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3.12.2008

NAVEGAR FOI PRECISO


Nos 55 dias de viagem da corte entre Lisboa e Salvador, aconteceu te tudo: tempestade, calmaria e até uma infestação de piolho – que obrigou Carlota Joaquina a raspar a cabeça

Se atravessar o oceano num barco à vela até hoje exige uma senhora coragem, imagine 200 anos atrás. No início do século 19, cruzar o Atlântico era um desafio repleto de perigos. Principalmente levando-se em conta que as naus usadas na mudança da corte de Portugal para o Brasil, em 1807, eram verdadeiras “latas-velhas” – desconfortáveis para os passageiros, vulneráveis no caso de um combate e carentes de vários reparos.

Ainda naquele 29 de novembro, dia do embarque, a esquadra portuguesa – composta por 19 navios, entre naus, fragatas, brigues e corvetas e escunas – encontrou-se com a frota britânica que faria sua escolta até o Brasil – outras 13 embarcações. Essa deve ter sido uma cena monumental, de ficar gravada para o resto da vida na memória de quem a testemunhou: 32 barcos de guerra, mais uns 30 navios mercantes, todos se preparando para uma travessia oceânica. Às três horas da tarde, o comandante da Armada britânica, Sidney Smith, ordenou uma salva de 21 tiros de canhão. Estava marcado o início a penosa jornada da família real em direção à colônia.

CHIQUEIROS FLUTUANTES

Algo entre 10 mil e 15 mil portugueses – cerca de 5% de toda a população do país – estavam embarcados naqueles navios. Na maioria, era gente importante, muito afeiçoada aos luxos da nobreza. Mas as condições a bordo não eram nada agradáveis. A água era escassa, de má qualidade. E a comida não passava de carne salgada e biscoitos. Em pouco tempo, o mantimento já estava contaminado por vermes. Animais vivos também foram embarcados, para garantir um pouco de leite, ovos e alguma carne fresca que pudesse ser servida aos passageiros mais chiques. Portanto, dá para supor que as condições de higiene estavam longe do aceitável.

No Alfonso de Albuquerque, nau em que viajava Carlota Joaquina, houve uma infestação de piolhos. Todas as mulheres, incluindo a princesa, tiveram de raspar o cabelo e jogar suas perucas no mar. Ainda por cima, receberam uma aplicação de banha de porco na cabeça, para que o pó anti-séptico salpicado não se desprendesse. Ratos eram abundantes, o que só aumentava o risco de um surto ou uma epidemia. Por causa da alimentação precária, distúrbios intestinais tornaram-se comuns. Para os nobres portugueses em fuga, a situação não podia ser mais constrangedora.

Dom João e sua mãe, a rainha Maria I, estavam no navio Príncipe Real – acompanhados de Pedro e Miguel, os dois filhos homens do príncipe regente com Carlota. Quatro das seis filhas do casal viajavam com a mãe, no Alfonso de Albuquerque. E as outras duas filhas seguiam no Rainha de Portugal. Ainda havia uma tia e uma cunhada de dom João, embarcadas no Príncipe do Brasil. Foi assim distribuída que a família real encarou as agruras daquele autêntico confinamento em alto-mar.

NAVEGAÇÃO ARRISCADA


No dia 8 de dezembro, perto da ilha da Madeira, uma violenta tempestade fez estragos consideráveis. Na esquadra portuguesa, mastros foram quebrados e velas foram rasgadas. Um marinheiro inglês acabou lançado ao mar, mas conseguiu ser resgato. A péssima condição de visibilidade obrigou as embarcações a parar, sobretudo porque aquela era uma área de navegação extremamente arriscada, cheia de rochedos submersos.

Durante a tempestade, a frota dispersou-se e uma parte dela seguiu direto para o Rio de Janeiro. Alguns navios britânicos já tinham voltado para a Europa, a fim de reforçar o cerco à Lisboa, invadida por tropas de Napoleão. As demais embarcações, recuperadas da tormenta, prosseguiram na lenta travessia rumo ao Brasil.

Quando as esquadras alcançaram a linha do equador, novo imprevisto: uma calmaria tornou a frear o avanço das embarcações, submetendo passageiros e tripulações a dias seguidos de sol escaldante. Casos de insolação e desidratação multiplicaram-se. Até que a calmaria se foi, a viagem seguiu e 1807 chegou ao fim – uma triste passagem de ano para a corte portuguesa, mas provavelmente carregada de esperança.

CAJUS E PITANGAS

Depois de tanta carne seca e biscoito, imagine qual não foi a alegria de dom João e sua comitiva ao avistar, já bem perto da costa brasileira, um pequeno barco não-identificado. Era Três Corações, um bergatim enviado por Caetano Pinto de Miranda, então governador de Pernambuco, para dar as boas-vindas à Coroa portuguesa. Dentro dele, um carregamento de frutas tropicais, como caju e pitanga, e muitos recipientes com refresco. Aquele certamente foi um momento de glória – dom João e seus asseclas tirariam a barriga da miséria.

Àquela altura, o príncipe regente já havia determinado que o destino da frota seria a cidade de Salvador, e não o Rio de Janeiro. Em 22 de janeiro de 1808, 55 longos dias depois de zarpar de Lisboa, a comitiva real finalmente desembarcou na Bahia, para uma escala que duraria pouco mais de um mês (leia mais na pág. 18). Estavam todos cansados, debilitados. Mas o primeiro desafio daquela fuga já estava superado: o oceano Atlântico, agora, protegeria a corte portuguesa da fúria de Napoleão.

(Esta e mais quatro matérias foram feitas por mim para a edição especial da revista "Aventuras na História", da editora Abril, sobre a chegada da Família Real ao Brasil - nas bancas neste mês)

5 comentários:

Anônimo disse...

Mansur,
Utilizei sua descrição sobre as naus em uma de minhas aulas, acompanhada aos trechos do filme" 1492- A conquista do paraíso-( de Rydley Scott, com Gérard Depardieu)para melhor compreensão. Obrigada pelas informações. A respeito de seu trabalho de historiador nato um singelo comentário:
Se o único tempo existente fosse o presente, nós não teríamos identidade. O relógio não é o domínio...Precisamos preservar a memória..dar sentido é fazer HISTÓRIA. O referencial histórico nos faz enxergar uma esperança que transcede o momento e se abre para o futuro...Aline Rochedo

Anônimo disse...

pow eu goste muito
porque isso me ajudou em meu trabralho !!!

Anônimo disse...

pow vlw essa seu texto me ajudou na minha pesquisa

Anônimo disse...

Utilizei a sua descrição das naus como exemplo de barcos á vela portugueses numa pequena apresentação sobre energias renováveis,relembrando aos meninos que a energia eólica fez história!
Parabéns!

André Luis Mansur disse...

Muito obrigado!