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8.25.2008

CHOQUE DE CULTURAS


(Publicado no caderno "Prosa & Verso", do jornal "O Globo", em 23 de agosto de 2008)

Escritor viajante, Paul Theroux explora o tema sem cair na armadilha dos clichês

A suíte elefanta
, de Paul Theroux. Tradução de Fernanda Abreu. Editora Alfaguara, 308 pgs. R$ 44,90


O americano Paul Theroux é famoso por seus relatos de viagem e talvez por isso mesmo ele faça do “choque de culturas” o tema das três novelas deste livro, no caso entre americanos endinheirados e uma Índia “faminta, a Índia da luta, a Índia em conflito consigo mesma”.

Embora livros deste tipo costumem ser uma cilada de clichês e estereótipos, o autor consegue se sair muito bem. Afinal, Theroux não é um viajante de folhetos de agência, que passeia em grupos pelos principais pontos turísticos de um país sempre acompanhado de um solícito guia que evita qualquer contato direto com a cultura local, privilegiando, aí sim, os clichês e estereótipos de uma viagem convencional (Torre Eiffel, Big Bem, Cristo Redentor, Muralha da China etc). Ao contrário, ele faz de suas constantes viagens matéria-prima para o trabalho como escritor, indo ao encontro de lugares e personagens que serão fundamentais em seus livros.

Nesse caso, a Índia que surge nas três histórias é a Índia que não está nas páginas de economia dos jornais como um país emergente e uma futura potência, onde se ganha muito dinheiro e se realizam investimentos de todos os tipos. A Índia de Paul Theroux é a Índia da pobreza e da miséria, do trânsito confuso, dos pedintes e das prostitutas, da sujeira e do fedor, situada em torno dos hotéis de luxo onde se hospedam os americanos, verdadeiros casulos cercado de submissão e formalismo - a suíte elefanta do título.

Pois é quando saem destes casulos que os personagens do livro ganham força e acabam, no contato com a dureza das ruas e seus personagens que não desfrutam das benesses econômicas de um país emergente aos olhos de quem está de fora, encontrando respostas para seus próprios problemas íntimos.

Os massagistas da primeira história (“Colina dos macacos”), as prostitutas da segunda (“O Portal da Índia”) e o elefante da terceira (O Deus-Elefante”) auxiliam na busca dos personagens principais pelas suas próprias “porções individuais do mundo”, mostrando, de uma certa forma, que a viagem, mesmo que seja para o outro lado do mundo, pode realizar a transformação íntima que a pessoa talvez nunca conseguisse se não saísse do seu quintal, onde o contato freqüente com o outro trava, muitas vezes, qualquer possibilidade de distanciamento. “Gente falastrona tornava muito fácil para ele ser anônimo”.

Mesmo com essas considerações mais profundas, o autor não descuida do básico em histórias curtas: mantém o suspense sobre o destino dos personagens até os respectivos finais, sempre surpreendentes e carregados de tensão. A sensualidade e o erotismo, nem sempre velados, estão presentes nas três histórias como elementos que aceleram o esse mergulho íntimo, que em alguns casos, como no caso do executivo de “O Portal da Índia”, acaba dando uma guinada para a espiritualidade.

Há no livro uma crítica constante ao comportamento dos americanos, com seus “bonés de beisebol ao contrário”, ávidos pelo lucro que um país de um bilhão de pessoas e pouquíssimas garantias trabalhistas pode proporcionar. A personagem Alice, de “O deus elefante”, personifica esta crítica recheada de ironias, como quando ela ensina o inglês de telemarketing para trabalhadores indianos terceirizados de uma operadora de celular e se espanta com a mudança de comportamento provocada pelo sotaque metálico dos “call-centers”.

Alice é a “amiga feia da garota bonita”, que se afasta de sua amiga patricinha e interesseira e parte sozinha em busca do “algo a mais” que ela espera encontrar na Índia. Na multidão, ela entende melhor o prazer de se perceber completamente desconhecida, quando ninguém conhecia a sua história e nem sabia o seu nome. A libertação de “ser quem se quisesse ser”. O problema, como Alice e os demais personagens americanos do livro vão descobrir, é que a transformação que eles acreditam encontrar num país repleto de gente desconfiada em relação aos turistas nem sempre é prazerosa.

2 comentários:

aline canejo disse...

Além de ser autor também do interessante "O Grande Bazar Ferroviário", Theroux tem privilégio de ser traduzido por Fernanda Abreu - que, coincidentemente, foi minha chefe.

André Luis Mansur disse...

Ih, que coincidência. A tradução, realmente, é muito boa.

Beijos.