESES


(Publicado no caderno ´Prosa & Verso´, do jornal "O Globo", em 26 de abril de 2008)

A história do homem que se tornou figura central para a medicina no Brasil

O diário de Jonathas Abbott,
de Fernando Abbott Galvão. Editora Francisco Alves, 528 páginas. R$ 44

Jonatthas Abbott foi um personagem incomum no Brasil do século XIX. Inglês, de família pobre, chegou à Bahia com 16 anos fazendo o papel de groom (uma mistura de discípulo e serviçal) do cirurgião brasileiro José Álvares do Amaral, que logo percebeu a vocação do rapaz e lhe incentivou os estudos. Ao morrer em 1868, com 72 anos incompletos, na sua amada Bahia, após 32 anos como professor na Faculdade de Medicina e depois de ter recebido todos os títulos e honrarias possíveis, Abott foi considerado uma figura central no desenvolvimento da medicina brasileira.

O livro vai na contramão dos diários dos viajantes europeus que estiveram no Brasil do início do século XIX e retrataram a vida aqui de forma precisa, porém muitas vezes baseada apenas no pitoresco de um terra primitiva em relação à Europa. Abbot assume o papel contrário. Inglês apenas de nascença, adota o Brasil como sua verdadeira pátria e traça um retrato fiel dos países europeus que visita em 1930, quando vai fazer um curso de especialização cirúrgica. Da Inglaterra, por exemplo, suas observações não são nem um pouco elogiosas, com destaque para a epidemia de cólera-morbo e a falta de educação. "Que povo! Que gente! Que canalha desbocada! A bebedeira, miséria e a sem-vergonha andam aqui de mãos dadas".

A descrição precisa de procedimentos cirúrgicos numa época em que não havia a anestesia como conhecemos hoje e as sanguessugas ainda eram utilizadas normalmente para sangria dos pacientes - isto sem contar a quantidade de procedimentos que terminavam com a morte do paciente, como um parto – pode embrulhar alguns estômagos mais sensíveis, mas a narrativa de Abbott é tão natural e rica de observações inteligentes, trazendo muitas vezes considerações bem-humoradas do cotidiano, que acabamos nos envolvendo. Não nos esqueçamos de que ele era um médico e muitas vezes misturava a rotina do seu trabalho com atividades de lazer. "Morreu o meu amputado; vi dois amantes beijando-se no caminho do Unhão".

O livro foi organizado pelo trineto de Abott, o embaixador Fernando Abbott Galvão, que enriquece com notas explicativas as anotações da viagem à Europa no começo dos anos de 1830, inclusive tendo o cuidado de explicar os anglicismos utilizados por ele. Na outra parte do livro, Galvão parte para uma biografia bastante fluente de seu trisavô, inclusive citando o momento mais dramático de sua vida, o suicídio da filha Leopoldina, em 1835, fato que talvez explique o sumiço de muitas folhas do seu diário, “pois é forçoso admitir que o bem intencionado violador, em virtude de um preconceito hoje superado, tivesse pretendido escamotear um fato que lhe parecia desonroso”, como menciona no prefácio o também diplomata Rubens Ricupero. Também está ali mencionada a Revolta dos Malês, rebelião de escravos muçulmanos na Bahia, em 1835, na qual Abbott tratou de muitos feridos.

As viagens de navio, outro tormento para a época, são também descritas por Abott com realismo, embora muitas vezes ceda a voz à leveza de espírito. “A manteiga está dura, a carne de porco fresca já dura cinco dias sem sal e os percevejos morreram todos por não trazerem capotes: bem feito!” Dá para perceber que para um europeu já devidamente adaptado à vida baiana, o frio e a chuva europeus são uma tortura sem fim, principalmente quando há pouco dinheiro para a lenha e é preciso acordar cedo para aulas de anatomia.

Além das saudades do Brasil (“Já não sou infeliz, recebi doze cartas hoje”), Abbott lamenta profundamente as rebeliões de escravos na Bahia e as batalhas entre portugueses e brasileiros no período que antecedeu a renúncia de D. Pedro I, contemporâneas das revoluções de 1830 na Europa, das quais ele foi testemunha pessoal de algumas escaramuças.

Gosto pela cultura incomum para o seu tempo

Apesar de ter nascido em profunda pobreza, desenvolveu um gosto pela cultura incomum para o seu tempo. Entre uma amputação e uma dissecação, não deixava de assistir a peças e concertos, mas sua grande paixão realmente foi a pintura, tanto que sua valiosa pinacoteca, talvez a maior do Império, acabou constituindo o núcleo do Museu de Arte Sacra da Bahia. Sem dúvida, um homem incomum, que deixou marcada sua passagem pelo Brasil e pela cidade que tanto amou.

- FOTO: Faculdade de Medicina da Bahia

4.21.2008

MARKETING DE QUITANDA


Contra o gerundismo do tipo “vou estar encaminhando sua ligação, senhor”, a abordagem de rua (“empréstimo, senhora?”) e em lojas (“Deseja alguma coisa, senhor? Meu nome é William.”), a única solução é o Marketing de Quitanda.

O Marketing de Quitanda nada mais é do que a abordagem da informalidade e da gentileza. As frases decoradas, a entonação metálica, os gestos artificialmente formais, ou seja, todo esse cerimonial que os aspirantes a vendedor são obrigados a aprender como se fosse o procedimento ideal para se oferecer algo a alguém cai por terra quando temos contato com o Marketing de Quitanda.

Na verdade, não existe um método próprio para este tipo de abordagem. Depende da quitanda. Geralmente, quando entro numa, ninguém me perturba. Só depois de um tempo, alguém pode chegar e perguntar, de um jeito bem natural, sem qualquer tipo de formalidade e com um sorriso sempre amigável: “Pois não, meu amigo?”. É digno de observar que nas quitandas mais tradicionais o dono use um lápis preso atrás da orelha.

Se você disser que está só olhando, o sujeito não vai demonstrar nenhuma reação previamente programada, apenas vai dizer algo do tipo: “Pode ficar à vontade, qualquer coisa estou ali no balcão”. E vai embora, como se tivesse lhe deixado numa sala de visitas.

Faço essa comparação porque a abordagem realmente é o segredo da venda, mas o que o pessoal que ensina técnicas artificiais de vendas parece não saber, ou ter se esquecido, é que a não-abordagem também faz parte do processo. Deixar alguém à vontade numa loja, mesmo que ela não vá comprar nada, é muito mais eficiente do que, mal a pessoa entrou no recinto, às vezes só querendo “dar uma olhadinha”, já cercá-la e exercer um tipo de pressão nada agradável, como se estivesse dizendo: “Estamos de olho em você, acho bom comprar alguma coisa logo!”

Por isso, acho que os profissionais de marketing deveriam fazer uma boa pesquisa de campo nas quitandas mais tradicionais. É claro que alguns padrões precisam ser respeitados, mas dar um pouco de individualidade e libertar a capacidade de improviso dos vendedores já é um bom passo em direção ao Marketing de Quitanda.

4.10.2008

TRÊS GERAÇÕES UNIDAS PELA MÚSICA


CD E DVD "UM SONGBOOK BRASILEIRO" - FAMÍLIA ASSAD - ROB DIGITAL

Gravado e filmado ao vivo no Palácio de Belas Artes, em Bruxelas, o CD e DVD “Um songbook brasileiro”, da Família Assad, emociona por vários motivos. Primeiro, pelo fato de reunir no mesmo palco três gerações de músicos, principalmente quando entram em cena os patriarcas Jorge (bandolim) e Angelina Assad, a dona Ica, cujo jeito de cantar a levou a ser chamada de ´Billie Holiday brasileira´ por um jornal americano. Segundo, porque o repertório traz canções de uma beleza incontestável, como “Rosa”, de Pixinguinha, “Doce de côco”, de Jacob do Bandolim e “Casa forte”, de Edu Lobo. E terceiro, porque é sempre emocionante ver a música brasileira tão bem representada em palcos estrangeiros.

A família é centrada nos irmãos Sérgio, Odair (o duo Assad, um dos principais duos de violão clássico do mundo) e na cantora e violonista Badi Assad, outra virtuose que sabe explorar todo o imenso repertório de sons de sua cordas vocais. A terceira geração é representada por Clarice e Rodrigo (filhos de Sérgio) e Carolina e Camille (filhas de Odair). Clarice, que estudou música nos Estados Unidos, onde mora e acaba de lançar um CD, demonstra uma impressionante habilidade vocal e instrumental (piano) principalmente nas duas músicas de sua autoria, “Ondas” e “Ad Lib” (esta acompanhada do Duo). Rodrigo, que estudou cinema, traz um estilo mais despojado em “O silêncio das estrelas”, de Lenine, em que canta e toca violão. Já Camile e Carolina fazem parte do coro afinadíssimo, sendo que Carolina despeja sua bela voz na interpretação de “Todo o sentimento”, de Chico Buarque, acompanhada do pai. Ela também faz parte do grupo vocal carioca “Be Bossa”.

Os arranjos criativos, tanto vocais quanto instrumentais, facilitam a integração e harmonia dos integrantes da família, que funcionam como um grupo coeso e para lá de afinado. A montagem do show dá oportunidade para que todos possam exercer suas individualidades. Se o show começa com o virtuosismo do Duo (“Baião Malandro”, de Egberto Gismonti) e de Badi, que canta e toca com seu violão deitado (“The being between”, dela e de Jeff Young), aos poucos os demais integrantes vão chegando, como se tivessem sido convidados para um farto almoço na cidade paulista de São João da Boa Vista, base da família, sendo que neste caso o cardápio é o melhor da música brasileira - constantemente assolada por modismos bizarros.

O medley final - com o bandolim de Jorge Assad já tendo assumido, discretamente, o papel de fio condutor do espetáculo (afinal, ele é o chefe da família) - representa a apoteose de um espetáculo de altíssimo nível, começando com “Lamento”, de Pixinguinha e Vinicius de Moraes, e terminando com “O que vier eu traço”, uma irreverente composição de Alvaiade e Zé Maria e que traz como destaque a voz firme e melodiosa de dona Ica, cujo primeiro CD foi lançado recentemente.

É uma pena que seja tão difícil reunir os Assad, já que todos moram longe uns dos outros. A julgar pelo sucesso da excursão feita em 2004 pela Europa e Estados Unidos, e dos shows no Ibirapuera e no Canecão, em agosto de 2007, dá para imaginar o sucesso que seria uma temporada pelos palcos brasileiros.

4.01.2008

O TERROR DAS MULHERES


Qualquer briga de casal terminava quando o marido pronunciava a frase ameaçadora. Durante muito tempo, ele foi o terror das mulheres.

O Recolhimento do Parto “destinava-se a albergar mulheres de vida desonesta que, arrependidas do pecado, procuravam na religião o caminho da regeneração”.(1) Com o tempo, suas funções se ampliaram e ele acabou se transformando em um autêntico presídio, abrigando esposas infiéis e meninas que se insurgiam contra os pais. “Não havia briga entre marido e mulher que não se arrefecesse imediatamente ao pronunciar das terríveis palavras: ´Olha o Recolhimento do Parto´.(1) Era também usual “os maridos, que faziam viagens prolongadas, prenderem as esposas no recolhimento durante sua ausência, como medida de precaução.(3)

Sua pedra fundamental foi lançada em 1742 e o edifício, retangular com três pavimentos, ficou pronto em 1759, bem no centro do Rio de Janeiro, que naquela época era a única área densamente povoada da cidade. Subordinado à Irmandade da Misericórdia, o Recolhimento ficava ao lado da já demolida Igreja de Nossa Senhora do Parto (daí o nome), na primeira quadra da rua dos Ourives (Gonçalves Dias) e se estendendo até a rua da Cadeia (rua da Assembléia).

Na noite São Bartolomeu, de 23 para 24 de agosto de 1789, o prédio pegou fogo e por muito pouco não houve uma tragédia. Enquanto parte do teto caía e madeiras estalavam por todos os lados, populares conseguiram arrombar as portas e retirar as mulheres. Não houve mortes, mas o que, afinal de contas, poderia ser uma benção para as mulheres cariocas de então, que não precisariam mais sofrer as ameaças de irem parar no Recolhimento, foi por água abaixo quando o vice-rei D. Luís de Vasconcelos e Sousa, já no dia seguinte, ordenou a sua reconstrução, incumbindo Valentim da Fonseca e Silva, o mestre Valentim, de realizar a obra. Mestre Valentim, aliás, foi o artista que executou algumas das principais obras da cidade na época, algumas ainda existentes, como o chafariz da Praça Quinze e o Passeio Público.

Para mais infelicidade ainda das mulheres, o novo Recolhimento foi construído em tempo recorde, ficando pronto no dia oito de dezembro daquele ano. Ele durou até 1812. A partir daí, as mulheres eram levadas para o Recolhimento da Misericórdia, onde funcionou depois a Escola de Medicina. O prédio do Recolhimento do Parto durou até 1906, quando foi demolido para as obras de alargamento da rua da Assembléia.

* Ilustração: pintura de Leandro Joaquim sobre o incêndio no Recolhimento do Parto.


FONTES CONSULTADAS:

(1) RIO ANTIGO (VOL.I) – CHARLES DUNLOP
(2) O RIO DE JANEIRO DE JANEIRO IMPERIAL – ADOLFO MORALES DE LOS RIOS FILHO
(3) – O RIO DE JANEIRO EM SEUS 400 ANOS – ARTIGO “O SÉCULO XVIII – CLÁUDIO BARDY

3.22.2008

VOSSAS EXCELÊNCIAS E OS LADRÕES DE GALINHA



Um dos momentos mais inusitados do Congresso Nacional é o da discussão entre as vossas excelências. É quando os parlamentares quase chegam aos sopapos em acaloradas discussões, muitas vezes com xingamentos, mas sem perderem a pose. Ou seja, no início ou no final de cada frase de baixo calão está a indefectível expressão “Vossa Excelência”. Mas, e se no cotidiano as discussões também fossem nesse nível?

Uma briga de casal, por exemplo:

- Vossa Excelência chegou tarde ontem...
- Não te falei, Vossa Excelência, que era aniversário do Araújo?
- É...Vossa Excelência deve ter curtido bastante...
- Sinceramente, Vossa Excelência, não estou a fim de brigar por causa de bobeira. A sessão está encerrada. Vou dormir, Vossa Excelência.

No trânsito:

- Vossa Excelência comprou a carteira aonde?!
- Na casa da senhora Vossa Excelência sua mããee...!!!

Na hora do erro na conta:

- Vossa Excelência incluiu na minha conta uma cerveja que eu não bebi.
- Como não, Vossa Excelência? Está tudo certo.
- Mas, Vossa Excelência, eu não bebo cerveja preta. Acho bom Vossa Excelência chamar o gerente desta espelunca que eu já tô me irritando.
- Se Vossa Excelência não se acalmar, eu vou é chamar a polícia.
- Ah, chama então, pra ver se eu não quebro a cara de Vossa Excelência!

Na pelada

- Pô, pegou pesado, hein, Vossa Excelência!
- Vossa Excelência sabe que fui na bola.
- Foi sim. Depois, Vossa Excelência chora e não sabe por quê.

No ônibus
- Obrigado, hein, Vossa Excelência! Meu ponto era lá atrás.
- Vossa Excelência quer que eu adivinhe?
- Eu puxei a cordinha, Vossa Excelência, mas essa porcaria não funciona.
- Ah, Vossa Excelência tem que reclamar é com a empresa. Ó o telefone aí, ó!
- É, e Vossa Excelência tem mais é que pastar, isso sim! (e desce do ônibus)

Advertência no trabalho

- Se Vossa Excelência continuar chegando atrasado, já sabe, vai para o olho da rua.
- Mas, Vossa Excelência, foi o trânsito!
- Não interessa. Vossa Excelência trate então de acordar mais cedo. Isso aqui não é casa de caridade!

Na prisão daquele que comete o crime que mais leva gente para a cadeia neste país

- Vossa Excelência tá preso.
- Que isso, Vossa Excelência, não fiz nada?
- E isso aqui, Vossa Excelência (mostra uma galinha)? Tava no seu quintal.
- Ela deve ter vindo parar aqui, Vossa Excelência, eu sou trabalhadô.
- Não adianta, Vossa Excelência, a galinha já confessou que foi subornada por um saco de milho. Vâmo andando que Vossa Excelência tá mais sujo do que pau de galinheiro.

3.12.2008

A “RASTEIRA” QUE OS NEGROS DERAM NA FRENTE DE DOM JOÃO


Tudo bem que ser cristão e escravocrata já é o maior dos paradoxos, mas não deixa de ser curioso saber que o príncipe-regente de uma monarquia católica e escravocrata até a alma, ao chegar ao Brasil, tenha agradecido a Deus pela viagem justamente na igreja de uma irmandade de negros.

Sabe-se que antes de 1631 já existia na Igreja de São Sebastião, a primeira da cidade do Rio de Janeiro, no (absurdamente) demolido morro do Castelo, a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário. Em 1669, ela se uniu à Confraria de São Benedito, formando a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito, constituída por negros escravos e libertos. Para a Igreja, interessada em afastar cada vez mais a influência das religiões africanas, era vantajoso que os negros formassem suas próprias irmandades.

Mas sem uma igreja própria, a irmandade levou suas imagens para a igreja de São Sebastião, a Sé, igreja-matriz da cidade, marcando o início de uma série de problemas de relacionamento. “O Cabido (espécie de assembléia dos líderes da igreja) não os tratavam bem, alegavam eles, submetendo-os a um regime de inferioridade que os humilhava e não era compatível com a pura essência do Cristianismo. (1)

Cansada de ser tratada como uma irmandade de segunda classe e de pagar por todos os atos que celebravam, os negros, por não terem outro lugar para ficar, já estavam perto de dissolver a irmandade quando a devota Francisca de Pontes lhes ofereceu um terreno para a construção da igreja. A escritura de doação foi lavrada em 1701 e a pedra fundamental lançada em 1708, na rua Pedro da Costa, nome de um quitandeiro que por ali ficava, na esquina da rua do Ouvidor. Hoje, é o Largo do Rosário.

Mas, como obra de igreja é lenta por natureza, mesmo com a ajuda do governador Luís Vahia Monteiro, o Onça, os negros só puderam ter a sua igreja em 1728, graças à doação de uma capela nos fundos do terreno feita por João Machado Pereira, que fundaria a capela de São João Marcos, em 1739, no atual município de Rio Claro. Apesar de, enfim, terem a sua igreja pronta, os problemas com a Sé iriam recomeçar.

Sob a alegação de que a Igreja de São Sebastião estava em péssimas condições e longe do povo, que já se espalhava em torno do morro do Castelo, o Cabido resolveu procurar outra igreja – diziam os religiosos que provisoriamente. Tentaram a Igreja da Santa Cruz dos Militares (na atual rua primeiro de março), mas houve problemas com a irmandade, mais forte politicamente. Sobrou, então, para os negros da Igreja do Rosário, que tiveram de ser hóspedes em sua própria igreja enquanto a Sé lá esteve, isso até a chegada de Dom João.

Durantes aqueles quase 80 anos, enquanto uma nova Sé, que jamais seria concluída, estava sendo construída no Lardo de São Francisco (ver texto “Um teatro para o príncipe”, de 7/1/2008, neste blog), as relações entre a irmandade e o Cabido foram se deteriorando cada vez mais. O Cabido chegou, inclusive, a tentar se apossar da igreja em 1788, porém a irmandade apelou e um acórdão restabeleceu tudo três anos depois.

Mas o ápice desta tumultuada relação se deu no dia oito de março de 1808, quando o príncipe-regente D. João e a comitiva real chegaram de Portugal e quiseram ir à Sé dar “graças a Deus pelo bom êxito de sua viagem”. (1)

É claro que os religiosos brancos jamais permitiriam que os príncipe-regente de uma Corte escravocrata fosse recebido pelos negros da irmandade, que por isso mesmo foram excluídos do comitê da recepção, mas “ao aproximar-se o Cortejo da Igreja do Rosário, eis que todos os da Irmandade, que se encontravam ocultos nas imediações, inopinadamente tomam a dianteira do grupo e, imponentes, dão entrada no recinto, formando alas, entre as quais passaram, em grande pose, os soberanos lusos e todos os seus acompanhantes”. (2)

Foi uma autêntica e merecida “rasteira” nas autoridades eclesiásticas, que de todas as formas exerceram arbitrariamente o seu poder sobre a irmandade. No alvará de 15 de junho, D. João elevou a Igreja do Carmo, na atual rua Primeiro de Março (e agora completamente restaurada) a Capela Real e Catedral. No mesmo dia o Cabido deixou a Igreja do Rosário, para alívio da Irmandade dos Negros.

A igreja foi totalmente destruída por um incêndio na madrugada do domingo de páscoa de 26 de março de 1967, só sobrando as paredes e provocando a perda de todos os valorosos documentos históricos dos arquivos da irmandade. Em 13 de maio daquele ano (não por acaso, a data em se comemora a abolição da escravidão no Brasil), foi lançada a pedra fundamental da reconstrução da igreja, que hoje é uma das mais populares do Rio de Janeiro. Fica no final da rua do Rosário, na esquina com a rua Uruguaina, e abriga o Museu do Negro, com mais de cinco mil peças.

FONTES CONSULTADAS:

(1) História das ruas do Rio – Brasil Gerson
(2) O Rio de Janeiro, sua história, monumentos, homens notáveis, usos e autoridades – Moreira de Azevedo (vol. II)


* Ilustração: quadro "Chegada do príncipe D. João à Igreja do Rosário", de Armando Martins Viana.

UM SÍMBOLO COM PASSADO E FUTURO


(Publicado no caderno "Prosa & Verso", do jornal "O Globo", em oito de março de 2008)

Obra lembra as histórias e a importância do Jardim Botânico desde sua criação

O jardim de D. João,
de Rosa Nepomuceno. Editora Casa da Palavra, 176 páginas. R$ 58


Símbolo dos mais marcantes da presença do príncipe-regente D. João no Rio de Janeiro, há 200 anos, o Jardim Botânico permanece como uma das maiores atrações turísticas da cidade. E a autora deste livro, que o freqüenta desde a infância, conta sua história dando ênfase aos cientistas que passaram por lá e fizeram do espaço no coração da zona sul carioca um dos mais queridos da cidade.

D. João, uma espécie de “Nabucodonosor dos trópicos”, mandou adquirirem o terreno onde ficava o engenho de Rodrigo de Freitas, às margens pantanosas e infestadas de mosquitos da lagoa que mais tarde levaria o nome do antigo dono da fazenda, em decreto do dia 13 de junho de 1808. Ali seriam instalados o Real Horto e a Real Fábrica de Pólvora. Sem estradas ou trilhas decentes, aquela região era completamente inóspita para os cariocas, que se concentravam na área central da cidade. O próprio D. João, para conhecer o terreno, precisou pegar um barco e atravessar a lagoa, pois era o único caminho razoável.

Para mostrar como o Real Horto se desenvolveu, Rosa utiliza um termo que não existia na época: a biopirataria. Afinal, o roubo de mudas e sementes era mais do que comum e o horto foi criado por razões puramente econômicas, pois D. João, influenciado pelo ministro D. Rodrigo de Souza Coutinho, o Conde de Linhares, queria criar um jardim de aclimatação para as especiarias, tão preciosas na Europa e que eram buscadas na distante Índia. As especiarias, como o cravo, pimenta e a canela, eram fundamentais para a conservação dos alimentos numa época sem geladeiras ou isopores. Nas grandes navegações, elas eram fundamentais para que a carne, já de qualidade bastante duvidosa, não estragasse de vez.

Das primeiras plantas, chegadas em 1809 contrabandeadas pelo oficial Luís de Abreu e Paiva, até os dias atuais, quando o Jardim Botânico, ocupando área bem inferior à original e sofrendo a ação contínua dos “gafanhotos”, visitantes que insistem em degradar o local, espalhando lixo pelas aléias, roubando mudas e riscando troncos de árvores com nomes de casais, Rosa Nepomuceno cita diretores importantes, como Frei Leandro do Sacramento, Barbosa Rodrigues, Pacheco Leão e botânicos que se aventuraram pelo Brasil e o exterior em busca de mudas e sementes que enriqueceriam o arboreto do jardim, como Freire Allemão, Carl von Martius, Johann von Spix e Auguste Saint-Hilaire. Todos, fundamentais para que o jardim se desenvolvesse de forma harmônica e seguindo preceitos científicos e não apenas econômicos.

Histórias como a do cultivo do chá, feito por 300 chineses que não revelavam sua técnica para ninguém, e que depois seria transferido para a Fazenda de Santa Cruz; a visita de Albert Einstein em 1926, quando, segundo dizem, ele teria abraçado e beijado um pé de jequitibá-rosa, e o contrabando de sementes da Palmeira Imperial por escravos dão uma leveza ao texto e o equilibram com as informações mais técnicas, indispensáveis a um estudo deste porte.

Ao mesmo tempo em que conta a história do jardim, a autora o contextualiza com a evolução urbana da cidade, que em meados do século XIX começa a se acelerar, principalmente após a chegada dos bondes e diligências e a melhoria das vias de acesso, que trouxe mais gente àquela região ainda meio selvagem e, com isso, mais problemas. Para se ter uma idéia, basta citar o regulamento de 1838, que trazia recomendações ao público, como o de evitar tomar “bebidas espirituosas” e “dar tiros dentro do Jardim ou em sua vizinhança”.

O mais importante neste livro, que conta com uma descrição detalhada das principais árvores e três roteiros de visitação, é valorizar não apenas o aspecto estético e a importância turística do Jardim Botânico, mas principalmente o seu caráter de espaço de estudos científicos, reunindo profissionais do mais alto nível e contando, graças também ao forte apoio de empresas particulares, com equipamentos de última geração. Este trabalho invisível aos visitantes é que talvez dê ao antigo “jardim das especiarias” de D. João o suporte necessário para que ele passe dos 200 anos cada vez mais rejuvenescido.

NAVEGAR FOI PRECISO


Nos 55 dias de viagem da corte entre Lisboa e Salvador, aconteceu te tudo: tempestade, calmaria e até uma infestação de piolho – que obrigou Carlota Joaquina a raspar a cabeça

Se atravessar o oceano num barco à vela até hoje exige uma senhora coragem, imagine 200 anos atrás. No início do século 19, cruzar o Atlântico era um desafio repleto de perigos. Principalmente levando-se em conta que as naus usadas na mudança da corte de Portugal para o Brasil, em 1807, eram verdadeiras “latas-velhas” – desconfortáveis para os passageiros, vulneráveis no caso de um combate e carentes de vários reparos.

Ainda naquele 29 de novembro, dia do embarque, a esquadra portuguesa – composta por 19 navios, entre naus, fragatas, brigues e corvetas e escunas – encontrou-se com a frota britânica que faria sua escolta até o Brasil – outras 13 embarcações. Essa deve ter sido uma cena monumental, de ficar gravada para o resto da vida na memória de quem a testemunhou: 32 barcos de guerra, mais uns 30 navios mercantes, todos se preparando para uma travessia oceânica. Às três horas da tarde, o comandante da Armada britânica, Sidney Smith, ordenou uma salva de 21 tiros de canhão. Estava marcado o início a penosa jornada da família real em direção à colônia.

CHIQUEIROS FLUTUANTES

Algo entre 10 mil e 15 mil portugueses – cerca de 5% de toda a população do país – estavam embarcados naqueles navios. Na maioria, era gente importante, muito afeiçoada aos luxos da nobreza. Mas as condições a bordo não eram nada agradáveis. A água era escassa, de má qualidade. E a comida não passava de carne salgada e biscoitos. Em pouco tempo, o mantimento já estava contaminado por vermes. Animais vivos também foram embarcados, para garantir um pouco de leite, ovos e alguma carne fresca que pudesse ser servida aos passageiros mais chiques. Portanto, dá para supor que as condições de higiene estavam longe do aceitável.

No Alfonso de Albuquerque, nau em que viajava Carlota Joaquina, houve uma infestação de piolhos. Todas as mulheres, incluindo a princesa, tiveram de raspar o cabelo e jogar suas perucas no mar. Ainda por cima, receberam uma aplicação de banha de porco na cabeça, para que o pó anti-séptico salpicado não se desprendesse. Ratos eram abundantes, o que só aumentava o risco de um surto ou uma epidemia. Por causa da alimentação precária, distúrbios intestinais tornaram-se comuns. Para os nobres portugueses em fuga, a situação não podia ser mais constrangedora.

Dom João e sua mãe, a rainha Maria I, estavam no navio Príncipe Real – acompanhados de Pedro e Miguel, os dois filhos homens do príncipe regente com Carlota. Quatro das seis filhas do casal viajavam com a mãe, no Alfonso de Albuquerque. E as outras duas filhas seguiam no Rainha de Portugal. Ainda havia uma tia e uma cunhada de dom João, embarcadas no Príncipe do Brasil. Foi assim distribuída que a família real encarou as agruras daquele autêntico confinamento em alto-mar.

NAVEGAÇÃO ARRISCADA


No dia 8 de dezembro, perto da ilha da Madeira, uma violenta tempestade fez estragos consideráveis. Na esquadra portuguesa, mastros foram quebrados e velas foram rasgadas. Um marinheiro inglês acabou lançado ao mar, mas conseguiu ser resgato. A péssima condição de visibilidade obrigou as embarcações a parar, sobretudo porque aquela era uma área de navegação extremamente arriscada, cheia de rochedos submersos.

Durante a tempestade, a frota dispersou-se e uma parte dela seguiu direto para o Rio de Janeiro. Alguns navios britânicos já tinham voltado para a Europa, a fim de reforçar o cerco à Lisboa, invadida por tropas de Napoleão. As demais embarcações, recuperadas da tormenta, prosseguiram na lenta travessia rumo ao Brasil.

Quando as esquadras alcançaram a linha do equador, novo imprevisto: uma calmaria tornou a frear o avanço das embarcações, submetendo passageiros e tripulações a dias seguidos de sol escaldante. Casos de insolação e desidratação multiplicaram-se. Até que a calmaria se foi, a viagem seguiu e 1807 chegou ao fim – uma triste passagem de ano para a corte portuguesa, mas provavelmente carregada de esperança.

CAJUS E PITANGAS

Depois de tanta carne seca e biscoito, imagine qual não foi a alegria de dom João e sua comitiva ao avistar, já bem perto da costa brasileira, um pequeno barco não-identificado. Era Três Corações, um bergatim enviado por Caetano Pinto de Miranda, então governador de Pernambuco, para dar as boas-vindas à Coroa portuguesa. Dentro dele, um carregamento de frutas tropicais, como caju e pitanga, e muitos recipientes com refresco. Aquele certamente foi um momento de glória – dom João e seus asseclas tirariam a barriga da miséria.

Àquela altura, o príncipe regente já havia determinado que o destino da frota seria a cidade de Salvador, e não o Rio de Janeiro. Em 22 de janeiro de 1808, 55 longos dias depois de zarpar de Lisboa, a comitiva real finalmente desembarcou na Bahia, para uma escala que duraria pouco mais de um mês (leia mais na pág. 18). Estavam todos cansados, debilitados. Mas o primeiro desafio daquela fuga já estava superado: o oceano Atlântico, agora, protegeria a corte portuguesa da fúria de Napoleão.

(Esta e mais quatro matérias foram feitas por mim para a edição especial da revista "Aventuras na História", da editora Abril, sobre a chegada da Família Real ao Brasil - nas bancas neste mês)

3.02.2008

FILAS, POR QUE TÊ-LAS? FILAS, COMO NÃO TÊ-LAS?


Uma das instituições brasileiras mais sólidas, sem dúvida, é a fila. Há fila para tudo neste país, desde as clássicas, como a do INSS ou a dos bancos no início do mês, como a fila para se pesar, a fila se olhar a promoção de uma loja e a fila....para nada.

Comecei a me interessar pelo comportamento dos ´fileiros´ quando, ao comprar bilhetes na Central do Brasil, percebi que as primeiras filas, gigantescas, iam diminuindo nas bilheterias seguintes, até encontrar filas mínimas, às vezes com duas pessoas, nos últimos guichês. Por que as pessoas das filas da frente não andavam mais um pouco?

E aí comecei a entender o seguinte: tem muita gente que gosta de fila. É claro que se você é daqueles que ficam irritadíssimos numa fila, vai me questionar, mas preste atenção: há pessoas que realmente curtem ficar numa fila. Os motivos podem ser vários: solidão, falta do que fazer, querer ser comunicativo, vontade de encontrar alguém para xingar o governo, comentar sobre o capítulo da novela ou o jogo de ontem, pedir dicas etc, etc e uma fila de etcéteras.

A figura clássica desse tipo de fileiro é aquela que já chega com o jornal embaixo do braço e comentando alguma notícia, geralmente ruim. Outra é a senhorinha cheia de artrose que vai em busca de um ´aconselhamento médico´ (Ih, minha filha, toma isso que é tiro e queda) naquela outra característica do brasileiro: a auto-medicação.

A grande alegria dessa turma é quando chega ao guichê e o caixa diz: “Meu senhor, essa fila não é para isso não. O senhor tem que entrar naquela ali, ó”. Sim, porque tem gente que entra em fila sem nem saber por quê.

O período preferido dos fileiros é o início do mês, por causa dos pagamentos que sobrecarregam os bancos e as lojas. O bom fileiro também se sente mais à vontade num grande centro comercial. Mande um deles passar uns dias no interior que ele logo se entedia, ou então...começa a organizar algum tipo de fila. A fila do beijo na moça, por exemplo, era muito comum em cidadezinhas. Mas esta, até mesmo quem não era apreciador desta sólida instituição, pagava pra ver.

Por isso, posso afirmar, sem medo: quando pintar aquela solidão, nada de ficar em casa, vendo TV ou arrumando o que fazer. Tome um banho, vista uma roupa maneira, leve um jornal e encare uma boa fila. É quase um exercício de meditação, pois desenvolve a paciência e a perseverança. Mas cuidado: comece aos poucos, se você não estiver acostumado, pois ela pode propiciar também momentos de raiva e irritação, principalmente no verão.

Comece com uma fila pequena, do tipo padaria. Depois, passe para uma loja de roupas, em seguida ao banco e, quando estiver realmente seguro de si, vá para a fila do Maracanã na semana de uma decisão de campeonato comprar um ingresso. Se você conseguir sair sem escoriações e roupas rasgadas, já pode garantir o seu lugar em qualquer fila e começar a reprimir aqueles que chegam atrasados e tentam furar esta autêntica instituição nacional.

* Agradeço ao bom e velho Vinícius pela inspiração do título.

2.21.2008

OS ´CARTÕES CORPORATIVOS´ DE D. JOÃO


É claro que no início do século XIX ainda não existiam cartões de crédito ou de débito, mas a julgar pelo rombo financeiro causado pela presença da Corte portuguesa no Brasil, podemos dizer que a Mordomia-Mor seria uma antecedente bem adequada da farra dos cartões corporativos.

A Mordomia-Mor era responsável pela organização e administração das repartições criadas após a chegada da Família Real ao Brasil, em 1808. Seria uma estrutura exemplar em termos de organização se as repartições não fossem usadas para uma série de roubalheiras que contribuíram, inclusive, para a falência do primeiro Banco do Brasil, criado pelo príncipe-regente D. João em 1808, e falido em 1829. O atual só foi criado em 1853, já na época do imperador D. Pedro II.

Duas figuras se destacam como os maiores beneficiários das técnicas de enriquecimento ilícito adotadas em repartições como a Ucharia Real (alimentação e bebida) e a Mantearia Real (tudo relacionado à Família Real). Eram eles Joaquim José de Azevedo, que fôra responsável pelo embarque de Portugal para o Brasil, em 1807, e Bento Maria Targini, administrador do Erário Real, órgão responsável pelas finanças públicas e que tinha como agente operacional o Banco do Brasil.

Os dois roubaram tanto que enriqueceram rapidamente e ganharam poder, sendo promovidos por D. João. Azevedo passaria de barão a visconde do Rio Seco e Targini de barão a visconde de S. Lourenço. Para se ter uma idéia da riqueza de Azevedo, basta olhar o seu palacete, que está sendo restaurado e fica na Praça Tiradentes, no centro do Rio, bem em frente ao 13º Batalhão da PM. Os desmandos destes dois homens geraram até uma quadra muito conhecida da já irreverente população carioca:

“Quem furta pouco é ladrão,
quem furta muito é barão,
quem mais furta e esconde
passa de barão e visconde”

Além disso, o déficit causado pelas altíssimas despesas da Corte foi tão grande que não houve outra saída a não ser pedir um empréstimo de 600 mil libras esterlinas à Inglaterra, dívida que após a independência, em 1822, seria repassada ao Brasil, marcando o início da nossa dívida externa.

O Banco da Brasil ainda sofreria um duro golpe quando o já aclamado rei D. João VI voltou a Portugal, em 1821, levando todas as barras de ouro e diamantes dos seus cofres. Para usar uma expressão atual, esta sim foi uma autêntica herança maldita.



FONTES CONSULTADAS:

* D. João VI no Brasil – Oliveira Lima – Rio de Janeiro – Topbooks - 2007
* 1808 - Laurentino Gomes - Rio de Janeiro - Planeta - 2007

2.11.2008

AS RÓTULAS E AS MOÇAS JANELEIRAS


Símbolo de uma sociedade machista e patriarcal, as rótulas mantinham a mulher presa a uma espécie de claustro, proibidas de ver e de serem vistas. Mas com o tempo isso iria acabar e logo, como uma espécie de redenção feminina, surgiriam as moças janeleiras.

Mas o que eram as rótulas, também chamadas de geilosias? Nada mais do que "engradados de finas réguas de madeira, com ou sem postigo, que tinham por fim resguardar as damas dos olhares dos conquistadores" (2). De origem árabe, elas simbolizavam a certeza de que "o reinol tinha ainda nas veias a miscigenação do sangue mouro, proveniente da dominação sarracena da Península Ibérica" (1).

As rótulas estavam entre as principais críticas que os visitantes estrangeiros faziam ao modo de vida e aos hábitos do povo na época do Brasil Colônia. Para eles, como para qualquer um que respirasse ares um pouco mais liberais, era uma vergonha que as mulheres vivessem não apenas reclusas em casa, mas numa espécie de confinamento, uma espécie de ´produto´ guardado em casa enquanto o marido andava livre e solto por aí.

Quando o príncipe-regente D. João chegou ao Brasil, há 200 anos, com toda a comitiva real, criou o cargo de Intendente Geral de Polícia da Corte, uma mistura de prefeito, chefe de polícia e secretário de saúde. E o primeiro a ser nomeado, em 1809, foi o Desembargador do Paço Paulo Fernandes Viana, um brasileiro nato, o que era raro, já que neste início da Corte no Brasil os principais cargos da administração estavam nas mãos de portugueses.

Uma das primeiras medidas de Viana, registrada no edital de 1º de julho de 1809, foi o de acabar com as rótulas e também com as urupemas, que eram tecidos de palha montados em sarrafos ou caixilhos de madeira que eram colocados nos vãos das casas, também com a intenção de evitar que o interior delas fosse bisbilhotado.

Bem mais tarde, na metade do século XIX, surgiria uma personagem que jamais poderia existir na época das rótulas: a moça janeleira, que ficava horas na janela, "com os cotovelos apoiados em almofadas e o cachorro de estimação ao lado, no peitoril da janela" (2). Como os namoros e as cantadas tinham de ser muito discretos numa sociedade tão atenta a qualquer deslize de comportamento, logo surgiu a linguagem das flores, entendida tanto pelas moças janeleiras quanto pelos pretensos conquistadores que passavam por elas. Os homens, então, carregavam uma flor que representava a sua intenção, mas as flores também podiam ser usadas pelas moças janeleiras, o que era menos comum. Alguns exemplos:

cravo rosa - fidelidade
lírio roxo - confiança
botão de rosa branca - casamento
rosa branca - afeição
mal-me-quer - tristeza ou sofrimento

E por aí vai. Este costume durou até a época da Reforma Passos, no início do século XX, quando a cidade mudou de forma radical e hábitos românticos como este ficaram no passado. Se levarmos em conta muitas das abordagens grosseiras de hoje em dia, a linguagem das flores das moças janeleiras parece algo mais distante ainda.

FONTES CONSULTADAS:

(1)O Rio de Janeiro nos seus 400 anos - Vários autores - Artigo "O Rio no século XVIII", de Cláudio Bardy.

(2) O Rio de Janeiro Imperial - Adolfo Morales de los Rios Filhos.


* Ilustração de Belmonte

1.17.2008

A CASA É SUA...LITERALMENTE


É sempre complicado receber uma visita inesperada, ainda mais quando essa visita é ilustre e numerosa. Como acomodar tanta gente, de uma hora para outra? Pois foi isso o que aconteceu após a chegada da Corte portuguesa ao Rio de Janeiro, há 200 anos. A velha cortesia ´a casa é sua´ foi aplicada...literalmente.

Já escrevi neste blog como se deu a acomodação dos milhares de nobres que chegaram com D. João VI e sua comitiva (artigo “Ponha-se na rua”, de 10/09/2006). Mas no caso do príncipe-regente, de sua esposa D. Carlota Joaquina, da mãe, Maria I, ´a louca´, e da comitiva real, foi preciso desalojar as poucas casas realmente boas que havia na colônia. Para se ter uma idéia, até os religiosos do Convento do Carmo tiveram de abandonar sua morada e se mudar para a rua dos Barbonos (atual Evaristo da Veiga). Tudo para que D. Maria I e suas damas de companhia se instalassem lá, na parte de cima, enquanto embaixo ficavam a criadagem, o Corpo da Guarda e outras instalações. O convento, que hoje abriga parte da faculdade Cândido Mendes, passou a ser ligado ao Paço Real por um passadiço.

O paço recebia o nome de Palácio dos Vice-Reis até a chegada da Corte e abrigava o vice-rei Conde dos Arcos, que mobiliou e ornamentou a residência para D. João VI e seus asseclas e, como um bom anfitrião, foi morar na casa de Anacleto Elias, dono de muitas casas importantes na cidade, no Campo de Santana. O paço, hoje, é o Paço Imperial, um dos centros culturais mais importantes da cidade, e a casa de Anacleto Elias abriga a Faculdade de Direito da UFRJ.

O edifício da Câmara e Cadeia, já demolido, serviu para a residência dos criados da Casa Real e os presos foram transferidos para a temida prisão do Aljube, próximo à Praça Mauá.

Mas D. João moraria pouco tempo no Paço, pois o capitão Elias Antônio Lopes, um rico comerciante da rua Direita (atual 1º de março), ofereceu a sua quinta, em São Cristóvão, para alojar, em definitivo, a família real. Ela ficava em terrenos do antigo Engenho Velho, antiga propriedade dos jesuítas e depois adquirida por Elias.

D. João se encantou com o local e assim que foi morar lá começou a fazer ampliações, desapropriando vários prédios e terrenos das redondezas e montando um belíssimo e variado jardim. Hoje é a Quinta da Boa Vista, uma das principais áreas verdes da cidade e um dos principais pontos turísticos do carioca. O antigo Palácio Real abriga o Museu Nacional.

Elias Antônio Lopes foi agraciado com vários títulos de nobreza, como Comandante de Cristo e Cavaleiro Fidalgo da Casa Real, mas dizem as más línguas que perto de morrer, em 1815, ainda tentou receber da Fazenda Real o valor da doação feita.

FONTES CONSULTADAS:

* As freguesias do Rio Antigo - Noronha Santos
* O Rio de Janeiro - Sua história, monumentos, homens notáveis, usos e autoridades (I).
* O Rio de Janeiro em seus 400 anos - artigo ´O século XIX´, por Claudio Bardy.

ZÉ LINS E O APRENDIZADO DA ESCRITA


Ligeiros traços - Escritos da juventude, de José Lins do Rego. Organização de César Braga-Pinto. Editora José Olympuo, 304 páginas. R$ 35

(Publicado no caderno "Prosa & Verso", do jornal "O Globo", em 12 de janeiro de 2008)

Obra com textos da juventude do autor mostra a evolução de seu estilo

Livros póstumos de escritos da juventude costumam ter duas características básicas: são úteis para se entender o processo de formação do escritor, mas ao mesmo tempo trazem muitos textos de pouco valor literário. É o que acontece neste livro organizado por César Braga-Pinto sobre os primeiros escritos de José Luis do Rego publicados entre 1919 e 1924, época em que o futuro autor de “Menino de engenho”, que em setembro completou 50 anos de morto, tinha entre 18 e 23 anos.

O livro é dividido em três blocos. No primeiro, são os artigos escritos por Zé Lins (que também está sendo homenageado no excelente documentário “O engenho de Zé Lins”, de Vladimir Carvalho) com 18 anos em jornais como a “Folha de Recife” e o “Diário do Estado”. Depois, quando já estava na Faculdade de Direito de Recife, entre 1920 e 1923, e por fim os artigos para a revista paraibana “Era Nova”, estes bem mais amadurecidos.

A linguagem empolada do primeiro bloco contrasta fortemente com a dos outros dois, e principalmente com as suas obras da fase adulta, quando o autor desenvolveu uma prosa simples e envolvente, baseada na memória e bastante descritiva de personagens típicos do nordeste do ciclo da cana de açúcar. Apesar dos temas não ajudarem muito, já que muitas vezes são bastante locais ou enfadonhos, já dá para perceber, aqui e ali, um pouco da dimensão que aquele garoto, ainda um pouco panfletário e virulento nas suas críticas, alcançaria.

A virulência, aliás, é freqüente nos textos. Entre as vítimas de Zé Lins está uma turma que faz parte do cânone literário deste país, como Euclides da Cunha, Aluísio de Azevedo e o grupo da Semana de arte moderna, de 1922, para ele um conjunto de “originalidades fáceis a custo de escândalo e ignorância”, responsável pela fundação do “pedantismo intelectual brasileiro”.

É interessante notar que em comparação aos paulistas de 1922, José Lins do Rego ressalta a importância do movimento modernista do Rio de Janeiro, que ultimamente vem sendo lembrado por pesquisadores e que nas crônicas do autor paraibano aparece muito bem representado no movimento “Árvore nova”, liderado por Tasso da Silveira e Rocha de Andrade.

Por outro lado, não há como negar o excesso de conservadorismo da maioria dos textos, traduzido na busca constante pela ordem e no apego à tradição, características que seriam ampliadas na amizade com o seu mestre Gilberto Freyre, e também um certo tom reacionário, como na crônica “A Paraíba e seus problemas”, quando escreve que Castro Alves “se gastou em apiedar-se de negros robustos que estavam tão bem nos servindo na escravidão”.

Quando diminui os excessos, Zé Lins é capaz de revelar-se um cronista em fase de amadurecimento, defendendo teses interessantes e passeando por temas distantes mas bem alinhavados num texto enxuto. Embora haja às vezes excesso de citações, comum em quem está começando a publicar em jornais, o autor desenvolve suas próprias opiniões com autoridade e bastante segurança, não hesitando em mudar de opinião com o tempo, como acontece com Coelho Neto e Rui Barbosa, que passa de “Davi imaginoso que tece hinos de glória ao trabalho nobilitante” (ainda no tom rebuscado dos 18 anos) ao homem que “pecara demais para um arrependimento fácil”, logo após a morte da “Águia de Haia”, em março de 1923.

O que se percebe também, mesmo nos primeiros textos, é uma característica fundamental do futuro escritor: o amor pela poesia popular. Basta ler o artigo “Morte de um trovador”, bastante saudosista, no qual o garoto de 18 anos lembra com a melancolia de um homem maduro, “despido da roupagem branca dos inocentes”, a vida de “João Passarinho”, personagem que vivia no engenho de seu avô que cantava e tocava no violão “notas artísticas de um sentimentalismo sublime”. João Passarinho perdeu o juízo, “dizem as más línguas que fôra a ingratidão de uma mulher”, e morreu de gripe espanhola, mas foi resgatado por Zé Lins não apenas nesta crônica como no seu romance “Fogo morto”.

Um dos melhores textos é o que ele dedica a Lima Barreto, em 1922, definindo o autor de “Triste fim de Policarpo Quaresma” como “a maior vocação do nosso romance”, só inferior a Machado de Assis. Embora curto, o artigo é duro em relação aos opositores de Lima Barreto, um autor que combateu a hipocrisia e as formalidades de seu tempo, e que por isso não teve uma projeção à altura da sua obra. Como diria o então ainda muito jovem cronista José Lins do Rego, mas neste artigo já revelando boas doses de ironia, “os grandes escritores têm sua língua e os medíocres, a sua gramática” – comentário bastante atual, como a própria obra de Lima Barreto.

1.07.2008

UM TEATRO PARA O PRÍNCIPE


Uma das muitas necessidades geradas pela chegada da Corte portuguesa ao Brasil, há 200 anos, foi a de um teatro de qualidade. O príncipe-regente D. João mandou, então, que se construísse o Real Teatro de S. João. O que ele não sabia é que a superstição e a tragédia marcariam a história desta que foi a mais importante casa de espetáculos da cidade durante muito tempo.

O teatro foi inaugurado em 12 de outubro de 1813, data de aniversário do futuro imperador do Brasil, D. Pedro I, e com o nome de Real Teatro de S. João, no antigo Campo da Lampadosa, com fachada para o Largo do Rossio (atual Praça Tiradentes).

Em pouquíssimo tempo, acabou se tornando o lugar favorito de reunião da aristocracia, a cada dia acrescida de mais figuras brasileiras. Afinal, era o teatro freqüentado por uma das mais importantes Cortes européias, dona de um vasto e cobiçado império. Outros teatros importantes da época, mas bem menos grandiosos, eram o São Francisco, o São Januário e o Teatro Lírico Francês. O cenógrafo do Real Teatro de S. João era Francisco Pedro do Amaral, figura muito querida na Corte, e que, entre outras obras, realizou as pinturas no Palacete da Marquesa de Santos, em São Cristóvão, e os ornamentos das carruagens do casamento de D. Pedro I e Amélia de Leuchtenberg. Apesar do prestígio, morreria paupérrimo, em 1830.

Enquanto a elite assistia aos espetáculos, os cocheiros das seges e carruagens luxuosas que traziam o público soltavam as mulas e cavalos no Largo do Rossio para pastarem. Acontece que muitos cocheiros também passavam pelas tabernas da região para tomar umas e outras e acabavam se excedendo. Ao final do espetáculo, muitas vezes a confusão se instalava, com os donos procurando os cocheiros, que, bêbados, sofriam para levar os animais de volta à sua ingrata função.

Mas o detalhe que mais chama a atenção em relação ao Real Teatro de São João é a polêmica que a sua construção gerou na cidade. Tudo porque parte das pedras utilizadas na obra foi retirada do material usado na construção da igreja que seria a matriz do Rio de Janeiro, a Sé, no Largo de São Francisco. A obra estava parada e na verdade a Sé acabaria nunca sendo construída ali, mas a base serviu para a construção do prédio onde hoje funciona o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, o IFCS. Para o povo, retirar pedras da construção de uma igreja, ainda mais da Sé, para um destino pagão, era um grande pecado, que teria um castigo merecido. E ele veio.

O primeiro incêndio aconteceu em 1824. O segundo, em 1851, e o terceiro em 1856. Numa época em que o serviço dos bombeiros era precário e a quantidade de material inflamável (cortinas e figurinos em geral) era enorme, dá para imaginar o estrago, ainda mais numa casa daquele porte. Não havia dúvidas, entre o povo, de que as três tragédias foram causadas pela "atitude desrespeitosa" de se usar as pedras da Igreja na construção do teatro que, apesar de tudo, acabou se tornando cenário de importantes acontecimentos políticos e dos maiores artistas brasileiros da época.

O teatro mudaria de nome para São Pedro de Alcântara (em homenagem a D. Pedro I) e Constitucional Fluminense (já na república). Só em 1929, o prédio foi demolido por ordem do prefeito Prado Júnior para dar lugar ao Teatro João Caetano, construído pela firma Gusmão & Dourado, a mesma que construiu o edifício do jornal “A noite”, na Praça Mauá, o primeiro arranha-céu do Rio de Janeiro.

O João Caetano é um dos mais conhecidos teatros cariocas e é interessante ressaltar que o ator que dá nome à casa foi um dos artistas mais aclamados naquele mesmo espaço na época do Império. Uma homenagem mais do que justa.

FONTES CONSULTADAS:

- O Rio de Janeiro em seus 400 anos – formação e desenvolvimento da cidade - Vários autores
- Crônicas da cidade do Rio de Janeiro - Noronha Santos
- O Rio de Janeiro Imperial - Adolfo Morales de los Rios Filho
- O Rio de Janeiro – Sua história, monumentos, homens notáveis, usos e autoridades (I) - Moreira de Azevedo
- História das ruas do Rio - Brasil Gerson

12.19.2007

O SHOPPING DA MANJEDOURA



O Natal é a única festa de aniversário na qual quase ninguém se lembra do aniversariante. Experimente dar uma olhadinha nos jornais ou assistir TV. Não se fala em outra coisa. É a data mais festejada no mundo ocidental e em boa parte do oriente. Mas alguma coisa parece estar fora do eixo. Cadê ele?

No seu lugar, mandaram como representante um velhinho barbudo, simpático, bonachão e gordinho, usando uma roupa que num país tropical como o nosso mais parece uma sauna ambulante.

É verdade que o 25 de dezembro foi uma invenção da Igreja Católica. Não se sabe exatamente o dia em que Jesus Cristo nasceu. O que importa aí é o simbolismo. A data, até mesmo por ser no final do ano, quando todo mundo já está com a bateria meio descarregada, é ideal para um momento de reflexão, de introspecção, aquela hora em que poderíamos fazer um balanço de nossas vidas, de pensarmos no que fizemos (e no que poderemos fazer) de bom e mal com os outros e conosco.

Para isso, nada melhor do que ter como referência uma mensagem de paz e amor tão forte que resiste há dois séculos, independentemente de você ser cristão, ateu ou lá o que seja. Pois mesmo aqueles que duvidam da existência de Jesus Cristo precisam admitir que alguém muito parecido com ele viveu por aquela época, já que os evangelhos, inclusive os apócrifos, não foram criados do nada.

E no que se transformou o Natal? Numa festa pagã, baseada no apelo consumista, regida a muita bebida, churrasco e ultimamente até com fogos de artifício. Há inclusive recomendações da ingestão de antiácidos e remédios para o fígado antes da maratona gastroetílica. Quando o Natal cai num feriadão, como neste ano, sobra espaço para os engarrafamentos e os muitos acidentes de trânsito.

É muito comum alguém dizer: “Ah, não sei se vou poder comprar tudo. Acho que meu Natal vai ser horrível”. Um colega me disse que outro dia um supermercado fez uma promoção-relâmpago de bacalhau e a balbúrdia que se formou lembrou as hordas bárbaras de Átila, o huno.

O aniversariante, até mesmo por sua mensagem de simplicidade e desapego aos bens materiais, parece mesmo estar bem distante desta festa de excessos e gastanças. Mesmo que alguns shoppings abriguem presépios, dá para perceber o desconforto do bebê na manjedoura diante de mensagens como “pagamento só em março” ou “crediário em cinco vezes sem juros”.

Será esse o tal do espírito natalino?


12.13.2007

QUANDO FOI?


Quando achei que te conhecia,
descobri em seus olhos uma tristeza contida

Olhei mais de perto e
vi que eles também escondiam
um sentimento incerto,
um caminho aberto
de esperança e otimismo

Você pediu um lenço pra chorar,
ou, se tanto,
que alguém
te esperasse à noite

E isso era tão pouco,
mas tão pouco,
que você viu que
não valia a pena
esconder mais nada

Abriu os olhos
e encarou, com a coragem renovada,
as armadilhas deste mundo louco

Quando foi que nós falamos
de amor
no meio do turbilhão
de vozes incompreensíveis?

Quando foi que nós falhamos
ao não percebermos que
o amor
era a única solução possível?

12.06.2007

O PEÃO-POETA



Pesquisa informal feita com homens e mulheres para este blog mostra, em um resultado apenas parcial, que o homem ideal para as mulheres é o denominado peão-poeta, ou seja, o equilíbrio perfeito entre virilidade e sensibilidade.

O peão-poeta é o sujeito que de manhã se emociona com um poema de Fernando Pessoa e à tarde se emociona da mesma forma com a final da terceira divisão do campeonato paulista. É capaz de compor uma melodia belíssima e ao mesmo tempo comer um pão com mortadela e uma garrafa de caracu com ovo num boteco de rodoviária. Dirige um ônibus lotado pela Avenida Brasil e dois dias por semana tem aula de violino. É o sujeito que após trabalhar como estivador no cais do porto ainda consegue terminar uma partida de xadrez que havia iniciado dois dias antes. Ou o caminhoneiro que após cinco dias na estrada traz flores para a mulher.

Outra situação, bastante representativa do tema estudado: pegar na enxada ouvindo música clássica.

Segundo apurou a pesquisa, um bom exemplo de peão-poeta aqui no Brasil seria Chico Buarque. O cara é sensível até a alma, compôs verdadeiras obras-primas do cancioneiro nacional, escreveu bons livros, entende como poucos a alma feminina, segundo as próprias mulheres, mas não deixa de jogar a pelada dele quase toda semana no campo do Politheama, time que ele próprio dirige.

É preciso, no entanto, dosar bem a quantidade de virilidade e sensibilidade. Segundo os entrevistados, o sujeito muito viril corre o risco de assustar as mulheres, enquanto o muito sensível, bem, esse corre um risco maior ainda, que é o de demonstrar mais interesse no objeto da sua sensibilidade do que na mulher. Mas, é claro, isso depende cada mulher. Têm aquelas que vão preferir uma dosagem do tipo ´90%peão, 10% poeta´, ou vice-versa.

Outro peão-poeta famoso, este mundialmente, é Che Guevara. Guerrilheiro, sem pensar duas vezes quando tinha que aplicar a violência para atingir os objetivos da revolução cubana, mas capaz de dizer a frase que é a própria síntese do peão-poeta: “Hay que endurecer, pero sem perder la ternura”.

Há também a variedade, bastante comum no meio urbano, do cara que é habilidoso em consertar coisas, nunca precisando recorrer a terceiros, o que não deixa de ser um sinal de derrota. Não há homem que não se sinta bem ao pronunciar a seguinte frase, após a esposa lhe dizer que a torneira está pingando e que vai ser preciso chamar o encanador: "Ah, isso aí eu mesmo faço. É só trocar a carrapeta". Se a frase for dita num tom meio desinteressado, do tipo ´isso é mole pra mim´, e depois ele ainda convidar a esposa ao teatro, aí é perfeito.

Outras funções importantes do peão poeta dentro de casa: abrir lata de palmito, trocar chuveiro, abrir garrafa long-neck (sem usar um pano) e abrir coco.

Como a pesquisa ainda não é definitiva, aguardo novas opiniões e depoimentos, a favor e contra, para quem sabe um dia coletarmos estar informações e desenvolvermos um precioso livro de auto-ajuda para os relacionamentos amorosos.

11.29.2007

SE...


Se...
eu voltasse a fazer parte
do seu mundo inacabado

Se...
eu iludisse a
saudade com
palavrãs vãs de
esperança

Se...
fizéssemos do
perdão o
desfecho de
nossas mágoas

Minha única alegria
residiria em um céu
infinito de saudades

Onde em cada estrela
brilhariam memórias de
luz própria

Separadas de mim
pela distância de
um sonho

Que não termina
quando acordo

11.28.2007

CHAPLIN NA CORDA BAMBA


É sempre bom rever Chaplin. Este artigo é sobre um dos seus melhores filmes, que revi há pouco tempo.

“O Circo” já valeria pelas cenas do espelho e da corda bamba, mas este clássico de Charles Chaplin é muito mais do que isso. Está aqui, como nos seus grandes filmes, o sutil equilíbrio entre a comédia e a tragédia, representada pela opressão sofrida pelos trabalhadores do circo, chefiados por um patrão frio e ganancioso. A cena da corda bamba é a metáfora perfeita das relações de trabalho, pois quantos não andam na corda bamba para manter os seus empregos?

O dono do circo tem um capataz, homem forte e violento, que trata os outros funcionários da mesma forma que o patrão, sem se dar conta de que ele próprio é explorado como os outros. Enredos como este e de “Tempos modernos”, por exemplo, valeriam a Chaplin a acusação de comunista, figurando na lista das bruxas do senador Joseph McCarthy nos anos 50. Chaplin nunca escondeu sua defesa da igualdade social, chame a isso comunismo, socialismo ou o quer que seja. No meio de todo o pastelão, há sempre momentos de profunda reflexão em seus filmes.

O enredo é simples, como em todos os seus filmes. Chapin, ainda como o vagabundo Carlitos, é confundido com um bandido e entra num circo, perseguido pela polícia. Acaba se tornando a principal atração, sem saber. Vai se apaixonar pela filha do dono (Merna Kennedy) e aos poucos percebe sua real condição dentro do espetáculo.

O filme traz cenas inesquecíveis, como aquela em que ele anda na corda bamba com micos pendurados pelo corpo, a da jaula do leão, e a dos espelhos, logo no início do filme. Como era comum entre os atores meio loucos daquela época, Chaplin não usou dublês nem na cena da corda bamba nem dentro da jaula dos leões.

O filme passou por diversos percalços. O estúdio foi destruído duas vezes, primeiro numa tempestade e depois num incêndio. Chaplin ficou hospitalizado seis semanas por causa de mordidas dos micos e unhadas dos leões. Para piorar, as carroças usadas no desfecho da história foram roubadas por estudantes embriagados. A trilha sonora é do próprio Chaplin, que canta a música de abertura, uma gravação feita no final dos anos 60, quando o ator já tinha 81 anos. Detalhe: no ótimo DVD que traz o filme completamente restaurado, com ótimos extras, os editores poderiam substituir a horrível palavra funâmbulo por equilibrista. Evitaria muita cara de espanto durante a exibição.

11.26.2007

FÁBULA SOBRE O COTIDIANO



Zusak conquista leitor com a história de um sujeito comum, entediado e boa praça


Eu sou o mensageiro , de Markus Zusak – Editora Intrínseca – 320 páginas – Tradução de Antônio E. de Moura Filho - R$ 39,90

André Luis Mansur


Depois de “A menina que roubava livros”, sucesso estrondoso no mundo inteiro, o australiano Markus Zusak, que esteve presente na Bienal do Livro, volta às livrarias brasileiras com “Eu sou o mensageiro”, seu terceiro livro e escrito quatro anos antes de “A menina...”. Quem gostou de seu best-seller, não vai se decepcionar com esta fábula urbana sobre um sujeito que não consegue fazer nada direito e que recebe uma missão que vai mudar sua vida.

Ed Harris é um taxista, um sujeito comum, que tem “uma televisão que precisa de um tempinho para aquecer, um telefone que quase nunca toca e uma geladeira que fica fazendo um chiado que parece rádio fora de estação”. Além disso, na descrição minuciosa que o autor faz de seu protagonista, sabemos que ele se atrapalha com as mulheres, vive com um cachorro velho que adora tomar café, seu pai morreu de alcoolismo, a mãe o detesta e seu maior prazer é se reunir com os amigos para jogar baralho. Até que um dia ele dá uma de herói (ou anti-herói) num assalto a banco e logo em seguida recebe uma mensagem, escrita numa carta de baralho. E é aí que tudo muda.

Zusak pontua seu texto com frases curtas, que dão uma dinâmica à narrativa bem construída em torno do suspense das mensagens misteriosas e de quem as teria enviado. No início, o excesso de acontecimentos e de diálogos inusitados causa uma certa estranheza, mas com o tempo a fábula vai dominando a história e envolvendo o leitor. O autor mistura humor com momentos de sensibilidade e solidariedade, o que faz deste livro uma obra de um otimismo contido e agradável, embora a melancolia esteja sempre à espreita. “Ali está minha mãe, 50 anos na cara, andando pela cidade com um cara – enquanto eu estou aqui sentado, na flor de minha juventude, completamente sozinho.

Mas a empatia que Zusak consegue criar entre leitor e personagem é o seu maior mérito. Ed Harris é um homem comum, um personagem urbano solitário e entediado, mas gente boa, daquelas pessoas que não querem fazer mal a ninguém e que nunca conseguem dar a guinada, o passo à frente em suas vidas, acabando por se entregar à rotina. “Fiquei meio deprê ao pensar que um ser humano pudesse ser tão solitário a ponto de se consolar com a companhia de utensílios domésticos que apitam e de se sentar sozinho pra comer”.

Já deu para perceber que, assim como em “A menina que roubava livros”, por trás do humor, do inusitado e de uma certa leveza há profundos questionamentos nos livros deste autor. Se lá era a Morte que contava a História, aqui o protagonista não apenas muda a vida das pessoas, mas ele próprio vai se transformando em algo melhor, mesmo que de uma forma confusa. Sem querer passar nenhuma mensagem do tipo “moral da história”, Zusak nos faz enxergar o óbvio de que o auto-conhecimento é a primeira condição para darmos um passo à frente. E muitas vezes esse auto-conhecimento só surge quando buscamos um outro tipo de relação com o outro, quando saímos da poltrona em frente à TV, da comida artificial requentada no microondas e da rotina enfadonha.

No caso de Ed Harris, sua vida depende muito dos amigos fiéis, pessoas como ele, que se refugiam em pequenos prazeres, não têm muito dinheiro nem planos mirabolantes para a vida, que está “toda estruturada neste beco sem saída e sem futuro”. Mas as cartas mostram que está na hora de enfrentar tudo, mesmo sem saber o quê nem como. Oportunidade é a palavra-chave desta história, o momento em que ela passa, espera um pouco e se não for aproveitada vai embora sem bilhete de despedida nem promessa de voltar.

As mensagens nas cartas trazem missões para ele cumprir e adiantar o teor delas seria tirar um dos grandes prazeres deste livro. Não há nada, no entanto, próximo daquelas tramas mirabolantes repletas de um suspense artificial e de final previsível. Como disse, é uma fábula, e portanto é bom estar preparado para o inusitado. Afinal, não há quem não queira uma pequena ajuda externa para dar um rumo em suas vidas, seja de uma fada madrinha ou de um anjo torto como Ed Harris.


- Publicado no caderno ´Prosa & Verso´, do jornal ´O Globo´, em 24 de novembro de 2007.

11.22.2007

O PASSEIO DO VICE-REI


Os românticos dizem que foi por paixão, mas seja como for o vice-rei D. Luís de Vasconcelos e Souza (cargo máximo na época) mandou fazer, em 1779, o primeiro jardim público projetado do Brasil. E que existe até hoje.

O Passeio Público fica no centro do Rio de Janeiro, já no limite entre a Cinelândia e a Lapa, em frente à Escola de Música da UFRJ. Na época, o Rio era capital do Vice-Reino do Brasil Colônia e cabia a D. Luís a difícil tarefa de tornar menos insalubre a vida numa cidade repleta de mangues, pântanos e lagoas mal-cheirosas. Uma delas era a Lagoa do Boqueirão da Ajuda, evitada por todos devido ao mau-cheiro.

Era às margens dela, segundo as más (ou boas) línguas, que vivia, em um miserável casebre a pobre donzela Suzana, por quem o vice-rei teria se apaixonado. O paradeiro dela não se sabe, mas a determinação com que D. Luís decidiu acabar com aquele foco de doenças deu o que falar. A demolição do Outeiro das Mangueiras, próximo dali, foi suficiente para aterrar não apenas a Lagoa do Boqueirão, como também a Lagoa do Desterro, próximo aos Arcos da Carioca, hoje Arcos da Lapa.

O Passeio Público ficou pronto em 1783 e as obras de arte ficaram a cargo de Valentim da Fonseca e Silva, o mestre Valentim, que esculpiu peças de ferro e bronze, entre elas a Fonte dos Amores e um coqueiro de ferro, que, segundo diziam, era para reproduzir o coqueiro que ficava em frente à casa de Suzana. O passeio terminava à beira-mar (daí o nome da Avenida Beira-mar, perto dali, que hoje, com os aterros, ficou mesmo À beira de muitos prédios) num espaçoso terraço. Nas extremidades laterais foram construídos pavilhões fechados, decorados com obras de arte.

Nas noites quentes e de lua cheia, o Passeio Público atraía grande número de pessoas, tanto que a atual rua das Marrecas se chamava rua das Belas Noites e só mudou de nome por causa do Chafariz das Marrecas, também construído por mestre Valentim. Naquele Rio de Janeiro silencioso e pouco iluminado, o terraço do Passeio Público era o símbolo de uma época romântica e bem menos agitada.

11.14.2007

EM BUSCA DO MAGIA DO LEITOR


“Não sou masoquista. Se não adorasse escrever, já teria parado há muito tempo”. Essa foi a tônica da entrevista dada pela premiadíssima escritora Ana Maria Machado às jornalistas Cristiane Costa e Valéria Lamego, ontem na biblioteca do Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. A entrevista foi a última do ano do projeto “Laboratório do escritor”, que levou ao mesmo espaço em 2007 autores como Luis Fernando Veríssimo e Carlos Heitor Cony.

Bem à vontade diante de uma platéia cheia de admiradores (e algumas tietes), a autora, que já vendeu mais de oito milhões de exemplares de seus mais de cem livros no Brasil e em outros 17 países, começou descrevendo o seu processo de criação - o tema da entrevista -, mas foi se soltando e acabou falando com naturalidade de momentos mais intimistas da sua vida, como a luta bem-sucedida contra um câncer de mama e o início da carreira, quando exilada pelo regime militar e com dois filhos para criar descobriu que poderia se sustentar com a literatura, “ainda que levando uma vida espartana”. O sustento, no caso, vinha de uma revista chamada “Recreio”, da editora Abril, que queria publicar autores que escrevessem para os jovens numa linguagem “que não fosse tatibitate nem nhemnhemnhem”. Para se ter uma idéia do nível da publicação, a revista também contava com colaborações de Ruth Rocha e Joel Rufino.

Embora seja mais lembrada como autora de livros infantis e infanto-juvenis, Ana Maria falou dos seus contos e romances, dizendo que nunca sabe exatamente para qual público vai escrever quando começa a pensar numa nova história, ou se aquele livro vai interessar apenas a um tipo de público. “Tem sempre mais de uma leitura”, afirma ela, que escreve no computador desde o início da década de 80, quando foi apresentada a um MacIntosh por uma amiga que vivia nos Estados Unidos.

Uma das discussões mais interessantes, que gerou inclusive perguntas do público, foi a relação entre jornalismo e literatura. Ana Maria, que já havia citado Hemingway, recorreu mais uma vez ao escritor americano para dizer que “o jornalismo nunca fez mal a um escritor, desde que largado há tempo”. Para ela, que abandonou a redação do “Jornal do Brasil” nos anos 70 a fim de se dedicar exclusivamente à literatura, o jornal tem que cobrir tudo, “mas no dia seguinte vai embrulhar peixe”, enquanto o escritor tem que cobrir o mínimo, mas com profundidade. Vale ressaltar que o jornalista aqui citado é o da redação, aquele que faz plantão e fechamento, e não o cronista. “Esse, os próprios repórteres da redação não consideram jornalista”.

A relação com a Academia Brasileira de Letras, onde ela ocupa a cadeira número 1, também foi lembrada por ela, que por coincidência tinha acabado de sair de um evento na ABL. "São 40 vaidosos. Quem não for vaidoso, não se candidata", diz a autora com bom-humor, ressaltando o respeito que tem pela permanência da instituição e pela renovação que a internet provocou na ABL através do portal (www.academia.org.br). "A academia é muito querida pelo povo. Ali, eu tenho muito o que aprender".

O bom de se assistir a uma entrevista com um autor consagrado é exatamente perceber o amor que aquela pessoa que está ali na frente tem pelos livros e pelos leitores. Como a frase do início, Ana Maria não se limitou a falar da “necessidade de expressão do artista”, diferencial que ela usa ao citar os escritores de literatura infantil e infanto-juvenil da geração dela, que não têm preocupação pedagógica e escrevem de forma independente. Ao se referir ao leitor, que afinal é o objetivo final do seu trabalho, ela o compara a um “mágico, porque ele consegue estabelecer uma ponte para alguém que ele não conhece”. E quando esse alguém está ali pertinho, dá para entender fascínio que eventos desse tipo exercem sobre o público.

11.05.2007

A VACA NO QUINTAL


A adulteração do leite com soda cáustica e outras substâncias venenosas (um crime mais do que hediondo) apenas reforça a tese de que no Brasil, país onde as leis só existem no papel e as punições são brandas, deveríamos voltar a viver de forma primitiva. Para começar, uma vaca no quintal. Teríamos leite fresco, sem porcarias industrializadas para consumir e, portanto, a garantia de um produto saudável, principalmente para as crianças, as maiores vítimas do crime do leite.

A evolução tecnológica só faz sentido se vier acompanhada de uma estrutura jurídica e ética que impeça, ou pelo menos puna, os excessos e distorções oriundos desta mesma evolução. Isso evitaria, por exemplo, que o automóvel, elemento fundamental em qualquer parte do mundo, aqui seja mais lembrado como um dos principais responsáveis pela alto índice de mortes violentas, principalmente entre os jovens.

Da mesma forma, é inconcebível imaginar um mundo hoje sem aviões "cruzando mares e oceanos". Mas aqui no Brasil, nos últimos tempos, pelo menos, a invenção do brasileiro Santos Dumont tem sido sinônimo de longas filas de espera, overbooking e, o que é mais grave, falta de manutenção das aeronaves e sobrecarga de trabalho para pilotos e controladores de vôo.

A televisão, além de toda a carga de violência que despeja todos os dias em milhões de telespectadores, é uma das principais responsáveis pelo aumento dos casos de obesidade. Aquela clássica cena estilo "Homer Simpson" do sujeito horas em frente à TV com a latinha de cerveja apoiada na barriga e comendo batatinhas industrializadas é cada vez mais comum. E haja calo nos dedos para mexer no controle remoto.

Falando em batatinhas industrializadas, voltemos aos alimentos, e aí não falo nem dos industrializados, que precisam de substâncias químicas para continuarem na validade. Mas e os agrotóxicos nas frutas e legumes? E os casos de carne fora de validade, que comerciantes inescrupulosos adulteram para permanecerem "frescas"? E o famoso pão com bromato? Não é à toa que muita gente vem optando pela agricultura orgânica, que nada mais é do que a comida como deveria ser feita.

Poderia citar inúmeros outros exemplos, como o telefone celular, usado hoje como instrumento de extorsão, a internet, repleta de vírus e de quadrilhas que roubam senhas de bancos etc, mas já que as coisas não devem mudar tão cedo, o jeito é voltarmos mesmo ao estado natural das coisas. Agricultura orgânica, carroças, pombo-correio, conversa na sala de jantar (uma raridade hoje em dia) e, é claro, a vaca e também as galinhas (não nos esqueçamos dos hormônios) no quintal.

MALDIÇÃO IMPERIAL


Mary Del Priore conta a vida trágica do príncipe que tentou ser Dom Pedro III

O príncipe maldito
, de Mary Del Priore. Editora Objetiva, 312 páginas. R$ 36,90.

André Luis Mansur

Uma das teorias mais interessantes no estudo da História é a especulação baseada na teoria do ´se´. Entre as mais divulgadas está a de como seria o mundo se Hitler tivesse vencido a guerra. Aqui no Brasil, muitos imaginam também como seria o país se os comunistas tivessem tomado o poder nos anos 60, em vez dos militares. Este livro trata de um outro ´se´ cheio de significados simbólicos dentro da História do Brasil: e se, em vez da república, D. Pedro III assumisse e desse continuidade ao Império brasileiro?

Muitas tramas para suceder o avô como imperador

A pesquisadora Mary Del Priore já deu grande contribuição ao estudo da História e da formação da sociedade brasileira com a sua coleção “História da vida privada no Brasil”, indispensável a quem quiser ao menos começar a tentar entender hábitos e costumes seculares do nosso povo. Aqui, ela descreve a vida do “príncipe maldito” utilizando a narrativa do romance histórico, o que torna a leitura bastante agradável, mesmo com tantos nomes, datas e informações e, o que é muito importante para situar o leitor, contextualizações históricas.

Mas quem era D. Pedro III e por que a alcunha de maldito? Na verdade, como se sabe, Pedro Augusto jamais chegou a ser D. Pedro III e mesmo que o império ainda existisse quando seu avô D. Pedro II morreu, em 1891, exilado em Paris, a primeira da linha sucessória seria sua tia, a princesa Isabel, e depois seus dois filhos. Pedro Augusto era o filho de Leopoldina, irmã mais nova de Isabel e já falecida. Mas Pedro tramou, e tramou muito para assumir o poder quando o avô, já debilitado há muitos anos, morresse. E é desta trama repleta de intrigas que trata a maior parte deste livro.

Por ter nascido antes dos filhos da tia Isabel e do seu marido, o Conde d´Eu, Pedro Augusto, descendente da dinastia dos Saxe e Coburgo, da Bélgica, sempre foi visto como aquele que iria chegar lá. Recebeu uma educação privilegiada, da mesma forma que o avô, e realmente era visto, pelos amigos do império mas também por abolicionistas e republicanos, como a pessoa talhada para assumir o império quando o avô morresse. A princesa Isabel era considerada uma pessoa sem preparo para assumir o poder e o Conde d´Eu era detestado, principalmente pelos militares.

Nos intervalos entre os dramas familiares e as crises políticas, a autora nos entretém com detalhadas descrições da geografia carioca da época, bem diferente da atual após tantos aterros e desmontes de morros, e também com detalhes pitorescos e por isso mesmo mais próximos da vida comum e que nunca encontramos nos livros didáticos. “Foi a primeira a demonstrar que não se provava virgindade em mulher enfiando um ovo vagina adentro”. A linguagem íntima retratando o que acontecia dentro dos aposentos imperiais passa longe do tom formal dos documentos oficiais, como na correspondência trocada entre as princesas Isabel e Leopoldina, ainda muito jovens, e que continham expressões como “Almirante de merda”, referindo-se ao vice-almirante Joaquim Raimundo, ou a perguntas do tipo: “Você se borrou com as pastilhas de chocolate”?, este “borrou” no sentido escatológico mesmo.

Se D. Pedro II às vezes é criticado por uma indecisão na hora em que é preciso tomar uma atitude, a autora enaltece outras qualidades do monarca já mencionadas por outros pesquisadores, como o completo respeito à liberdade de imprensa, a honestidade e a lisura em relação ao dinheiro público e, principalmente, o amor ao Brasil e ao seu povo, que por sua vez adorava o imperador e a princesa Isabel. A cena do exílio da família real, embarcada em plena madrugada, “lembrava um cortejo fúnebre” e é descrita de forma extremamente emocionante.

Dom Pedro II nunca quis um banho de sangue em seu nome

Se a corrida sucessória e as intrigas que a cercavam tomam a maior parte do livro, Mary Del Priore também dedica um generoso espaço ao momento seguinte à Proclamação da República, feita à revelia do povo (“...a rua do Ouvidor não se banhou em sangue, não se cobriu de barricadas, não se envolveu no fumo das batalhas!”) e que propiciou o surgimento do movimento monarquista, já que muita gente importante que apoiou a república agora se arrependia diante dos desmandos do novo governo. Se (novamente ele) D. Pedro II tivesse resistido, é bem provável que o povo e também os militares que apoiavam o imperador tivesse reagido. Mas D. Pedro II nunca quis um banho de sangue em seu nome.

E o príncipe Pedro Augusto, personagem principal de um livro repleto de personagens importantes? Seu destino, obviamente, não pode nem deve ser revelado aqui, mas o leitor já vai imaginando um desenlace trágico através de diversas pistas deixadas pela autora ao longo do texto. E fica a certeza de que aqueles momentos dramáticos e cruciais da História do Brasil, como a abolição, de papel fundamental no desfecho dramático da narrativa, repercutem até os dias de hoje.

- Publicado no caderno "Prosa & Verso", do jornal "O Globo" de três de novembro de 2007.

10.09.2007

MINISTÉRIOS EXÓTICOS


Depois da polêmica da criação da Secretaria de Planejamento de Longo Prazo, que seria assumida pelo professor Mangabeira Unger, podíamos criar uma série de ministérios exóticos pegando carona no nome tão abstrato da nova secretaria. Vão aí algumas sugestões:

- Ministério de ações abrangentes de largo espectro;
- Ministério de desempenho operacional das novas perspectivas;
- Ministério das novas perspectivas de desempenho operacional;
- Ministério de implementação das ambivalências preferenciais;
- Ministério de planejamento de ações pretéritas, presentes e futuras;
- Ministério de fomento aos compromissos outrora assumidos;
- Ministério de averiguação das garantias imprescindíveis;
- Ministério da avaliação de risco de frases inoportunas;
- Ministério da retificação de promessas estabelecidas em momentos de euforia;
- Ministério de alocação de cargos para amigos e parentes afins e similares.

Sugestões podem ser encaminhadas ao bloco de comentários. Quem sabe não formamos uma nova Esplanada dos Ministérios?

10.08.2007

E SE ELES NÃO FOSSEM BRASILEIROS?



Sempre especulei o que teria acontecido com dois “gênios da raça” brasileiros se eles fossem de outro país. Para ser mais específico, se Pixinguinha tivesse nascido norte-americano e Machado de Assis francês será que eles teriam o reconhecimento que nunca tiveram mundo afora?

Pixinguinha provavelmente não tocaria chorinho, mas no mínimo iria estabelecer novos rumos ao jazz e ao blues, por exemplo, da mesma forma que fez aqui, elevando o chorinho e outros estilos genuinamente nacionais a um patamar de erudição impensado até então.

Já Machado não precisaria mudar de estilo. Sua obra, principalmente os romances e os contos, se encaixariam perfeitamente em um país repleto de grandes observadores da sociedade, como Balzac, e de tantas mulheres de olhar ´oblíquo e dissimulado´, como Madame Bovary.

Embora muita gente de peso em nossa cultura se esforce ao máximo para dar maior visibilidade a estes dois gênios no exterior, como Nélida Piñon com Machado e Paulo Moura com Pixinguinha, falta a eles o ´mainstream´, a corrente principal que leva às plagas mais distantes nomes que permaneceriam restritos a uma divulgação regional. Falta cair nas graças da indústria cultural norte-americana (principalmente Hollywood), fechadíssima em relação aos seus ídolos, ou ao circuito europeu, mais intelectualizado e um pouco mais tolerante em relação ao que vem de fora. Não é à toa que Villa-Lobos é um grande ídolo na França.

Mas Pixinguinha e Machado de Assis realmente nasceram por aqui, para sorte nossa, e na verdade eles até poderiam ter um pouco mais de projeção lá fora se o Estado tivesse como uma de suas metas principais a educação e a cultura. Pois se a própria casa de Machado de Assis, no bairro carioca do Cosme Velho, foi destruída durante a ditadura, fica difícil mudar essa realidade.

Mas respondendo a pergunta lá no início, não sei qual a opinião dos leitores mas para mim o Pixinguinha norte-americano e o Machado de Assis francês teriam não apenas o reconhecimento que nunca tiveram mais seriam muito mais conhecidos no mundo inteiro – inclusive no Brasil.

- Publicado também no blog Paralelos (www.oglobo.com.br/blogs/paralelos).

LEDA



“Leda” – Roberto Pompeu de Toledo – Editora Objetiva – 184 páginas – R$ 27,90

André Luis Mansur



A obsessão do professor de literatura Adolfo Lemoleme é escrever a biografia do escritor Bernardo Dopolobo, autor de obra extensa e original, aclamado pela crítica e querido pelo público. Mas o que a princípio parecia ser apenas o resultado da admiração do leitor pelo seu autor preferido toma outros rumos e entra pela estrada da obsessão, pontuada por atalhos nada éticos e louváveis.

“Tão importante quanto a obra, para conhecimento pleno de um artista, é entender-lhe a vida”. Esta é a grande questão do primeiro romance do jornalista Roberto Pompeu de Toledo, articulista da revista “Veja” e que teve a idéia desta trama após ler uma reportagem em que um biógrafo dizia, após tanto trabalho de pesquisa, que conhecia o biografado (um autor inglês) mais do que o próprio.

O personagem de Roberto, Adolfo Lemoleme, leva a sério sua missão durante sete anos e resolve não apenas estudar a vida do biografado, mas também percorrer seus mesmos caminhos para tornar o trabalho cada vez mais próximo da realidade. Chega a ir ao Afeganistão, cenário de um dos livros de Dopolobo, e tenta recriar uma batalha testemunhada pelo escritor, mas a partir do ponto em que suas personalidades começam a se confundir é que o biografado, até então levando tudo num tom bem-humorado, vai perceber que algo mais sério vem pela frente.

Nos momentos de dúvida, Lemoleme recorria às sessões de análise com o doutor Carlos Nochebuena, que só existia na sua fantasia e funcionava como uma segunda voz, a interpelá-lo e muitas vezes lhe dirigir severas críticas. Da mesma forma seu orientador, o professor Spielverderber, que também só existe na imaginação de Lemoleme, promove com ele discussões muito interessantes sobre o valor da biografia como forma de se entender os pensamentos e sensações do biografado. “Escrever uma biografia equivale a cultivar uma horta no deserto. Não há como duplicar um ser humano. Toda biografia é uma fraude”.

Quando a biografia é, enfim, lançada, todo esse processo de mistura de personalidades atinge o auge. Os papéis se invertem e o biografado começa a estudar a vida do biógrafo, mas seria tirar muito do prazer da leitura antecipar o que acontece. Digo apenas que a ironia passa a ditar a história a partir daí, numa narrativa bastante crativa e original, mas que indica um possível conflito à medida em que o biógrafo começa a receber louros maiores do que o biografado, incorporando para si fatos que pertencem à vida de Bernardo Dopolobo, entre eles o de namorar sua ex-mulher.

A vida de Adolfo Lemoleme acaba se tornando tão interessante quando à de Bernardo Dopolobo, mostrando que mesmo a trajetória das pessoas mais comuns têm o seu valor literário, dependendo de quem a conta e da forma como ela é narrada. O seu interesse em estudar os grandes mestres é uma verdadeira lição de esforço e humildade. Lemoleme, que era carteiro, retardava a entrega dos livros encomendados pelo intelectual local, um farmacêutico, para poder entrar “num universo que o arrebatou de modo intenso e definitivo”. Foi assim que ele descobriu os livros de Bernardo Dopolobo e se envolveu definitivamente na obra e depois na vida do autor.

Outro detalhe interessante na vida de Adolfo Lemoleme é a sua fase como dublador de filmes indianos, quando a sincronia dos lábios dos atores com os do dublador não era lá um detalhe muito importante para o distribuidor. “Às vezes o ator já fechara a boca e a voz ainda soava, deixando sensação igual à de um automóvel que avançasse sozinho, e só depois seguissem as rodas”. Isso sem contar os erros de tradução, como no caso de um personagem que se dizia o próprio sogro. Após a reclamação de Lemoleme, sempre cioso de seu ofício, o distribuidor coça a cabeça, olha o relógio e diz: “Vai assim mesmo”.

São detalhes como estes, singelos e bem-humorados, que dão a leveza deste livro, que trata de um tema porém bem mais denso: a liberdade que uma pessoa tem de entrar na vida de um ídolo e até que ponto a história de uma vida realmente contém a essência da pessoa “investigada”. E é através de Leda, tão querida do público, “a mais pura personagem da galeria de Bernardo Dopolobo”, que este dilema terá seu símbolo máximo e um trágico desenlace.

9.28.2007

O VULCÃO DE NOVA IGUAÇU



Ele não tem bondinhos nem abriga princesinhas do mar, mas o vulcão que fica na Serra de Madureira, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, talvez seja o cartão-postal mais inusitado de todo o Rio de Janeiro. Pelo menos é o que atestam seus muitos visitantes desde que a descoberta do único vulcão de cratera do Brasil foi divulgada, em 1979, pelos geólogos André Calixto Vieira e Victor Klein.

Da descoberta em diante estudantes, pesquisadores ou curiosos não pensaram duas vezes antes de subir mais de 400 metros de serra, entre pedras escorregadias e mato cerrado em busca de aventura. Mas vale o esforço. A vista da borda do vulcão, que tem 30 milhões de anos, é exuberante. Digna de ser registrada. Apesar da vegetação e de alguns bois e cavalos pastando, o contorno mantém as rochas vulcânicas ainda com sua estrutura intacta, um precioso campo de observação para pesquisadores.

As erupções do vulcão, ocorridas há 30 milhões de anos, podem ser comparadas com as do vulcão Santa Helena, que em 1979 provocou destruição nos Estados Unidos. Os fragmentos vulcânicos se espalham num diâmetro de 1.500 metros, desde a cratera até a parte externa. Há fragmentos ainda da época dos dinossauros. O material, chamado ígneo intrusivo, não teve força suficiente para romper a crosta terrestre e ficou consolidado no solo. Seus vestígios são os que se encontram mais afastados da cratera e podem ser percebidos no início da caminhada.

Segundo André Calixto, a erosão fez com que a crosta terrestre fosse desaparecendo, o que permitiu a esse material já consolidado chegar à superfície. Quando veio a primeira erupção, todo ele foi para os ares e deu lugar a uma nova série de fragmentos. Há no local farta variedade de material vulcânico. Os mais curiosos são as bombas poligonais, que se encontram no aglomerado vulcânico, na parte mais próxima da cratera. Devido à forma peculiar, as bombas são a prova irrefutável de que houve no local duas erupções vulcânicas.

O vulcão da Serra de Madureira fica a menos de uma hora do centro do Rio e hoje ele faz parte do Parque Municipal de Nova Iguaçu, incluindo uma cachoeira ´véu de noiva´, pista de asa-delta, rapel na Pedra da Contenda (o ponto mais alto, com 443 metros) e o casarão-sede da antiga Fazenda Santa Eugênia, um prédio do século XVIII que hoje é o mais antigo de Nova Iguaçu. E, claro, a vista da Baía de Guanabara no topo, para quem tiver fôlego de chegar até lá.

9.27.2007

UMA MURALHA NO MEIO DO CAMINHO


Ressentimentos e incompreensões definem personagens de Menalton Braff

A muralha de Adriano, de Menalton Braff. Editora Bertrand Brasil, 368 páginas. R$ 49

André Luis Mansur


É bem provável que “As muralhas de Adriano” acabe parando em prateleiras de História Geral de muitas livrarias (as muralhas de Adriano foram construídas no século II pelo imperador romano Adriano para proteger a Inglaterra dos escoceses e são citadas num momento crucial do livro). O título realmente engana, mas, como o próprio autor diz, “é história em que as personagens envolvem-se em conflitos quase sempre originados por algum tipo de muralha”, seja ela individual ou social.

Vencedor do Jabuti em 2000 com o livro de contos “À sombra do Cipreste”, o gaúcho Menalton Braff concentra a trama de seu romance em torno de poderosa rede de supermercados Boacompra, dirigida pelo autoritário Tiago da Cunha Medeiros, “conhecido por suas imoralidades públicas e privadas”.

Braff constrói sua trama sem seguir ordem cronológica, dando aos personagens principais a chance de contar a história sob os seus próprios ângulos. É um mosaico de execução arriscada, mas o autor o faz tão bem que a narrativa acaba ganhando uma vitalidade que se mantém até o final, ainda mais que ele trata a língua portuguesa com profundo respeito: “Minha mãe, com olhos disfarçados em doçura, atravessou a cortina e adivinhou-me, sem dúvida portadora de mágoa me maior do que eu mesma”.

Tiago, Mateus, Lúcia, Anselmo e Verônica são os personagens principais de uma trama basicamente familiar, repleta de preconceitos, inveja, amor reprimido, ambição e saudade. O autor, como um artesão dedicado e detalhista, vai dosando os sentimentos entre eles, centralizando tudo na relação entre os irmãos Tiago e Mateus, um estudante de História que não quer assumir sua parte nos negócios da rede de supermercados e prefere ir estudar na Inglaterra.

Há necessidades constantes de acertos de contas entre os personagens, nem sempre realizáveis, o que gera frustrações irremediáveis. “Ninguém se revela inteiro e de uma só vez”. A falta de comunicação, a vontade de dizer e engolir as palavras, tudo vai se acumulando num ambiente de ressentimentos mal-disfarçados, o quase-silêncio constrangedor em que “só se ouviam os ruídos de maxilares em movimento e talheres tilintando contra porcelana”.

A ambição de Anselmo, “uma dessa pessoas é cuja existência é em permanente expansão”, torna-se a mola-mestra da história. Sujeito pobre, vai ganhar espaço de poder e riqueza, primeiro como líder estudantil na época do impeachment do Collor, depois como parlamentar e em seguida como alto funcionário do Boacompra. “Meus tios não eram ricos, mas nossa pobreza insultava a família, que muitas vezes tivera de socorrer a mim e mamãe”. O amor pela mãe e a compreensão de seu esforço em melhorar de vida são os atenuantes sentimentais, e talvez atenuantes, de uma vida completamente direcionada para a ambição.

O romance se articula principalmente no dilema entre buscar o sonho ou se adaptar à vida prática, personificados na rivalidade entre os irmãos. Tiago, o comerciante ríspido e autoritário, que detesta o irmão porque ele preferiu seguir o seu sonho de estudar História na Inglaterra e abrir mão de tudo, simboliza a vida competitiva, o estresse diário com as contas, os impostos e as preocupações e acaba se identificando muito mais com Anselmo, marido de sua filha Verônica e um “nobre deputado” que pode ajudá-lo nos meandros do poder.

A muralha de Adriano que dá título ao livro é um artigo de Mateus, o primeiro dele a ser publicado em jornal, e é um primor de avaliação da falta de liberdade e de um mundo que teoricamente quer romper as barreiras, as muralhas. “Globalização para quem? Estamos enredados em barreiras diáfanas, que sentimos sem ver (...)”. No meio disso tudo, o prazer, “um caminho em ziguezague”, da mesma forma que a narrativa deste livro, que no entanto parece atingir o seu objetivo como uma linha reta sem nenhum tipo de obstáculo.

- Publicado no caderno "Prosa & Verso", do jornal "O Globo", em 22 de setembro de 2007.

9.26.2007

ESQUISITICES PROVINCIANAS EM WESTZONE


Político-Populista-paternalista
Posa de modelito fashion

Bundas-secas caminham nas ciclovias
Vestindo a última moda em lingerie

Bichas-viadas querendo ser devoradas
Enlouquecem alcoolizados vira-latas

Animaizinhos silvestres saem das tocas
E ladram nas velhas-empoeiradas-sacadas das janelas

Discos voadores invadem os jardins e extraterrestres Encapuzados não são reconhecidos pelo bicho-homem

Estrangeiros mendigos hospedam-se nas esburacadas calçadas
Exalando a essência da vida saudável

Tartarugas excêntricas e oportunas
Transitam em campanha ao lado de hábeis parasitas

Em devaneios a insensatez de vaidosos
Transforma abaixo-assinado em documento de politicagem

Minhocões de aço cortam os vales petrificados
Lotados de heróicos semideuses que viajam para o além

Um corvo-santo enlouquecido faz liqüidação da Palavra
Dando de brinde um lugar no paraíso celeste

Vermes decompõem vasta extensão territorial das encostas
Emergindo na vista panorâmica um lago de sangue

Lama medicinal transforma-se em fossa-fecal
No lindo mar de poesia

Soberana vaca-leiteira faz promessas de bem estar
Em juras secretas a cabo eleitoral

“Canto este Poema a esta terra-santa
De atalhos retalhados e endêmicas pedras
Canto a desordem niilista do progresso
Canto a fantástica e infinita memória surreal
De minha febricitante terra natal”


PAULO D´ATHAYDE

9.25.2007

EXALTAÇÃO AOS SEBOS


Para mim, não há lugar onde o livro se sinta mais à vontade do que no sebo. Em bienais e livrarias de ponta, por exemplo, com todo o ambiente asséptico e o burburinho em volta, os livros me lembram aquelas pessoas que precisam usar a “roupa de domingo”, desconfortáveis e constrangidas. Já nos sebos não, nos sebos eles estão à vontade, de chinelo de dedo, bermuda frouxa e camiseta surrada. Mais felizes do que pinto no lixo.

Aqui no Rio de Janeiro, principalmente no centro da cidade, o número de sebos cresceu muito nos últimos anos. O principal atrativo para a maior procura, sem dúvida, é a grana. Com o preço dos livros novos sempre teimando em não cair, as pechinchas nos sebos se tornam irresistíveis, principalmente para os estudantes universitários. É possível, com um pouco de sorte, comprar livros de capa dura e em bom estado por um real (!) – um pouco mais do que um churros.

O bom sebo não pode ter muita luz, tem que ser um pouco na penumbra. Também não pode ser muito limpo, bastando um espanadorzinho de vez em quando, para não sufocar os alérgicos. Também não devem ser muito espaçosos, as pilhas de livros precisam formar corredores e esquinas estreitos, fazendo com que o leitor se sinta literalmente (ou literariamente) cercado por livros.

Um detalhe imprescindível: o dono do sebo jamais pode se aproximar do visitante e perguntar se ele “deseja alguma coisa, senhor?”, como fazem os vendedores de lojas. O visitante precisa ficar à vontade, folhear o que quiser e mesmo que saia sem comprar nada não deve ser incomodado. Afinal, o sebo também cumpre o seu papel de biblioteca comunitária.

As seções não devem ser muito organizadas, pois um dos principais atrativos do sebo é o elemento-surpresa, é encontrar aquilo que jamais se esperaria encontrar naquela prateleira. Eu mesmo achei a melhor biografia do Machado de Assis, da Lúcia Miguel Pereira, numa prateleira que nada tinha a ver com literatura brasileira. Com capa em bom estado e por seis reais.

Revistas antigas são também um atrativo à parte, assim como coleções que já saíram de catálogo. O grande risco quando começamos a folheá-las é perder a noção da hora, pois quando o fator memória ocupa o seu espaço no sebo acaba qualquer relação com a balbúrdia lá fora. Sim, o sebo também é uma máquina do tempo.

Para terminar, um conselho: prefiram sempre os sebos que tenham gatos de estimação. Eles são os melhores amigos dos “ratos de sebo” e geralmente estão em cima do livro que queremos.

- Publicado também no blog Paralelos (www.oglobo.com.br/blogs/paralelos)

9.24.2007

NOVO ROTH NÃO VAI ALÉM DA RANHETICE



Falta profundidade a “Homem comum”, narrativa marcada pelo desespero

Homem comum, de Philip Roth. Tradução de Paulo Henriques Britto. Editora Companhia das Letras, 131 pgs. R$ 31

André Luis Mansur

Um dos principais escritores americanos da atualidade, Philip Roth mergulha, em seu novo livro, num ambiente melancólico e depressivo, com idas e vidas entre passado e presente dentro de uma narrativa na qual a única ordem parece existir apenas na incapacidade de ser feliz do tal “homem comum” do título.

Depois de Zuckerman e Portnoy, Roth agora recorre a um alter-ego sem nome. Assim como o autor, seu protagonista não-nomeado nasceu em Newark, Nova Jersey, em 1933, e colocou cinco pontes de safena. O personagem é obcecado por doença e morte esde que foi operado de apendicite aguda na infância e viu um menino morrer ao seu lado. Materialista ferrenho, publicitário de sucesso e pintor nas horas vagas, ele teme a morte de forma tão obsessiva que acaba travando a narrativa com suas excessivas referências a ela. Durante o livro acabamos aprendendo os pormenores de stents, estenores, pontes de safena e angiogramas, todos presentes nas cirurgias cardíacas a que o personagem é submetido, que talvez tivessem mais interesse num livro de medicina.

Roth acerta a mão ao enfatizar a profundidade do amor entre alguns membros da família. No caso, o seu pai, o irmão (Howie) e a filha Nancy, estes últimos os dois verdadeiros amigos de toda a vida. Mas o autor, infelizmente, prefere não se aprofundar nesses momentos. Quando seu protagonista, por exemplo, resolve chamar a filha com seus gêmeos para morar com ele, já temos três tragédias na página seguinte: a mãe de Nancy tem um derrame; o ex-chefe morre de ataque cardíaco e dois amigos estão doentes, um de câncer e outro internado com depressão.

Nancy e Howie são personagens de potencial não explorado. A capacidade dos dois extrair da vida algo de bom, mesmo diante do sofrimento, contrasta com o pessimismo do “homem comum”. Os momentos em que Howie relata a infância dos dois irmãos na joalheria do pai são de um lirismo profundo, reflexões que provocam identificação e afinidade, duas palavrinhas que conquistam qualquer leitor. “Mas por que não lembrar? O que é que tem derramar mais um litro de lágrimas, entre familiares e amigos?”

Por outro lado, os dois filhos do primeiro casamento do “homem comum” eram tão unidos “quanto irremediavelmente rompidos com o pai”, um personagem que vai deixando pela vida amores perdidos, afetos incompletos e amizades esquecidas, entrando num isolamento que o faz sentir medo até daquilo que para os artistas é sinônimo de inspiração. “A abundância de estrelas lhe dizia de modo inequívoco que ele estava fadado a morrer”.

Roth cria assim uma narrativa na qual o único objetivo da vida, segundo uma reflexão de seu personagem, é “encontrar coisas para dizer que pudessem animar os desesperançados e fazê-los recuar da beira do abismo”. Nos momentos de desespero mais profundo, o personagem chega a invejar o irmão por nunca ter tido uma doença séria e estar sempre pronto a ajudar os outros a saírem de situações difíceis. As frases pessimistas estão por todos os lados, pontuando um livro de “auto-derrota”, se existisse tal segmento literário: “A velhice não é uma batalha; a velhice é um massacre”.

É claro que Philip Roth tem todo o direito de escrever um livro neste tom, com um personagem que só vê tristeza e sofrimento por todos os lugares. Grande obras-primas já foram escritas dentro da mesma temática, mas todas tinham uma profundidade emocional e às vezes um embasamento filosófico que davam uma qualidade essencial a essas obras. Não é o que acontece aqui. O “homem comum” contagia o livro de tal forma com sua falta de interesse pela vida que o enredo também se torna comum, um mero exercício de mau-humor e desespero de um sujeito que chega à velhice sem encontrar nada que tenha realmente valido a pena.

Publicado no caderno ´Prosa & Verso´, do jornal “O Globo”, em oito de setembro de 2007.

9.17.2007

INCÊNDIO NO SENADO


Um incêndio destruiu o prédio do Senado da Câmara nesta madrugada, provocando a morte de duas pessoas e a destruição de quase todos os documentos. Há suspeitas de que o incêndio tenha sido criminoso.

De dia, são os restaurantes. À noite, os bares e boates. O movimento intenso da Travessa do Comércio, que às sextas-feiras se torna quase intransitável, parece alheio à trágica história que envolve o local onde funcionou o Senado da Câmara.

Apesar do nome oficial, as pessoas se referem à travessa como o Arco do Teles, extendendo ao pequeno trecho de paralelepípedos o nome do Arco que fica num dos extremos da travessa, em frente à Praça XV. Lá dentro, há sempre movimento de turistas, principalmente europeus, entusiasmados com o casario em estilo colonial e bem preservado. Num deles morou Carmem Miranda, conforme atesta uma placa na entrada do sobrado.

A Câmara foi instalada no local em 1750, quando passou a existir o Tribunal da Relação do Rio de Janeiro. Sete anos depois, a Câmara havia recebido o título de Senado da Câmara, concedido por Provisão Régia. Numa das casas morava o Juiz de Órfãos Francisco Teles de Meneses, de tradicional família carioca e que emprestou o sobrenome ao Arco.

Na época era vice-rei o Conde de Resende e a praça XV ainda se chamava Largo do Carmo. Do outro lado, estava a Casa dos Governadores (depois Palácio dos Vice-Reis, Paço Real e Paço Imperial). O Arco, que manteve o traçado arquitetônico do período colonial, foi construído segundo projeto do brigadeiro João Fernandes Pinto Alpoim, o mesmo que projetou os Arcos da Lapa e o Paço Imperial.

O incêndio referido no início do texto, com a linguagem do jornalismo atual, começou às duas da madrugada de 20 de julho de 1790 num sobrado da rua da Praia do Peixe (atual rua do Mercado) e atingiu quase todas as casas. O arco não foi atingido, mas quase todo o acervo foi destruído. Só foram salvos 48 livros de assentamentos, a imagem de São Sebastião e o estandarte da cidade. Morreram um homem e uma criança, que dormiam no local.

Acredita-se que o incêndio tenha sido criminoso porque o material destruído era formado basicamente por documentos a processos de ocupação da terra na cidade. As principais suspeitas recaíram sobre pessoas que teriam problemas em relação à posse de terras, pois assim acabaram eliminado a fonte de seus problemas.

Nunca conseguiram descobrir se o incêndio foi ou não criminoso e a única lembrança da tragédia reside numa placa bem ao lado do Arco, em meio ao intenso movimento diurno e movimento de um dos principais ´points´ do centro da cidade.

9.06.2007

OS MISTÉRIOS DE CANDIANI


Musa de Machado de Assis, a atriz e cantora lírica Augusta Candiani causou furor na vida da Corte do Rio de Janeiro imperial. Mas um mistério permanece sobre o final da vida de Candiani, que chegou ao Rio em 1843, aos 23 anos, como prima dona da Companhia Italiana de Ópera.

Nascida em Milão, em 1820, Carlotta Augusta Candiani estreou na capital do Império brasileiro em 17 de janeiro de 1844, no principal palco da Corte, o Teatro São Pedro de Alcântara (localizado no então Largo do Rocio, hoje Praça Tiradentes, exatamente onde fica o João Caetano). No programa, a primeira montagem no Brasil da ópera “Norma”, de Vicenzo Bellini.

A partir do sucesso estrondoso desta primeira apresentação, Candiani, que veio acompanhada do marido italiano, vai se identificar com a capital e o povo carioca de tal forma que nunca vai sair em definitivo da cidade, incentivando os músicos brasileiros a iniciarem o movimento da Ópera Nacional e rompendo barreiras entre o erudito e o popular ao cantar modinhas, gênero tipicamente brasileiro e mal visto pela elite da época.

Candiani não se tornou musa apenas de Machado de Assis, que a reverenciou em algumas passagens de sua obra, mas também de escritores como Joaquim Manoel de Macedo Martins Penna e do próprio D. Pedro II. O imperador, aliás, e sua esposa D. Teresa Cristina seriam padrinhos de sua filha, em 1844. Dois anos depois, ela se separou do marido e passou a viver com o compositor de modinhas José de Almeida Cabral. Nem é preciso dizer que foi um escândalo para a época. Com o divórcio, Candiani perdeu todos os bens e a guarda da filha.

Ela passa então a viajar por todo o Brasil pela Companhia Dramática Cabral, sempre misturando o erudito com o popular. Chega a morar no Rio Grande do Sul, onde atua no desenvolvimento do teatro e da ópera na província, e volta ao seu amado Rio de Janeiro em 1877. Continua a atuar até 1880, quando se retira para o bairro de Santa Cruz, na atual zona oeste carioca e na época zona rural da Corte. Morre aos 69 anos, em 28 de fevereiro de 1890, logo após o fim do Império.

Não se sabe até hoje em que casa Candiani teria morado em Santa Cruz. O que se sabe é que foi na atual rua Senador Camará. Alguns elegantes sobrados da época ainda existem no bairro e o boato é que D. Pedro II teria doado uma casa para ela em Santa Cruz. Após a morte do marido ela teria vivido com, ou próxima de, Bartholomeu Guimarães, um ator cômico português que também morreu em Santa Cruz um ano depois de Candiani. O grande desafio para os historiadores da vida da cantora é saber o que ela fez em Santa Cruz durante os dez últimos anos de vida e onde teria morado.

Mais informações no excelente blog http://http://agrinalda.blogspot.com/, da pesquisadora Andréa Carvalho, que está concluindo um livro sobre Candiani.

8.27.2007

INGAIO PAPAGAIO (POEMA DO CONTROLADOR DE VÔO)


Que lugar é esse
onde exclui-se o mundo
onde esfria a vida
e o sabor de encontrar-se
contém-se em papilas
de medo repartido?

Que lugar é esse
escuro e frio
onde brilham feixes
de elétrons concentrados
em LUAS CHEIAS de perigo iminente?

Que lugar é esse
que me impõe essa existência
cheia de dor e esperança?

Que lugar!

Templo de tecnológica penunbra
Obrigação escalada de seres aborrecidos
Farol permanente de alados monstrengos de aço

Que lugar!

Onde me desfaço e
me descabelo
me despeço cada vez que entro
e me liberto cada vez que saio.

Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro - 21/4/81 - Sala de radares, Controle de Tráfego Aéreo

Silvio Alves (jornalista e controlador de Tráfefo Aéreo reformado)