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3.12.2008

UM SÍMBOLO COM PASSADO E FUTURO


(Publicado no caderno "Prosa & Verso", do jornal "O Globo", em oito de março de 2008)

Obra lembra as histórias e a importância do Jardim Botânico desde sua criação

O jardim de D. João,
de Rosa Nepomuceno. Editora Casa da Palavra, 176 páginas. R$ 58


Símbolo dos mais marcantes da presença do príncipe-regente D. João no Rio de Janeiro, há 200 anos, o Jardim Botânico permanece como uma das maiores atrações turísticas da cidade. E a autora deste livro, que o freqüenta desde a infância, conta sua história dando ênfase aos cientistas que passaram por lá e fizeram do espaço no coração da zona sul carioca um dos mais queridos da cidade.

D. João, uma espécie de “Nabucodonosor dos trópicos”, mandou adquirirem o terreno onde ficava o engenho de Rodrigo de Freitas, às margens pantanosas e infestadas de mosquitos da lagoa que mais tarde levaria o nome do antigo dono da fazenda, em decreto do dia 13 de junho de 1808. Ali seriam instalados o Real Horto e a Real Fábrica de Pólvora. Sem estradas ou trilhas decentes, aquela região era completamente inóspita para os cariocas, que se concentravam na área central da cidade. O próprio D. João, para conhecer o terreno, precisou pegar um barco e atravessar a lagoa, pois era o único caminho razoável.

Para mostrar como o Real Horto se desenvolveu, Rosa utiliza um termo que não existia na época: a biopirataria. Afinal, o roubo de mudas e sementes era mais do que comum e o horto foi criado por razões puramente econômicas, pois D. João, influenciado pelo ministro D. Rodrigo de Souza Coutinho, o Conde de Linhares, queria criar um jardim de aclimatação para as especiarias, tão preciosas na Europa e que eram buscadas na distante Índia. As especiarias, como o cravo, pimenta e a canela, eram fundamentais para a conservação dos alimentos numa época sem geladeiras ou isopores. Nas grandes navegações, elas eram fundamentais para que a carne, já de qualidade bastante duvidosa, não estragasse de vez.

Das primeiras plantas, chegadas em 1809 contrabandeadas pelo oficial Luís de Abreu e Paiva, até os dias atuais, quando o Jardim Botânico, ocupando área bem inferior à original e sofrendo a ação contínua dos “gafanhotos”, visitantes que insistem em degradar o local, espalhando lixo pelas aléias, roubando mudas e riscando troncos de árvores com nomes de casais, Rosa Nepomuceno cita diretores importantes, como Frei Leandro do Sacramento, Barbosa Rodrigues, Pacheco Leão e botânicos que se aventuraram pelo Brasil e o exterior em busca de mudas e sementes que enriqueceriam o arboreto do jardim, como Freire Allemão, Carl von Martius, Johann von Spix e Auguste Saint-Hilaire. Todos, fundamentais para que o jardim se desenvolvesse de forma harmônica e seguindo preceitos científicos e não apenas econômicos.

Histórias como a do cultivo do chá, feito por 300 chineses que não revelavam sua técnica para ninguém, e que depois seria transferido para a Fazenda de Santa Cruz; a visita de Albert Einstein em 1926, quando, segundo dizem, ele teria abraçado e beijado um pé de jequitibá-rosa, e o contrabando de sementes da Palmeira Imperial por escravos dão uma leveza ao texto e o equilibram com as informações mais técnicas, indispensáveis a um estudo deste porte.

Ao mesmo tempo em que conta a história do jardim, a autora o contextualiza com a evolução urbana da cidade, que em meados do século XIX começa a se acelerar, principalmente após a chegada dos bondes e diligências e a melhoria das vias de acesso, que trouxe mais gente àquela região ainda meio selvagem e, com isso, mais problemas. Para se ter uma idéia, basta citar o regulamento de 1838, que trazia recomendações ao público, como o de evitar tomar “bebidas espirituosas” e “dar tiros dentro do Jardim ou em sua vizinhança”.

O mais importante neste livro, que conta com uma descrição detalhada das principais árvores e três roteiros de visitação, é valorizar não apenas o aspecto estético e a importância turística do Jardim Botânico, mas principalmente o seu caráter de espaço de estudos científicos, reunindo profissionais do mais alto nível e contando, graças também ao forte apoio de empresas particulares, com equipamentos de última geração. Este trabalho invisível aos visitantes é que talvez dê ao antigo “jardim das especiarias” de D. João o suporte necessário para que ele passe dos 200 anos cada vez mais rejuvenescido.

2 comentários:

Anônimo disse...

Mansur,
Utilizei sua descrição sobre as naus em uma de minhas aulas, acompanhada aos trechos do filme" 1492- A conquista do paraíso-( de Rydley Scott, com Gérard Depardieu)para melhor compreensão. Obrigada pelas informações. A respeito de seu trabalho de historiador nato um singelo comentário:
Se o único tempo existente fosse o presente, nós não teríamos identidade. O relógio não é o domínio...Precisamos preservar a memória..dar sentido é fazer HISTÓRIA. O referencial histórico nos faz enxergar uma esperança que transcede o momento e se abre para o futuro...Aline Rochedo

André Luis Mansur disse...

Obrigado, Aline. Vou utilizar a parte final do seu comentário como justificativa para o meu livro ´O Velho Oeste Carioca´.

Beijos.