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1.02.2009

A GRANDE ILUSÃO DO ANO-NOVO


Talvez maior do que a do Papai Noel, a grande ilusão da infância nesta época do ano seja acreditar que tudo vai mudar no Ano-Novo.

Eu, pelo menos, quando criança, acreditava que o dia 1º de janeiro simbolizava a entrada numa espécie de “admirável mundo novo”. Tudo levava a isso. A esperança dos adultos (“que tudo se realize...no ano que vai nascer...”), o clima de euforia nas ruas, as propagandas e os especiais de fim de ano da televisão e, por fim, todo aquele ambiente efusivo de cumprimentos, choros, abraços emocionados (e muitas vezes suados), foguetórios, champanhe estourando e mesa farta, quase como se tivessem esvaziado tudo da despensa, já que no “novo mundo” não precisaríamos mais nos preocupar em armazenar provisões.

Ou seja, tudo em excesso, tudo no limite, quase um expurgo do passado para adentrar o ano-novo limpo de tudo o que ficou para trás.

E lá vinha o 1º de janeiro. No início, talvez movido ainda por toda aquela energia eufórica do réveillon, acrescida da barulheira de fogos e música alta, ainda me sentia numa espécie de torpor. Acordava cedo para ir às ruas, ansioso por ver, sentir, provar as mudanças anunciadas com tanto alarido. E realmente percebia algo novo no ar, os sorrisos pareciam mais amistosos, as ruas menos barulhentas, o céu mais azul. Com o passar do tempo, no entanto, a ilusão caía por terra. Quando me lembrava do início das aulas, quando meu time levava uma sova no Maracanã, quando tinha o primeiro tombo de bicicleta do ano, eu percebia que nada mudava.

Mas a infância é teimosa e sempre busca encontrar atalhos para suas justificativas. Pensava...ah!, neste ano não deu certo por algum motivo, mas no ano que vem realmente tudo vai mudar, até porque os mais velhos continuam esperançosos. E aí levava o ano inteiro alimentando essa expectativa da melhor forma possível, a passagem do tempo na folhinha do calendário se aproximando, a ansiedade crescendo. E no réveillon a mesma coisa, a mesma euforia, as mesmas falas e os mesmos pratos.

Acho que foi na quarta decepção que, enfim, parei de acreditar no Ano-Novo – Papai Noel eu já sabia que passeava de trenó numa loja de crediário há muito tempo. Mas até hoje acho legal o ritual dos encontros, mesmo achando que a passagem do dia 31 para o dia 1º é igual à dos outros dias do ano e que a esperança por dias melhores que eu, otimista incorrigível, ainda mantenho, continua em alta, mesmo que ela venha lá pelo meio do ano. Acredito na mudança contínua e perseverante, dentro mesmo de uma rotina, e que mudanças explosivas como fogos de artifício só funcionam para quem ganha na mega-sena. Não à toa, ela quase sempre fica acumulada nesta época.

Mas...voltando ao tema do "nada mudou" após a "torturante contagem regressiva" (obrigado, Bruna), querem algo mais déjà vu do que uma guerra entre israelenses e palestinos?

14 comentários:

Bruna Mitrano disse...

"O ano termina e nasce outra vez" (Simone)rsrs.
O ser humano é viciado em inícios, deve ser isso.
Existe tortura maior do que a contagem regressiva?aff.
Esse ano começou bem: passei os primeiros segundos no meio de uma multidão de desconhecidos. Pessoas eufóricas, todas de branco, ligeiramente alcoolizadas. Não vou esquecer de um senhor com um boné cheio de $$$ dourados (tomara que não dê certo, o cara parecia rico, odeio injustiças). Falando nelas, ô guerra (déja vu) mais equilibrada, hein.
Seu incrédulo, deveria acreditar na astrologia, ano ímpar é bom sinal..rs.
E feliz desaniversário pra você!

André Luis Mansur disse...

Achei que o texto estava muito pessimista e dei uma suavizada. Afinal, não sou um incrédulo, só não agüento (ah, continuo usando trema até segunda ordem) esses rituais artificiais que não levam a nada.

Seu início de ano foi dentro de uma situação bem ´déjà vu´ e o senhor do boné é o próprio estereótipo do que eu falei. Se não fosse o barulho dos fogos, dormiria cedo. Como a televisão lá em casa não ficou ligada, felizmente não acompanhei a torturante contagem regressiva.

Caramba, é a primeira vez que citam Simone no meu blog (rs).

Beijos e um ano-novo bem ´delirante´ pra você!

Karolynne Duarte disse...

Feliz Ano Novo!!! Bem acho que essa frase não vem com o mesmo sentido que a maioria das pessoas, certo rsrsrs.

Na verdade este ritual de passagem é apenas uma tradição e nada mágico acontece! Começar é fácil... concluir é o diícil! É o déja vu de fim e início de ano! Deixar para o ano que vem é tão fácil falar quando o ano que vem é o amanhã... e será que estamos sendo "pé no chão"?

Espero que as previsões tão esperadas ainda aconteçam neste ano!

Gostei da postagem, apesar da realidade!

Bom ano novo pra ti, André!

André Luis Mansur disse...

Para você também! De qualquer forma, não há como evitar aquele friozinho na barriga quando iniciamos um novo ciclo. Acho que uma reflexão é sempre válida no fim de ano, o que eu fiz de bom, de ruim, no que posso melhorar, está na hora de tirar aquele velho projeto da gaveta etc. Mas aí vem a rotina e a primeira segunda-feira chuvosa e muita gente desiste. Mas acho que vale a persistência.

Beijão!

Adinalzir Pereira disse...

Caro Mansur
Meus parabéns pelo texto. Ele retrata muito bem uma realidade que deveria ser percebida pela maioria das pessoas. Na minha opinião o ideal seria que o homem refletisse e sonhasse mais. Infelizmente isso não acontece, porque se vive muito de ilusões ( a capitalista principalmente). Mesmo assim, não poderia deixar de lhe desejar um 2009 cheio de sucesso!
Um grande abraço,
Adinalzir Pereira
http://saibahistoria.blogspot.com

André Luis Mansur disse...

Obrigado, professor. Pois é, o que eu mais sinto falta no fim do ano é de reflexão, pois há tanto barulho e tanta euforia que não sobra tempo nem espaço para uma leitura mais aprofundada do que foi o ano que acaba e do que pode vir a ser o que começa. Mas, de qualquer forma, Feliz Ano-Novo e espero que possamos manter sempre esse contato que se iniciou em 2008. Grande abraço.

Andrea Carvalho Stark disse...

oi andré
nao li o texto anterior, mas entendo bem o q vc diz, compartilho do mesmo sentimento... Na astrologia, o ano novo mesmo é qdo fazemos aniversario, ali se fecha um ano e se inicia outro. Confesso que eu tb vivo uma tortura, do natal ao ano novo, parece uma obrigação de ter que ficar eufórico, alegre, comprar roupa nova e aguentar filas enormes... um inferno. Há mto tempo nao compro nada novo no fim do ano... acho que estou bem resolvida assim, meio estrangeira... Tb tenho medo das multidões bebadas e o q gosto mesmo é dos cumprimentos de felicidade, acho isso uma energia boa, receber e enviar aos amigos felicitações. Um bjo deia

Anônimo disse...

Marcello disse...

Não gosto de réveillon. Até gosto de algumas festas, mas réveillon não dá! As pessoas falam dos desfiles de escola de samba, mas não consigo pensar em nada mais monótono e repetitivo do que festa de réveillon, principalmente a fatídica (às vezes, literalmente) queima de fogos em Copacabana. Tem coisa mais todo-ano-é-a-mesma-coisa? Deviam instalar telões com as imagens de anos passados, que seria a mesma coisa - e bem menos perigosa.

Fora isso, um Feliz 2009 a todos. Para mim, será triste por um ponto em especial: o Flamengo vai começar o Brasileirão com seis pontos a menos na sacola....

Abraços.
MARCELLO BRUM

André Luis Mansur disse...

É, Andréa, os cumprimentos são bem legais, excetos aqueles meio chatos de quem você nunca viu na vida e cheios de formalidade. Mas os desejos sinceros de um ano melhor valem a pena.

Também me sinto pressionado a comprar coisas, mas não compro nada, nem para mim, há muito tempo. E também é o período do ano em que eu menos bebo, só para não fazer parte das ´multidões bêbadas´.

Beijão!

André Luis Mansur disse...

Poxa, Marcello, comentei isso outro dia. Se passassem na TV a queima de fogos dos outros anos acho que ninguém notaria. Muito chato. Para quem está lá, com certeza é uma emoção diferente, mas pode ser fatídica mesmo, como você disse, vide aquele acidente com os fogos e as balas perdidas que todo ano fazem parte da cerimônia.

Vai brincando, Léo Lima e Carlos Alberto vêm aí, e seja o que Deus quiser!

Abraços.

Anônimo disse...

Acho que sempre fui uma criança incrédula, acho que desisti do "Ano Novo" em virtude do Papai Noel que nunca apareceu. Hoje... não tenho a sensação de um recomeço. Acho que só existe essa história de ano novo porque seria complicado nomear os meses do ano (Que horror rsrs "Xô Baixo Astral") Bjs, Cirlene

André Luis Mansur disse...

Gostei da explicação final. É verdade, precisamos desses rituais de início, meio e fim. Acho que comecei a desistir do ano-novo quando descobri que muitos povos comemoravam seus anos-novos em outra época. ´Como assim? Não é um evento mundial?´ E aí descobri o que era convenção.

Mas Papai Noel, sei lá, acho que ele precisa é de um guia rex, pois ele deve se perder muito no nosso bairro, que é bem grandinho.

Seu ´baixo astral´ é bem divertido.

Beijos.

Adinalzir (SaibaHistoria) disse...

Caro Mansur
Estou passando para deixar um selinho pra vc como reconhecimento pelo excelente trabalho que tens desenvolvido com o teu blog.
Vá até o link http://saibahistoria.blogspot.com/2009/01/olha-o-presente-que-ganhei.html e pegue seu prêmio.
Um grande abraço!

André Luis Mansur disse...

Obrigado, professor. Vou lá dar uma olhada. Abraços.