Follow by Email

10.05.2009

A CARROÇA DO SEU DAMÁZIO


Toda família tem alguém assim, mesmo que escondido

Além dos bondes, o outro meio de transporte importante da zona rural carioca até a maior parte do século XX era o veículo de tração animal, mais conhecido como carroça. E para quem acha rigorosas as normas dos departamentos de trânsito impostas aos motoristas hoje, é interessante estudar o caso de Florêncio Antônio Damázio, examinado e aprovado em 26 de junho de 1927 pela Inspectoria de Vehiculos do Rio de Janeiro, antiga capital federal, a “dirigir carroça de Fiador a dois muares”.

Aos 53 anos, residente à antiga Estrada Real de Santa Cruz, nº 2735, na altura do atual bairro de Augusto Vasconcelos, Florêncio precisava seguir uma rígida cartilha denominada “Obrigações dos conductores de vehiculos”. Eram 14 as obrigações, algumas delas divididas em itens, como a XI, que recomendava, entre outras coisas (respeitada a grafia da época), “tratar com polidez os passageiros”; não fazer correrias na via pública, para angariar passageiros” e “não promover ajuntamento nem fazer assuada e vozeria nas ruas e praças”.

No item XI, também está a ordem de “dirigir os animais sem castigos bárbaros, ou immoderados” e no XIV “não dar fuga a criminosos de qualquer espécie no acto de serem perseguidos pela polícia ou pelo clamor público” - o tradicional “Ladrão, ladrão”, ainda muito ouvido em correrias desabaladas pelo centro da cidade. Como o Rio era a capital da República, não podia faltar a norma que mandava “parar o vehiculo para dar passagem ao carro do Presidente da República, em qualquer occasião”, além de várias sobre a passagem dos bondes, como a que manda “retirar o vehiculo de cima da linha dos bonds ao primeiro signal do motorneiro”.

Outro retrato bem claro da época é a norma que manda o condutor “não cortar os cortejos fúnebres, quer compostos de outros vehiculos, quer de pedestres, nem formaturas ou préstitos”, uma lei que só poderia existir mesmo numa época em que as pessoas ainda velavam os corpos em casa, com bebida, comida e música e depois o levavam de bonde, ou a pé, até o cemitério.

É interessante observar que o regulamento imposto aos condutores de carroça como Florêncio Damázio só era rigoroso porque o trânsito selvagem, apesar de muitos acharem o contrário, parece não ser uma invenção recente, mas apenas se aprimorou com a maior quantidade de carros, cada vez mais velozes. Se a coisa fosse tão tranqüila naquela época, não seria necessário uma regulamentação tão severa, afinal, a lei vem sempre a reboque do que está errado. Aliás, basta ver alguns filmes mudos de comédia dos anos 20 para ver o que era possível fazer com um bom calhambeque em termos de barbeiragem.

Embora todas estas normas aplicadas às "carroças de fiador a dois muares" tenham o seu lado pitoresco, principalmente quando comparadas aos dias de hoje, o que realmente mais me chama a atenção na história de Florêncio Damázio é a sua conduta irreprensível no trabalho, tanto que recebeu um elogio registrado na carteira “por não ter commetido infração alguma durante o anno de 1927”. Quando seu neto, Luiz Damázio, me mostrou os documentos, com um indisfarçável orgulho do avô, tive a certeza de que Florêncio faz parte daquela categoria de pessoas que todos nós temos na família, mesmo que seja uma só, meio esquecida, e morando longe. São figuras de honestidade inabalável e a chamada conduta reta diante da vida. No meu caso, guardo até hoje um recorte do jornal “O Globo” dos anos 50 em que meu pai, então motorista de táxi, virou notícia ao devolver na delegacia uma bolsa cheia de jóias valiosas de uma passageira que descera em Copacabana.

Geralmente pessoas assim acabam se tornando uma referência ética na família e na vizinhança, principalmente para quem passa pela (ufa, graças a Deus já vão longe) infância e adolescência: as questões éticas. “Devolve isso que não é teu”, “vai lá e pede desculpas”, “nunca aceita nada de ninguém na rua”, “pelo menos ninguém vai te acusar de nada” etc etc, frases que, soltas em momentos adequados, podem marcar uma personalidade - claro, se ouvidas e aplicadas, caso contrário, passam a fazer parte das famosas "palavras ao vento".

Afinal, até hoje, mais de 80 anos depois de Florêncio Damázio conduzir impecalvelmente sua carroça pelas ruas do Rio de Janeiro, quem é honesto ainda costuma virar notícia.

5 comentários:

Prof. Adinalzir disse...

A diferença é que naquele tempo haviam leis e fiscalização. Hoje existem leis e falta fiscalização. E para completar existem muito poucos "Seus Damázios", muitos corruptos e ladrões. É o que eu acho. Está muito bom o texto!

Abraços! :-)

André Luis Mansur disse...

E ainda tem gente que fala em ´progresso´. Mas vem a Olimpíada aí e tudo vai melhorar, todos serão honestos e o trânsito será uma maravilha, com carros parando na faixa, trens e metrô efiicentes, ônibus civilizados e carroças respeitadas.

Abraços, professor.

Marcos Melo disse...

Caro amigo, concordo com vc, a honestidade deveria ser uma coisa normal, natural, e no entanto virou virtude raríssima, tendo assim poucos adeptos, é muito mais fácil utilizar a lei de Gérson.

Abraços.

Anônimo disse...

"O ser humano já fracassou".
Há dois mil anos, o famoso nazareno Jesus, O Cristo, foi punido com a crucificação. Ele morreu na cruz central, no meio de dois rapazes que exerciam a atividade de...
Sem contar o Barrabás, que escapou por causa dos gritos da multidão. E nego dizer que desonestidade é coisa dos últimos vinte anos...

Hoje o Vasco não perde!!! :)
Abraços.
MARCELLO BRUM

André Luis Mansur disse...

Rapaz, que pessimismo é esse? Seu time está quase no G4, a doze pontos do líder Vasco, e você assim? Alto-astral!

Abraços.