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9.21.2009

OS ÓRFÃOS DE BIBLIOTECA



Sempre eleito, e com justiça, o melhor do Rio de Janeiro, o Centro Cultural Banco do Brasil, também conhecido como CCBB, completa 20 anos de atividades ininterruptas agora em outubro. Confesso que o frequento desde o primeiro mês e os motivos são estes: conforto, segurança, programação e preço (quando há). O prédio da rua 1º de Março, 66, no centro da cidade, foi construído no início do século XX e abriga salas de exposição, de vídeo, cinema, teatro, livraria, restaurante e uma biblioteca, tema deste texto. A programação, renovada mensalmente, é de ótima qualidade, as exposições e a sala de vídeo são gratuitas, o ingresso do cinema custa seis reais e o do teatro dez. Além disso, há sempre eventos importantes, como o Anima Mundi, e todos os dias são realizadas visitas escolares com auxílio de monitores atenciosos e bem-informados sobre os eventos.

A biblioteca do CCBB é uma jóia rara (jóia com acento mesmo, pois jóia sem acento para mim parece falsificada). Ninguém te perturba quando você entra, não pedem documentos, não tem crachá, você mesmo manuseia os livros, aliás, uma infinidade deles e dos mais variados assuntos, sem contar as dezenas de revistas, semanais, mensais, bimestrais etc. A sala de leitura é ampla e confortável, com vista para a Baía de Guanabara, (que de longe, sem o odor característico, é belíssima) as poltronas são confortáveis e as mesas grandes, tanto que muita gente vai só para tirar um cochilo, às vezes em cima de um livro mais volumoso como travesseiro. O silêncio é total, os banheiros são limpíssimos e os funcionários educados e, assim como os monitores, atenciosos.

Pois não é que há duas semanas, ao adentrar o elevador que é uma verdadeira obra de arte e pedir à ascensorista “quinto andar, por favor”, como faço há 20 anos, ela me diz, de forma calma e pausada: “A biblioteca está fechada para obras”. Alguns segundo depois, digeri, ainda meio atônito, a informação e percebi o que ela me dizia: faltando um mês para o aniversário de 20 anos do CCBB, a biblioteca, um lugar visitado por milhares de pessoas todo mês, fecharia para obras. Depois do baque, tive que arrumar outro lugar para botar a mochila e dei umas voltas pela Praça XV, num sol ameno de inverno, até chegar às barcas. Fiquei olhando a Baía, desta vez mais de perto e, de tão atordoado que estava, nem percebi o odor característico. Foi aí que entendi o que era um órfão de biblioteca.

Para quem é apaixonado por livros, a biblioteca é como se fosse um santuário, um espaço místico onde você vai compartilhar o seu gosto com pessoas afins. Quem é muito religioso precisa ir ao templo, estar com os que comungam da mesma fé, até para a direcionarem melhor e também para resolverem problemas práticos do grupo. Entre os leitores é a mesma coisa. Ler em casa sozinho é muito bom, não resta dúvida, mas ir a uma biblioteca gera uma sensação de irmandade, pois muitas vezes você está em casa mas os vizinhos começam uma discussão, os carros lá fora passam roncando o motor (isso quando não é o da pamonha), alguém liga uma televisão ou o rádio, enfim, os ruídos em volta não comungam do seu prazer, do seu gosto.

Na biblioteca não. Mesmo que alguns cochilem e ronquem um pouco, mesmo que um celular toque de vez em quando, que alguns leiam apenas por prazer e outros por obrigação, todos ali obecedem à mesma fé, digamos assim. E a companhia dos livros, milhares deles, de autores que já se foram desta vida, mas que permanecem ali, como uma vingança da arte contra a morte (queria lembrar de quem é esta frase), nos dão uma sensação de segurança e tranquilidade que outro lugar não oferece.

A biblioteca é o espaço democrático por excelência, ninguém te discrimina ou te impede de entrar por não estar com ´a roupa ou o penteado´ inadequado. Até quem não tem onde morar pode chegar lá, compartilhar do ar-condicionado, beber uma água gelada e se manter informado pelas revistas. Quando estou numa biblioteca e percebo o fascínio que a leitura é capaz de provocar é que tenho a certeza absoluta de que o Brasil só dará um salto na educação quando os estudantes adquirirem o vício da leitura, o único vício saudável que conheço, e cada lugar tiver uma minibiblioteca, que seja de 20 livros, mas disponível a qualquer um, que seja numa loja de ferragens, mas que o sujeito acabe instigado a ler alguma coisa enquanto o mecânico faz o alinhamento do carro.

Já que falei tanto em fé, felizmente acredito que as orações dos órfãos do CCBB foram ouvidas e a direção do Centro Cultural resolveu, quando já havia, inclusive, terminado este texto, adiar o fechamento da biblioteca para 2010. Uma notícia e tanto, principalmente para quem estava com pesquisas em andamento, mas sem dúvida uma decisão das mais corretas para o próprio CCBB, que hoje também existe em São Paulo e em Brasília e não deveria comemorar seu aniversário com um de seus espaços mais privilegiados fechado.

16 comentários:

ZEROCAL disse...

Mansurca:

Pelo menos a boa notícia tá aí: voltaram atrás no fechamento. Seria extremamente inoportuno cerrar a biblioteca às vésperas do aniversário.

Espero que as obras obedeçam o cronograma (será?) e ela reabra o mais rapidamente possível!

abs, Zerocal.

André Luis Mansur disse...

Fala, rapaz.

Foi uma decisão, no mínimo, precipitada, pois um monte de gente está fazendo trabalhos de pesquisa lá e de repente dá com a cara na porta. Agora não, pelo menos deram um prazo e os frequentadores podem se organizar.

Só tenho medo de que a obra piore a biblioteca, pois não consigo ver nada que justifique uma intervenção. Sabe aquela coisa do ´time que está ganhando não se mexe´?

Abraços.

Aline Targino disse...

Olá Mansur,
como vai?
Faz tanto tempo que não vou ao CCBB que nem sabia da obra...
Mas realmente lá é um lugar maravilhoso. Dá uma ótima sensação de prazer e bem-estar... Ah, que saudades...

Como sempre um ótimo texto!

Bjs

Aline Canejo disse...

Ok, Mansur, também adoro o CCBB, mas quanto é que o Banco do Brasil está pagando a você para elogiar a biblioteca? Está de conluio com a assessoria de imprensa de lá? rsrsrs
Beijos e vamos marcar essa cerveja aí!(Quase que eu pego você outro dia. Estive Fernando no show do Brasov e ele me disse que havia encontrado você no mesmo dia.)

André Luis Mansur disse...

Obrigado, Aline (Targino). Realmente o CCBB é um refúgio para mim no centro, daqui a pouco estou indo para lá. Aliás, boa parte da pesquisa do Velho Oeste Carioca fiz lá.

Beijos.

Aline (Canejo), o CCBB me paga apenas o bem-estar proporcionado pelas suas instalações. (nossa, acho que essa vai embrulhar o seu estômago, hein - rs)

Calma, vai sair o chope, é questão de tempo...o problema é que você e o Fernando são notívagos e eu matutino.

Beijos.

Claudia disse...

Oi Mansur.
Na baixada temos poucas bibliotecas, o jeito é compartilhar livros com amigos. Como você falou em fé, acho que a sua colaborou um pouco na decisão do CCBB em adiar a reforma rs.Belo texto.
Um abraço,Claudia

André Luis Mansur disse...

Oi, Cláudia, obrigado. Acho que a solução mesmo é criar pequenas bibiotecas em vários lugares. Aqui em Campo Grande, um amigo, o Adriano, montou uma com doações no seu bar, o ´Zero grau´, e a disponibiliza para os frequentadores, sem cadastro nem nada. Está dando certo, tanto que rolou até matéria no Extra. Por que não experimentar aí?

Beijos.

Felipe Vasconcelos disse...

Quanta benevolência né... adiar as obras para o ano eleitoral, ops! ano que vem, rs. De fato concordo que a a biblioteca do CCBB não tem a menor necessidade de obras, está na medida... mas pelo visto esses caras, quando despertados no interesse, reformam até a Lua, criando um varandão com vista panorâmica para o Sol.
Excelte texto André! Bem visual a parte em que você se descreve na Praça XV de mochila se dando conta de que virou órfão de biblioteca. Mas não se esquente, existe a biblioteca do Zero Grau, acho que lá os caras nunca vão querer mexer, nem em ano eleitoral. rs
Abração!

Anônimo disse...

Marcello disse...

Vida longa às bibliotecas! Mas sem a minha presença. Não gosto mesmo daquele silêncio ensurdecedor, com todas aquelas pessoas semiparalisadas. Tenho sempre a sensação de que algum maluco vai começar a gritar ou, pior, sacar uma metralhadora e disparar a esmo. Credo em Cruz, Vige Maria!
Ia muito à Biblioteca Nacional e, sinceramente, a sensação é de opressão.
Para mim, lugar de ler é em casa, deitadinho. De preferência, na madrugada.
O CCBB é legal, mas vou pouco. A última vez foi traumática - apesar da excelente companhia.
Sei do valor das bibliotecas - mas não quero nenhuma para chamar de minha.
Apesar da "sorte", vou continuar secando o time do colonizador português. Sábado é clássico regional e tudo pode acontecer!
Abraços.
MARCELLO BRUM

André Luis Mansur disse...

Caro Marcello, entendo sua aversão às bibliotecas. Realmente aquele silêncio todo pode ser perturbador. A Biblioteca Nacional realmente tem um lado meio opressivo, nunca gostei de lá, mas a do CCBB é outro papo, me sinto realmente à vontade e gosto muito de ler e escrever lá. É como se fosse um escritório e realmente nunca me passou pela cabeça essa história de que alguém pode levantar e dar um grito ou pegar uma metralhadora. Acho que você anda vendo muitos filmes com o Wesley Snipes.

Continue, continue torcendo. Até quero que o Duque de Caxias continue na segundona, mas só depois de sábado.

Abraços.

André Luis Mansur disse...

Fala, Felipe.

Rapaz, nem havia pensado nessa história do ano eleitoral. Pessoa com formação política é outra coisa, vê logo outras possibilidades. Boa essa referência à lua, uma época andaram vendendo terrenos lá, de repente tem a ver.

A do Zero Grau realmente é outra biblioteca onde me sinto à vontade, com uma vantagem: dá para ler bebendo uma cerveja estupidamente gelada.

Abraços e até lá.

Beatriz Gammaro disse...

Engraçado... eu, no auge dos meus 26 aninhos pensava a mesma coisa de guimarães rosa e saramago, até que li o conto da ilha desconhecida do saramago (lindíssimo) e um tal conto do guimaraes chamado "ninhinha" do livro primeiras estórias.

Talvez vc devesse tentar os contos, são histórias curtas mas por serem de escritores tão intensos acabam valendo por um romance inteiro, além de caberem como uma luva na neurose do pouco tempo, da qual tb sofro... bjs, Bia

Elisa Gaivota disse...

Que ótimo! Não sabia que haviam adiado o fechamento... Quando você falou na sensação de irmandade me identifiquei plenamente. Lembrei-me de umas férias muito gostosa em que eu passei todos os dias da semana, de 8h até às 17h na biblioteca para ler Kafka. Li o Processo, Carta ao Pai, Artista da Fome e Metamorfose todos em sequência e na mesma biblioteca de um CIEP que ficava próximo a minha casa. Foi a rotina mais gostosa que já estabeleci para mim. Acordava, tomava café, pegava minha biscicleta e partia para a biblioteca, muito pouco frequentada (infelizmente); depois voltava para casa para almoçar e nem esperava a digestão, pegava meu trasnporte e voltava lá, até a biblioteca fechar. Às vezes, acontecia um cochilo sim, e passava da realidade ao sonho sem perceber, afinal tanto Kafka quanto aquele espaço, nos remetia a mais deliciosa esfera surreal.

Um grande beijo; seu texto é tão bom quanto o seu tema...

Felipe Vasconcelos disse...

Além da cerveja gelada, não tem o tal silêncio sepulcral, que digam os vinis.
abraço!

André Luis Mansur disse...

É verdade, não tem mesmo. Mas é um som que não atrapalha a leitura nem o papo, e ainda tem o charme do vinil.

Abraços.

André Luis Mansur disse...

Querida Elisa, lembro bem de quando você falava dessas idas à biblioteca do Ciep e isso me remeteu às minhas visitas à biblioteca da adm. regional de Campo Grande, nos idos de 1994, recém-formado, mandando currículos para os jornais e aguardando trabalho. Sem dinheiro, recorria à leitura naquela biblioteca, num lugar arborizado, com um lago em frente e muito traquilo, frequentado apenas por estudantes que faziam algum tipo de trabalho. Também era a mesma rotina: ia de manhã, almoçava e voltava. Acabei lendo muita coisa interessante por lá, mas depois que comecei a trabalhar nunca mais voltei. Lembro de ter lido vários livros de crônicas de Drummond, que muito me ajudaram a continuar sonhando em ser um escritor.

E ainda por cima você ia de bicicleta por aquele caminho lindo. Bela recordação compartilhada da irmandade.

Beijos e obrigado!