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5.04.2009

RETRATOS URBANOS


A matéria-prima da fotógrafa Elisa Gaivota é a mesma da Elisa escritora, que eu ainda irei divulgar neste espaço: a sensibilidade em perceber o sentimento e a expressão das pessoas. Como disse Evandro Teixeira: enquanto todo mundo focava o presidente para um monte de fotos iguais, eu focava o povo, na esperança do inusitado.

Algumas de suas fotos lembram os filmes do cinema novo, Gláuber e Nélson Pereira dos Santos principalmente, e não por acaso, afinal esses cineastas dirigiram suas lentes para o povo e sua intensa capacidade de expressão. Duas fotos com sorrisos, uma de uma mulher e outra de um homem, captam uma alegria intensa, que com certeza teriam uma intensidade muito menor se fossem tiradas um milésimo de segundo antes ou depois. O homem que olha para a estátua de Zumbi favorece uma múltipla leitura, de devoção, afinidade ou esperança. Ou as três juntas.

A primeira foto, do malabarismo na praça, não apenas tem o momento preciso do equilíbrio, mas também, e aí, o paradoxo, pois a foto teoricamente é uma imagem ´parada. É a mesma situação de um pintor que consegue criar movimento na tela parada. Ali gostei também da centralização do movimento, a rodinha em volta, tudo muito bem enquadrado.

A foto tirada na pista Cláudio Coutinho também me chamou a atenção pelo enquadramento, o pescador preso numa interseção que permite até uma leitura meio sensual, se formos perceber duas pernas na árvore que se debruça sobre o mar.

Escolhi apenas algumas fotos para falar, pois o principalmente aqui é dar uma opinião geral sobre o que achei da mostra, que, aliás, tem um ótimo título. Resumindo, o fotógrafo artista é aquele que não apenas registra os fatos, mas deixa uma ampla gama de possibilidades de livre interpretação, mas sempre baseadas na beleza, na percepção estética do belo, que muitas vezes surge até em meio à miséria, como nas fotos de Evandro Teixeira sobre o sertão e na foto que você faz dos meninos saindo da água poluída da Baía de Guanabara, na praça XV. Poderíamos imaginar aqueles garotos saindo da piscina de um centro esportivo, tal a alegria deles, o que gera, e aí a sua percepção do lado humano, a possibilidade de mudança da situação deles, do que ´poderia ser feito´, enfim, a foto como elemento transformador social. Engraçado que sempre vejo garotos nadando ali e imaginei que daria uma ótima foto.

A percepção do seu talento me permite dizer que você une a intuição do artista com o olhar rápido e atento do fotojornalista.

- A exposição "Retratos urbanos" estará no Centro Universitário Moacyr Sreder Bastos, no bairro de Campo Grande, entre 26 de maio e 7 de junho. E todo o trabalho da Elisa, inclusive as fotos que menciono neste texto, estão publicadas no blog dela (www.elisagaivota.blogspot.com).

6 comentários:

Bruna Mitrano disse...

É tão boa a sensação de ler um texto seu falando do trabalho da Elisa. Nem sei explicar.
Lindo isso! Ela merece!

André Luis Mansur disse...

Mais lindo é o seu comentário sobre o meu texto falando do trabalho da Elisa. Muito bom ler isso logo de manhã.

Beijos e saudades!

Edeilda disse...

Que texto lindo...bem diferente dos outros, ao ler tive a sensação de estar ao seu lado enquanto você caminha pela mostra...rs... As fotos realmente são maravilhosas, vi no blog da Elisa, lindo trabalho. Parabéns aos dois...rs...
Beijos

Elisa Gaivota disse...

É mais que uma honra ser homenagiada por você, meu amigo e grande escritor, alguém que admiro muito e que tenho grande felicidade em conviver. Muito obrigada pelo carinho, seu e de todos.

Gabriela Buarque disse...

Não conhecia seu blog. Fiquei feliz em conhecer e ainda com um texto sobre a Elisa, fotógrafa, letrista, artista e pessoa que tanto admiro! Adorei. bjos

André Luis Mansur disse...

Gabi, é um grande prazer tê-la aqui. Seja bem-vinda e obrigado pelos elogios. A Elisa merece toda a nossa admiração, mas não devemos exagerar, pois ela pode ficar metida. Precisamos ser moderados. Beijos e até a próxima festa (rs).